{"id":415,"date":"2023-09-16T05:34:49","date_gmt":"2023-09-16T05:34:49","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/?p=415"},"modified":"2023-09-16T05:34:49","modified_gmt":"2023-09-16T05:34:49","slug":"chronostalgia-uma-batalha-pela-memoria-europeia-por-gueorgui-gospodinov","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/2023\/09\/16\/chronostalgia-uma-batalha-pela-memoria-europeia-por-gueorgui-gospodinov\/","title":{"rendered":"Chronostalgia, uma batalha pela mem\u00f3ria europeia, por Gueorgui Gospodinov"},"content":{"rendered":"\n<p>A primeira coisa que eu pensei na manh\u00e3 de 24 fevereiro de 2022 quando eu ouvi as not\u00edcias sobre a invas\u00e3o russa foi que Vladimir Putin havia come\u00e7ado uma guerra contra todos n\u00f3s&nbsp;\u2013&nbsp;contra a Europa&nbsp;\u2013&nbsp;e que estavamos perto o suficiente, dentro da dist\u00e2ncia de um ataque nuclear, e que minha filha dormia no quarto ao lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda guerra \u00e9 uma m\u00e1quina do tempo, e uma volta no tempo. De repente o passado retornou, e eu me lembrei de todas as instru\u00e7\u00f5es que haviam martelado em nossas cabe\u00e7as durante a escola sobre o que fazer em caso de um ataque nuclear. Nenhuma delas tinha alguma serventia. Eu n\u00e3o tinha uma m\u00e1scara de g\u00e1s que eu pudesse colocar em menos de 17 segundos, tampouco sabia onde ficava o abrigo nuclear mais pr\u00f3ximo (depois, descobri que eles haviam sido fechados h\u00e1 muito tempo). E me pareciam particurlamente absurdas as instru\u00e7\u00f5es sobre n\u00e3o ficar perto de uma janela para n\u00e3o ser estra\u00e7alhado pela explos\u00e3o e de n\u00e3o olhar para a nuvem de cogumelo para poupar seus olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>E a cereja do bolo: at\u00e9 mesmo a dire\u00e7\u00e3o agora era diferente&nbsp;\u2013&nbsp;antes esperavamos um ataque vindo do Ocidente, e agora ele poderia vir do Oriente, direito daquele que era o nosso irm\u00e3o mais velho. \u00c9 mais do que o suficiente para confundir a pessoa que deve procurar abrigo. Considerei tudo isso, olhei rapidamente ao redor da casa e decidi que o banheiro era o melhor abrigo inicial&nbsp;\u2013&nbsp;afinal, n\u00e3o tinha janelas (sem trocar nenhuma palavra, minha esposa de repente sugeriu que fossemos checar nosso por\u00e3o para armazenar garradas de \u00e1gua ali). O mais dif\u00edcil foi explicar tudo isso para minha filha.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os sentimentos eram exatamente o de ser abruptamente empurrado de volta no tempo e, al\u00e9m disso, o do fim da vida cotidiana. H\u00e1 momentos em que o dia a dia transforma-se em hist\u00f3ria, em guerra. Eu secretamente esperava que nossa gera\u00e7\u00e3o pudesse escapar disso. Eu imaginava claramente uma fam\u00edlia ucraniana, os filhos acordando para ir ao col\u00e9gio, meio ranzinzas, eles gostariam de continuar dormindo, eles comem torrada com gel\u00e9ia e de repente a guerra \u00e9 anunciada na TV. E tudo gira em suas cabe\u00e7as, tudo desmorona, assim como, um ou dois dias depois, blocos de apartamentos, e cozinhas onde foram deixadas torradas a comer, come\u00e7am a desmoronar\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quatros anos atr\u00e1s, escrevi um romance em que o sentimento de um \u201cd\u00e9ficit de futuro\u201d era t\u00e3o intenso que toda na\u00e7\u00e3o na Europa queria fazer seu pr\u00f3prio referendo sobre o passado. At\u00e9 ali, referendos sempre foram sobre o futuro, eles definiam como as coisas deveriam ser dali pra frente, mas havia chegado o momento em que o horizonte se fechou e come\u00e7amos a olhar exclusivamente para tr\u00e1s, em dire\u00e7\u00e3o ao passado. O que tal referendo pretende? A escolha da d\u00e9cada mais feliz do s\u00e9culo 20 na hist\u00f3ria de cada na\u00e7\u00e3o. Um d\u00e9ficit de futuro sempre libera enormes reservas de nostalgia pelo passado. E eis que chega o momento do passado inundar o continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para qual d\u00e9cada do s\u00e9culo 20 na\u00e7\u00f5es como Alemanha, Fran\u00e7a e Su\u00e9cia escolheriam retornar? E aquelas que est\u00e3o na periferia, como Bulg\u00e1ria e Rom\u00eania? A escolha seria mais dif\u00edcil em alguns casos, j\u00e1 que haviam muitas d\u00e9cadas felizes, enquanto outros pa\u00edses n\u00e3o teriam nenhuma. De qualquer forma, a Alemanha escolhe o final dos anos 80, um eterno cont\u00ednuo m\u00f3vel de 1989 em que o Muro est\u00e1 constantemente caindo. A It\u00e1lia volta para os anos 60. Mas para a Bulg\u00e1ria, claro, as coisas s\u00e3o um pouco mais complicadas. \u00c9 como se o mapa da Europa passasse de territorial para temporal, e as v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es se fecham em seu pr\u00f3prio passado feliz. Mas por um curto per\u00edodo de tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que esse modelo, ou met\u00e1fora, esse forte retorno ao passado, pode ser visto hoje tamb\u00e9m. Em suma, o tempo substituiu o espa\u00e7o. O mundo foi dividido e, mais ou menos explorado e familiar,tornou-se estreito para nossas almas, para parafrasear o poeta. Ficamos com um imenso oceano de tempo, que na realidade \u00e9 um oceano de passado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Chronostalgia<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/IMG20230915165347r_gospodinovv.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"735\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/IMG20230915165347r_gospodinovv-735x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-417\" srcset=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/IMG20230915165347r_gospodinovv-735x1024.jpg 735w, http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/IMG20230915165347r_gospodinovv-215x300.jpg 215w, http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/IMG20230915165347r_gospodinovv-768x1070.jpg 768w, http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/IMG20230915165347r_gospodinovv-1103x1536.jpg 1103w, http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/IMG20230915165347r_gospodinovv.jpg 1204w\" sizes=\"(max-width: 735px) 100vw, 735px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Gu\u00e9orgui Gospodinov, <em>Le Pays du pass\u00e9<\/em>. Cr\u00e9ditos: Gallimard.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria ideia de nostalgia mudou. Ela j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais centrada em um local espec\u00edfico ou uma casa (<em>nostos<\/em>), como a etimologia da palavra sugere. Nostalgia agora \u00e9 por um tempo diferente. Tempo substituiu espa\u00e7o, ent\u00e3o talvez devessemos utilizar um outro termo&nbsp;\u2013&nbsp;<em>chronostalgia<\/em>, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, nossas guerras tornaram-se guerras pelo passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o romance foi publicado, em uma leitura p\u00fablica algu\u00e9m da audi\u00eancia me perguntou: OK, mas o que escolheu a R\u00fassia? Eu n\u00e3o tinha certeza, eu gostava de pensar que seria o tempo de Gorbachev, da&nbsp;<em>perestroika<\/em>. Mas a resposta veio no 24 de fevereiro 2022. E foi uma das mais dif\u00edceis respostas de se proferir porque, nesse referendo invis\u00edvel pelo passado, a R\u00fassia escolheu os anos da Segunda Guerra Mundial. Anos em que a m\u00edtica estaria do lado deles da \u00faltima vez. Em que eles desfrutavam do reconhecimento de um mundo que era at\u00e9 capaz de esquecer por um tempo das crueldades do sistema sovi\u00e9tico, Stalin, Gulags, Holodomor. A \u00faltima vez em que foram vencedores (ignore que do outro lado est\u00e3o aqueles que foram mortos, tornaram-se orf\u00e3os, vi\u00favas\u2026 h\u00e1 na\u00e7\u00f5es e sistemas, e o sofrimento pessoal n\u00e3o \u00e9 levado em considera\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>O romance termina com uma cena grandiosa de encena\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que pontualmente replicava o in\u00edcio da Segunda Guerra Mundial. Um tiro acidental torna a encena\u00e7\u00e3o na Terceira Guerra Mundial. At\u00e9 a hora no livro tinha de ser a mesma: 4.47 AM (tudo bem, a guerra de Putin come\u00e7ou \u00e0s 4.50).<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o, aquilo que experienciamos hoje \u00e9 uma batalha pelo passado, por uma redistribui\u00e7\u00e3o do passado. O passado como um \u00e1libi, um recurso. Para a minha gera\u00e7\u00e3o e a dos meus pais, o futuro&nbsp;\u2013&nbsp;o futuro comunista&nbsp;\u2013&nbsp;era apenas um \u00e1libi. Ali, ele poderia justificar e explicar todas as dificuldades do presente. Hoje, j\u00e1 que o \u201cfuturo\u201d foi exaurido como mat\u00e9ria prima, populistas e nacionalistas come\u00e7aram a promoter o \u201cpassado\u201d. Nesse sentido, \u00e9 compreens\u00edvel o porqu\u00ea de Vladimir Putin escolher retornar para o in\u00edcio dos anos 1940. Mas diferentes tempos e enclaves temporais podem viver lado a lado em um \u00fanico continente? N\u00e3o. E n\u00e3o apenas porque a felicidade de um povo n\u00e3o pode depender da infelicidade de um outro. Mas tamb\u00e9m porque o passado n\u00e3o \u00e9 um projeto individual. Voc\u00ea n\u00e3o pode viver nele sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>A recente infelicidade e o isolamento da R\u00fassia fez com que ela retornasse ao \u201cfeliz\u201d e poderoso tempo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Mas ali tudo \u00e9 vazio e deserto. Ningu\u00e9m com quem tenha competido ou batalhado, inimigo ou aliado, existe mais. Voc\u00ea precisa inventar um novo inimigo, uma nova amea\u00e7a. A \u00fanica op\u00e7\u00e3o \u00e9 arrastar seu vizinho mais pr\u00f3ximo para esse passado, ent\u00e3o arrastar os demais vizinhos, a Europa e o mundo, por que n\u00e3o? Com essa guerra, Putin est\u00e1 dizendo: \u201cvamos lutar no meu territ\u00f3rio, opa, desculpa, eu quis dizer no meu tempo, em 1940\u201d. \u00c9 semelhante ao aperto de m\u00e3o de Don Giovanni em&nbsp;<em>O convidado de pedra<\/em>, personagem cuja m\u00e3o estendida voc\u00ea n\u00e3o pode apertar para que n\u00e3o seja puxado pro submundo (em d\u00e9cadas recentes, v\u00e1rios pa\u00edses europeus, incluindo a Bulg\u00e1ria, falharam em entender isto e frenquentemente apertaram aquela m\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>O que Putin deseja agora n\u00e3o \u00e9 vencer essa guerra, mas que ela se torne cr\u00f4nica, para for\u00e7ar a todos n\u00f3s a viver nesse regime. Seu objetivo met\u00f3dico \u00e9 de bombardear e arrasar o presente (e o futuro) com toda sua estrutura e seu cotidiano&nbsp;\u2013&nbsp;e ent\u00e3o n\u00e3o haver\u00e1 mais \u00e1gua, ou aquecimento ou luz. Destruir a vida cotidiana, a pr\u00f3pria exist\u00eancia dela, literalmente aniquilar a na\u00e7\u00e3o ucraniana. Poder sovi\u00e9tico mais eletricidade&nbsp;\u2013&nbsp;era assim que Lenin descrevia o para\u00edso do comunismo. Hoje Putin tem sua pr\u00f3pria f\u00f3rmula nesse tema: se voc\u00ea n\u00e3o quer o poder sovi\u00e9tico, ent\u00e3o n\u00e3o haver\u00e1 eletricidade para voc\u00ea. Gra\u00e7as a deus o povo da Ucr\u00e2nia mostrou que se pode ficar sem o poder sovi\u00e9tico e sem a eletricidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/Photo21_19A-Copie.jpg\"><img decoding=\"async\" width=\"687\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/Photo21_19A-Copie-687x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-418\" srcset=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/Photo21_19A-Copie-687x1024.jpg 687w, http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/Photo21_19A-Copie-201x300.jpg 201w, http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/Photo21_19A-Copie.jpg 764w\" sizes=\"(max-width: 687px) 100vw, 687px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: G\u00e9rard Wormser.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Um projeto agressivo de reviver o passado, especialmente um passado n\u00e3o processado, esquecido e reescrito, \u00e9 o perfeito terreno para o crescimento do populismo e do nacionalismo. Vimos isso com Donald Trump, e agora vemos acontecer de forma ainda mais sinistra sob Putin.<\/p>\n\n\n\n<p>A Europa \u00e9 o continente com os maiores dep\u00f3sitos de passado. E com a maior mem\u00f3ria processada. Cultura, algo de que o continente \u00e9 t\u00e3o orgulhoso, \u00e9 fundamentalmente processar mem\u00f3rias, incluindo a mem\u00f3ria de nossas culpas, a mem\u00f3ria de nossa inf\u00e2mia, como colocaria Borges. Das primeiras pinturas rupestres, passando pela&nbsp;<em>Il\u00edada<\/em>&nbsp;e a&nbsp;<em>Odisseia<\/em>&nbsp;de Homero e&nbsp;<em>Os trabalhos e os dias<\/em>&nbsp;de Hes\u00edodo (preservar e transmitir a hist\u00f3ria no f\u00e1cil de decorar hex\u00e2metro) e por Cort\u00e9s at\u00e9 os testemunhos sobre o nazismo e a Segunda Guerra Mundial. Mem\u00f3ria e cultura fazem parte do sistema imunol\u00f3gico da Europa. E ele precisa reconhecer e desarmar os v\u00edrus da cegueira coletiva, da perca da raz\u00e3o, a loucura nacionalista e o nascimento de novos ditadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa guerra come\u00e7ou no momento em que aqueles que carregavam a mem\u00f3ria viva da Segunda Guerra j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais conosco. N\u00f3s estamos precisamente naquele precip\u00edcio geracional em que est\u00e3o morrendo os \u00faltimos participantes que mantinham a mem\u00f3ria viva&nbsp;\u2013&nbsp;os derradeiros prisioneiros dos campos de concentra\u00e7\u00e3o, os \u00faltimos soldados que lutaram nas trincheiras. Eu apenas espero que n\u00e3o estejamos rumando a uma esp\u00e9cie estranha de Alzheimer coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A mem\u00f3ria \u00e9 feita de mat\u00e9ria reativa, que deve ser exercitada diariamente. Hist\u00f3ras devem ser contadas constantemente para que sejam lembradas, porque quando a chama da mem\u00f3ria se apaga, as bestas do passada fecham o c\u00edrculo ao nosso redor. Quanto menor a mem\u00f3ria, maior o passado. N\u00f3s lembramos tamb\u00e9m para deixar o passado estacionado no passado. Mas\u2026 aqui quero pegar um pequeno retorno. Isso n\u00e3o \u00e9 mais apenas uma quest\u00e3o de mem\u00f3ria, mas tamb\u00e9m do que nos lembramos e como. Porque Putin, ele tamb\u00e9m jura de mem\u00f3ria. Porque populismo e nacionalismo criam suas pr\u00f3prias vers\u00f5es da mem\u00f3ria. Uma nova mem\u00f3ria processada que se encaixa em toda situa\u00e7\u00e3o, bidimensional, como se estivesse pronta para ser usada em um jogo. Me diga de qual mem\u00f3ria necessita que eu a entrego para voc\u00ea. Na R\u00fassia eles nunca fizeram o trabalho pesado envolvendo a mem\u00f3ria da Segunda Guerra Mundial como foi feito na Alemanha, por exemplo. O doloroso trabalho que penetra em todas as camadas da sociedade, entra nas institui\u00e7\u00f5es, escolas e manuais escolares.<\/p>\n\n\n\n<p>Os vencedores n\u00e3o ser\u00e3o julgados. Mas h\u00e1 coisa que podem ser criticadas e condenadas. A falta de tal trabalho na mem\u00f3ria&nbsp;\u2013&nbsp;e um certo remorso sobre o que o ex\u00e9rcito russo fez com civis nas na\u00e7\u00f5es conquistadas, onde um comando militar muitas vezes n\u00e3o poupava a vida de seus pr\u00f3prios soldados, onde a paran\u00f3ia enviou prisioneiros russos dos campos de Hitler direto para a Sib\u00e9ria&nbsp;\u2013&nbsp;continua a manter o pa\u00eds na situa\u00e7\u00e3o de grande v\u00edtima. Uma situa\u00e7\u00e3o e um \u00e1libi para novos sacrif\u00edcios que ele sente merecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das coisas mais pertubadoras aqui e agora \u00e9 o apagamento dos limites entre verdade e falsidade. A tentativa de nos empurrar para um mundo onde nada importa, tudo \u00e9 permitido, toda mentira pode se passar por verdade, toda conspira\u00e7\u00e3o pode ganhar da verdade. Essa \u00e9 uma falsidade que n\u00e3o apenas reescreve o passado, mas tamb\u00e9m predetermina o futuro. Colocando com maior precis\u00e3o, ela cresce em um passado reescrito para justificar atuais agress\u00f5es e inf\u00e2mias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 aqui que a an\u00e1lise e a conversa entram. \u00c9 aqui que precisamos come\u00e7ar. A linguagem \u00e9 diferente agora, e precisamos nos dar conta disso. O jeito com que contamos hist\u00f3rias \u00e9 diferente agora, ele j\u00e1 n\u00e3o mais passa por n\u00fameros, par\u00e1grafos e projetos. Ao contr\u00e1rio, ele passa direto pelas pessoas e seus medos, solid\u00e3o, confus\u00e3o e esperan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><a href=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/P5020133-Copie.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/P5020133-Copie-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-419\" width=\"772\" height=\"1030\" srcset=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/P5020133-Copie-768x1024.jpg 768w, http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/P5020133-Copie-225x300.jpg 225w, http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/P5020133-Copie-1152x1536.jpg 1152w, http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2023\/09\/P5020133-Copie.jpg 1191w\" sizes=\"(max-width: 772px) 100vw, 772px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: G\u00e9rard Wormser.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Onde est\u00e1 a Bulg\u00e1ria nisso tudo&nbsp;? Na periferia da guerra, se \u00e9 que a atual guerra tem um front e uma periferia. Considerando a dist\u00e2ncia e a geografia envolvidas, n\u00f3s estamos perto, algo entre 500 a 700 km de dist\u00e2ncia (Odessa est\u00e1 a 721 km de dist\u00e2ncia em linha reta). Entretanto, passando pelos sistemas de medidas do tempo e do passado, n\u00f3s estamos ainda mais perto.&nbsp;<em>A galinha n\u00e3o \u00e9 um p\u00e1ssaro, e a Bulg\u00e1ria n\u00e3o est\u00e1 no exterior<\/em>, como dizia o ditado sovi\u00e9tico, e em 1962 a Bulg\u00e1ria fez uma vergonhosa tentativa de renunciar sua soberania e tornou-se a 16\u02da r\u00e9publica da URSS. A conex\u00e3o Bulg\u00e1ria-R\u00fassia imposta pela hist\u00f3ria foi espertamente utilizada como propaganda, \u00e9 claro.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante toda minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia eu fui ensinado na escola que a R\u00fassia era nosso irm\u00e3o mais velho, aquele de quem n\u00e3o poderiamos nos afastar (como todo irm\u00e3o mais velho, ele bateria nas crian\u00e7as m\u00e1s da vizinhan\u00e7a que nos pertubavam). Eu tamb\u00e9m sei decorado at\u00e9 hoje que \u201ca nossa amizade com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u00e9 vitalmente necess\u00e1ria assim como o sol e o ar para todo ser vivo\u201d&nbsp;\u2013&nbsp;uma cita\u00e7\u00e3o do her\u00f3i do Julgamento de Leipzig e o primeiro ditador comunista da Bulg\u00e1ria, Georgi Dimitrov (que, por acaso, tamb\u00e9m era um cidad\u00e3o sovi\u00e9tico).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 claro, todos em minha gera\u00e7\u00e3o secretamente sonhavam com outras na\u00e7\u00f5es, aquelas desejadas terras estrangeiras a nosso oeste. Isso \u00e9 uma pequena justi\u00e7a: a URSS jamais se tornou uma destina\u00e7\u00e3o sonhada, apesar de toda a propaganda. Ao contr\u00e1rio, permanecia um lugar de que tinhamos um medo respeitoso. E isso traz consequ\u00eancias para a situa\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui a propaganda pr\u00f3 R\u00fassia trabalha facilmente em v\u00e1rios n\u00edveis. De um sentimento de gratid\u00e3o a quem nos libertou duas vezes (mas tamb\u00e9m nos escravizou duas vezes), passando por venera\u00e7\u00e3o pela cultura russa (como se Putin e Chekhov fossem irm\u00e3os g\u00eameos) at\u00e9 declara\u00e7\u00f5es de pol\u00edticos de alto escal\u00e3o, que se recusam a tomar claramente o lado da v\u00edtima. Tudo isso n\u00e3o pode fazer nada al\u00e9m de dividir a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com uma pesquisa da Eurobarometer de maio do ano passado, de todos os pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, os b\u00falgaros s\u00e3o os mais pr\u00f3ximas da posi\u00e7\u00e3o russa na guerra. Um aumento na propaganda russa foi observado. A Bulg\u00e1ria est\u00e1 em \u00faltimo lugar em letramento sobre m\u00eddias e em \u00edndices de vacina, mas em primeiro no \u00edndice&nbsp;<em>per capita<\/em>&nbsp;de mortes por Covid na Europa. Tudo isso est\u00e1 conectado, claro. E toda essa conex\u00e3o foi de repente desvelada no in\u00edcio da guerra: os antivacinas mostraram-se os mais fervorosos defensores de Putin.<\/p>\n\n\n\n<p>Facebook continua sendo a rede social mais influente na Bulg\u00e1ria, e 90% de nosso tr\u00e1fico est\u00e1 ali. O problema \u00e9 que propaganda da internet chegou \u00e0s m\u00eddias oficiais e \u00e0s s\u00e9rias tamb\u00e9m. Muitas criam conte\u00fado a partir de postagens no Facebook que elas republicam de forma acr\u00edtica e sem coment\u00e1rios. Al\u00e9m disso, o Facebook \u00e9 um laborat\u00f3rio para discurso de \u00f3dio, que tamb\u00e9m est\u00e1 sendo transferido consistentemente para as m\u00eddias oficiais. Recentemente um apoiador do partido nacionalista&nbsp;<em>Vuzrazhdane<\/em>&nbsp;(Renascimento), um convidado em um s\u00e9rio programa de televis\u00e3o, declarou que a \u00fanica coisa pela qual criticaria Putin \u00e9 que sua&nbsp;<em>blitzkrieg<\/em>&nbsp;na Ucr\u00e2nia n\u00e3o foi bem sucedida.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociedade est\u00e1 selvagemente dividida em duas. Eu n\u00e3o acho que a B\u00falgaria v\u00ea essa polariza\u00e7\u00e3o, piorada pelas redes sociais e por algumas figuras p\u00fablicas, h\u00e1 d\u00e9cadas. Pode parecer muito severo, mas eu preciso diz\u00ea-lo: \u00e0s vezes eu tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos no limiar de uma silenciosa guerra civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa parte da Europa n\u00e3o no centro dos acontecimentos da hist\u00f3ria desde 1989. Mas essa parte da Europa jamais parou de contar hist\u00f3rias e por interm\u00e9dio de sua literatura avisar sobre o que j\u00e1 aconteceu e que pode acontecer novamente. Parece-me que essas hist\u00f3rias n\u00e3o t\u00eam sido ouvidas como deveriam. Aqui podemos claramente sentir que a hist\u00f3ria ainda n\u00e3o acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora n\u00f3s sabemos e podemos formular claramente: enquanto houver um \u00fanico sangramento da hist\u00f3ria no continente, o continente inteiro sangra. Ningu\u00e9m pode descansar tranquilamente, n\u00e3o importa h\u00e1 quantos quil\u00f4metros \u00e0 oeste esteja. Percebemos que o centro da Europa n\u00e3o \u00e9 algo est\u00e1tico, preso em Berlim ou Paris. O centro da Europa \u00e9 aquele ponto m\u00f3vel da dor. Ele est\u00e1 onde d\u00f3i e sangra. Hoje ele est\u00e1 no Oriente, na orgulhosa Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um dos mais bonitos artigos sobre a Europa,&nbsp;<em>Ocidente sequestrado<\/em>, escrito durante a Guerra Fria (1983), Milan Kundera come\u00e7a no final, um telegrama desesperado enviado pelo diretor da Ag\u00eancia H\u00fangara de Not\u00edcias em 1956 e escrito enquanto o edif\u00edcio estava sob fogo de artilharia. Em sua mensagem se l\u00ea: \u00a0\u00bb n\u00f3s iremos morrer pela Hungria e pela Europa\u00a0\u00bb. Nesses minutos cr\u00edticos ele queria comunicar algo. A invas\u00e3o da Hungria pelo ex\u00e9rcito russo \u00e9 a invas\u00e3o da Europa, n\u00e3o esperem, ajam! Mas a Europa (ou o Ocidente naquele tempo) recebeu e decifrou a mensagem? O Ocidente entendeu a mensagem da invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia?<\/p>\n\n\n\n<p>Gra\u00e7as a Deus, agora n\u00f3s sabemos por quem os sinos dobram. O povo na Europa entendeu imediatamente. O artigo de Kundera termina com a amarga que, ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, o Ocidente afastou-se da Europa Central, que permaneceu sob a influ\u00eancia sovi\u00e9tica, e simplesmente pensou nela como um sat\u00e9lite do imp\u00e9rio sovi\u00e9tico sem sua pr\u00f3pria identidade. Essa in\u00e9rcia, eu ouso dizer, continuou de alguma forma mesmo ap\u00f3s 1989. A guerra na Ucr\u00e2nia na verdade fez a Europa Central e a Oriental retornarem \u00e0 Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 algum aspecto em que a periferia ultrapasse o centro? A hipersensividade sobre o que est\u00e1 prestes a acontecer. Capturar o cheiro no ar. Anteriormente a Europa Oriental aprendeu a sentir o perigo em sua pr\u00f3pria pele. Por essa raz\u00e3o, eu irei me permitir de colocar a quest\u00e3o deste modo: n\u00e3o subestimem livros, artigos ou poemas vindos dessa regi\u00e3o da Europa. Decodifiquem os s\u00edmbolos presentes neles.<\/p>\n\n\n\n<p>Palavras n\u00e3o param tanques tampouco drones. Mas elas podem (podem realmente?) parar, atrasar ou ao menos fazer que hesitem aqueles nos tanques conduzem guerras contra inocentes. Ao menos por algum tempo. Palavras podem ajudar aqueles que foram enganados por mentiras e propaganda. O fato que os horrores da Segunda Guerra Mundial n\u00e3o tenham se repetido antes de 24 de fevereiro pode ser atribu\u00eddo em partes \u00e0 mem\u00f3ria dos males que foi processada por testemunhas, escritores e fil\u00f3sofos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa guerra n\u00e3o ir\u00e1 acabar quando a \u00faltima bala for disparada. Ela come\u00e7ou anos antes do primeiro tiro e ir\u00e1 provavelmente acabar anos ap\u00f3s o \u00faltimo. Essa \u00e9 a nova velha propaganda do front, que agora est\u00e1 mais forte que nunca. E agora a pequena por\u00e9m duradoura m\u00eddia que \u00e9 a literatura tem um papel a interpretar. No m\u00ednimo, o de nos ensinar a resist\u00eancia e a empatia e o de nos fornecer ferramentas para identificar mentiras. Al\u00e9m disso, os pap\u00e9is de preservar hist\u00f3rias pessoais do epicentro da dor, de gerar mem\u00f3rias que n\u00e3o ser\u00e3o violadas e de consolar, se poss\u00edvel for.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma propaganda deve ser mais forte do que a mem\u00f3ria de um pequeno garoto fugindo da guerra com um n\u00famero de telefone anotado em seu bra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Traduzido por Luiz Capelo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Cr\u00e9ditos foto da capa:  Phelia Baruh<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Em ingl\u00eas em <a href=\"https:\/\/voxeurop.eu\/en\/chronostalgia-a-battle-for-european-memory\/\">Voxeurop<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra come\u00e7ou uma contenda sobre o passado, e Estados tentam reescrever a hist\u00f3ria para justificar a atual agress\u00e3o. A Europa precisa reconhecer e desarmar os v\u00edrus da cegueira coletiva e a loucura nacionalista, e isso s\u00f3 pode ser feito atrav\u00e9s do processamento da mem\u00f3ria e da cultura. Palavras n\u00e3o param tanques, argumenta o proeminente autor b\u00falgaro Georgi Gospodinov, mas elas podem ajudar aqueles que foram enganados por mentiras e propaganda.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":421,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[19,20],"tags":[66,69,67,71,72],"class_list":["post-415","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politique","category-societe","tag-cultura","tag-europa","tag-politica","tag-sociedade","tag-traducao"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/415","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=415"}],"version-history":[{"count":7,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/415\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":436,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/415\/revisions\/436"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-json\/wp\/v2\/media\/421"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=415"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=415"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/europrose\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=415"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}