{"id":3640,"date":"2024-08-07T19:01:26","date_gmt":"2024-08-07T19:01:26","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=3640"},"modified":"2024-08-07T19:01:27","modified_gmt":"2024-08-07T19:01:27","slug":"elogio-ao-bug","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/elogio-ao-bug\/","title":{"rendered":"Elogio ao bug<br><span style=\"font-size:20px\">Esse precioso instrumento de resist\u00eancia frente aos gigantes do digital<\/span><br><span style=\"font-size:16px\">Marcello Vitali-Rosati<\/span>"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;font-style:italic\">Entrevista originalmente publicada, em franc\u00eas, pela revista <a href=\"https:\/\/usbeketrica.com\/fr\/article\/le-bug-un-outil-de-resistance-insoupconne-face-a-la-mainmise-des-gafam\">Usbek\u00a0&#038;\u00a0Rica<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em seu livro rec\u00e9m publicado <em>\u00c9loge du bug<\/em> (lan\u00e7ado pela editora <em>La D\u00e9couverte<\/em> 7 de maio deste ano), o fil\u00f3sofo Marcello Vitali-Rosati nos convida a mudar o olhar sobre tudo aquilo que atrapalha a bem lubrificada m\u00e1quina do digital. Debatemos com ele sobre um ensaio estimulante que combina S\u00f3crates, os GAFAMs<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3640\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3640-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3640-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\">O acr\u00f4nimo faz refer\u00eancia \u00e0s empresas de tecnologia Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft. Nota da tradu\u00e7\u00e3o.<\/span> e a comunidade Linux.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">N\u00e3o \u00e9 sempre que um fil\u00f3sofo come\u00e7a uma conversa com uma descri\u00e7\u00e3o detalhada sobre o protocolo IP (que permite o envio de pacotes de dados). &#8220;<em>Os protocolos incorporam valores e j\u00e1 trazem em si uma vis\u00e3o do mundo<\/em>&#8220;, garante Marcello Vitali-Rosati, h\u00e1 pouco instalado em um pequeno caf\u00e9 no distrito de Halles, em Paris, onde n\u00f3s o encontramos. Nossa surpresa \u00e9 relativa: a leitura de seu \u00faltimo ensaio, <em>\u00c9loge du bug. \u00catre libre \u00e0 l&#8217;\u00e9poque du num\u00e9rique<\/em> (<em>La D\u00e9couverte<\/em>, 2024), havia nos preparado para essa surpreendente mistura de g\u00eaneros, na qual encontramos tanto os grandes pensadores da Antiguidade quanto comandos em Python, uma das linguagens de programa\u00e7\u00e3o mais populares.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Sem d\u00favida, esse ecletismo de pensamento foi necess\u00e1rio para rever o estigma contra o <em>bug<\/em>, o inimigo n\u00famero 1 do discurso de vendas dos GAFAMs: &#8220;solu\u00e7\u00f5es&#8221; simples, intuitivas e prontas para uso. \u00c9 sobretudo, segundo esse fil\u00f3sofo e especialista em tecnologias digitais que leciona na Universidade de Montreal, uma ilus\u00e3o de autonomia e liberdade que nos imp\u00f5e uma vis\u00e3o un\u00edvoca do mundo e na qual os <em>bugs<\/em> podem abrir brechas tempor\u00e1rias. Na entrevista que nos concedeu, ele explica como os <em>bugs<\/em> podem nos ajudar a pensar de forma diferente sobre o futuro do digital.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/43\/64\/hHRCMwYr_o.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Foto: Coletivo Brasil<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Usbek\u00a0&#038;\u00a0Rica<\/strong><br \/>Como nos tornamos al\u00e9rgicos ao <em>bug<\/em>? A culpa \u00e9 da cultura digital na qual estamos imersos?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Marcello Vitali-Rosati<\/strong><br \/>N\u00e3o, essa intoler\u00e2ncia tem uma origem muito mais profunda, que remonta pelo menos ao s\u00e9culo XIX e \u00e0 primeira revolu\u00e7\u00e3o industrial. Fomos habituados desde o nascimento, por meio de nossa educa\u00e7\u00e3o, a considerar certas coisas como inaceit\u00e1veis, aberrantes ou at\u00e9 mesmo completamente loucas. \u00c9 o que se chama de imperativo racional: sentimos uma esp\u00e9cie de repulsa pelo irracional, por aquilo que n\u00e3o est\u00e1 na ordem das coisas. Essa repulsa, como mostra Freud, n\u00e3o \u00e9 natural: \u00e9 o que ele chama de retorno do recalcado, em outras palavras, nosso desejo de revelar essa irracionalidade. N\u00e3o podemos dizer: &#8220;isso n\u00e3o funciona e eu gosto disso&#8221;. Se o fizermos, \u00e9 quase um pecado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O te\u00f3rico da literatura Francesco Orlando constatou igualmente que havia um amor particularmente acentuado por coisas in\u00fateis ou feias nos textos do s\u00e9culo XIX. Em uma \u00e9poca em que a sociedade est\u00e1 totalmente comprometida com o imperativo funcional &#8211; \u00e9 preciso que as coisas funcionem, \u00e9 preciso produzir capital e riqueza, sempre mais r\u00e1pido &#8211; a literatura faz exatamente o oposto, tornando-se assim um espa\u00e7o para a express\u00e3o do retorno do recalcado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nossa avers\u00e3o ao <em>bug<\/em> tem origem nesse paradigma, do qual temos dificuldade de escapar. Temos muita dificuldade em admitir para n\u00f3s mesmos que estamos fazendo algo que n\u00e3o serve para nada. Quando vamos ao cinema, dizemos que estamos enriquecendo nosso capital cultural; at\u00e9 quando descansamos, dizemos que isso nos permite recarregar as baterias para recomer\u00e7amos. Esse sentimento de avers\u00e3o obviamente se estende ao mundo digital. O mundo que conhecemos hoje \u00e9 fortemente condicionado por um paradigma capitalista, em que o imperativo funcional \u00e9 dominante. Mas a tecnologia poderia ser outra coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Usbek\u00a0&#038;\u00a0Rica<\/strong><br \/>Onde esse retorno do recalcado se manifesta hoje?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Marcello Vitali-Rosati<\/strong><br \/>N\u00f3s o encontramos em experi\u00eancias de apropria\u00e7\u00e3o, que consistem em pegar as tecnologias no contrap\u00e9. Penso, por exemplo, no artista alem\u00e3o <a href=\"https:\/\/simonweckert.com\/googlemapshacks.html\">Simon Weckert<\/a>. Ao perceber que o tr\u00e1fego no <em>Google Maps<\/em> era calculado com base na concentra\u00e7\u00e3o de telefones conectados e geolocalizados, ele colocou 100 iPhones em um carrinho e o moveu pelas ruas de uma pequena cidade da Alemanha, o que criou engarrafamentos em todo o aplicativo. O interessante \u00e9 que, posteriormente, ele recebeu amea\u00e7as de todos os lados. Do Google, \u00e9 claro (embora eles tenham conseguido corrigir o algoritmo), assim como de pessoas nas redes sociais que o insultaram. Como usu\u00e1rio, existe essa ideia de que n\u00e3o se deve criar <em>bugs<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Esse experimento tamb\u00e9m revelou como o Google Maps funciona. As pessoas se perguntam sobre isso? Na maioria das vezes, n\u00e3o. Mas da\u00ed surgem algumas quest\u00f5es importantes: por que o Google est\u00e1 coletando meus dados? Eu quero fornecer meus dados a ele?<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/simonweckert.com\/img\/googlemapshacks\/maps_15_2.JPG\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Interven\u00e7\u00e3o de Simon Weckert no Google Maps. Fonte: <a href=\"https:\/\/simonweckert.com\/googlemapshacks.html\">Simon Weckert<\/a><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Usbek\u00a0&#038;\u00a0Rica<\/strong><br \/>Em seu livro, voc\u00ea retoma um epis\u00f3dio da vida de S\u00f3crates<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"2\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3640\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3640-2\">2<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3640-2\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"2\">Conforme narrado no in\u00edcio do <a href=\"http:\/\/www.dominiopublico.gov.br\/download\/texto\/cv000048.pdf\"><em>Banquete<\/em><\/a>, Aristodemo encontra S\u00f3crates, banhado e cal\u00e7ado, o que n\u00e3o era de seu costume, a caminho de um banquete na casa de Agat\u00e3o. S\u00f3crates logo convida Aristodemo a acompanh\u00e1-lo. Assim, Aristodemo e S\u00f3crates se dirigem \u00e0 festa. Chegando na casa de Agat\u00e3o, eis que o anfitri\u00e3o o Aristodemo constatam que S\u00f3crates n\u00e3o chegou. S\u00f3crates travou no meio do caminho. Algum pensamento se apossou dele. Era um comportamento habitual. Os pensamentos chegam, e S\u00f3crates trava. Nota da tradu\u00e7\u00e3o.<\/span> narrado na abertura do <em>Banquete<\/em>, de Plat\u00e3o, em que ele trava<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"3\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3640\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3640-3\">3<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3640-3\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"3\"><em>Bugger<\/em>, no original em ingl\u00eas. Nota da tradu\u00e7\u00e3o.<\/span>, o que lhe permite pensar e questionar. Como essa abordagem filos\u00f3fica pode ser usada para resistir \u00e0 ret\u00f3rica dos GAFAMs?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Marcello Vitali-Rosati<\/strong><br \/>A irrup\u00e7\u00e3o de alteridade nos permite ver as coisas de forma diferente e questionar a singularidade do paradigma. Olhar para o <em>bug<\/em> de forma diferente \u00e9 um ato bastante radical. A revolu\u00e7\u00e3o que o <em>bug<\/em> pode provocar \u00e9 fundamentalmente cognitiva. Ele nos permite perceber que aquilo que pens\u00e1vamos ser a \u00fanica forma poss\u00edvel de pensar n\u00e3o o \u00e9. O <em>bug<\/em> torna vis\u00edvel o que havia sido tornado invis\u00edvel e transparente por ter sido naturalizado. Estamos t\u00e3o acostumados a pensar que as coisas t\u00eam que funcionar que nem sequer nos questionamos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O <em>bug<\/em> nos permite dizer a n\u00f3s mesmos: espere um minuto, voc\u00ea pensou que tinha de resolver determinadas quest\u00f5es porque estava insrido no paradigma [do imperativo racional], mas voc\u00ea tamb\u00e9m pode sair desse paradigma! O que me interessa no <em>bug<\/em> \u00e9 que ele sugere algo. Nesse sentido, ele permite que S\u00f3crates pense. Mas talvez precisemos ser um pouco mais radicais do que eu fui no livro e dizer que a filosofia \u00e9 essa intencionalidade que vem de fora, que produz significado, que nos agarra e nos leva a outro lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Usbek\u00a0&#038;\u00a0Rica<\/strong><br \/>Popular no mundo da codifica\u00e7\u00e3o, a express\u00e3o &#8220;<em>it&#8217;s not a bug, it&#8217;s a feature<\/em>&#8221; (n\u00e3o \u00e9 um <em>bug<\/em>, \u00e9 um recurso) enfatiza o fato de que um <em>bug<\/em> tamb\u00e9m pode ter uma conota\u00e7\u00e3o positiva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Marcello Vitali-Rosati<\/strong><br \/>Com certeza, mas \u00e9 preciso ter cuidado com isso tamb\u00e9m, porque essa express\u00e3o vem do paradigma produtivista. O <em>bug<\/em> cria um comportamento que n\u00e3o hav\u00edamos previsto e, \u00e0s vezes, esse comportamento \u00e9 de fato interessante. Se adotarmos uma perspectiva produtivista, h\u00e1 a ideia de buscar a maximiza\u00e7\u00e3o em todos os lugares e sempre, mesmo naquilo que n\u00e3o funciona. O que eu acho interessante nessa frase \u00e9 que h\u00e1 uma intencionalidade que vem do exterior e que nos permite questionar a rela\u00e7\u00e3o homem-m\u00e1quina. Muitas vezes imaginamos que h\u00e1 os humanos que pensam e as m\u00e1quinas que fazem. Na realidade, \u00e9 um pouco diferente: o pensamento emerge entre os dois e a partir dessa rela\u00e7\u00e3o. Foi o que aconteceu com S\u00f3crates tamb\u00e9m: ele travou, mas ao mesmo tempo esse acontecimento permitiu o surgimento da filosofia.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/b7\/40\/gtXii9mH_o.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Marcello Vitali-Rosati em evento na livraria <em>Le Monte-en-l&#8217;air<\/em>, em Paris. Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Usbek\u00a0&#038;\u00a0Rica<\/strong><br \/>Como podemos reverter o paradigma dominante ancorado no produtivismo? \u00c9 poss\u00edvel estruturar uma contracultura digital anticapitalista?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Marcello Vitali-Rosati<\/strong><br \/>Na minha opini\u00e3o, \u00e9 preciso separar duas coisas. Pessoalmente, eu sou anticapitalista e tenho posi\u00e7\u00f5es anarquistas. Isso me diz respeito, mas n\u00e3o \u00e9 o tema de que trata o livro. Seu tema \u00e9 que n\u00e3o existe apenas um \u00fanico paradigma poss\u00edvel e que esse paradigma \u00fanico n\u00e3o seja naturalizado. Voc\u00ea pode ser anticapitalista ou n\u00e3o. Mas mesmo que voc\u00ea n\u00e3o seja, n\u00e3o acho que seja poss\u00edvel aceitar que o paradigma do capitalismo seja o \u00fanico poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ent\u00e3o voc\u00ea tem que evitar que o <em>bug<\/em> seja o outro paradigma, ou que voc\u00ea tenha de escolher entre o capitalismo e o <em>bug<\/em>. O que me interessa, e o que o <em>bug<\/em> permite, \u00e9 a explos\u00e3o da singularidade em forma de multiplicidade. \u00c9 essa multiplicidade que me parece ser essencial proteger. N\u00e3o se trata de substituir uma web por outra, ou de substituir o mundo digital &#8220;ruim&#8221; pelo mundo digital &#8220;bom&#8221;. A ideia n\u00e3o \u00e9 ter um \u00fanico digital, mas v\u00e1rios; n\u00e3o ter um paradigma para interpretar o mundo, mas v\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Usbek\u00a0&#038;\u00a0Rica<\/strong><br \/>Voc\u00ea escreveu que essa multiplicidade se encontra em pequenas comunidades de desenvolvedores adeptos do software livre e aberto, a exemplo do sistema operacional <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Linux.\">Linux<\/a>. Essa cultura poder\u00e1 se tornar <em>mainstream<\/em> no futuro?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Marcello Vitali-Rosati<\/strong><br \/>N\u00e3o se pode ser m\u00faltiplo e <em>mainstream<\/em> ao mesmo tempo. A primeira coisa, e a mais importante, \u00e9, na minha opini\u00e3o, perceber que a solu\u00e7\u00e3o que nos \u00e9 fornecida por padr\u00e3o n\u00e3o \u00e9 neutra. A met\u00e1fora do cinema funciona bem: posso muito bem ir ver Barbie e dizer a mim mesmo que \u00e9 um filme convencional, sem querer procurar Monique Wittig nele.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">\u00c9 a mesma coisa com o digital: primeiro \u00e9 preciso entender que se eu usar o <em>Google Maps<\/em> em um iPhone, isso implica uma s\u00e9rie de coisas: uma vis\u00e3o de mundo, um modelo econ\u00f4mico e determinados valores. Talvez, no final, eu decida us\u00e1-lo. Mas, ao mesmo tempo, sei que posso procurar outra coisa, e que assim verei o mundo de uma outra maneira. Por exemplo, eu poderei contribuir com o <em><a href=\"https:\/\/www.openstreetmap.org\/\">OpenStreetMap<\/a><\/em> ou conceber um algoritmo que me sugira uma rota para ir do ponto A ao ponto B que passe pelo maior n\u00famero poss\u00edvel de cinemas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Da mesma forma, n\u00e3o estou dizendo que todos devem parar de usar o Word. Mas quando o usamos, precisamos estar cientes de que estamos aderindo a uma filosofia de texto espec\u00edfica e que essa filosofia de texto condicionar\u00e1 profundamente o que podemos escrever e pensar. N\u00e3o conseguiremos pensar sobre certas coisas se escrevermos no Word. O formato estruturar\u00e1 nosso pensamento de uma certa maneira. Quando voc\u00ea se d\u00e1 conta disso, j\u00e1 est\u00e1 na metade do caminho, na minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/fb\/b4\/5n3Z6wJ9_o.png\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Conta Stylo do Coletivo Brasil. Foto: Coletivo Brasil<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Usbek\u00a0&#038;\u00a0Rica<\/strong><br \/>Que software voc\u00ea usa para escrever seus textos?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Marcello Vitali-Rosati<\/strong><br \/>Toda vez que come\u00e7o a escrever algo, configuro um ambiente que me permite fazer o que quero [<em>Marcello pega seu computador, que exibe uma tela preta na qual ele digita comandos. \u00c9 o Vim, um editor de texto altamente personaliz\u00e1vel<\/em>]. Aqui, por exemplo, o controle de vers\u00e3o \u00e9 muito importante para mim<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"4\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3640\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3640-4\">4<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3640-4\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"4\">Versionar \u00e9 o que lhe permite ver e acessar o hist\u00f3rico das vers\u00f5es do texto que salvou. Nota da tradu\u00e7\u00e3o<\/span>. Aqui, sou eu quem decide como fazer o controle de vers\u00f5es: n\u00e3o \u00e9 uma nuvem que faz isso no meu lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Minha equipe e eu tamb\u00e9m criamos um editor de texto on-line chamado <a href=\"https:\/\/stylo.huma-num.fr\/\">Stylo<\/a>, no <a href=\"https:\/\/www.huma-num.fr\/\">Huma-Num<\/a>, a maior infraestrutura digital francesa. Voc\u00ea pode us\u00e1-lo para escrever artigos para revistas de ci\u00eancias humanas. Criamos um ambiente que tenta corresponder a esses usos espec\u00edficos da melhor forma poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O objetivo n\u00e3o \u00e9 adotar a ferramenta mais eficiente &#8211; isso n\u00e3o significa nada. Efici\u00eancia implica adaptar nossas pr\u00e1ticas e, portanto, formatar nosso pensamento, ou melhor, apagar completamente nosso pensamento para encaix\u00e1-lo no dispositivo em quest\u00e3o, quando \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio que precisa ser feito. O modelo da Microsoft suavizou tudo. Meu trabalho \u00e9 pensar sobre textos e sempre fico indignado com editores e autores por adotarem uma ferramenta que n\u00e3o foi projetada para eles. Eles t\u00eam que se adaptar aos imperativos funcionais e \u00e0s vis\u00f5es de mundo de uma empresa que n\u00e3o vende produtos para editores e escritores, mas para empresas de ferramentas  de escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Usbek\u00a0&#038;\u00a0Rica<\/strong><br \/>A homogeneiza\u00e7\u00e3o do mundo digital que voc\u00ea aponta ser\u00e1 acelerada com o r\u00e1pido desenvolvimento da IA?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Marcello Vitali-Rosati<\/strong><br \/>O risco de uniformiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 espec\u00edfico das tecnologias, mas do capitalismo. Na d\u00e9cada de 1990, no in\u00edcio da web, o discurso dominante era o de John Perry Barlow, que estava convencido de que todos poderiam expressar seu ponto de vista, que n\u00e3o ser\u00edamos mais limitados. Vimos que esse sonho de multiplicidade n\u00e3o se tornou realidade. Pelo contr\u00e1rio, a concentra\u00e7\u00e3o n\u00e3o parou de ser refor\u00e7ada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O mesmo pode ser dito da intelig\u00eancia artificial. A concentra\u00e7\u00e3o de hoje \u00e9 principalmente econ\u00f4mica. A partir dos anos 2000, investimos em um m\u00e9todo que remonta \u00e0 d\u00e9cada de 1950, aos prim\u00f3rdios da ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o: perceptrons (ou neur\u00f4nios artificiais). O problema \u00e9 que investimos tudo nisso, quando h\u00e1 outras tecnologias que teriam sido interessantes. Al\u00e9m disso, essas tecnologias exigem infraestruturas cada vez mais pesadas e caras. Hoje, em termos concretos, apenas um punhado de participantes no mundo (Microsoft, Apple, Google) tem a capacidade econ\u00f4mica de conduzir um modelo de IA. Os pontos de vista incorporados nos algoritmos s\u00e3o os de uma elite espec\u00edfica. Esse \u00e9 o grande problema, antes mesmo da quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre homem e m\u00e1quina. \u00c9 claro que sempre haver\u00e1 modelos mainstream como o ChatGPT e eles se tornar\u00e3o cada vez mais centralizados e homog\u00eaneos em um mundo globalizado e ultra-capitalista. Mas vamos pelo menos nos certificar de que outros modelos s\u00e3o poss\u00edveis. <\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/17\/5c\/NtlpWQLd_o.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Usbek\u00a0&#038;\u00a0Rica<\/strong><br \/>Voc\u00ea enfatiza a import\u00e2ncia de criar uma verdadeira alfabetiza\u00e7\u00e3o digital. Todas as crian\u00e7as na escola deveriam aprender a montar e desmontar computadores ou os conceitos b\u00e1sicos de codifica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Marcello Vitali-Rosati<\/strong><br \/>A maioria das decis\u00f5es que foram tomadas para introduzir uma educa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica nas escolas \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o. Estou simplificando, mas, muitas vezes, essa educa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica se resume a dar iPads \u00e0s crian\u00e7as. Mais do que aulas de c\u00f3digo, o papel das escolas \u00e9 desenvolver o pensamento cr\u00edtico dos alunos para que eles possam se tornar mestres e mestras do ambiente tecnol\u00f3gico. E acho que \u00e9 mais f\u00e1cil conseguir isso mantendo-os longe desses dispositivos. Depois, se queremos aproxim\u00e1-los, o objetivo principal deve ser a compreens\u00e3o. \u00c0s vezes, consegue-se melhor isso brincando com Lego do que usando um iPad. O ponto de partida deve ser de baixa tecnologia, por exemplo, computadores muito simples com pouqu\u00edssima tecnologia em seu interior.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No livro, falo sobre a equa\u00e7\u00e3o alta tecnologia\/baixa tecnologia, baixa tecnologia\/alta tecnologia: quanto mais habilidades t\u00e9cnicas voc\u00ea tiver, mais tecnologia &#8220;baixa&#8221; poder\u00e1 usar; e quanto mais incompetente voc\u00ea for, mais tecnologia de alto n\u00edvel vai utilisar para tomar decis\u00f5es por voc\u00ea. Portanto, temos que tentar ensinar a tecnologia &#8220;mais baixa&#8221; poss\u00edvel para permitir que as crian\u00e7as entendam o que est\u00e3o fazendo.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;font-style:italic\">Traduzido do franc\u00eas por Luiz Capelo<\/p>\n<p><figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/c9\/00\/AsdfjfkF_o.jpeg\"><br \/>\n<\/figure>\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Marcello Vitali-Rosati<\/strong><br \/><em>Fil\u00f3sofo e especialista da edi\u00e7\u00e3o digital, Marcello Vitali-Rosati \u00e9 professor do departamento de literatura francesa da Universit\u00e9 de Montr\u00e9al. Pelo estudo e a pr\u00e1tica do c\u00f3digo, ele analisa como algoritmos, formatos, software e plataformas redefinem as no\u00e7\u00f5es de humano, identidade, conhecimento e literatura. Marcello est\u00e1 \u00e0 frente de v\u00e1rios projetos em humanidades digitais, especialmente no campo da publica\u00e7\u00e3o acad\u00eamica: plataformas para publica\u00e7\u00e3o de peri\u00f3dicos e monografias enriquecidas, o editor de texto Stylo e a plataforma para edi\u00e7\u00e3o colaborativa da Antologia Grega.<\/em><\/p>\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div>O acr\u00f4nimo faz refer\u00eancia \u00e0s empresas de tecnologia Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft. Nota da tradu\u00e7\u00e3o.<\/div><\/li><li><span>2<\/span><div>Conforme narrado no in\u00edcio do <a href=\"http:\/\/www.dominiopublico.gov.br\/download\/texto\/cv000048.pdf\"><em>Banquete<\/em><\/a>, Aristodemo encontra S\u00f3crates, banhado e cal\u00e7ado, o que n\u00e3o era de seu costume, a caminho de um banquete na casa de Agat\u00e3o. S\u00f3crates logo convida Aristodemo a acompanh\u00e1-lo. Assim, Aristodemo e S\u00f3crates se dirigem \u00e0 festa. Chegando na casa de Agat\u00e3o, eis que o anfitri\u00e3o o Aristodemo constatam que S\u00f3crates n\u00e3o chegou. S\u00f3crates travou no meio do caminho. Algum pensamento se apossou dele. Era um comportamento habitual. Os pensamentos chegam, e S\u00f3crates trava. Nota da tradu\u00e7\u00e3o.<\/div><\/li><li><span>3<\/span><div><em>Bugger<\/em>, no original em ingl\u00eas. Nota da tradu\u00e7\u00e3o.<\/div><\/li><li><span>4<\/span><div>Versionar \u00e9 o que lhe permite ver e acessar o hist\u00f3rico das vers\u00f5es do texto que salvou. Nota da tradu\u00e7\u00e3o<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify\">Em entrevista concedida \u00e0 revista <a href=\"https:\/\/usbeketrica.com\/fr\/article\/le-bug-un-outil-de-resistance-insoupconne-face-a-la-mainmise-des-gafam\">Usbek\u00a0&#038;\u00a0Rica<\/a>, o fil\u00f3sofo Marcello Vitali-Rosati fala sobre o lan\u00e7amento de seu novo livro, <em>\u00c9loge du bug. \u00catre libre \u00e0 l&#8217;\u00e9poque du num\u00e9rique<\/em>, os GAFAM, S\u00f3crates e o risco da unicidade.<\/p>\n<p><span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":3641,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,47,80],"tags":[370,369,368,367,268,371],"class_list":["post-3640","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-coletivos-institucionais","category-humanidades","tag-bug","tag-gafam","tag-humanidades-digitais","tag-marcello-vitali-rosati","tag-numerique","tag-socrates"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3640","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3640"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3640\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3648,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3640\/revisions\/3648"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3641"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3640"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3640"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3640"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}