{"id":85,"date":"2018-04-18T19:55:45","date_gmt":"2018-04-18T19:55:45","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=85"},"modified":"2023-07-14T13:37:48","modified_gmt":"2023-07-14T13:37:48","slug":"douglas-kerr-joseph-conrad-e-o-leste","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/douglas-kerr-joseph-conrad-e-o-leste\/","title":{"rendered":"Joseph Conrad e o Leste<br><span style=\"font-size:16px\">Douglas Kerr<\/span>"},"content":{"rendered":"\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-wide\"\/>\n\n\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity\"\/>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Antes de partir pela primeira vez, Joseph Conrad sabia o que na\u00e7\u00f5es poderosas e interesses materiais eram capazes de fazer contra povos mais vulner\u00e1veis. Nascido J\u00f3zef Teodor Konrad Na\u0142\u0119cz Korzeniowski, em Berdychiv, atual Ucr\u00e2nia, em 1857, pertencia a uma na\u00e7\u00e3o, a Pol\u00f4nia, que n\u00e3o constava mais nos mapas. Seu pai, Apollo, escritor e polon\u00eas nacionalista proeminente, foi preso e exilado com a fam\u00edlia por conspira\u00e7\u00e3o antirrussa, quando o filho tinha apenas quatro anos. Conrad teve ent\u00e3o sua primeira li\u00e7\u00e3o sobre o poder do imp\u00e9rio e o pre\u00e7o do idealismo. A vida foi dif\u00edcil e quando tinha apenas 11 anos seus pais j\u00e1 haviam morrido. Conrad nunca perdoou a R\u00fassia imperial: &#8220;desde os prim\u00f3rdios de sua exist\u00eancia&#8221;, escreveria em 1905 &#8220;a bruta destrui\u00e7\u00e3o da dignidade, da verdade e da integridade, de tudo que \u00e9 fiel \u00e0 natureza humana, tornou-se condi\u00e7\u00e3o imperativa para sua exist\u00eancia&#8221;. Com 17 anos, o jovem Korzeniowski partiu, inicialmente como simples marinheiro e, em seguida, como oficial em navios da marinha mercante inglesa. Aprendeu ingl\u00eas aos 20 anos e tinha a ambi\u00e7\u00e3o de tornar-se escritor naquela que se tornou sua terceira l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n<p><div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/download.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"992\" src=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/download-1024x992.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-816\" srcset=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/download-1024x992.png 1024w, http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/download-300x291.png 300w, http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/download-768x744.png 768w, http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/download-712x690.png 712w, http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/download.png 1239w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p><\/p>\n\n<figcaption class=\"wp-element-caption\">Joseph Conrad <br>Imagem: Malcolm Arbuthnot, 1921<\/figcaption>\n\n<p><\/figure>\n<\/div><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em retrospecto<\/strong><\/p>\n\n\n\n\n\n<p>Seu primeiro livro, &#8220;A Loucura do Almayer&#8221;, foi publicado em 1985, sob o nome, j\u00e1 adaptado para o ingl\u00eas, de Joseph Conrad. Por algum tempo, continuou sua carreira na marinha, antes de dedicar-se inteiramente \u00e0 escrita. Escreveu lenta e constantemente, lutando contra prazos e ansioso com quest\u00f5es de dinheiro; seu trabalho foi frequentemente interrompido por agonizantes per\u00edodos de bloqueio art\u00edstico e doen\u00e7as recorrentes. Atingiu sucesso comercial tardiamente. Conrad escreveu 20 romances, al\u00e9m de algumas das melhores fic\u00e7\u00f5es curtas do mundo. Muitos desses trabalhos remontam a lugares e pessoas que encontrou em suas viagens. No final da carreira, disse a um entrevistador que escreveu apenas &#8220;em retrospecto ao que viu e aprendeu durante os primeiros 35 anos de sua vida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">A maior parte do atlas do mundo viajado por Conrad como marinheiro estava marcado pelas cores de imp\u00e9rios rivais \u2013 Brit\u00e2nico, Franc\u00eas, Holand\u00eas, Portugu\u00eas, Espanhol, Austro-h\u00fangaro, Alem\u00e3o, Russo ou Otomano (havia tamb\u00e9m imperadores na China e no Jap\u00e3o). Navegou o Mediterr\u00e2neo e o Caribe e durante um curto per\u00edodo foi capit\u00e3o no Rio Congo, trabalhando para a infame e gananciosa Sociedade An\u00f4nima Belga para Servi\u00e7o no Alto Congo \u2013 uma experi\u00eancia registrada em &#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221; (1899), seu relato mais c\u00e9lebre.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>Ainda assim, suas jornadas frequentemente o levaram a Leste, para o arquip\u00e9lago Malaio, as \u00cdndias Orientais Holandesas (a Indon\u00e9sia moderna) e a Austr\u00e1lia. N\u00e3o foi oficial colonial, nem &#8220;<em>planter<\/em>&#8221; e, definitivamente, n\u00e3o foi um mission\u00e1rio: seu ponto de vista independente e verdadeiramente marginal enquanto marinheiro proporcionou-lhe uma perspectiva preciosa do oriente durante a era dos imp\u00e9rios. Em sua maioria, essas paisagens n\u00e3o eram belas.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>Em 1886, Conrad foi naturalizado s\u00fadito brit\u00e2nico e foi leal a seu pa\u00eds de ado\u00e7\u00e3o. Por essa raz\u00e3o, e sem d\u00favida em defer\u00eancia a seus leitores ingleses, isenta com frequ\u00eancia os brit\u00e2nicos de cr\u00edticas quanto \u00e0s pr\u00e1ticas coloniais e comerciais europeias. Ainda assim, no in\u00edcio de &#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221;, descreve Londres, o cora\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio, como &#8220;um dos lugares mais sombrios do mundo&#8221;, um organismo inquietante e maligno lan\u00e7ando tent\u00e1culos gananciosos por todo o globo. No mesmo relato, Marlow, personagem recorrente que tece coment\u00e1rios em muitas de suas hist\u00f3rias, d\u00e1 seu veredito sobre o sucesso global dos imp\u00e9rios europeus no final do s\u00e9culo XIX. &#8220;A conquista da terra, que em geral significa tomar daqueles que possuem complei\u00e7\u00e3o diversa ou narizes levemente mais achatados que os nossos, n\u00e3o \u00e9 nada agrad\u00e1vel quando observada de perto.&#8221;<\/p>\n\n\n\n\n\n<p><strong>Miss\u00e3o civilizat\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n\n\n<p>Poucos a viram t\u00e3o de perto quanto Joseph Conrad. \u00c9 poss\u00edvel que estadistas liberais como W. E. Gladstone tenham levantado d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 expans\u00e3o do imp\u00e9rio, mas esta parece ter tido um momentum pr\u00f3prio, conduzida pelas amarras de um capitalismo comercial, industrial, cada vez mais global. Para os brit\u00e2nicos, tudo parece ter sido mais uma quest\u00e3o de troca que de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou cultural e n\u00e3o teriam adquirido um imp\u00e9rio de maneira deliberada, mas, nas palavras c\u00ednicas do historiador J. R. Seeley, &#8220;como que inadvertidamente&#8221;. A maior parte das pessoas na Gr\u00e3-Bretanha, como se queixa o imperialista Rudyard Kipling, sabia pouco sobre seu imp\u00e9rio. Seus benef\u00edcios econ\u00f4micos eram apreciados (e provavelmente exagerados) e, para a maior parte dos Ingleses, parecia natural e correto que um povo t\u00e3o avan\u00e7ado estivesse no controle de um vasto n\u00famero de habitantes do outro lado planeta, povos menos desenvolvidos, menos modernos e menos capazes de cuidar de si.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>Uma vers\u00e3o do Darwinismo Social persuadiu alguns de que povos orientais estavam em uma esp\u00e9cie de estado infantil, historicamente retr\u00f3grado e at\u00e9 geneticamente inferior. Para a maioria, essa mentalidade, influentemente analisada por Edward W. Said, palestino-americano estudioso de Orientalismo, tinha base em uma gama de suposi\u00e7\u00f5es e preconceitos, n\u00e3o em um pensamento proveniente da filosofia pol\u00edtica; para outros, no entanto, parecia justificativa suficiente para a atividade imperial. Al\u00e9m de lucrativo, o imp\u00e9rio podia ser visto como uma forma de fazer o bem, j\u00e1 que oferecia a pessoas simples e incivilizadas os benef\u00edcios da modernidade, como a medicina e um bom governo e, talvez, o vislumbre de algo superior \u2013 a <em>mission civilisatrice<\/em>.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>O foco dos relatos feitos por Conrad sobre o Leste \u2013 assim como o da literatura colonialista em geral &#8211; \u00e9 predominantemente europeu. Existem algumas descri\u00e7\u00f5es impactantes de personagens &#8220;Orientais&#8221;, como&nbsp;o esplendido chefe malaio, em &#8220;Karain: Uma Mem\u00f3ria&#8221;, mas tais personagens s\u00e3o quase sempre subordinados ou figuras secund\u00e1rias na cena em que um drama Ocidental &#8211; tr\u00e1gico, c\u00f4mico ou sat\u00edrico &#8211; se&nbsp;desenrola. Esse \u00e9 de fato o tema da hist\u00f3ria de amor em &#8220;Lord&nbsp;Jim&#8221; (1900), em que o protagonista, um quixotesco jovem ingl\u00eas, ap\u00f3s uma s\u00e9rie de fracassos no in\u00edcio de sua carreira, tenta redimir-se em um posto remoto&nbsp;de&nbsp;Patusan, em Sumatra ou talvez&nbsp;Born\u00e9u, para onde fora enviado como agente de uma companhia de com\u00e9rcio europeia e onde assume uma esp\u00e9cie de papel de l\u00edder do povo local.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Patusan&nbsp;\u00e9 o palco do desenrolar do drama de Jim (trata-se, em parte, de um drama claramente racial. O personagem \u00e9 frequentemente descrito com roupas de um branco ofuscante contra um fundo escuro). Jim reencontra sua autoestima&nbsp;dominando esse povoado isolado e deliciando-se com a admira\u00e7\u00e3o de seus habitantes. O fato de ter se tornado respons\u00e1vel por eles e de ter conquistado sua confian\u00e7a \u00e9 simbolizado por sua rela\u00e7\u00e3o com a bela Eurasiana a quem chama de&nbsp;Jewel. Como todos em&nbsp;Patusan, ela admira o glamoroso estrangeiro e ele lhe assegura de que nunca ir\u00e1 deix\u00e1-la. Mas no cl\u00edmax da hist\u00f3ria, quando&nbsp;Patusan&nbsp;\u00e9 amea\u00e7ada por um bando de piratas europeus, a d\u00fabia lealdade racial de Jim leva-o a cometer outro erro catastr\u00f3fico, fazendo com que&nbsp;Patusan&nbsp;e&nbsp;Jewel&nbsp;paguem o pre\u00e7o de ter-lhe confiado seu futuro.&nbsp;Lord&nbsp;Jim n\u00e3o \u00e9 exatamente uma hist\u00f3ria sobre a perversidade do colonialismo, mas sobre seu ego\u00edsmo. Para Jim, a prote\u00e7\u00e3o de&nbsp;Patusan&nbsp;e o amor de&nbsp;Jewel&nbsp;s\u00e3o oportunidades: ambos s\u00e3o reflexos da concep\u00e7\u00e3o heroica que tem de si mesmo, embora a mesma resulte, ainda que involuntariamente, em um desastre para todos. O personagem ama&nbsp;Jewel&nbsp;por seu fascinante exotismo &#8211; embora seja parcialmente europeia &#8211; tratando-a como a uma crian\u00e7a, ao mesmo tempo que lhe atribui nomes que sugerem sua condi\u00e7\u00e3o de estimada propriedade. Nas palavras de Said, ela \u00e9 seu Oriente.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p><strong>Ideal de trabalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Al\u00e9m dos pioneiros, dos l\u00edderes, dos criminosos e dos vision\u00e1rios, assim como&nbsp;Lingard, em sua trilogia Malaia, ou&nbsp;Kurtz&nbsp;em &#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221;, Conrad estava interessado no que poderia ser chamado de funcion\u00e1rio executivo do imp\u00e9rio, nos obstinados trabalhadores que traziam o correio, reabasteciam estoques, mantinham o transporte e assim por diante. Como marinheiro, a tripula\u00e7\u00e3o de um navio era, de certa forma, um ambiente de trabalho e uma&nbsp;comunidade ideais. No final de &#8220;O Fim das For\u00e7as&#8221; (1902), h\u00e1 uma descri\u00e7\u00e3o contundente do j\u00e1 idoso e cego capit\u00e3o&nbsp;Whalley, comandante de um navio a vapor em atividade na costa de Sumatra.&nbsp;Durante&nbsp;muitas viagens, a sociedade com o taciturno <em>serang<\/em> ou contramestre malaio manteve a seguran\u00e7a e a credibilidade do navio. Mas essa parceria interracial&nbsp;tamb\u00e9m&nbsp;estava comprometida: precisando continuar a ganhar dinheiro&nbsp;e&nbsp;sem poder se&nbsp;aposentar,&nbsp;Whalley&nbsp;mant\u00e9m sua crescente cegueira em segredo, tornando o subsequente naufr\u00e1gio algo inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>Ao redor do mundo, Conrad viu e admirou pessoas que prosperavam no trabalho, mesmo suspeitando que seu ideal de servi\u00e7o estava atrelado \u00e0 lealdade a princ\u00edpios sem base na realidade. Para essas pessoas, trabalhar era uma maneira de n\u00e3o pensar sobre os motivos e m\u00e9todos do empreendimento imperial a que serviam. &#8220;Quando \u00e9 preciso dedicar-se a coisas desse tipo&#8221;, diz&nbsp;Marlow&nbsp;em &#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221;, &#8220;em rela\u00e7\u00e3o aos incidentes superficiais, a realidade \u2013 a realidade, eu digo \u2013 desvanece. A verdade intr\u00ednseca resta oculta &#8211; por sorte, por sorte&#8221;.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>&#8220;Tuf\u00e3o&#8221; (1902) \u00e9 a instigante hist\u00f3ria de um navio&nbsp;em meio a uma tempestade nos mares do sul da China. Nela, \u00e9 mostrado o hero\u00edsmo sem glamour da tripula\u00e7\u00e3o, lutando contra o vasto mar tomado por&nbsp;uma&nbsp;grande&nbsp;tormenta e, como de costume na obra de Conrad, o&nbsp;Leste&nbsp;testa os europeus, expondo suas qualidades, boas ou ruins. Os marinheiros brit\u00e2nicos saem-se bem em &#8220;Tuf\u00e3o&#8221;, embora tenham sido testados apenas pelo fato de o capit\u00e3o&nbsp;Macwhirr, um cabe\u00e7a dura, ter decidido, com o intuito de poupar carv\u00e3o, ir de encontro \u00e0 tempestade, ao inv\u00e9s de contorn\u00e1-la. Enquanto isso, a &#8220;carga&#8221; do navio, 200&nbsp;coolies&nbsp;chineses voltando para casa depois de anos de trabalho for\u00e7ado, permaneceram trancafiados em um alojamento&nbsp;entre decks, chacoalhando por horas a fio com seus parcos pertences, vomitando e lutando em absoluta escurid\u00e3o, enquanto o navio cortava a tempestade. Ao fim da viagem,&nbsp;Macwhirr&nbsp;faz a entrega de uma carga intacta, embora traumatizada.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p><strong>Cronista de um mundo dividido<\/strong><\/p>\n\n\n\n\n\n<p>Aprendemos muito mais com Conrad que com&nbsp;Kipling, por exemplo, sobre a realidade econ\u00f4mica do imperialismo europeu. &#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221; \u00e9 sobre a extra\u00e7\u00e3o de m\u00e1rmore e, fato que fica mais do que subentendido, escravos na \u00c1frica Central. A hist\u00f3ria da imagin\u00e1ria Republica Sul-americana de&nbsp;Costaguana, no romance mais ambicioso de Conrad, &#8220;Nostromo&#8221; (1904), \u00e9 uma luta pelo controle de um recurso natural, a mina de prata de S\u00e3o Tom\u00e9.&nbsp;De&nbsp;fato,&nbsp;nem todas as empreitadas comerciais foram&nbsp;bem-sucedidas. Axel&nbsp;Heyst, o protagonista sueco de &#8220;Vit\u00f3ria&#8221; (1915), mora sozinho com um servo chin\u00eas em uma ilha remota no Mar de Java, cercado pelas comodidades da falida Companhia de Carv\u00e3o da Zona Tropical, que&nbsp;tinha&nbsp;o intuito de&nbsp;tornar a ilha o posto central de um vasto imp\u00e9rio comercial. Ironicamente, \u00e9 invadida por bandidos levados por rumores falsos sobre a exist\u00eancia de enormes tesouros ali.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>Os piratas invasores&nbsp;em &#8220;Vit\u00f3ria&#8221; est\u00e3o&nbsp;entre os vil\u00f5es mais espetaculares de Conrad&nbsp;\u2013&nbsp;Mr.&nbsp;Jones, homem diab\u00f3lico que odeia mulheres, Ricardo, seu secret\u00e1rio s\u00e1dico, e Pedro, um ca\u00e7ador com apar\u00eancia de macaco.&nbsp;Heyst&nbsp;reconhece os tr\u00eas emiss\u00e1rios gananciosos de outro mundo, um mundo que havia tentado&nbsp;deixar para tr\u00e1s. &#8220;Ei-los, os emiss\u00e1rios do mundo exterior. A\u00ed os tem: a intelig\u00eancia maligna e a selvageria instintiva de bra\u00e7o dado. A for\u00e7a bruta, est\u00e1 l\u00e1 nos fundos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>Na verdade, a invas\u00e3o da ilha sequestrada havia come\u00e7ado com a chegada da Companhia de Carv\u00e3o da Zona Tropical. Pressentindo o perigo, Wang, o servo chin\u00eas de&nbsp;Heyst, encontra ref\u00fagio junto aos nativos do interior da ilha, os&nbsp;alfuros, e n\u00e3o voltar\u00e1 ou ajudar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o oriental para a confus\u00e3o dos problemas importados do ocidente. Na fic\u00e7\u00e3o de Conrad, h\u00e1 pouco sobre o tipo de resist\u00eancia anticolonial que a cr\u00edtica p\u00f3s-colonial ressalta com frequ\u00eancia. Na maior parte do tempo, habitantes locais mant\u00eam a cabe\u00e7a baixa, continuam a trabalhar e, se puderem, procuram manter-se fora do caminho.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>O primeiro imp\u00e9rio em que Conrad viveu, o dos&nbsp;Romanov, apagou seu&nbsp;pa\u00eds&nbsp;do mapa e destruiu sua fam\u00edlia. Os neg\u00f3cios mantidos por imp\u00e9rios europeus,&nbsp;no Leste e em outros lugares,&nbsp;possibilitaram que ganhasse a vida quando jovem e, mais tarde, forneceram uma vida inteira de mem\u00f3rias e de imagina\u00e7\u00e3o para o escritor. O Imp\u00e9rio, assim como a ideia de Orientalismo que o subscreveu, ampliou a diferen\u00e7a entre as pessoas, colonizadores e colonizados, Leste e Oeste. Conrad \u00e9 um dos grandes cronistas desse mundo dividido, bifurcado e desigual. Mas, assim como qualquer grande escritor, produziu uma fic\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m n\u00e3o poderia deixar de mostrar o que todas as pessoas t\u00eam em comum. &#8220;Por que&#8221;, perguntava-se em &#8220;Um Registro Pessoal&#8221;, &#8220;a mem\u00f3ria desses seres, vistos em sua obscura exist\u00eancia sob o sol, deveria expressar-se na forma de romance, a n\u00e3o ser pela misteriosa fraternidade que une, em um s\u00f3 grupo de esperan\u00e7as e medos, todos os habitantes do mundo?&#8221;<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-dark-blue-color has-text-color has-text-align-right\">Por Douglas Kerr<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Tradu\u00e7\u00e3o: Clara Fernandes<\/p>\n\n\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity\"\/>\n\n\n\n\n\n<p><strong>Douglas Kerr<\/strong> \u00e9 pesquisador e professor honor\u00e1rio de literatura inglesa na Universidade de Hong Kong<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos cronistas e cr\u00edticos mais sagazes do imp\u00e9rio Europeu oriental no s\u00e9culo XIX n\u00e3o foi um historiador, nem mesmo um cientista pol\u00edtico, mas um marinheiro polon\u00eas. Douglas Kerr analisa como Joseph Conrad dominou as narrativas do imp\u00e9rio em uma l\u00edngua que n\u00e3o era a sua.<span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":2486,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,48,71],"tags":[126,97,98,99],"class_list":["post-85","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-cultura","category-poeticas","tag-douglas-kerr","tag-joseph-conrad","tag-literatura-inglesa","tag-orientalismo"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85"}],"version-history":[{"count":26,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2584,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85\/revisions\/2584"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2486"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}