{"id":2614,"date":"2023-09-29T14:27:32","date_gmt":"2023-09-29T14:27:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=2614"},"modified":"2023-09-29T14:28:40","modified_gmt":"2023-09-29T14:28:40","slug":"sexo-e-transgressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/sexo-e-transgressao\/","title":{"rendered":"Sexo e transgress\u00e3o<br><span style=\"font-size:16px\">Ching Selao<\/span>"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:right;font-size:12px;font-style:italic\">Jeanne Frantz, 2020<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Se h\u00e1 uma escritora franc\u00f3fona conhecida por seu impudor liter\u00e1rio certamente \u00e9 Calixthe Beyala. Sua propens\u00e3o a escrever sobre a sexualidade e o desejo das mulheres africanas levou Odile Cazenave (1996, 218) a assinalar sua originalidade frente n\u00e3o apenas a suas irm\u00e3s mas tamb\u00e9m a seus irm\u00e3os, uma vez que as cenas sexuais n\u00e3o s\u00e3o pontuais em sua obra, mas &#8220;tornam-se parte constituinte do texto e de seu exame da sociedade&#8221;. Jacques Chevrier (2001) nota que sua entrada na cena liter\u00e1ria teve &#8220;o efeito de uma pedra arremassada em um lago&#8221; e que, com seu primeiro romance, <em>C&#8217;est le soleil qui m&#8217;a br\u00fbl\u00e9e<\/em>, Beyala &#8220;abalou os h\u00e1bitos do pequeno doce mundo da literatura africana feminina&#8221;. Segundo Chevrier, a escritura de Beyala, assim como a de Sony Labou Tansi, faz parte de uma &#8220;po\u00e9tica do obsceno&#8221;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\">Chevrier indica que, em outros autores, &#8220;por um lado, neles a evoca\u00e7\u00e3o do sexo \u00e9 sobretudo alegre, saud\u00e1vel, e, por outro lado, o obsceno neles \u00e9 secund\u00e1rio. V\u00ea-se que esse n\u00e3o \u00e9 o caso nos romances de Sony Labou ou de Calixthe Beyala&#8221;. Sua an\u00e1lise \u00e9 entretanto largamente consagrada aos romances de Sony Labou Tansi e n\u00e3o dedica nada al\u00e9m e algumas frases \u00e0 <em>Ass\u00e8ze l&#8217;Africaine<\/em> de Beyala (2000, 38).<\/span> que os distingue dos demais escritores africanos. O lado inovador de &#8220;crian\u00e7a terr\u00edvel da literatura africana&#8221; (Asaah 2006b, 101), desse &#8220;fen\u00f4meno p\u00f3s-colonial (Hitchcoot, 2006, I) lhe rendeu os ep\u00edtetos de &#8220;romancista impertinente&#8221; (Asaah, 2007, 110), autora pornogr\u00e1fica e autora de esc\u00e2ndalos. Seja em seus romances ou nas r\u00e9plicas a seus detratores, Beyala n\u00e3o parece ter pudor algum. Analisando as quest\u00f5es e os problemas levantados pelos argumentos utilisados por Beyala para se defender contra as acusa\u00e7\u00f5es de pl\u00e1gio (racismo, tradi\u00e7\u00e3o oral na \u00c1frica, intertextualidade), V\u00e9ronique Porra (1997, 27) destaca que sua obra fudamenta-se &#8220;essencialmente na explora\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria da provoca\u00e7\u00e3o, tanto lingu\u00edstica quanto ideol\u00f3gica \\[&#8230;] o esc\u00e2ndalo e a provoca\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma grande parte de sua &#8220;propriedade comercial&#8221;. Do mesmo modo, Koffi Anyinefa (2008, pp. 464-465) afirma que Beyala \u00e9 &#8220;incontestavelmente um dos escritores franc\u00f3fonos (mulheres e homens considerados) mais populares na Fran\u00e7a e nos Estados Unidos&#8221;, o que comprova que sua abordagem \u00e9 uma &#8220;estrat\u00e9gia lucrativa&#8221;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"2\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-2\">2<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-2\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"2\">A tese do esc\u00e2ndalo como estrat\u00e9gia foi retomada recentemente por \u00c9lo\u00efse Brezault no texto &#8220;<em>Le scandale comme strat\u00e9gie d&#8217;exotisme chez Calixthe Beyala et L\u00e9onora Miano: le r\u00f4le de l&#8217;institution litt\u00e9raire face aux auteurs post\/coloniaux<\/em>&#8221; (2018).<\/span>. Ainda que Beyala n\u00e3o hesite em brandir sua feminilidade e a apontar o racismo e o sexismo para denunciar as cr\u00edticas de seus detratores, colocando-se assim como v\u00edtima, mesmo assim \u00e9 \u00fatil se questionar sobre a recep\u00e7\u00e3o de seus livros e as declara\u00e7\u00f5es a seu respeito que insistem sobre sua identidade sexual e sua origem africana. O impudor liter\u00e1rio que ela pratica, seja percebido positivamente ou negativamente, \u00e9 frequentemente julgado em termos dessas caracter\u00edsticas. O artigo que segue gostaria de tratar desse aspecto, efetuando um retorno ao &#8220;Affaire Beyala&#8221; e examinando o que \u00e9 abarcado por sua escritura &#8220;ponogr\u00e1fica&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"> Em 1996, ap\u00f3s ter recebido o Grande Pr\u00eamio para romances da Academia Francesa pela obra <em>Les Honneurs perdus<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"3\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-3\">3<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-3\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"3\">&#8220;As honras perdidas&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/span>, Beyala foi acusada por Pierre Assouline de ter plagiado, em seu primeiro romance, passagens da tradu\u00e7\u00e3o francesa de <em>The Famished Road<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"4\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-4\">4<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-4\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"4\">&#8220;A estrada da fome&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/span> do autor nigeriano Ben Okri. Ele recorda que no m\u00eas de maio do mesmo ano, Beyala foi &#8220;severamente condenada por contraven\u00e7\u00e3o&#8221; (1996,7) pelos tribunais pelo <em>Le Petit prince de Belleville<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"5\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-5\">5<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-5\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"5\">&#8220;O Pequeno pr\u00edncipe de Belleville&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/span> (1992). Esse artigo de Assouline \u00e9 a origem daquilo que se tornar\u00e1 o &#8220;Affaire Beyala&#8221;. Querendo desacreditar os Acad\u00eamicos nesse assunto, Olivier Le Naire (1996, 134) escreve que: &#8220;at\u00e9 o fim, eles permaneceram obstinados a sucumbir ao charme das obras da bela romancista franco-camaronesa. Mesmo imortal, o erro \u00e9 humano&#8221;. Se o erro \u00e9 humano, as capacidades de sedu\u00e7\u00e3o de Beyala parecem ser sobre-humanas chegando at\u00e9 mesmo, por sua beleza e pluma, a encantar os Acad\u00eamicos. Pierra Assouline (1997, pp. 8-10) escreveu, em um outro artigo, que &#8220;a Academia Francesa assumiu o risco de aprovar um autor cuja obra \u00e9 cheia de pl\u00e1gios&#8221;, precisando que &#8220;por raz\u00f5es que n\u00e3o parecem ser liter\u00e1rias, era preciso que fosse Beyala a escolhida, e ningu\u00e9m mais&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"> Impass\u00edveis diante de seu charme, ex\u00f3tico apenas para os franceses, muitos cr\u00edticos e autores africanos ficaram irritados, at\u00e9 mesmo ultrajados com a atitude da autora. Como notou Koffi Anyinefa(2008, 463), o &#8220;Affaire Beyala&#8221; suscitou diversas rea\u00e7\u00f5es, mas os africanos parecem majoritariamente condenar Beyala mais por seu comportamento que acham ser extravagante e inapropriado do que pelo delito que lhe acusam de ter cometido&#8221;. Apoiando-se nos artigos de Assouline, o escritor camaron\u00eas Mongo Beti, autor do cl\u00e1ssico africano <em>Le Pauvre Christ de Bomba<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"6\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-6\">6<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-6\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"6\">&#8220;O pobre Cristo de Bomba&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/span> (1956), repete que o pl\u00e1gio \u00e9 uma pr\u00e1tica corrente em Beyala e acrescenta que \u00e9 &#8220;um procedimento c\u00ednico, inaceit\u00e1vel porque \u00e9 pass\u00edvel de respingar no conjunto dos escritores africanos de l\u00edngua francesa e os descredibilizar frente ao p\u00fablico. A inquietude \u00e9 leg\u00edtima pois um caso apenas, onde est\u00e1 implicada uma personalidade muito midiatizada, pode certamente conformar alguns preju\u00edzos e ter um impacto negativo no conjunto do corpus africano. Ora, a hostilidade de Mongo Beti para com Beyala \u00e9 tanta que a pol\u00eamica parece ser um pretexto para despejar seu desprezo: &#8220;se ela excita alguma curiosidade em certos c\u00edrculos, percebe-se que ela \u00e9 ao mesmo tempo muito controversa e jamais evocada com admira\u00e7\u00e3o&#8221;; \u00e9 &#8220;uma mulher cheia de si&#8221; que &#8220;n\u00e3o tem os meios de sua ambi\u00e7\u00e3o&#8221; porque &#8220;para se tornar um grande autor \u00e9 importante saber escrever&#8221;. No seu reconhecido estilo panflet\u00e1rio, ele adianta que &#8220;a obsess\u00e3o da Academia Francesa com uma mulher t\u00e3o jovem quanto C.Beyala \u00e9 reveladora da psicose \\[de descobrir um novo Senghor]&#8221;. Se ele admite jamais ter gostado de Senghor, Mongo Beti reconhece que o poeta-presidente, primeiro africano eleito para a Academia Francesa, em 1983, tinha ao menos uma vasta cultura, apesar de &#8220;sua subservi\u00eancia face \u00e0 Fran\u00e7a, pot\u00eancia colonial&#8221;. Beyala, ela n\u00e3o tem cultura e n\u00e3o sabe escrever, pois tudo o que ela deseja \u00e9 &#8220;conseguir, muito rapidamente, ganhar bastante dinheiro, que falem de e ser aplaudida, basicamente&#8221;. Apenas sua singularidade&nbsp;&#8212;&nbsp;para n\u00e3o dizer sua sorte&nbsp;&#8212;&nbsp;de ser africana <em>e<\/em> mulher explica seu sucesso:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\"> N\u00e3o \u00e9 todo dia que se pode exibir um fen\u00f4meno ex\u00f3tico na cena liter\u00e1ria parisiense. C. Beyala goza do mundo quando ela pretende que ela \u00e9 desejada porque \u00e9 mulher negra. \u00c9 o contr\u00e1rio. Ela \u00e9 fonte de um duplo exotismo, que apenas lhe valhe uma aten\u00e7\u00e3o excepcional, d\u00fabia e permanente. E \u00e9 esse duplo exotismo que o editor [Albin Michel] est\u00e1 decidido a explorar.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\"> Segundo ele, o racismo e o sexismo que Beyala invoca para se defender desvelam apenas &#8220;terrorismo intelectual&#8221;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"7\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-7\">7<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-7\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"7\">Todas as cita\u00e7\u00f5es de Mongo Beti foram retiradas do artigo &#8220;<em>L&#8217;Affaire Calixthe Beyala ou comment sortir du n\u00e9ocolonialisme en litt\u00e9rature<\/em>&#8221; (1997).<\/span>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"> Ambroise Kom (1996, pp. 66-67) tamb\u00e9m acusa sua compatriota de arrivismo em um dossi\u00ea de <em>Notre Librairie<\/em> consagrado \u00e0 autora, destacando que ela &#8220;n\u00e3o reage contra nenhum estere\u00f3tipo, independente de qu\u00e3o infame seja&#8221; e que seu sucesso se baseia nas &#8220;m\u00faltiplas cenas ousadas que abundam em suas hist\u00f3rias&#8221;. Consequentemente, ele d\u00e1 raz\u00e3o aos cr\u00edticos que &#8220;n\u00e3o hesitam em acusar Beyala de se dedicar passionalmente a uma escritura pornogr\u00e1fica, t\u00e9cnica destinada a reter um p\u00fablico em busca de um erotismo e exotismo barato&#8221;. Ainda que Beyala apenas publique <em>Femme nue, femme noire<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"8\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-8\">8<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-8\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"8\">&#8220;Mulher nua, mulher negra&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/span> (ao qual retornaremos) em 2003, a cr\u00edtica faz dela uma autora do g\u00eanero pornogr\u00e1fico desde a apari\u00e7\u00e3o de seu primeiro livro. Em sua resenha de <em>C&#8217;est le soleil qui m&#8217;a br\u00fbl\u00e9e<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"9\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-9\">9<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-9\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"9\">&#8220;O sol que me queimou&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/span>, David Ndachi Tagne (1990, pp. 96-97) j\u00e1 anunciava &#8220;um estardalha\u00e7o de muitos leitores africanos&#8221; por causa da representa\u00e7\u00e3o dos homens e dos temas abordados no romance: &#8220;a masturba\u00e7\u00e3o e as diferentes cenas er\u00f3ticas&nbsp;&#8212;&nbsp;que culminam no fim da obra com a cena em que a hero\u00edna mata seu amante ocasional&nbsp;&#8212;&nbsp; certamente ocasionar\u00e3o reclama\u00e7\u00f5es escandalizadas por uma tend\u00eancia pornogr\u00e1fica pronunciada&#8221;. Aquilo que ele interpreta como sendo um manique\u00edsmo na guerra dos sexos \u00e9, em seu entendimento, a maior fraqueza desse romance que tenta &#8220;conquistar outras vias e vozes, em ruptura com tradi\u00e7\u00f5es e estere\u00f3tipos&#8221;. Mas, ao contr\u00e1rio de Ambroise Kom, David Ndachi Tagne n\u00e3o nega a pertin\u00eancia de um discurso feminista e indica que, al\u00e9m da pol\u00eamica, \u00e9 preciso levar a s\u00e9rio esse romance e l\u00ea-lo por seu &#8220;tom novo&#8221;, sua &#8220;vis\u00e3o crua das realidades&#8221; e sua &#8220;ang\u00fastia existencial&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"> Para Ambroise Kom (1996, 71), a representa\u00e7\u00e3o do homem nas hist\u00f3rias de Beyala n\u00e3o passa de uma caricatura de inspira\u00e7\u00e3o etnol\u00f3gica de uma outra \u00e9poca, pois &#8220;na \u00c1frica, o pretenso poder masculino \u00e9 frequentemente uma encena\u00e7\u00e3o, o homem sendo, na maioria do tempo, apenas o porta-voz de um arranjo em que a mulher \u00e9 o c\u00e9rebro&#8221;. Rangira B\u00e9atrice Gallimore (2001, 97) menciona com justeza que, com um desejo de deslegitimar sua obra, &#8220;muitos censores da escritura de Beyala, como Ambroise Kom, recusam at\u00e9 mesmo de aceitar a exist\u00eancia da opress\u00e3o sobre as mulheres na \u00c1frica&#8221;. O que incomoda sobretudo o cr\u00edtico \u00e9 que &#8220;Beyala acusa e mesmo condena o homem no lugar de levar em considera\u00e7\u00e3o os avatares de uma modernidade mal assumida aqui e ali, assim como as viol\u00eancias coloniais e neocoloniais&#8221; (Kom 1996, 68). Kom revela aqui que a verdadeira reprova\u00e7\u00e3o dirigida \u00e0 autora n\u00e3o diz respeito \u00e0 representa\u00e7\u00e3o negativa do homem em geral, mais a do homem africano em particular. Nesse sentido, Beyala \u00e9 duplamente culpada. Por um lado, por ter transgredido com sua escritura, mesmo que ficcional, os limites do pudor, daquilo que \u00e9 julgado conveniente; e, por outro lado, por t\u00ea-lo feito \u00e0s custas do homem africano, participando assim do imagin\u00e1rio colonial e do imperialismo cultural. Em uma entrevista tamb\u00e9m publicada v\u00e1rios anos antes da publica\u00e7\u00e3o de <em>Femme nue, femme noire<\/em>, Emmanuel Matateyou (1996, 605) apresenta Beyala como uma autora que &#8220;incomoda e inquieta&#8221; e que n\u00e3o poupa &#8220;certas sensibilidades&#8221;. Ele afirma, entre outras coisas, que &#8220;<em>Maman a un amant<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"10\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-10\">10<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-10\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"10\">&#8220;Mam\u00e3e tem um amante&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/span> \u00e9 um t\u00edtulo que choca&#8221;, pois &#8220;n\u00e3o \u00e9 normal que mam\u00e3e tenha um amante&#8221;, ao que Beyala responde que, se seu t\u00edtulo fosse <em>Papa est polygame<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"11\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-11\">11<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-11\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"11\">&#8220;Papai \u00e9 pol\u00edgamo&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/span>, isso n\u00e3o teria chocado ningu\u00e9m e que &#8220;o problema decorre do fato de que a \u00c1frica n\u00e3o est\u00e1 acostumada que certas palavras venham da boca de uma mulher&#8221;. As vivas rea\u00e7\u00f5es que sua obra provoca de fato parecem ligadas \u00e0 sua fala como mulher e, mais precisamente, como mulher africana de origem camaronesa que escreve para um p\u00fablico n\u00e3o africano. Mesmo Ambroise Kom (1996, 606 &amp; 614), segundo quem Beyala e seus romances s\u00e3o totalmente ignorados na \u00c1frica tanto pelo grande p\u00fablico quanto pelos universit\u00e1rios, concede que &#8220;apesar das dificuldades econ\u00f4micas que s\u00e3o um s\u00e9rio entrave para a leitura na \u00c1frica, \u00e9 preciso admitir que o espa\u00e7o e o tipo de personagem presente na obra de Beyala s\u00e3o uma clara ruptura com os textos africanos precedentes&#8221;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"12\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-12\">12<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-12\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"12\">Em um artigo posterior, Kom (2001,43) confirma que o conte\u00fado dos romances de Beyala n\u00e3o corresponde \u00e0s expectativas do leitor africano, apesar de sua consagra\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a, lugar de canoniza\u00e7\u00e3o dos autores franc\u00f3fonos.<\/span>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"> Do lado dos cr\u00edticos angl\u00f3fonos, especialmente nigerianos, sua den\u00fancia da opress\u00e3o da mulher \u00e9 muito bem recebida, mais os meios para atingi-la e a liberdade sexual palp\u00e1vel em quase todos seus romances suscitam rea\u00e7\u00f5es semelhantes: sua falta de pudor \u00e9 deslocada. Segundo um cr\u00edtico e professor conhecido na Nig\u00e9ria, J. Ukoyen, a escritura de Beyala reproduz, sob a cobertura de um engajamento feminista que \u00e9, na realidade, um &#8220;feminismo auto-destrutivo&#8221;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"13\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-13\">13<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-13\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"13\">Ver Ndidiamaka Ononuju Ejechi (2015, 530), que cita um trecho do artigo de J. Ukoyen, &#8220;Self-Destructive Feminism in Calixthe Beyala&#8217;s <em>Les Honneurs perdus<\/em>.<\/span>, a permissividade do modo de vida ocidental e os &#8220;problemas&#8221; (homossexualidade, lesbianismo, prostitui\u00e7\u00e3o) que s\u00e3o a ele associados. Como o desvela Ndidiamaka Ononuju Ejechi (2015) e como o mostra Jacques Chevrier em seu artigo sobre o obsceno, as refer\u00eancias ao sexo s\u00e3o entretanto muito presentes nas obras de autores africanos conhecidos, como Sony Labou Tansi e Ahmadou Kourouma. No que diz respeito a Sony Labou Tansi, Chevrier (2000) escreve: &#8220;da anatomia humana, o romancista parece n\u00e3o reter nada que n\u00e3o seja orif\u00edcio, boca, vagina, \u00e2nus e uma clara predile\u00e7\u00e3o pela &#8220;hernia&#8221;, met\u00e1fora de um p\u00eanis fora de propor\u00e7\u00e3o e que parece definitivamente substituir o pensamento para a maior parte dos ditatores de Sony&#8221;. A cr\u00edtica n\u00e3o se ofende com esse estilo livre, observando sua originalidade, como se a obscenidade, ou seja, aquilo que ofende o pudor, fosse prerrogativa dos homens. Sobre esse tema, Madeleine Borgomano (1996, 74) nota que as aud\u00e1cias de Beyala, sua escritura \u00e0s vezes brutal e provocante e sua linguagem crua e de baixo cal\u00e3o, \u00ab&nbsp;chocam muito mais porque a escritora \u00e9 uma mulher, e as mulheres escritoras africanas adotam mais frequentemente uma escrita s\u00e1bia, de acordo com a norma, quase o conformismo, apegando-se \u00e0s leis da bela linguagem aprendidas na escola&nbsp;\u00bb. Al\u00e9m disso, Beyala escreve \u00ab&nbsp;aquilo que n\u00e3o se deve dizer&nbsp;\u00bb e \u00ab&nbsp;n\u00e3o se usa seus romances para tirar li\u00e7\u00f5es&nbsp;\u00bb. Aqui sem d\u00favidas reside outra explica\u00e7\u00e3o para a hostilidade que ela suscita: n\u00e3o apenas h\u00e1 muitas descri\u00e7\u00f5es corporais e cenas sexuais em seus livros, mais essas parecem gratuitas pois n\u00e3o carregam uma moral para as mulheres.<\/p>\n<p><figure>\n<center><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/256273244-3014c307-2d1c-4720-9d48-989e8a44d837.jpg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Capa do romance C&#8217;est le soleil qui m&#8217;a br\u00fbl\u00e9e. Foto: Editor.<\/p>\n<\/figcaption><p><\/center><\/figure>\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Paradoxalmente, o romance mais pornogr\u00e1fico de Beyala \u00e9 aquele que veicula um discurso moralizante. Publicado em 2003, <em>Femme nue, femme noire<\/em> traz a interven\u00e7\u00e3o de todas as pr\u00e1ticas sexuais (fela\u00e7\u00e3o, cunil\u00edngua, orgia, sodomia, sadomasoquismo, pedofilia, voyeurismo, zoofilia) e a participa\u00e7\u00e3o de todos os grupos: heterossexuais, homossexuais, mulheres, homens, garotas, garotos, bonitos, veios, velhas, velhos&#8230; at\u00e9 mesmo uma galinha! Segundo Nicki Hitchcott (2006, 29), o lanca\u00e7amento desse livro \u00e9 estrat\u00e9gica na medida em que ela coincide com a moda francesa do &#8220;porno f\u00e9minin&#8221;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"14\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-14\">14<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-14\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"14\">Em franc\u00eas no texto de Hitchcott.<\/span> do in\u00edcio dos anos 2000, em que <em>A vida sexual de Catherine M.<\/em> de Catherine Millet \u00e9 emblem\u00e1tico, e Beyala acrescenta seu toque de &#8220;exotismo&#8221;. O relato de Beyala \u00e9 contudo muito diferente do de Millet, pois n\u00e3o \u00e9 autobiogr\u00e1fico<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"15\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-15\">15<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-15\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"15\">\u00c0 quest\u00e3o sobre &#8220;a parte de elementos autobiogr\u00e1ficos no &#8216;eu'&#8221; da narra\u00e7\u00e3o, Beyala respondeu: &#8220;eu jamais vivi a experi\u00eancia de Irene Fofo, se \u00e9 isso que voc\u00ea deseja saber&#8221; (&#8220;<em>L&#8217;\u00e9criture dans la peau. Entretien avec Calixthe Beyala<\/em>, Tirthankar Chanda 2003, 44).<\/span> e situa-se no excesso e devassid\u00e3o sem ser veross\u00edmil. Se as cenas de sexo s\u00e3o descritas de maneira &#8220;cl\u00ednica&#8221;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"16\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-16\">16<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-16\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"16\">Millet discorre sobre o tema: &#8221; frequentemente eu recebo essa reprova\u00e7\u00e3o: meu relato n\u00e3o \u00e9 suficientemente er\u00f3tico, suficientemente excitante, ele \u00e9 muito frio, muito cl\u00ednico&#8221; (&#8220;<em>Entrevue avec Catherine Millet<\/em>&#8220;, Christine Palmi\u00e9ri 2001, 18).<\/span> em <em>A vida sexual de Catherine M.<\/em>, elas s\u00e3o descritas de maneira tragic\u00f4mica em <em>Femme nue, femme noire<\/em>. Por sua vez, Odile Cazenave (2003, 62) v\u00ea nesse romance uma &#8220;nova etapa&#8221; na obra de Beyala, uma explora\u00e7\u00e3o do &#8220;sexo em todos seus estados&#8221; para &#8220;falar do desejo em toda sua for\u00e7a&#8221; e uma escritura que &#8220;demonstra que o obsceno e o vulgar n\u00e3o s\u00e3o mais prerrogativas do homem e que a sexualidade \u00e9 escrita m\u00faltipla na pluma de uma mulher&#8221;. J\u00e1 no t\u00edtulo Beyala convoca um homem c\u00e9lebre, que contudo n\u00e3o tem nada a ver com o obsceno ou o vulgar: L\u00e9opold Senghor, Acad\u00eamico. Al\u00e9m de retomar um dos versos famosos de Senghor em seu t\u00edtulo, ela cita na ep\u00edgrafe a primeira estrofe de &#8220;<em>Femme noire<\/em>&#8221; (S\u00e9dar Senghor, 1990, pp.18-19), assinalando desde o in\u00edcio do jogo a rela\u00e7\u00e3o intertextual com o poema de Senghor. Tudo acontece como se ela dissesse: pronto, eu cito minhas fontes, voc\u00eas est\u00e3o contentes? A alus\u00e3o a seu primeiro acusador, Pierre Assouline, d\u00e1-se tamb\u00e9m por interm\u00e9dio da descri\u00e7\u00e3o de sua personagem principal, Irene Fofo, adolescente de quinze anos, &#8220;uma ladra, uma cleptoman\u00edaca para fazer parecer culto&#8221; (2003, 12). A palavra &#8220;cleptoman\u00edaca&#8221; n\u00e3o \u00e9 por acaso, pois Assouline chamou Beyala de reincidente em &#8220;delitos flagrantes de cleptomania liter\u00e1ria&#8221; (1997, II). Al\u00e9m disso, a express\u00e3o &#8220;para fazer parecer culto&#8221; retoma a oposi\u00e7\u00e3o que a pr\u00f3pria Beyala faz entre &#8220;a camponesa&#8221;, &#8220;a descal\u00e7a africana&#8221;, a &#8220;pobre negra deslocada vinda de lugar nenhum&#8221;, a &#8220;africana ignorante de um tanto de coisas do mundo liter\u00e1rio parisiense&#8221;, a &#8220;negra que est\u00e1 onde ela n\u00e3o deveria estar&#8221; e Pierre Assouline, o intelectual de Paris, o &#8220;grande dignat\u00e1rio da literatura francesa&#8221;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"17\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-17\">17<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-17\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"17\">Todas as cita\u00e7\u00f5es dessa frase s\u00e3o retiradas da carta de Beyala enviada ao Figaro &#8220;<em> Moi, Calixthe Beyala, la plagiaire&nbsp;!<\/em>&#8221; (1997).<\/span>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"> N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que a autora faz eco do &#8220;Affaire Beyala&#8221; em um de seus romances, j\u00e1 tendo acertado as contas em <em>La Petite fille du r\u00e9verb\u00e8re<\/em> (1998) por interm\u00e9dio de passagens virulentas colocadas aqui e ali. Esse romance sobre a inf\u00e2ncia \u00e9 atravessado por uma ironia agridoce trazida pela jovem narradora, Tappoussi\u00e8re, mas o discurso violento e vitimador da autora adulta se imp\u00f5e desde o in\u00edcio&nbsp;:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Na \u00e9poca em que come\u00e7o essa hist\u00f3ria, eu ainda n\u00e3o era a escritora condecorada, s\u00e9rio? &#8230; que sacaneiem, que insultem, que vilipendiem, que chamem de c\u00e9rebro de saias! Mas n\u00e3o mais de a negra que faz pasmar as cal\u00e7as sem fim, as barbichas sem virilidade, todos esses nadas que me cobrem de suas frustra\u00e7\u00f5es&nbsp;&#8212;&nbsp;porque eles acreditam, esses imbecis, que uma mulher, sobretudo uma negra, n\u00e3o saberia se defender.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Beyala exprime aqui claramente aquilo que ela dizia implicitamente em sua carta publicada no <em>Le Figaro<\/em>&nbsp;:al\u00e9m de ser uma &#8220;pobre negra&#8221; e uma &#8220;pobre mulher&#8221;, ela \u00e9 percebida e tratada como um objeto sexual a que n\u00e3o pode ser atribu\u00eddo o t\u00edtulo de escritor. Se seu argumento pode, em parte, ser justificado e v\u00e1lido no conte\u00fado, ele \u00e9 problem\u00e1tico na forma&nbsp;: o tom panflet\u00e1rio rompe com a fluidez do resto da narra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o vai al\u00e9m de ataques e de insultos. Um pouco depois, seus detratores tornam-se &#8220;esses Sinh\u00f4 Riene Poussalire&#8221; (2003, 72), anagrama de Pierre Assouline, e em &#8220;viciados em maledic\u00eancia&#8221; (2003, 98), &#8220;Papas da Literatura francesa&#8221; (2003, 146) e cr\u00edticos &#8220;invejosos&#8221; e &#8220;ign\u00f3beis&#8221; (2003, 233).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">As alus\u00f5es ao &#8220;Affaire Beyala&#8221; s\u00e3o mais sutis em <em>Femme nue, femme noire<\/em> e se manifestam apenas em paratexto e logo no in\u00edcio do romance. A viol\u00eancia e o descomedimento est\u00e3o em outro lugar, como se Beyala tivesse decidido ir at\u00e9 o fim do impudor e assumido totalmente a etiqueta de autora pornogr\u00e1fica que colam nela desde o in\u00edcio de sua carreira. Ela o faz ao se opor ao estilo de Senghor, o gram\u00e1tico de l\u00edngua refinada, com a vulgaridade, a l\u00edngua das ruas de sua jovem narradora Irene: &#8220;&#8216;Mulher nua, mulher negra, vestida de sua cor que \u00e9  vida, de sua forma que \u00e9 beleza &#8230;&#8221;. Esses versos n\u00e3o fazem parte de meu arsenal lingu\u00edstico. Voc\u00eas ver\u00e3o: minhas palavras sacodem e rangem como correntes. \\[&#8230;] Palavras que batem, esbofeteiam, quebram e esmagam! Aquele que se sentir desconfort\u00e1vel que siga seu caminho &#8230;&#8221; (2003, II). Desse modo, o pr\u00f3logo serve de aviso&nbsp;: a mulher e a \u00c1frica n\u00e3o ser\u00e3o aqui idealizadas e nenhuma &#8220;sensibilidade&#8221; ser\u00e1 poupada. Em Senghor, a mulher seguramente faz refer\u00eancia \u00e0 amante, mas tamb\u00e9m \u00e0 m\u00e3e e \u00e0 m\u00e3e \u00c1frica. Como recorda Beyala, \u00e9 o passado e a &#8220;grandeza da civiliza\u00e7\u00e3o negro-africana&#8221; que s\u00e3o valorizados por interm\u00e9dio da imagem idealizada da mulher negra. Ao se apropriar dos versos de Senghor, ele quer &#8220;os investir de toda a viol\u00eancia, das humilha\u00e7\u00f5es e do sofrimento de que \u00e9 feito o cotidiano da mulher&#8221; e assim &#8220;o esvaziar de sua carga patriarcal&#8221; <sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"18\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-18\">18<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-18\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"18\">Todas essas cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o provenientes de <em>&#8220;L&#8217;\u00e9criture dans la peau. Entretien avec Calixthe Beyala<\/em>&#8221; (Tirthankar Chanda 2003, 42).<\/span>. Ora, em <em>Femme nue, femme noire<\/em> o cotidiano de mulheres (e de homens) \u00e9 feito apenas de atos sexuais, qualquer que seja o local, e de relatos escabrosos que Irene exige das pessoas que lhe visitam para se &#8220;curar&#8221;. No come\u00e7o, a narradora reinvindica &#8220;uma moral do excesso, da lux\u00faria e da devassid\u00e3o&#8221; (2003, 20) e se apresenta como uma jovem rebelde&nbsp;: &#8220;eles me chamam de maluca para preservar sua supremacia, para que n\u00e3o ressuscitem nunca mais as mulheres rebeldes, comedoras de sexo&#8221;. Contudo, de volta a sua aldeia no final do romance, ele \u00e9 brutalmente agredida e violentada por quatro homens loucos de raiva, e, no limiar da morte, essa &#8220;comedora de sexo&#8221; (2003, 31) promete se tornar uma garota s\u00e1bia&nbsp;:&#8221;a partir de agora, mam\u00e3e, eu controlarei minhas fomes. Eu n\u00e3o serei mais voraz. Eu n\u00e3o mais morderei na vida igual a uam esfomeada que perdeu v\u00e1rias refei\u00e7\u00f5es. Eu entrarei na linha como todas as outras antes de mim&#8221; (2003, 189).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Se \u00e9 verdade, como o nota Lydie Moudelino (2006, 156), que Beyala ataca em <em>Femme nue, femme noire<\/em> a &#8220;nudez passiva do modelo feminino de Senghor&#8221;, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que sua tentativa de liberar a mulher-garota por uma sexualidade ilimitada falha no final do relato. Irene n\u00e3o apenas \u00e9 duramente punida por ter desafiado as leis do &#8220;pudor feminino&#8221;, mais ela entende e aceita a li\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 violentamente inflingida, a de retomar &#8220;seu&#8221; lugar, de reintegrar a comunidade das mulheres p\u00fadicas e razo\u00e1veis.Em uma entrevista, Beyala evocou o excessivo pudor que se destaca no poema de Senghor e uma &#8220;esp\u00e9cie de rigor moralista&#8221; (Chanda 2003, 42) nele. O poeta da negritude, convocado no in\u00edcio do romance para em seguida ser expulso uma vez que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma outra refer\u00eancia \u00e0 sua obra, incarna assim o pudor da escritura que serve para acentuar o impudor do estilo de Beyala. Mas o impudor liter\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 necessariamente sin\u00f4nimo de subvers\u00e3o, e ao explorar at\u00e9 o limite a ideia da transgress\u00e3o pelo sexo e pla indec\u00eancia, o romance acaba por banalizar aquilo que n\u00e3o deveria ser banalizado, como a &#8220;educa\u00e7\u00e3o sentimental africana&#8221; de uma adolescente rebelde como Irene consistir em aprender &#8220;as cem mil posi\u00e7\u00f5es sexuais da fornica\u00e7\u00e3o&#8221; (Beyala 2003, 154) e uma jovem inf\u00e9rtil como Fatou dever aceitar todas as infidelidades e perves\u00f5es sexuais de seu marido, exceto a zoofilia. Apesar da inten\u00e7\u00e3o de Beyala de liberar a &#8220;mulher nua, mulher negra&#8221; da vis\u00e3o patriarcal de Senghor que faz dela um ser &#8220;puro&#8221;, s\u00edmbolo de toda uma ra\u00e7a, seu romance n\u00e3o exclui uma esp\u00e9cie de purifica\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s o estupro coletivo, Irene tem &#8220;a impress\u00e3o de estar em uma bolha, um lugar asc\u00e9tico onde desaparece o sofrimento&#8221; (Beyala, 2003, 188)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ao contr\u00e1rio do autor maliense Yambo Ouologuem, que desapareceu completamente da cena liter\u00e1ria na sequ\u00eancia das acusa\u00e7\u00f5es de pl\u00e1gio alguns anos depois de ter ganho o Pr\u00eamio Renaudot por <em>Le Devoir de la violence<\/em> (1968), Beyala n\u00e3o hesita em alimentar a controv\u00e9rsia em seus romances, deixando sua escritura ser influenciada pelo recebimento de seus livros. Assim como <em>C&#8217;est le soleil qui m&#8217;a br\u00fbl\u00e9e<\/em> (1987, 122) aspirava a falar o &#8220;prazer sem pudor&#8221;, a dissoci\u00e1-lo da vergonha, <em>Femme nue, femme noire<\/em> coloca em cena um despudor extremo que, no final, leva a um retorno \u00e0 sabedoria &#8220;feminina&#8221;. Esse romance, qualificado de forma un\u00e2nime pela cr\u00edtica como pornogr\u00e1fico, n\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o uma &#8220;empreendimento totalmente iconoclasta&#8221; (Moudileno, 2006, 158), mas sobretudo passa de uma &#8220;moral s\u00e1dica&#8221; (Asaah, 2006a, 29) \u00e8 &#8220;reden\u00e7\u00e3o das almas perdidas&#8221; (Beyala, 2003, 185), como a de Irene. <em>Femme nue, femme noire<\/em> mostra que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil escapar das representa\u00e7\u00f5es obsoletas da mulher e da ideia de uma consci\u00eancia moral da qual ela seria detentora, mesmo para uma autora rebelde como Beyala. Al\u00e9m disso, a recep\u00e7\u00e3o de sua obra e as rea\u00e7\u00f5es ao &#8220;Affaire Beyala&#8221; colocam sob o holofote o lado &#8220;imoral&#8221; da autora. Nesse sentido, \u00e9 leg\u00edtimo se perguntar se a falta de comedimento em alguns falas n\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0 sua reputa\u00e7\u00e3o de autora obscena, como se fosse de fato in\u00fatil colocar luvas brancas com uma mulher t\u00e3o impudica que ela mesma frequentemente faz declara\u00e7\u00f5es exacerbadas. Na esteira do &#8220;Affaire Beyala&#8221;, Pierre Assouline denunciou o &#8220;politicamente correto&#8221; que adentra nos debates liter\u00e1rios e torna suspeita toda cr\u00edtica de &#8220;abusar de uma romancista africana porque ele \u00e9 mulher e negra&#8221;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"19\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2614\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-19\">19<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2614-19\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"19\">Citado em &#8220;<em> Moi, Calixthe Beyala, la plagiaire! ou Ambigu\u00eft\u00e9es d&#8217;une &#8216;d\u00e9fense et illustration&#8217; du plagiat<\/em>&#8221; (V\u00e9ronique Porra, 1997, 30).<\/span>. Ora muitas observa\u00e7\u00f5es sugerem que certos cr\u00edticos e autores se permitem alguns coment\u00e1rios&nbsp;&#8212;&nbsp;sejam &#8220;elogiosos&#8221; por sua apar\u00eancia f\u00edsica, sejam mordazes por sua escritura&nbsp;&#8212;&nbsp;porque Beyala \u00e9 mulher e negra.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;font-size:16px\">Traduzido do franc\u00eas por Luiz Capelo<\/p>\n<h2>Bibliografia<\/h2>\n<p>Anyinefa, Koffi. 2008. \u00ab Scandales. Litt\u00e9rature francophone africaine et identit\u00e9 \u00bb. <em>Cahiers d\u2019\u00e9tudes africaines<\/em>, n\u1d52 191:457\u201186.<\/p>\n<p>Asaah, Augustine H. 2006a. \u00ab Femme nue, femme noire de Calixthe Beyala ou La Fusion du profane et du sacr\u00e9 \u00bb. <em>Nouvelles \u00e9tudes francophones<\/em> 21 (1):21\u201140.<\/p>\n<p>Asaah, Augustine H. 2006b. \u00ab La Tradition matricentriste au service du radicalisme : l\u2019image multidimensionnelle de la m\u00e8re dans Femme nue, femme noire de Calixthe Beyala \u00bb. <em>Dalhousie French Studies<\/em>, n\u1d52 76:101\u201112.<\/p>\n<p>Asaah, Augustine H. 2007. \u00ab Entre &#8220;Femme noire&#8221;de Senghor et Femme nue, femme noire de Beyala : r\u00e9seau intertextuel de subversion et d\u2019\u00e9chos \u00bb. <em>French Forum<\/em> 32 (3):107\u201122.<\/p>\n<p>Assouline, Pierre. 1996. \u00ab Provocations \u00bb. <em>Lire<\/em>, d\u00e9cembre, 5\u20118.<\/p>\n<p>Assouline, Pierre. 1997. \u00ab L\u2019Affaire Beyala rebondit \u00bb. <em>Lire<\/em>, f\u00e9vrier, 8\u201111.<\/p>\n<p>Beti, Mongo. 1956. <em>Le Pauvre Christ De Bomba<\/em>. Paris, France: Robert Laffont.<\/p>\n<p>Beti, Mongo. 1997. \u00ab L\u2019Affaire Calixthe Beyala ou Comment sortir du n\u00e9ocolonialisme en litt\u00e9rature \u00bb. <em>Palabres : Revue culturelle africaine<\/em> 1 (3-4):39\u201148.<\/p>\n<p>Beyala, Calixthe. 1987. <em>C\u2019est le soleil qui m\u2019a br\u00fbl\u00e9e<\/em>. Paris, France: Stock.<\/p>\n<p>Beyala, Calixthe. 1997. \u00ab Moi, Calixthe Beyala, la plagiaire ! \u00bb <em>Le Figaro<\/em>, janvier.<\/p>\n<p>Beyala, Calixthe. 1998. <em>La Petite fille du r\u00e9verb\u00e8re<\/em>. Paris, France: Albin Michel.<\/p>\n<p>Beyala, Calixthe. 2003. <em>Femme nue, femme noire<\/em>. Paris, France: Albin Michel.<\/p>\n<p>Borgomano, Madeleine. 1996. \u00ab Calixthe Beyala, une \u00e9criture d\u00e9plac\u00e9e \u00bb. <em>Notre Librairie<\/em>, n\u1d52 125:72\u201174.<\/p>\n<p>Brezault, \u00c9lo\u00efse. 2018. \u00ab Le scandale comme strat\u00e9gie d\u2019exotisme chez Calixthe Beyala et L\u00e9onora Miano : le r\u00f4le de l\u2019institution litt\u00e9raire face aux auteurs post\/coloniaux \u00bb. <em>Contemporary French and Francophone Studies<\/em> 22 (1):58\u201166.<\/p>\n<p>Cazenave, Odile. 1996. <em>Femmes rebelles. Naissance d\u2019un nouveau roman africain au f\u00e9minin<\/em>. Paris, France: L\u2019Harmattan.<\/p>\n<p>Cazenave, Odile. 2003. \u00ab \u00c9rotisme et sexualit\u00e9 dans le roman africain et antillais au f\u00e9minin \u00bb. <em>Notre Librairie<\/em>, n\u1d52 151:58\u201165.<\/p>\n<p>Chanda, Tirthankar. 2003. \u00ab L\u2019\u00c9criture dans la peau. Entretien avec Calixthe Beyala \u00bb. <em>Notre Librairie<\/em>, n\u1d52 151:40\u201144.<\/p>\n<p>Chevrier, Jacques. 2000. \u00ab Une radicalisation du discours romanesque africain, ou De l\u2019obsc\u00e8ne comme cat\u00e9gorie litt\u00e9raire \u00bb. <em>Notre Librairie<\/em>, n\u1d52 142:34\u201145.<\/p>\n<p>Chevrier, Jacques. 2001. \u00ab Calixthe Beyala : quand la litt\u00e9rature f\u00e9minine africaine devient f\u00e9ministe \u00bb. <em>Notre Librairie<\/em>, n\u1d52 146:22\u201125.<\/p>\n<p>Gallimore, Rangira B\u00e9atrice. 2001. \u00ab \u00c9criture f\u00e9ministe ? \u00c9criture f\u00e9minine ? Les auteures francophones de l\u2019Afrique subsaharienne face au regard du lecteur\/critique \u00bb. <em>\u00c9tudes fran\u00e7aises<\/em> 37 (2):79\u201198.<\/p>\n<p>Hitchcott, Nicki. 2006. <em>Calixthe Beyala: Performances of Migration<\/em>. Liverpool, Royaume-Uni: Liverpool University Press.<\/p>\n<p>Kom, Ambroise. 1996. \u00ab L\u2019Univers zombifi\u00e9 de Calixthe Beyala \u00bb. <em>Notre Librairie<\/em>, n\u1d52 125:64\u201171.<\/p>\n<p>Kom, Ambroise. 2001. \u00ab La Litt\u00e9rature africaine et les param\u00e8tres du canon \u00bb. <em>\u00c9tudes fran\u00e7aises<\/em> 37 (2):33\u201144.<\/p>\n<p>Le Naire, Olivier. 1996. \u00ab Les Liaisons dangereuses \u00bb. <em>L\u2019Express<\/em>, novembre, 134.<\/p>\n<p>Matateyou, Emmanuel. 1996. \u00ab Calixthe Beyala : entre le terroir et l\u2019exil \u00bb. <em>The French Review<\/em> 69 (4):605\u201115.<\/p>\n<p>Moudileno, Lydie. 2006. \u00ab Femme nue, femme noire : tribulations d\u2019une V\u00e9nus \u00bb. <em>Pr\u00e9sence francophone<\/em>, n\u1d52 66:147\u201161.<\/p>\n<p>Ndachi Tagne, David. 1990. \u00ab Notes de lecture \u00bb. <em>Notre Librairie<\/em>, n\u1d52 100 (mars):96\u201197.<\/p>\n<p>Ononuju Ejechi, Ndidiamaka. 2015. \u00ab Language as Instrument for Social Change in Tu t\u2019appelleras Tanga and Femme nue femme noire of Calixthe Beyala \u00bb. <em>International Journal of Arts &amp; Sciences<\/em> 8 (2):527\u201138.<\/p>\n<p>Palmi\u00e9ri, Christine. 2001. \u00ab Entrevue avec Catherine Millet \u00bb. <em>ETC<\/em>, n\u1d52 56 (d\u00e9cembre):15\u201118.<\/p>\n<p>Porra, V\u00e9ronique. 1997. \u00ab &#8220;Moi, Calixthe Beyala, la plagiaire!&#8221; ou Ambigu\u00eft\u00e9s d\u2019une &#8220;d\u00e9fense et illustration&#8221; du plagiat \u00bb. <em>Palabres : Revue culturelle africaine<\/em> 1 (3-4):23\u201137.<\/p>\n<p>S\u00e9dar Senghor, L\u00e9opold. 1990. <em>\u0152uvre po\u00e9tique<\/em>. Points\/Po\u00e9sie. Paris, France: Seuil.<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\">\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div>Chevrier indica que, em outros autores, &#8220;por um lado, neles a evoca\u00e7\u00e3o do sexo \u00e9 sobretudo alegre, saud\u00e1vel, e, por outro lado, o obsceno neles \u00e9 secund\u00e1rio. V\u00ea-se que esse n\u00e3o \u00e9 o caso nos romances de Sony Labou ou de Calixthe Beyala&#8221;. Sua an\u00e1lise \u00e9 entretanto largamente consagrada aos romances de Sony Labou Tansi e n\u00e3o dedica nada al\u00e9m e algumas frases \u00e0 <em>Ass\u00e8ze l&#8217;Africaine<\/em> de Beyala (2000, 38).<\/div><\/li><li><span>2<\/span><div>A tese do esc\u00e2ndalo como estrat\u00e9gia foi retomada recentemente por \u00c9lo\u00efse Brezault no texto &#8220;<em>Le scandale comme strat\u00e9gie d&#8217;exotisme chez Calixthe Beyala et L\u00e9onora Miano: le r\u00f4le de l&#8217;institution litt\u00e9raire face aux auteurs post\/coloniaux<\/em>&#8221; (2018).<\/div><\/li><li><span>3<\/span><div>&#8220;As honras perdidas&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/div><\/li><li><span>4<\/span><div>&#8220;A estrada da fome&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/div><\/li><li><span>5<\/span><div>&#8220;O Pequeno pr\u00edncipe de Belleville&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/div><\/li><li><span>6<\/span><div>&#8220;O pobre Cristo de Bomba&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/div><\/li><li><span>7<\/span><div>Todas as cita\u00e7\u00f5es de Mongo Beti foram retiradas do artigo &#8220;<em>L&#8217;Affaire Calixthe Beyala ou comment sortir du n\u00e9ocolonialisme en litt\u00e9rature<\/em>&#8221; (1997).<\/div><\/li><li><span>8<\/span><div>&#8220;Mulher nua, mulher negra&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/div><\/li><li><span>9<\/span><div>&#8220;O sol que me queimou&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/div><\/li><li><span>10<\/span><div>&#8220;Mam\u00e3e tem um amante&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/div><\/li><li><span>11<\/span><div>&#8220;Papai \u00e9 pol\u00edgamo&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/div><\/li><li><span>12<\/span><div>Em um artigo posterior, Kom (2001,43) confirma que o conte\u00fado dos romances de Beyala n\u00e3o corresponde \u00e0s expectativas do leitor africano, apesar de sua consagra\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a, lugar de canoniza\u00e7\u00e3o dos autores franc\u00f3fonos.<\/div><\/li><li><span>13<\/span><div>Ver Ndidiamaka Ononuju Ejechi (2015, 530), que cita um trecho do artigo de J. Ukoyen, &#8220;Self-Destructive Feminism in Calixthe Beyala&#8217;s <em>Les Honneurs perdus<\/em>.<\/div><\/li><li><span>14<\/span><div>Em franc\u00eas no texto de Hitchcott.<\/div><\/li><li><span>15<\/span><div>\u00c0 quest\u00e3o sobre &#8220;a parte de elementos autobiogr\u00e1ficos no &#8216;eu'&#8221; da narra\u00e7\u00e3o, Beyala respondeu: &#8220;eu jamais vivi a experi\u00eancia de Irene Fofo, se \u00e9 isso que voc\u00ea deseja saber&#8221; (&#8220;<em>L&#8217;\u00e9criture dans la peau. Entretien avec Calixthe Beyala<\/em>, Tirthankar Chanda 2003, 44).<\/div><\/li><li><span>16<\/span><div>Millet discorre sobre o tema: &#8221; frequentemente eu recebo essa reprova\u00e7\u00e3o: meu relato n\u00e3o \u00e9 suficientemente er\u00f3tico, suficientemente excitante, ele \u00e9 muito frio, muito cl\u00ednico&#8221; (&#8220;<em>Entrevue avec Catherine Millet<\/em>&#8220;, Christine Palmi\u00e9ri 2001, 18).<\/div><\/li><li><span>17<\/span><div>Todas as cita\u00e7\u00f5es dessa frase s\u00e3o retiradas da carta de Beyala enviada ao Figaro &#8220;<em> Moi, Calixthe Beyala, la plagiaire&nbsp;!<\/em>&#8221; (1997).<\/div><\/li><li><span>18<\/span><div>Todas essas cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o provenientes de <em>&#8220;L&#8217;\u00e9criture dans la peau. Entretien avec Calixthe Beyala<\/em>&#8221; (Tirthankar Chanda 2003, 42).<\/div><\/li><li><span>19<\/span><div>Citado em &#8220;<em> Moi, Calixthe Beyala, la plagiaire! ou Ambigu\u00eft\u00e9es d&#8217;une &#8216;d\u00e9fense et illustration&#8217; du plagiat<\/em>&#8221; (V\u00e9ronique Porra, 1997, 30).<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se h\u00e1 uma escritora franc\u00f3fona conhecida por seu impudor liter\u00e1rio certamente \u00e9 Calixthe Beyala. Sua propens\u00e3o a escrever sobre a sexualidade e o desejo das mulheres africanas levou os cr\u00edticos a sublinhar a originalidade de sua obra e a falar de uma &#8220;po\u00e9tica do obsceno&#8221;. Seus romances igualmente a levaram a ser qualificada como autora &#8220;pornogr\u00e1fica&#8221; e &#8220;escritora de esc\u00e2ndalos&#8221;, que exploram a provoca\u00e7\u00e3o como uma &#8220;estrat\u00e9gia que remunera&#8221;. Ainda que Beyala n\u00e3o hesite em brandir sua feminilidade e a apontar o racismo e o sexismo para denunciar as cr\u00edticas de seus detratores, colocando-se assim como v\u00edtima, mesmo assim \u00e9 \u00fatil se questionar sobre a recep\u00e7\u00e3o de seus livros e as declara\u00e7\u00f5es a seu respeito que insistem sobre sua identidade sexual e sua origem africana. Ora, impudor liter\u00e1rio que ela pratica, seja percebido positivamente ou negativamente, \u00e9 frequentemente julgado em termos dessas caracter\u00edsticas. O artigo a seguir, originalmente publicado na revista <a href=\"http:\/\/sens-public.org\/articles\/1549\/\"><em>Sens public<\/em><\/a>, analisa essas quest\u00f5es, retornando ao &#8220;Affaire Beyala&#8221; e examinando as implica\u00e7\u00f5es de sua escrita &#8220;pornogr\u00e1fica&#8221;.<span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":2655,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,81,84,49,2],"tags":[149,145,147,150,148,146,16],"class_list":["post-2614","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-feminismos","category-imigracao","category-movimentos","category-traducoes","tag-beyala","tag-ching-selao","tag-erotismo","tag-literatura","tag-negritude","tag-pornografia","tag-racismo"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2614","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2614"}],"version-history":[{"count":21,"href":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2614\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2869,"href":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2614\/revisions\/2869"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2655"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2614"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2614"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2614"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}