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Bolsonaro, o racista-chefe do lixo branco brasileiro
Jessé Souza

Ilustração original de Carybé para o romance Tereza Batista (1972), de Jorge Amado

A continuidade da escravidão com outros meios

Não se entende o Brasil sem compreender a função do racismo racial entre nós. Não existe preconceito mais importante entre nós já que ele tem o poder de definir e articular as relações entre todas as classes sociais no nosso país. É este preconceito que comanda a continuidade da escravidão com outros meios. Como esse mecanismo funciona na realidade cotidiana? Minha tese é a de que a escravidão, tanto no seu sentido econômico de exploração do trabalho alheio como no seu sentido moral e político de produção de distinções sociais, se manteve na prática inalterado desde a abolição da escravatura.

Fundamental para compreender este estado de coisas é a função que o ex-escravo abandonado e humilhado vai ter na sociedade pós-escravocrata. O ex-escravo é afastado do mercado de trabalho competitivo e passa a desempenhar as mesmas funções humilhantes e indignas que exercia antes. Seja tanto as funções de trabalho sujo, pesado e perigoso, para os homens, quanto as funções domésticas do antigo “escravo doméstico”, para as mulheres, as quais reproduzem todas as vicissitudes da antiga relação senhor/escravo. Faz parte do âmago desta relação não só a exploração do trabalho vendido a preço vil, mas também a humilhação cotidiana transformada em prazer sádico para o gozo cotidiano e para a sensação de superioridade e distinção social das classes média e alta.

Mas isso não é tudo nem sequer o principal. Os negros na base da pirâmide social brasileira sempre desempenharam uma função semelhante a casta dos intocáveis na Índia. Como nota Max Weber no seu estudo clássico sobre o Hinduísmo, os intocáveis possuem a função de legitimar toda a ordem social Hindu na medida em que todas as outras castas, mesmo as inferiores, são distinguidas positivamente em relação aos intocáveis.

Como a “distinção social”, ou seja, sensação de se saber superior a outros é tão importante na vida social quanto o dinheiro e a necessidade econômica, isso significa que uma classe social na qual todos podem pisar, humilhar, violar, agredir, e, no limite, assassinar sem temer consequências satisfaz, uma necessidade primitiva fundamental a todas as classes acima dela. É óbvio que uma sociedade deste tipo não é apenas desumana, desigual, primitiva e tosca, mas também, no limite, burra já que reproduzir exclusão social produz insegurança, pobreza e instabilidade social para todos. Mas este é o DNA da sociedade brasileira.

É importante notar que, paralelamente à condenação do negro à exclusão, o país passa a implementar a política abertamente racista da importação de imigrantes europeus brancos, na imensa maioria italianos, precisamente como no caso da família do excelentíssimo presidente Jair Bolsonaro. Uma parte considerável destes neobrasileiros ascende rapidamente, alguns inclusive à elite de proprietários e de novos industriais, mas boa parte irá constituir a classe média branca de grandes cidades como São Paulo. Nas outras grandes cidades brasileiras, como o Rio de Janeiro e Recife, os portugueses exerceriam o mesmo papel do italiano em São Paulo.

Do estigma racial à violência contra os pobres

O imigrante branco, na maioria o italiano ou o português, irá constituir no Brasil, ao mesmo tempo em aliança e a serviço da elite de proprietários, uma espécie de bolsão racista e classista contra os negros e pobres que constituem a maior parte do povo. Para a elite isso significa a oportunidade de criminalizar e estigmatizar a soberania popular no nascedouro com a cumplicidade das classes médias e garantir só para si o orçamento do Estado via juros escorchantes, dívida pública, sonegação de impostos e outros assaltos legalizados. Para as outras classes, o preconceito universal contra o negro e ex-escravo, permite a construção de uma frente comum para a manutenção de uma distinção social positiva contra os negros o que eterniza o abandono, a humilhação e o genocídio desta raça/classe como política pública informal.

Trapeiro em São Paulo
Imagem: Gérard Wormser

Mais interessante ainda para nossos propósitos aqui é a função do racismo contra o negro para os imigrantes que não lograram sucesso econômico na nova terra. Muitos imigrantes não conseguiram ascender à classe média verdadeira nem à elite. Boa parte vai constituir uma zona cinza que inclui a classe trabalhadora precária e o que poderíamos chamar de baixa classe média. O cotidiano de muitos destes não difere muito da vida do negro e do pobre brasileiro. Moram eventualmente no mesmo bairro e passam privações materiais. É precisamente nesta faixa social que o preconceito de raça é ainda mais importante. Afinal, a única distinção que este pessoal tem na vida é a brancura da cor da pele para exibir contra o negro.

Entrevistando pessoas desta classe social no interior de São Paulo, descendentes de italianos, como Bolsonaro e no lugar onde ele também nasceu, para meu livroa classe média no espelho (2018, Sextante), notei um racismo que não tem nada de cordial. Bolsonaro é filho da baixa classe média de imigrantes para os quais a carreira no exército ou na polícia era a promessa de ascensão segura ainda que limitada. Neste contexto, não se casar com um negro ou com uma negra é a regra familiar mais importante e mais rígida. Aqui, o preconceito puro, o orgulho da cor da pele e da origem é a única distinção social positiva ao alcance. Se a elite e a classe média exploram economicamente – além de humilhar – os negros, aqui só se pode humilhar. Enfatizar uma distância social quase inexistente do ponto de vista econômico exige um racismo “racial” turbinado e levado às últimas consequências.

Este é também precisamente o caso do lixo branco Norte-americano que ajudou a eleger Trump, o objeto do desejo e de imitação de Bolsonaro. Os brancos do Sul dos EUA, inferiores social e economicamente ao branco do Norte, são, por conta disso, como uma espécie de compensação da riqueza inexistente, os racistas mais ferozes e ativistas de umaKu Klux Klan que assassinava e linchava negros indiscriminadamente. Este é o caso de Bolsonaro e de seus seguidores no Brasil. E o que é a milícia carioca, com a qual Bolsonaro e seus filhos estão envolvidos até o pescoço, do que a Ku Klux Klan brasileira? Que existe para explorar e matar negros e pobres, os supostos bandidos das favelas?

Embora a elite e a classe média real e canalha também tenham votado nele, sua real base de apoio é o lixo branco brasileiro, próximo do negro e por conta disso ávido por criminaliza-lo, estigmatiza-lo como bandido e por assassiná-lo impunemente. A associação com a milícia, a tara pelas armas e o discurso de ódio é para matar o preto e o pobre. O que está por trás de Bolsonaro é racismo racial mais cruel e expresso do modo mais aberto e canalha que jamais se viu. O ódio a universidade pública está também ligado ao fato da universidade, agora, ter sido invadida por negros e pobres. Essa gente não estaria lá para estudar. Só poderia ser para fazer balbúrdia. Urge cortar as verbas para isso.

A irracionalidade de Bolsonaro, sua loucura e sua idiotice são a expressão perfeita do ódio racial brasileiro. O ódio que não se explica racionalmente, nem apenas por motivos puramente econômicos. O ódio do racista que se vê como fracasso social é um ódio de morte. Ele não compreende as razões de sua posição social e só tem ressentimento sem direção na alma e no coração. Ódio em estado puro que Bolsonaro expressa e exprime como ninguém. Bolsonaro é o líder da Ku klux Klan e do lixo branco brasileiro. É isso que o define e o explica mais que qualquer outra coisa.

Jessé Sousa, em Paris, após conferência no Institut des Hautes Études de l’Amérique Latine em 2019
Imagem: Junia Barreto

Jessé Souza é sociólogo, advogado, professor universitário, escritor e pesquisador. Atua nas áreas de Teoria Social, pensamento social brasileiro e estudos teórico/empíricos sobre desigualdade e classes sociais no Brasil contemporâneo.


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