{"id":3658,"date":"2024-08-23T19:46:33","date_gmt":"2024-08-23T19:46:33","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=3658"},"modified":"2024-08-23T19:52:32","modified_gmt":"2024-08-23T19:52:32","slug":"periferia-brasileira-de-letras","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/periferia-brasileira-de-letras\/","title":{"rendered":"Periferia Brasileira de Letras<br><span style=\"font-size:16px\">Fabr\u00edcio Brito<\/span>"},"content":{"rendered":"<p><head><br \/>\n<meta charset=\"UTF-8\"><br \/>\n<meta name=\"viewport\" content=\"width=device-width, initial-scale=1.0\"><\/p>\n<style>\n        .container {\n            display: flex;\n            align-items: center;\n        }\n        .imagem {\n            margin-right: 15px; \n        }\n    <\/style>\n<p><\/head><br \/>\n<body><\/p>\n<h2>O que \u00e9 a Periferia Brasileira de Letras?<\/h2>\n<p style=\"text-align:justify\">Em 2022, a Coopera\u00e7\u00e3o Social do Instituto Fiocruz fez uma chamada para o Brasil inteiro com o intuito de selecionar iniciativas culturais desenvolvidas por coletivos de periferia ligados \u00e0 literatura. Essa sele\u00e7\u00e3o visou apoiar e fomentar esses coletivos, para que eles impulsionem projetos em suas respectivas comunidades. Assim surge a Periferia Brasileira de Letras &#8211; PBL. Felipe Eug\u00eanio e Mariane Martins, funcion\u00e1rios da Coopera\u00e7\u00e3o Social, foram os respons\u00e1veis por criar, desenvolver e elaborar o projeto. Eles pensaram na proposta, conseguiram aprov\u00e1-la no conselho da Coopera\u00e7\u00e3o Social e, a partir da\u00ed, conquistaram o recurso. Esse recurso foi destinado \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um curso de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e \u00e0 concess\u00e3o de uma bolsa. Foram selecionados coletivos de v\u00e1rios estados do Brasil, como a Bahia, o Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, o Rio Grande do Sul, Pernambuco, Cear\u00e1, Minas Gerais e Bras\u00edlia. Na Bahia, por exemplo, foram dois coletivos selecionados: um coletivo representando Salvador, o <a href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/a-pombagem-14-anos-de-arte-popular\/\"><em>Grupo de Arte Popular A Pombagem<\/em><\/a> e um coletivo que representa a cidade de Cama\u00e7ari, o coletivo <em>Slam das Mul\u00e9<\/em>.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/2drmhSD.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Foto: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vanessaragao\/\">Vanessa Arag\u00e3o<\/a><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A Periferia Brasileira de Letras busca fornecer ferramentas para que os coletivos se agigantem e possam ampliar seus horizontes e ocupar cada vez mais lugares que, durante todo esse tempo, foram excludentes e n\u00e3o acolheram iniciativas culturais perif\u00e9ricas. \u00c9 necess\u00e1rio ocupar cada vez mais lugares, tocar nossas ideias e fazer com que elas sejam traduzidas em proposi\u00e7\u00f5es de pol\u00edticas p\u00fablicas para melhorar a sociedade como um todo e construir um Brasil que reflita os nossos anseios. Por um lado, a PBL \u00e9 um projeto vinculado \u00e0 Fiocruz, o que se traduz em uma base de apoio institucional muito importante porque abre portas para a conquista de horizontes inauditos. Por outro lado, a PBL \u00e9 tamb\u00e9m uma rede e, nesse sentido, \u00e9 um movimento popular com certa autonomia, que dialoga internamente e que busca solu\u00e7\u00f5es para al\u00e9m dessa institucionalidade da Fiocruz. Ou seja, a PBL \u00e9 uma rede que n\u00e3o produz apenas o que est\u00e1 dentro do <em>script<\/em> institucional da Fiocruz, ela pensa por si mesma, mesmo que tenha esse v\u00ednculo com a Fiocruz.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/8jgONrq.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Foto: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vanessaragao\/\">Vanessa Arag\u00e3o<\/a><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A Fiocruz forneceu aos coletivos selecionados um curso de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica voltado para instrumentalizar uma s\u00e9rie de quest\u00f5es, como o apoio, o patroc\u00ednio e o fomento. O objetivo era refletir sobre financiamento, para al\u00e9m dos editais das funda\u00e7\u00f5es de cultura e do apoio dessas linhas de fomento mais tradicionais, e pensar em como conseguir de fato incidir em pol\u00edticas p\u00fablicas, elaborando proposi\u00e7\u00f5es e emplacando essas propostas no \u00e2mbito institucional. O curso foi feito de forma virtual, pois s\u00e3o pessoas de v\u00e1rias regi\u00f5es. A proposta da PBL \u00e9 interligar as produ\u00e7\u00f5es de territ\u00f3rios perif\u00e9ricos em diferentes regi\u00f5es do Brasil. A troca entre coletivos de diferentes regi\u00f5es foi muito boa para o aprendizado de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Foram doze coletivos selecionados. O projeto objetivou contemplar os representantes com a bolsa para que eles repassassem tudo que estava acontecendo no curso para os demais integrantes de seus respectivos coletivos. Ent\u00e3o, \u00e9 uma proposta de multiplica\u00e7\u00e3o do conhecimento, de passar adiante as conversas e as experi\u00eancias envolvidas em todo esse processo promovido pela PBL. Com o passar do tempo e atrav\u00e9s das trocas e intera\u00e7\u00f5es, a PBL come\u00e7ou a ganhar uma dimens\u00e3o de um movimento. Eis os coletivos que fazem parte da PBL:<\/p>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/43\/de\/2vpxZ5Eu_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O Baixada Liter\u00e1ria \u00e9 um coletivo formado por 20 bibliotecas comunit\u00e1rias. \u00c9 um Coletivo conduzido exclusivamente por mulheres e atua para contribuir com a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso ao livro, \u00e0 leitura e \u00e0 literatura como Direito Humano em Nova Igua\u00e7u, Rio de Janeiro.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/9b\/36\/3tJjRGLy_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A Biblioteca Comunit\u00e1ria Caranguejo Tabaiares est\u00e1 localizada em Tabaiares, uma comunidade perif\u00e9rica do Recife, Pernambudo. A Biblioteca \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que promove o incentivo e a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 leitura.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/da\/0e\/gfzob9Hc_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A Biblioteca Comunit\u00e1ria Girassol est\u00e1 localizada no Sarandi, zona norte de Porto Alegre. O Girassol \u00e9 um espa\u00e7o cultural que atende as Vilas Elizabeth, Respeito, Uni\u00e3o e Nova Bras\u00edlia. A Biblioteca tem um acervo de 1350 livros e realiza a forma\u00e7\u00e3o de leitores por interm\u00e9dio do empr\u00e9stimo de livros.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/66\/36\/F2qDDwK2_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A Rede de Bibliotecas Comunit\u00e1rias do Rio Grande do Sul atua aproximando causas e projetos em prol da democratiza\u00e7\u00e3o do acesso ao livro e \u00e0 cultura. A Rede acredita que a leitura \u00e9 um direito humano e o acesso aos livros garante a busca por outros direitos fundamentais.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/32\/78\/HBz80hwQ_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O Coletivoz Sarau da Periferia \u00e9 um movimento cultural que promove encontros art\u00edsticos e po\u00e9ticos no contexto da literatura marginal e perif\u00e9rica de Minas Gerais e brasileira. Seu grito de guerra \u00e9 &#8220;\u00c0 luta, \u00e0 voz&#8221;. O Coletivoz incentiva a leitura liter\u00e1ria como forma de ocupar espaos e questionar as elites hegem\u00f4nicas das produ\u00e7\u00f5es culturais e educacionais em Belo Horizonte, Minas Gerais.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/25\/77\/WCWUIdse_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O Ecomuseu de Manguinhos, localizado na favela de Manguinhos, no Rio de Janeiro, \u00e9, junto com a Fiocruz, um dos idealizadores da Periferia Brasileira de Letras. O Ecomuseu \u00e9 um museu sem paredes e produz debates, document\u00e1rios, exposi\u00e7\u00f5es fotogr\u00e1ficas, festivais, r\u00e1dio livre e mesas de debate.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/54\/14\/Khum7UOB_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A Kitembo \u00e9 uma editora fundada em 2018 e cuja proposta \u00e9 publicar obras com conceitos positivo das culturas negras e afrobrasileiras. Ela publica fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, fantasia e afrofuturismo. Atualmente, a Kitembo j\u00e1 tem 11 obras publicadas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/53\/f1\/Aucj92bW_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;margin-bottom:10px\">O Coletivo Papo Reto est\u00e1 localizado em Planaltina, Distrito Federal. Seu objetivo \u00e9 constituir um corpo de pessoas comprometidas com a promo\u00e7\u00e3o de valores e do protagonismo no ambiente escolar. O Coletivo \u00e9 formado majoritariamente por professores da rede p\u00fablica do Distrito Federal e ele visa amplificar os processos criativos por meio da literatura e da escrita.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/99\/3c\/Rz7iH1FQ_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;margin-bottom:10px\">O Periferia que L\u00ea \u00e9 um projeto social baseado em a\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rios e cujo objetivo \u00e9 incentivar a leitura e as pr\u00e1ticas liter\u00e1rias. O Periferia atua no Grande Bom Jardim, uma das maiores periferias de Fortaleza. Ele conecta a comunidade aos artistas locais. Suas principais atividades s\u00e3o as geladeiras liter\u00e1rias nas ruas, a\u00e7\u00f5es de leitura, conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias e ajuntamentos com escritores locais.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/63\/9f\/xm4jaiGo_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O Sarau Poesia da Esquina \u00e9 um movimento cultural localizado na Cidade de Deus, favela na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O Sarau realiza eventos p\u00fablicos e oficinas liter\u00e1rias voltados sobretudo para o p\u00fablico infanto-juvenil e feminino. Al\u00e9m disso, o Sarau se articula para a publica\u00e7\u00e3o de livros de autores afro-ind\u00edgenas e provenientes das favelas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/ff\/a5\/hAANRa6H_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A Iniciativa Cultural Poetas Vivos \u00e9 uma iniciativa afrocentrada localizada em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Seu objetivo \u00e9 fomentar a arte e a educa\u00e7\u00e3o negra e perif\u00e9rica. Ele atua diretamente nas escolas e universidades do Rio Grande do Sul e desenvolve oficinas, palestras, shows musicais e Slams.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/19\/27\/VR0mZA9H_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O grupo de Arte Popular A Pombagem atua na cidade de Salvador, Bahia. A Pombagem atua com apresenta\u00e7\u00e3o de teatro de rua em pra\u00e7as e monumentos da cidade. Com sua dramaturgia constru\u00edda coletivamente e inspirada na poesia popular, A Pombagem leva o teatro e a literatura para as periferias de Salvador. Atualmente, o grupo trabalha com uma pesquisa c\u00eanica em torno da &#8220;Festa do Lixo&#8221;, ocorrida no bairro de Fazenda Grande do Retiro.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/d0\/ed\/CcuE9EFx_o.png\"><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O Slam das Mui\u00e9 \u00e9 um campeonato de poesia falada sediado em Cama\u00e7ari, Bahia. \u00c9 o primeiro campeonato desse tipo no munic\u00edpio e o primeito Slam da Bahia ocorrido fora de Salvador. O Slam das Mui\u00e9 oferece performances po\u00e9ticas, palestras e oficinas, al\u00e9m de promover o incentivo \u00e0 leitura e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<\/div>\n<h2>Os pilares de atua\u00e7\u00e3o da PBL: promo\u00e7\u00e3o da literatura e da sa\u00fade<\/h2>\n<p style=\"text-align:justify\">Durante o curso, no per\u00edodo inicial do projeto PBL, discutiu-se e debateu-se sobre a atua\u00e7\u00e3o da Fiocruz. \u00c9 importante salientar que a Fiocruz foi uma institui\u00e7\u00e3o important\u00edssima no contexto da pandemia. Ela fez frente \u00e0 m\u00e1 gest\u00e3o bolsonarista com uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0s vacinas e \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o sobre import\u00e2ncia da vacina\u00e7\u00e3o. A Fiocruz enfrentou a pandemia e salvou vidas. De modo resumido, a Fiocruz contribuiu para a mem\u00f3ria de resist\u00eancia no Brasil frente ao bolsonarismo, na quest\u00e3o da pandemia, operando com uma no\u00e7\u00e3o de sa\u00fade bastante ampliada e em conson\u00e2ncia com a no\u00e7\u00e3o discutida e propalada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade. A OMS diz que sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 apenas aus\u00eancia de doen\u00e7a. A sa\u00fade, na verdade, \u00e9 um completo estado de bem-estar social, f\u00edsico e mental. Ela est\u00e1 ligada, por exemplo, \u00e0 cidadania, \u00e0 participa\u00e7\u00e3o social, \u00e0 qualidade de vida, \u00e0 empregabilidade e \u00e0 justi\u00e7a social. Ent\u00e3o, n\u00f3s seremos cidad\u00e3os quando houver justi\u00e7a social, quando houver participa\u00e7\u00e3o social, quando houver pol\u00edtica p\u00fablica. Ou seja, quanto maior o acesso a empregabilidade, participa\u00e7\u00e3o social, cidadania e qualidade de vida, mais sa\u00fade n\u00f3s teremos.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/uSFzbWF.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Foto: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vanessaragao\/\">Vanessa Arag\u00e3o<\/a><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O entendimento de sa\u00fade da OMS e da Fiocruz abarca pontos que s\u00e3o fundamentais para que nossos territ\u00f3rios deixem de ser territ\u00f3rios vulnerabilizados e passem a ser territ\u00f3rios saud\u00e1veis. Esta \u00e9 a proposta da Periferia Brasileira de Letras: colocar em pr\u00e1tica essa no\u00e7\u00e3o ampliada de sa\u00fade e potencializar os nossos trabalhos liter\u00e1rios. Ent\u00e3o, de um lado, h\u00e1 a quest\u00e3o da sa\u00fade e, do outro lado, h\u00e1 a ideia de literatura. A literatura com a qual trabalhamos, vale dizer, n\u00e3o se reduz ao texto, \u00e0 prosa, \u00e0 poesia, ao poema ou a qualquer outra modalidade liter\u00e1ria caligrafada no texto. Ela vai al\u00e9m do texto positivado no papel e entra no espa\u00e7o imaterial das ruas, no espa\u00e7o p\u00fablico das ruas. Em que sentido? \u00c9 a literatura que ganha subst\u00e2ncia e sentido na performance, uma literatura que se d\u00e1 por meio da oralidade e do trabalho de corpo nas ruas, do trabalho de teatro popular, do trabalho de teatro de rua.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/VpGpPXB.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Foto: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vanessaragao\/\">Vanessa Arag\u00e3o<\/a><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No caso espec\u00edfico dos segmentos e dos coletivos que atuam com literatura, leitura, escrita, livros e bibliotecas, h\u00e1 uma coisa que \u00e9 bem interessante nessa experi\u00eancia de conversa. Um ponto bem presente em todas essas realidades perif\u00e9ricas \u00e9 a viol\u00eancia institucional. Essa \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o que vem de cima e acaba impedindo o pleno exerc\u00edcio do fazer liter\u00e1rio em nossas comunidades, em nossos territ\u00f3rios. Ou seja, o trabalho desenvolvido, mesmo sendo um trabalho de cultura, mesmo sendo um trabalho de arte e educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 alvo de uma s\u00e9rie de viola\u00e7\u00f5es institucionais. No passado, a capoeira e o samba tamb\u00e9m foram v\u00edtimas de viol\u00eancia institucional. S\u00e3o express\u00f5es art\u00edsticas e culturais que sofrem, porque se tornam um alvo dos mais diversos aparelhos coercitivos de opress\u00e3o do Estado e da sociedade civil conservadora.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/rbBKesL.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Foto: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vanessaragao\/\">Vanessa Arag\u00e3o<\/a><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A viol\u00eancia \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do que somos enquanto arte, cultura e pensamento. A viol\u00eancia se d\u00e1 seja pela aus\u00eancia de pol\u00edtica p\u00fablica, seja pela presen\u00e7a de uma pol\u00edtica p\u00fablica que n\u00e3o nos favorece, mas que, ao contr\u00e1rio, nos violenta e \u00e9 mal\u00e9fica conosco. H\u00e1 ent\u00e3o dois afazeres: fazer com que se crie um conjunto de proposi\u00e7\u00f5es que sejam favor\u00e1veis a pol\u00edticas p\u00fablicas de literatura, de livros, de leitura, de escrita e de biblioteca; e \u00e9 preciso fazer o combate necess\u00e1rio quando o que existe \u00e9 uma pol\u00edtica de morte, uma pol\u00edtica que acaba por anular ou por tentar pelo menos anular as nossas express\u00f5es de vida, porque acaba por anular a nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A Periferia Brasileira de Letras tem a perspectiva de articular pol\u00edticas p\u00fablicas saud\u00e1veis, o que pressup\u00f5e que existem pol\u00edticas p\u00fablicas diversas. A op\u00e7\u00e3o que a PBL faz \u00e9 se concentrar em pol\u00edticas que gerem o bem-estar social. As pol\u00edticas p\u00fablicas saud\u00e1veis evocadas pela Periferia Brasileira de Letras s\u00e3o justamente aquelas que far\u00e3o com que a gente consiga se colocar no mundo sem esses empecilhos, sem essas dificuldades, sem essas viol\u00eancias. Uma pol\u00edtica p\u00fablica propositiva saud\u00e1vel passa necessariamente por lutar para que haja editais, programas e projetos que cheguem de fato na ponta, ou seja, na periferia e nos territ\u00f3rios vulnerabilizados. Uma pol\u00edtica p\u00fablica defensiva saud\u00e1vel \u00e9 aquela que vai se contrapor \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas contr\u00e1rias ou inimigas da arte, da cultura, do pensamento perif\u00e9rico.<\/p>\n<h2>Primeiro encontro da Periferia Brasileira de Letras<\/h2>\n<p style=\"text-align:justify\">O <em>Primeiro Encontro Nacional da Periferia Brasileira de Letras<\/em> aconteceu em Salvador, entre os dias 10 e 12 de abril de 2024. O encontro foi precedido por uma s\u00e9rie de reuni\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o, muitas dessas ocorridas em Bras\u00edlia. A Secretaria de Forma\u00e7\u00e3o, Livro e Leitura, do Minist\u00e9rio da Cultura, apoiou financeiramente o encontro. Al\u00e9m disso, a Secretaria de Cultura da Bahia, a Funda\u00e7\u00e3o Cultural do Estado da Bahia, a Funda\u00e7\u00e3o Pedro Calmon, entre outras, tamb\u00e9m apoiaram o evento. Durante a realiza\u00e7\u00e3o do <em>Encontro Nacional da Periferia Brasileira de Letras<\/em>, inserimos na programa\u00e7\u00e3o do encontro uma audi\u00eancia p\u00fablica, que aconteceu na Comiss\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia. A audi\u00eancia foi aprovada com a anu\u00eancia do deputado estadual Robinson Almeida. Nela, discutimos uma s\u00e9rie de demandas oriundas dessas comunidades em que atuam os coletivos da PBL. Isso foi super importante no encontro e eu cumpri um papel decisivo nisso.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/qYKEeeq.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Foto: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vanessaragao\/\">Vanessa Arag\u00e3o<\/a><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">As pessoas gostaram muito quando foi dada a proposta de o encontro ser em Salvador. Primeiro, Salvador \u00e9 uma cidade bonita e tem toda essa quest\u00e3o de ser muito bom estar aqui. Salvador possibilita tamb\u00e9m uma reconex\u00e3o com nossa ancestralidade afroind\u00edgena, que \u00e9 importante para continuarmos a luta por uma sociedade mais justa. Al\u00e9m disso, h\u00e1 de ser simb\u00f3lico esse encontro aqui por conta do peso que a Bahia e Salvador tiveram nas elei\u00e7\u00f5es e diante desse processo pol\u00edtico dif\u00edcil pelo qual passamos diante de um governo inimigo da vida e das exist\u00eancias. A Bahia e o Nordeste como um todo cumpriram um papel decisivo para mudar esse paradigma e nos permitiram voltar a respirar, a retomar o f\u00f4lego e poder ter um horizonte de democracia, mais uma vez. N\u00e3o \u00e9 que as coisas hoje estejam as melhores do mundo, mas sabemos que essa elei\u00e7\u00e3o poderia ter nos colocado em uma situa\u00e7\u00e3o pior. As participa\u00e7\u00f5es do Nordeste, da Bahia e de Salvador foram fundamentais para o presidente Lula mais uma vez ser eleito. Uma outra coisa que \u00e9 legal de falar \u00e9 que Salvador tamb\u00e9m vibrou com essa quantidade expressiva de pessoas, de coletivos, de realidades e de experi\u00eancias que o encontro propiciou. O <em>Primeiro Encontro Nacional<\/em> trouxe essa gente toda para Salvador e tivemos acesso a todas essas narrativas e hist\u00f3rias de vida, cada uma mais incr\u00edvel que a outra. E n\u00f3s crescemos muito com tudo isso. Tamb\u00e9m \u00e9 importante mencionar que Salvador e a Bahia foram fundamentais no processo de independ\u00eancia do Brasil. Logo a import\u00e2ncia de falarmos do 2 de julho e do trabalho realizado por <em>A Pombagem<\/em> na Festa do Lixo.<\/p>\n<h2>O 2 de julho e <em>A Pombagem<\/em><\/h2>\n<p style=\"text-align:justify\">O 2 de Julho \u00e9 a data m\u00e1xima da Bahia, com os festejos de comemora\u00e7\u00e3o e celebra\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia do Brasil<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3658\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3658-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3658-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\">O 2 de Julho \u00e9 a data em que \u00e9 comemorada a Independ\u00eancia da Bahia, tamb\u00e9m conhecida como Independ\u00eancia do Brasil na Bahia. Ao contr\u00e1rio do costumeiramente divulgado, o processo de independ\u00eancia do Brasil n\u00e3o foi pac\u00edfico. O mito de uma independ\u00eancia pac\u00edfica serve como forma de apagamento das dissid\u00eancias e de controle social. A Independ\u00eancia foi proclamada em 1822, mas, na Bahia, a guerra da independ\u00eancia apenas termina em 2 de julho de 1823. Houveram conflitos armados tamb\u00e9m na Cisplatina, no Maranh\u00e3o, no Par\u00e1 e no Piau\u00ed. Nota da Reda\u00e7\u00e3o<\/span>. A <em>Pombagem<\/em>, especificamente, tem um trabalho legal que articula e combina isso tudo. De um lado, n\u00f3s somos poetas, somos um grupo de literatura e de teatro de rua pautado em poesia. Nosso trabalho, contudo, n\u00e3o se encerra nesse segmento espec\u00edfico da literatura, nessa linguagem liter\u00e1ria. Temos um trabalho que combina literatura, teatro de rua e museologia. Isso \u00e9 uma coisa fascinante. Se observarmos a Antiguidade ocidental, os poetas cantadores, tamb\u00e9m chamados de aedos, eram poetas que, ao cantar suas poesias, evocavam mem\u00f3rias. E o museu \u00e9 um lugar de mem\u00f3ria. Ent\u00e3o, em nossas apresenta\u00e7\u00f5es fazemos a combina\u00e7\u00e3o entre hist\u00f3ria, patrim\u00f4nio e mem\u00f3ria quando apresentamos nossos espet\u00e1culos.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/fDmcYUi.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Foto: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vanessaragao\/\">Vanessa Arag\u00e3o<\/a><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O nosso espet\u00e1culo se intitula &#8220;O museu \u00e9 a rua&#8221; e traz justamente a ideia de que a rua \u00e9 uma esp\u00e9cie de sala de aula a c\u00e9u aberto em que as hist\u00f3rias s\u00e3o apresentadas, discutidas e debatidas. O 2 de Julho se apresenta aqui em Salvador como uma performance espetacular, porque \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o cultural que se d\u00e1 por meio de um cortejo que come\u00e7a no Largo da Lapinha e vai at\u00e9 o Campo Grande, aos p\u00e9s do caboclo, que j\u00e1 foi, inclusive, o maior monumento p\u00fablico da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O cortejo do 2 de Julho inspira muito o <em>Grupo de Arte Popular a Pombagem<\/em>, porque \u00e9 justamente um cortejo que encena nas ruas o processo de Independ\u00eancia da Bahia, em 1822-1823. \u00c9 um cortejo perform\u00e1tico. \u00c9 uma performance espetacular que encena e traz \u00e0 tona essa mem\u00f3ria da liberta\u00e7\u00e3o do povo baiano frente aos dom\u00ednios lusitanos. N\u00f3s nos inspiramos nisso e, nos nossos espet\u00e1culos de teatro e poesia, tamb\u00e9m trazemos as mais diversas mem\u00f3rias, que s\u00e3o mem\u00f3rias de luta e resist\u00eancia. Uma delas \u00e9 inclusive \u00e9 o pr\u00f3prio 2 de Julho. Na verdade, o 2 de Julho \u00e9 a mem\u00f3ria que mais evocamos em nossos espet\u00e1culos. Especificamente, no ano de 2024, n\u00f3s faremos uma a\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o que funciona como nossa sede, na Fazenda Grande do Retiro. A nossa sede \u00e9 tamb\u00e9m um museu, trazendo toda essa rela\u00e7\u00e3o que existe entre literatura, teatro e mem\u00f3ria.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/J57s8jM.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Foto: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vanessaragao\/\">Vanessa Arag\u00e3o<\/a><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nesse sentido, n\u00f3s reinauguramos nossa sede no 2 de Julho com uma exposi\u00e7\u00e3o que se chama &#8220;Viva a Festa do Lixo&#8221;. A &#8220;Festa do Lixo&#8221; foi uma festa que hoje n\u00e3o existe mais, mas que existiu entre 1975 e 1985 e acontecia no 2 de Julho. Existe na cidade de Salvador um circuito oficial do 2 de Julho, que se inicia no Largo da Lapinha e vai at\u00e9 o Campo Grande, mas tamb\u00e9m existem circuitos perif\u00e9ricos e marginais que est\u00e3o fora desse trecho oficial. A Fazenda Grande do Retiro, que \u00e9 o bairro de <em>A Pombagem<\/em>, tinha o seu pr\u00f3prio 2 de Julho, a &#8220;Festa do Lixo&#8221;, que surgiu porque os moradores locais estavam cansados e muito insatisfeitos com a gest\u00e3o p\u00fablica, pois quase n\u00e3o havia coleta de lixo no bairro. Ent\u00e3o a grande discuss\u00e3o do bairro era a coleta de lixo, o saneamento b\u00e1sico e o direito a um ambiente saud\u00e1vel &#8211; saud\u00e1vel, sa\u00fade, Fiocruz. Tudo isso se interliga.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">\u00c9 interessante que, por conta dessa neglig\u00eancia da gest\u00e3o p\u00fablica, os moradores decidiram, em um gesto de independ\u00eancia, no 2 de Julho, que \u00e9 a data da Independ\u00eancia da Bahia, tirar de suas casas o lixo e levar esse lixo para a frente da Imprensa Gr\u00e1fica da Bahia. Ora, a Imprensa Gr\u00e1fica da Bahia, a imprensa oficial do Estado, fica no bairro da Fazenda Grande do Retiro, um bairro perif\u00e9rico, mas essa institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 uma contrapartida e n\u00e3o tem responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o ao seu entorno, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade. Ent\u00e3o, \u00e9 como se ela estivesse numa bolha desgarrada do territ\u00f3rio. No 2 de Julho de 1975, os moradores locais fizeram o movimento popular de levar o lixo de suas casas e colocar ali na frente da Imprensa Oficial do Estado. Essa a\u00e7\u00e3o travou n\u00e3o s\u00f3 o bairro, mas toda a cidade, porque \u00e9 dali que sai o di\u00e1rio oficial.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/8f4cBpm.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Foto: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vanessaragao\/\">Vanessa Arag\u00e3o<\/a><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Imagine o di\u00e1rio oficial impedido de circular, impedido de ser distribu\u00eddo pela Bahia toda, por causa dessa manifesta\u00e7\u00e3o local do bairro de Fazenda Grande do Retiro. Isso aconteceu e chamou a aten\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios jornais, pol\u00edticos, artistas e intelectuais. Na &#8220;Festa do Lixo&#8221;, a reivindica\u00e7\u00e3o acontecia por interm\u00e9dio da literatura de cordel. Os moradores locais iam cantando e declamando seus versos de cordel durante a caminhada, que acontecia em forma de cortejo de um lugar para o outro, de suas casas at\u00e9 a Imprensa Oficial. Eles carregavam cartazes e faixas, demonstrando todas as caracter\u00edsticas de um protesto, mas trazendo tamb\u00e9m muita arte e muita m\u00fasica. Havia, por exemplo, o cordel, o teatro de rua, o samba junino presentes nesse cortejo, nessa festa. Ou seja, era uma reivindica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por meio da arte que ocorria de maneira cantada, dan\u00e7ada e recitada. E isso foi virando uma tradi\u00e7\u00e3o. Aconteceu no 2 de Julho de 75, mas se repetiu nos posteriores 2 de Julho.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/mrcDyLd.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Foto: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vanessaragao\/\">Vanessa Arag\u00e3o<\/a><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A &#8220;Festa do Lixo&#8221; \u00e9 um 2 de Julho popular, marginal, perif\u00e9rico e que est\u00e1 num circuito alternativo. Ent\u00e3o, reinauguramos o espa\u00e7o de a <em>Pombagem<\/em> no 2 de Julho com uma exposi\u00e7\u00e3o sobre a &#8220;Festa do Lixo&#8221; para a juventude do bairro e as pessoas de modo geral n\u00e3o perderem essa liga\u00e7\u00e3o com a mem\u00f3ria do bairro, com a mem\u00f3ria local de luta a favor da coleta de lixo, de luta em prol do direito a um ambiente saud\u00e1vel, do saneamento b\u00e1sico, da justi\u00e7a, da educa\u00e7\u00e3o, da cultura e da redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. \u00c9 uma disputa do imagin\u00e1rio, um tensionamento de lugar, uma disputa de narrativa e uma disputa tamb\u00e9m dos imagin\u00e1rios da cidade, mecanismos que sempre estiveram presentes em nosso coletivo. Um territ\u00f3rio saud\u00e1vel \u00e9 um territ\u00f3rio em que as pessoas se respeitam, n\u00e3o h\u00e1 discrimina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 racismo e n\u00e3o h\u00e1 nenhum tipo de opress\u00e3o social, de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. \u00c9 contra tudo isso que a nossa literatura luta, contra todas essas viol\u00eancias. Essa \u00e9 a nossa literatura, o nosso teatro de rua e a nossa participa\u00e7\u00e3o no mundo. Assim, ela est\u00e1 em conson\u00e2ncia com a no\u00e7\u00e3o ampliada de sa\u00fade que a Fiocruz opera t\u00e3o bem e que a PBL opera t\u00e3o bem.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/thumbs2.imgbox.com\/c3\/7e\/Sysw3XuY_t.jpg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Foto: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vanessaragao\/\">Vanessa Arag\u00e3o<\/a><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Fabricio Brito<\/strong><br \/><em>\u00c9 poeta e fil\u00f3sofo. Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA, \u00e9 o idealizador do Coletivo Arte Marginal Salvador e do Grupo de Arte Popular A Pombagem. Fabr\u00edcio esteve, entre 2015 e 2020, como coordenador ou organizador de uma s\u00e9rie de movimentos e eventos relacionados \u00e0 arte e sua instala\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o p\u00fablico baiano: Movimento de Teatro de Rua da Bahia; XXII Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua; I, II e III Encontros de Filosofia e Teatro de Rua da Bahia; Mostra Nordestina de Teatro de Rua; Mostra de Artes C\u00eanicas do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Cultura e Sociedade da UFBA). \u00c9 fundador da Casa do Museu Popular da Bahia, \u00e9 tamb\u00e9m membro do Coletivo de Pol\u00edticas Culturais do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (CULT) da UFBA. \u00c9 membro e articulador da Rede Periferia Brasileira de Letras (PBL).<\/em><\/p>\n<p><\/body><\/p>\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div>O 2 de Julho \u00e9 a data em que \u00e9 comemorada a Independ\u00eancia da Bahia, tamb\u00e9m conhecida como Independ\u00eancia do Brasil na Bahia. Ao contr\u00e1rio do costumeiramente divulgado, o processo de independ\u00eancia do Brasil n\u00e3o foi pac\u00edfico. O mito de uma independ\u00eancia pac\u00edfica serve como forma de apagamento das dissid\u00eancias e de controle social. A Independ\u00eancia foi proclamada em 1822, mas, na Bahia, a guerra da independ\u00eancia apenas termina em 2 de julho de 1823. Houveram conflitos armados tamb\u00e9m na Cisplatina, no Maranh\u00e3o, no Par\u00e1 e no Piau\u00ed. Nota da Reda\u00e7\u00e3o<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify\">Em seu texto, Fabr\u00edcio Brito apresenta a Periferia Brasileira de Letras &#8211; PBL, um projeto feito com a participa\u00e7\u00e3o da Fiocruz. Fabr\u00edcio \u00e9 tamb\u00e9m dirigente do coletivo <em>A Pombagem<\/em>, coletivo este que j\u00e1 tem um texto dedicado a ele <a href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/a-pombagem-14-anos-de-arte-popular\/\">publicado pelo Coletivo Brasil<\/a>. Ao final, Fabr\u00edcio fala da import\u00e2ncia da data do 2 de Julho e das atividades de <em>A Pombagem<\/em> envolvendo as festividades.<\/p>\n<p><span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":3663,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,48,75],"tags":[204,203,383,380,321,382,150,364,381,201,206,207],"class_list":["post-3658","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-cultura","category-performance-urbana","tag-arte-popular","tag-arte-urbana","tag-biblioteca","tag-fabricio-brito","tag-fiocruz","tag-letramento","tag-literatura","tag-museu","tag-periferia-brasileira-de-letras","tag-pombagem","tag-salvador","tag-teatro"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3658","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3658"}],"version-history":[{"count":9,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3658\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3669,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3658\/revisions\/3669"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3663"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3658"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3658"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3658"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}