Chamada : Meninas e Meninos têm elas e eles direito à educação igualitária ?

Sens public inaugura seu décimo quinto ano de existência e desenvolve-se a partir de suas três unidades França, Quebec (a revista fundou o laboratório Écritures Numériques1 na Universidade de Montreal) e Brasil. A associação é filiada ao Ent’revues (que organiza o Salon de la Revue2) e do consórcio europeu Eurozine3.

Nosso primeiro dossiê, La Différence des Sexes4, publicou textos oriundos da Academia de Verão franco-checo-eslovaca da Associação Jan Hus em que participaram Geneviève Fraisse, Jean-Pierre Vernant, Madeleine Valette-Fondo5. Em quinze anos, a questão da igualdade passou de premissas a atos. Apesar dos indicadores e das comparações a nível internacional, velhos esteriótipos se fazem presente. « Eu tive que enfrentar alguém que era na verdade um candidato de um reality show, autor de comentários machistas e que denegria mulheres », disse Hillary Clinton, constatando que as mídias fortaleceram seu estilo agressivo.

Ao apresentar as personalidades femininas do período revolucionário, Michèle Narvaez6 evoca Constance de Salm. Esta refere-se as representações dominantes, compartilhadas por Rousseau ou Enciclopedistas7, que excluem as mulheres do mundo social a pretexto de sua fraqueza e suposta emotividade. Astrid de Larminat escrevia:

Em 1797, ela própria parte de uma Epístola às mulheres em que exorta suas semelhantes a deixar a infância. Primeira mulher a ser admitida em 1795 no Lycée des Arts, instituição que tinha substituído, mais ou menos, as academias abolidas no início da Revolução, ela beneficiava-se de uma rede de apoio suficiente para permitir esses tipos de declarações, reivindicando, em especial, que as jovens meninas sejam instruídas como os meninos8.

Sem igualdade na educação, qual emancipação? A propósito de um livro, outrora pioneiro, sobre igualdade de gênero na escola, Florença Rochefort escreveu:

Geneviève Fraisse passa a palavra a duas jovens para manifestar acerca de « Como o poder vem aos meninos », e vários artigos analisam os efeitos da divisão sexual do conhecimento sobre as alunas e os alunos (Françoise Vouillot, Marie Duru-Bellat, Nicole Mosconi). Claude Zaidman constata a reprodução dos modelos tradicionais de comportamento feminino e masculino na escola primária, como também sua utilização pelas docentes e pelos docentes « para facilitar a conduta da classe ». « A diversidade degênero na escola, conclui, pode constituir um lugar de aprendizagem de respeito ao outro, contato que renuncie à ilusão da neutralidade educativa de ter em conta as diferenças sociais entre os sexos ». Para a matemática Christine Keitel, »a educação mista formalista, tal qual é atualmente praticada » contribui para a « sub-participação das mulheres nas matemáticas e nas profissões científicas »9.

O relatório do Alto Conselho de Igualdade entre Mulheres e Homens (ACI M/H) continua crítico:

« ‘Inconscientemente as docentes e os docentes avaliam meninas e meninos, segundo uma dupla medida. Isso se aplica tanto ao desempenho quanto ao comportamento das alunas e dos alunos: a indisciplina dos meninos é tolerada, vista como um comportamento desagradável mas inevitável, enquanto é estigmatizada e rejeitada, por vezes violentamente, nas meninas, de quem se espera obediência. Essa dupla medida influencia na avaliação das capacidades das alunas e dos alunos’ […] ACI M/H deseja ‘fazer da igualdade meninas-meninos uma matéria obrigatória para a formação de docente, inspetora e inspetor, coordenação, conselheira e conselheiro de orientação psicológica e diretora e diretor’, integrando o assunto nos concursos« 10.

Certamente, os recursos se multiplicam, como a Rede de Criação e Acompanhamento Pedagógico (CANOPE)11. Outro exemplo, a criação de um mestrado interdisciplinar sobre as questões de gênero. Nahema Hanafi indica:

« Nós abriremos duas linhas de mestrado. A primeira, ‘corpo e biopolítica’, será centrada em torno do corpo, de sexualidades, de violências, e ainda, da saúde, destinada às pessoas que pretendem se tornar especialistas dessas questões, lecionar, realizar pesquisa. A segunda, mais profissionalizante, será centrada sobre discriminações, destinada às e aos que pretendem se tornar encarregadas e encarregados de promover a igualdade em empresas, responsáveis pelo recrutamento ou que pretendem trabalhar em associações… Há uma real demanda de formação contínua sobre essas questões ».12

Todavia, as coisas mudaram realmente? Marie Duru-Bellat demonstra o contrário em sua obra recentemente publicada, A Tirania do Gênero13:

Uma fantasia de princesa e um aspirador de pó para as meninas, um castelo fortificado e um rádio comunicador [walk talk] para os meninos… Poderíamos pensar que uma opção de brinquedos também esteriotipados pertenceria ao passaso. Não é esse o caso. Uma sexualização cada vez mais acentuada é observada no campo da educação, como em todos os domínios da vida social. Esses tratamentos diferenciados não são sistematicamente cobrados como as desigualdades. Justificam-se pelas crenças em distinções essenciais, de ordem « natural », entre mulheres e homens. Um conjunto de discursos psicologizantes, decorrentes de normas e símbolos, que têm consequências multiformes sobre o papel atribuídos à cada uma e à cada um.

Como corrigir esses excessos sem reconduzir à essencialização dos papéis atribuídos a cada qual? As opiniões divergem. A crítica das relações de dominação baseou-se na noção de gênero. Mas, passar da consciência dessas representações à ideia de que qualquer tomada de posição remete aos discursos de gênero, não se correrá também o risco de reduzir os indivíduos, independentemente do gênero, a papéis em vez de promover a emancipação pessoal de todas e todos?

Em outros termos, por que e como a educação (que não se resume a escolarização ou a formação acadêmica) permanece qualitativamente diferente para os jovens, meninas ou meninos, embora o princípio da igualdade de oportunidades devesse conduzir a uma educação independente do gênero? Os textos poderão, para além da análise empírica específica, abordar igualmente o debate, longe de ser consensual, que se oponham ao que seria uma sociedade em que mulheres e homens seriam realmente iguais.

Em nome do comitê cientifico internacional (em construção), Michèle Narvaez-Golstein e Gérard Wormser esperam manifestação de interesse e propostas (resumo expandido de duas páginas no máximo) relativo à igualdade entre meninas e meninos na educação, até 15 de dezembro de 2017.

O prazo para recebimento de artigos é até 15 de maio e todos passarão por uma avaliação antes de serem publicados. Uma segunda leva de publicações será realizada para os projetos recebidos até março de 2018, cujos textos completos serão entregues de agora até a primeira quinzena de julho de 2018.

Os artigos serão publicados no idioma original. As propostas que não forem redigidas em francês devem ser acompanhadas da tradução para o francês ou inglês.

Veja as regras de publicação aqui: www.sens-public.org/article477.html.

Contact : Michèle Narvaez-Goldstein: michele-narvaez@wanadoo.fr
Gérard Wormser:
gwormser@sens-public.org

7 Cf.: Anna Durnova http://sens-public.org/article96.html?lang=fr dans notre dossier fondateur

9 Rochefort, Florence, in CLIO, 5/1997 https://clio.revues.org/423. Sur De Manassein, M.(dir), De l’Égalité des Sexes, CNDP, 1995.

13 Duru-Bellat, Marie, La Tyrannie du Genre, Presses de Sciences-Po, 2017.