{"id":3389,"date":"2024-05-15T22:08:56","date_gmt":"2024-05-15T22:08:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=3389"},"modified":"2024-05-21T14:24:08","modified_gmt":"2024-05-21T14:24:08","slug":"o-que-se-sabe-do-brasil-em-2024-um-gigante-entre-riqueza-e-dependencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/o-que-se-sabe-do-brasil-em-2024-um-gigante-entre-riqueza-e-dependencia\/","title":{"rendered":"O que se sabe do Brasil em 2024?<br><span style=\"font-size:20px\">Parte 1 &#8211; Um gigante entre riqueza e depend\u00eancia<\/span><br><span style=\"font-size:16px\">G\u00e9rard Wormser<\/span>"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">O c\u00e9u durante as queimadas no canavial. Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Revolu\u00e7\u00f5es conservadoras, <em>ubers<\/em> voadores, investimentos chineses milion\u00e1rios e grupos de <em>WhatsApp<\/em>. O que realmente acontece no Brasil em 2024? Ora, esses s\u00e3o alguns elementos que G\u00e9rard Wormser relaciona na elabora\u00e7\u00e3o de um quadro interpretativo capaz de elucidar as motiva\u00e7\u00f5es dos atores sociais que marcaram a \u00faltima d\u00e9cada. A proposta de parceria entre a prefeitura de Mataraca, na Para\u00edba, e empres\u00e1rios chineses iluminou as intera\u00e7\u00f5es entre as esferas econ\u00f4micas, pol\u00edticas, sociais e territoriais. O econ\u00f4mico impacta o territ\u00f3rio, ao mesmo tempo em que ele caracteriza os grupos sociais. As a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas se ramificam do mesmo modo que os projetos econ\u00f4micos entre os n\u00edveis local, nacional e mundial. E as formas sociais tamb\u00e9m desvelam esses tr\u00eas componentes &#8211; tradi\u00e7\u00f5es populares, orgulho nacional e assimila\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas globalizadas. Assim, a triangula\u00e7\u00e3o local, estado-nacional e mundial que condiciona a cidadezinha de Mataraca serve aqui tamb\u00e9m como instrumento de an\u00e1lise da democracia brasileira. Este texto foi originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/articles\/1756\/\"><em>Sens public<\/em><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:center\">***<\/p>\n<h2>Local e mundial: entrelaces entre o capital econ\u00f4mico, as institui\u00e7\u00f5es e o povo<\/h2>\n<p style=\"text-align:justify\">Tudo come\u00e7a como em um conto de Jorge Amado. Um vilarejo ind\u00edgena perdido na costa nordestina, cujo nome significa &#8220;monte de formigas&#8221;, Mataraca, prosperou por bastante tempo gra\u00e7as aos empregos ligados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de um dep\u00f3sito de tit\u00e2nio. O fechamento da f\u00e1brica escurece o futuro: os empregos s\u00e3o poucos, o dinheiro agora circula apenas entre pequenos traficantes que recrutam e se abrigam nessa localidade isolada. Para reassegurar sua reelei\u00e7\u00e3o, o prefeito fez saber pelos jornais locais que um projeto portu\u00e1rio poderia reerguer o munic\u00edpio. Tudo parece curioso. O interior n\u00e3o tem mercado\u00a0; os portos de Natal, Cabedelo ou Recife n\u00e3o est\u00e3o congestionados &#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Mas eis que um ano ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Lula, avista-se um projeto de investimento tur\u00edstico, efetivamente concebido em torno de um porto, trazido por investidores chineses. Inspirada nas cidades artificiais recentemente constru\u00eddas nos Emirados \u00c1rabes, essa infraestrutura seria concebida para acolher 250.000 habitantes e turistas por volta de 2035<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3389\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3389-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3389-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\"><a href=\"https:\/\/parlamentopb.com.br\/chineses-prometem-investir-r-9-trilhoes-em-mataraca-mas-projeto-parece-copia-de-ideia-dinamarquesa\/\">Chineses prometem investir R$ 9 trilh\u00f5es em Mataraca, mas projeto &#8220;parece&#8221; c\u00f3pia de um desenho dinamarqu\u00eas destinado a ser implantado nos pa\u00edses \u00e1rabes<\/a> (2023c)<\/span>.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sCzAzK5QBYQ?si=dxRhD98Ggvy78vl0&amp;start=1745\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Assinatura do protocolo de constru\u00e7\u00e3o do Porto. Fonte: Prefeitura de Mataraca<\/p>\n<\/figcaption><p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">\u00c9 inexplic\u00e1vel! A n\u00e3o ser que construam um aeroporto no local\u00a0&#8212;\u00a0os aeroportos internacionais est\u00e3o h\u00e1 mais de duas horas de dist\u00e2ncia e o de Jo\u00e3o Pessoa, o mais pr\u00f3ximo, precisaria ser totalmente repensado. Ecologicamente devastador, tal projeto esmagaria a microeconomia de subsist\u00eancia local, mesmo se Mamanguape, n\u00e3o longe dali, disp\u00f5e de uma popula\u00e7\u00e3o ociosa e qualificada. Seria necess\u00e1rio autorizar a destrui\u00e7\u00e3o de mangues e \u00e1reas ind\u00edgenas protegidas, e ainda dedicar uma parte dos investimentos \u00e0 requalifica\u00e7\u00e3o de toda uma regi\u00e3o. At\u00e9 agora, toda essa \u00e1rea permanece sob o jugo de plantadores de cana de a\u00e7\u00facar que exploram descaradamente um povo miser\u00e1vel de trabalhadores agr\u00edcolas. Mas qual pol\u00edtico eleito se oporia a um tal projeto quando os habitantes sonham com futuras amenidades em uma microrregi\u00e3o esquecida do Brasil? Seu custo energ\u00e9tico? Os promotores usar\u00e3o tal quest\u00e3o como argumento para desenvolver parques solares ou e\u00f3licos nas proximidades &#8230; Frente a um muro de dificuldades materiais, essa hist\u00f3ria fala sobre as expectativas n\u00e3o atendidas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">E se isso acontecer realmente? Ora, seria a afirma\u00e7\u00e3o do poder internacional de um colonialismo contempor\u00e2neo extraterritorial, capaz de implantar <em>ex-nihilo<\/em> imensas instala\u00e7\u00f5es para delas extrair valor. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 quase semelhante a perfurar o oceano em busca de petr\u00f3leo<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"2\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3389\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3389-2\">2<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3389-2\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"2\">A disputada zona entre a Guiana e a Venezuela n\u00e3o deveria se tornar uma zona protegida de toda perfura\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de ser a fonte de milh\u00f5es de toneladas de CO2 suplementares apenas em benef\u00edcio do lucro de companhias petrol\u00edferas, j\u00e1 que a regi\u00e3o \u00e9 quase inabitada e nenhum ator local tem os recursos para explorar por conta pr\u00f3pria esse ganho inesperado?<\/span> ou de criar uma zona de consumo viciante. As perfura\u00e7\u00f5es oce\u00e2nicas mobilizam ex\u00e9rcitos de engenheiros e de operadores muito bem remunerados. O petr\u00f3leo extra\u00eddo faz a fortuna de acionistas e contribui para a manuten\u00e7\u00e3o de um modo de vida que eles dizem ser indispens\u00e1vel ao povo: no Brasil, como alhures, as subven\u00e7\u00f5es para os transportes s\u00e3o consider\u00e1veis e nada seria pior do que uma greve de caminhoneiros. Quanto ao consumo, a hist\u00f3ria que nos contam \u00e9 outra. Ela \u00e9 encenada por companhias mar\u00edtimas e avia\u00e7\u00e3o, torres de opera\u00e7\u00e3o, corretores imobili\u00e1rios, organizadores de espet\u00e1culos, ag\u00eancias de publicidade e grupos de m\u00eddias. Dizem-nos que o planeta \u00e9 lindo, que ele nos pertence, que n\u00f3s podemos desfrutar e que somos feitos de nossos sonhos de descobertas &#8230;<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/rlhttj8.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Regi\u00e3o central de Mataraca. Foto: Luci Dias de Lima<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Resmungamos que a vida \u00e9 curta. Recebemos uma quantidade de mensagens promocionais, e fotos sedutoras e estereotipadas evocam os confins de todos os continentes e nos incitam a descobrir a Veneza de antes da subida das \u00e1guas, a Machu-Picchu tornada um parque de atra\u00e7\u00f5es, os fiordes da Noruega e o sol da meia-noite, os bondes pitorescos de S\u00e3o Francisco ou Lisboa, os centros comerciais ventilados de Abu Dhabi, a c\u00e9lebre <em>Ayers Rock<\/em> da Austr\u00e1lia &#8230; Esses lugares t\u00eam em comum o fato de serem como ilhas po\u00e9ticas que pontilham o globo, prop\u00edcios \u00e0 eufemiza\u00e7\u00e3o das dificuldades planet\u00e1rias. A mercantiliza\u00e7\u00e3o desses espa\u00e7os tem o m\u00e9rito de apagar sua hist\u00f3ria secular, embora os descendentes dos povos origin\u00e1rios ainda vivam nas proximidades, fornecendo, quando necess\u00e1rio, o pessoal subalterno requerido por essas bases tur\u00edsticas. Mesmo no seio das capitais da modernidade\u00a0&#8212;\u00a0Paris, Londres ou Nova York\u00a0&#8212;\u00a0foram criadas zonas exclusivas de centros comerciais, museus, restaurantes internacionais e clubes privados. Por que n\u00e3o o Brasil? In\u00fameros predadores desejam ter acesso legal aos milh\u00f5es nas contas banc\u00e1rias de fam\u00edlias ricas. Criados por meio s\u00e9culo de globaliza\u00e7\u00e3o, centenas de grupos industriais, financeiros, imobili\u00e1rios, digitais ou agr\u00edcolas e cl\u00ednicas privadas, cujo capital est\u00e1 nas m\u00e3os de alguns associados, geralmente da mesma fam\u00edlia, cultivam um imagin\u00e1rio din\u00e1stico e est\u00e3o dispostos a gastar somas fara\u00f4nicas em Dubai ou Miami, Courchevel ou Porto-Cervo, Ibiza ou M\u00f4naco. Trata-se de se mostrar e frequentar seus pares internacionais. A ponta oriental da costa brasileira \u00e9 ent\u00e3o o alvo da vez. Vis\u00edvel em todas as fotos via sat\u00e9lite, com um marketing f\u00e1cil e situada em rotas mar\u00edtimas acess\u00edveis, ela abriga h\u00e1 muito tempo popula\u00e7\u00f5es submissas \u00e0s elites estrangeiras. \u00c9 o ideal.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A realidade brasileira de 2024 \u00e9 mais p\u00e9 no ch\u00e3o. \u00c9 uma realidade de uma transi\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e de normaliza\u00e7\u00e3o. As tens\u00f5es surgidas nas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 conheceram sobressaltos at\u00e9 a revolta do 8 de janeiro 2023, que fecha esse ciclo err\u00e1tico<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"3\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3389\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3389-3\">3<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3389-3\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"3\">O tema foi tratado no artigo &#8220;Lula, o milagre&#8221;, publicado <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/articles\/1689\/\">em franc\u00eas<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/articles\/1721\/\">portugu\u00eas<\/a> pela revista <em>Sens public<\/em> e, posteriormente, republicado pelo Coletivo Brasil dividido em partes <a href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/lula-o-milagre-parte-1\/\">1<\/a>, <a href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/lula-o-milagre-parte-2\/\">2<\/a> e <a href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/lula-o-milagre-parte-3\/\">3<\/a>.<\/span>. Como um velho s\u00e1bio da pol\u00edtica, Lula aposta tudo na conc\u00f3rdia civil, at\u00e9 porque o Partido dos Trabalhadores \u00e9 institucionalmente minorit\u00e1rio. Ap\u00f3s seu retorno \u00e0 cena internacional em 2023, o ano de 2024 \u00e9 um ano eleitoral. O governo escuta as empresas por interm\u00e9dio de Alckmin, vice-presidente e tamb\u00e9m Ministro da Ind\u00fastria, e de Haddad, Ministro da Fazenda. Em contrapartida, Lula entroniza Guilherme Boulos, vindo da esquerda brasileira, como candidato \u00e0 Prefeitura de S\u00e3o Paulo e nomeou ao Supremo Tribunal Federal sucessivamente seu advogado pessoal e seu ministro da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/X5G2Cs7.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Dep\u00f3sito de tijolos. Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O Brasil voltou a ser ator mundial. Membro dos BRICS, ele aposta na alian\u00e7a chinesa, seu primeiro parceiro econ\u00f4mico, contribuindo com a \u00cdndia e a R\u00fassia para formar uma coalis\u00e3o anti-imperialista no G20. Essa vis\u00e3o estrat\u00e9gica exp\u00f5e a vantagem da clareza: n\u00e3o dir-se-\u00e1 que a Am\u00e9rica Latina permanece enfeudada pelos Estados Unidos. Mas ela tamb\u00e9m tem seus limites. Os parceiros regionais do Brasil n\u00e3o necessariamente compartilham tal vis\u00e3o, pois ela torna dif\u00edcil a conclus\u00e3o de um acordo entre o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia. Mas, essencialmente, ap\u00f3s anos de divis\u00f5es partid\u00e1rias, os brasileiros reencontraram seu orgulho patri\u00f3tico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Marcado pela lembran\u00e7a dos planos de ajuste do FMI no final do s\u00e9culo passado, o Brasil faz da estabilidade de sua moeda e do controle de sua d\u00edvida p\u00fablica os eixos de suas trocas e investimentos internacionais\u00a0&#8212;\u00a0cujo aumento \u00e9 encorajante. Ningu\u00e9m ser\u00e1 desrespeitoso para evocar que tal era a vontade dos apoiadores do golpe de Estado parlamentar em 2015<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"4\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3389\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3389-4\">4<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3389-4\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"4\">Os defensores do rigor or\u00e7ament\u00e1rio venceram em 2015 ao custo de uma invers\u00e3o da alian\u00e7a no Congresso, um psicodrama t\u00e3o mal explicado que resultou em uma radicaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica sem sentido. O atual governo est\u00e1 fazendo tudo o que pode para apagar esse epis\u00f3dio.<\/span>. A retomada do crescimento aumenta os benef\u00edcios dos atores econ\u00f4micos e conforta a trajet\u00f3ria or\u00e7ament\u00e1ria. Nunca o pa\u00eds exportou tanta soja, o patrim\u00f4nio das regi\u00f5es mais ricas explode: aplaude-se o pragmatismo governamental.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">De fato, s\u00e3o os setores exportadores que controlam o Estado. Eles criam os empregos, eles organizam as bases regionais de produ\u00e7\u00e3o e corrompem as administra\u00e7\u00f5es, que dependem totalmente de impostos sobre a exporta\u00e7\u00e3o e a importa\u00e7\u00e3o. Com exce\u00e7\u00e3o da empresa p\u00fablica Petrobr\u00e1s, as grandes companhias privadas dos setores agr\u00edcolas, mineiros ou de servi\u00e7os p\u00fablicos decidem sobre os investimentos, comandam as subven\u00e7\u00f5es (no setor automobil\u00edstico, no transporte a\u00e9reo, nas redes digitais ou de energia verde) e dirigem as evolu\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas orquestradas pelas m\u00eddias. <\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Os <em>lobbies<\/em> agr\u00edcolas e das empresas de S\u00e3o Paulo (FIESP) dominam o pa\u00eds mais do que nunca. Nada de novo nesse plano: a estabilidade domina. Os detentores do poder econ\u00f4mico votaram massivamente em Bolsonaro, mas o governo \u00e9 for\u00e7ado a compor com eles. Ele seguir\u00e1 esse caminho de composi\u00e7\u00e3o tranquila com os setores empresariais. Se o poder em Bras\u00edlia parar de os servir, eles inevitavelmente se voltariam para os caciques da direita ultraliberal e ganhariam as elei\u00e7\u00f5es. Lula est\u00e1, ent\u00e3o, sob vigil\u00e2ncia em um contexto marcado pela emerg\u00eancia mal compreendida de uma demanda democr\u00e1tica <em>vinda de baixo<\/em> e captada pelas igrejas evang\u00e9licas. Essas garantiram o misto de ultraliberalismo e conservadorismo ideol\u00f3gico do governo Bolsonaro. Mas seu desenvolvimento responde a evolu\u00e7\u00f5es de uma complexidade raramente estudada. Jean-Fran\u00e7ois Bayart compreende o puritanismo como <em>uma figura de estilo, que \u00e9 frequentemente uma figura do sucesso. Uma figura de estilo que carrega geralmente<\/em> &#8220;as classes (m\u00e9dias) burguesas quando ascendem economicamente (&#8230;) mas apenas as camadas em via de ascens\u00e3o&#8221; (segundo Max Weber em &#8216;A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo&#8217;) <em>e cujos agrupamentos comunit\u00e1rios de crentes s\u00e3o os ateli\u00eas, os laborat\u00f3rios de subjetiva\u00e7\u00e3o<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"5\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3389\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3389-5\">5<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3389-5\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"5\">Tradu\u00e7\u00e3o nossa. Em franc\u00eas: &#8220;<em>une figure de style, qui est souvent une figure de la r\u00e9ussite. Une figure de style que portent g\u00e9n\u00e9ralement les \u00ab classes (moyennes) bourgeoises alors \u00e9conomiquement ascendantes [\u2026], les couches qui sont seulement en voie d\u2019ascension \u00bb (selon Max Weber, l\u2019\u00c9thique protestante et l\u2019esprit du capitalisme), et dont les groupements communautaires de croyants sont les ateliers, les laboratoires de subjectivation<\/em>&#8220;(Bayart, Jean-Fran\u00e7ois. <em>L&#8217;\u00e9nergie de l&#8217;\u00c9tat<\/em>. La D\u00e9couverte, 2022, p. 550)<\/span>.<\/p>\n<h2>O que \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o conservadora?<\/h2>\n<p style=\"text-align:justify\">Sem ser especialista do Brasil, Bayart prop\u00f5e uma an\u00e1lise particularmente pertinente sobre o que est\u00e1 acontecendo no pa\u00eds. Ele \u00e9, de fato, um <em>expert<\/em> em <em>revolu\u00e7\u00f5es conservadoras<\/em> e tamb\u00e9m no que que ele nomeia, a partir de Gramsci, <em>revolu\u00e7\u00f5es passivas<\/em>. Sua tese \u00e9 dupla. Por um lado, ele constata que em in\u00fameros casos observ\u00e1veis j\u00e1 h\u00e1 s\u00e9culos, os epis\u00f3dios revolucion\u00e1rios foram orientados pelo desejo de parar o movimento e de restaurar as domina\u00e7\u00f5es conhecidas de longa data no lugar de se engajar em perigosas inova\u00e7\u00f5es. Essa tese se junta ao trabalho de Fran\u00e7ois Furet sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e conv\u00e9m exatamente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o das independ\u00eancias latino-americanas, que em toda parte refor\u00e7aram o poder das elites locais, e explica a transforma\u00e7\u00e3o dos escravos brasileiros em uma larga popula\u00e7\u00e3o discriminada de forma duradoura. Al\u00e9m disso, e nessa mesma ordem de ideias, Bayart capta a frequ\u00eancia com que a popula\u00e7\u00e3o se submete e acompanha toda forma de atrasos que lhe s\u00e3o objetivamente desfavor\u00e1veis. Com isso, em raz\u00e3o da preval\u00eancia de imagin\u00e1rios sociais, justificam a resigna\u00e7\u00e3o e a submiss\u00e3o como virtudes morais opostas aos atos violentos de minorias ativistas. E repress\u00e3o a essas minorias pode contar com a aquiesc\u00eancia dos grupos sociais dos quais elas se diferem por sua obstina\u00e7\u00e3o em perturbar o habitual jogo dos poderes e da domina\u00e7\u00e3o. Se esse tipo de atitude foi frequentemente descrita ao se falar da condi\u00e7\u00e3o dos descendentes dos escravos no Sul dos Estados Unidos, \u00e9 pouco comum us\u00e1-la como filtro de an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o brasileira. Uma parte da esquerda teve at\u00e9 mesmo tend\u00eancia de valorizar o car\u00e1ter de vanguarda liberadora de alguns grupos que se rebelaram contra os poderes dominantes\u00a0&#8212;\u00a0como Zumbi dos Palmares, her\u00f3i do s\u00e9culo 17 ou de Tiradentes e seus companheiros no s\u00e9culo 18\u00a0&#8212;\u00a0e a projetar essa vis\u00e3o sobre as minorias atuais, correndo o risco de dificilmente conseguir explicar o conservadorismo dominante na popula\u00e7\u00e3o brasileira em geral, apesar dos in\u00fameros discursos que a incitam a se liberar das hierarquias tradicionais.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/KC26mBk.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Barra de Camaratuba em Mataraca. Foto: Junia Barreto<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A outra tese de Jean-Fran\u00e7ois Bayart \u00e9 estrutural. Esse excepcional conhecedor das globaliza\u00e7\u00f5es ocorridas em todas as \u00e9pocas hist\u00f3ricas se esfor\u00e7a em mostrar que a modernidade associada ao Estado-na\u00e7\u00e3o se deve \u00e0 maneira com que essa formula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica alimentou um discurso nacional que abriu m\u00e3o tanto das vis\u00f5es imperiais, apoiadas em considera\u00e7\u00f5es globais e \u00e0s vezes mesmo ligadas ao prest\u00edgio divino, quanto dos m\u00faltiplos la\u00e7os de territorialidade que sempre estruturaram a socializa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mesmo quando essa n\u00e3o se exprime nesse vocabul\u00e1rio e se refere, preferencialmente, a categorias de linhagem e de pertencimento a territ\u00f3rios, ancestrais ou a s\u00edmbolos tot\u00eamicos ou m\u00e1gicos. O pr\u00f3prio do Estado-na\u00e7\u00e3o seria sempre zeloso em combinar uma ideologia nacional que faz desaparecer tanto quanto poss\u00edvel o repert\u00f3rio das pequenas p\u00e1trias de <em>fidelidade natural<\/em> dos cidad\u00e3os, com a utiliza\u00e7\u00e3o de todos os meios poss\u00edveis para fabricar as desigualdades, sem as quais o poder estatal seria imposs\u00edvel de ser exercido.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O Estado-na\u00e7\u00e3o moderno \u00e9 ent\u00e3o o propagador e o regente das desigualdades sociais e territoriais \u00e0s quais seus servi\u00e7ais mais zelosos devem suas posi\u00e7\u00f5es de poder, que eles dedicam a difundir entre a popula\u00e7\u00e3o fechada dentro de suas fronteiras. Essa tese pretende explicar o porqu\u00ea de as l\u00f3gicas de poder, que se sucedem j\u00e1 h\u00e1 aproximadamente dois s\u00e9culos, se vejam consolidadas ou enfraquecidas em fun\u00e7\u00e3o da combina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas fatores, que s\u00e3o: a rela\u00e7\u00e3o delas com a globaliza\u00e7\u00e3o (de tend\u00eancia imperial), com as formas institucionais estado-nacionais (o parlamentarismo \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o das desigualdades internas em um espa\u00e7o nacional) e com as identidades subjetivas dos cidad\u00e3os e suas redes de proximidade, sempre prontas a reiterar os gestos de <em>inven\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es<\/em> por interm\u00e9dio dos quais  eles reivindicam particularidades, que o Estado se esfor\u00e7a para reprimir e, ao mesmo tempo, confere a eles uma legitimidade nova e dial\u00e9tica. Da mesma forma, e por outro lado, o Estado-na\u00e7\u00e3o tira sua for\u00e7a da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 dilui\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o nacional em um sem-fronteirismo l\u00edquido que se conjuga com as diversas formas de globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ao longo de seu trabalho, Bayart mostra algumas das liga\u00e7\u00f5es que indicam como esses tr\u00eas polos criam um sistema. Por exemplo, a circula\u00e7\u00e3o atual de <em>m\u00fasicas \u00e9tnicas<\/em>, em grande parte reinventadas e sint\u00e9ticas, faz a liga\u00e7\u00e3o entre difusores mundiais (Apple Music, Spotify &#8230;) e fortes marcadores de identidades eletivas para os indiv\u00edduos. De uma outra maneira, as associa\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias inscrevem-se em um esquema que, na maior parte das vezes, foi institu\u00eddo pelas domina\u00e7\u00f5es coloniais, de forma que sua presen\u00e7a se apoia em formatos hier\u00e1rquicos com os quais as popula\u00e7\u00f5es-alvo consentiram antigamente e que s\u00e3o, paradoxalmente, reinstitu\u00eddos por essas organiza\u00e7\u00f5es p\u00f3s-coloniais. Na contram\u00e3o, as popula\u00e7\u00f5es minorit\u00e1rias e dependentes sabem muito bem instrumentalizar os emiss\u00e1rios vindos da esfera estatal-nacional condicionando sua lealdade com a operacionaliza\u00e7\u00e3o, por parte desses emiss\u00e1rios, a distin\u00e7\u00f5es e hierarquias locais. Os caciques e os anci\u00f5es, os l\u00edderes e os chefes de gangues geralmente obt\u00eam um completo reconhecimento de sua autoridade, o que permite ao Estado realizar compromissos sem os quais ele n\u00e3o seria jamais reconhecido. Da\u00ed que as hierarquias tradicionais, mesmo que sejam notoriamente abusivas, s\u00e3o frequentemente caucionadas pelo Estado, que chega at\u00e9 a ceder aos representantes das hierarquias tradicionais todo tipo de fun\u00e7\u00f5es suplementares que refor\u00e7am sua autoridade de administradores das desigualdades a ponto de fazer desaparecer toda inst\u00e2ncia de contesta\u00e7\u00e3o ou de arbitragem\u00a0&#8212;\u00a0se n\u00e3o \u00e9 isso, h\u00e1 o risco de sofrer a pior viol\u00eancia ou a morte por organiza\u00e7\u00f5es de traficantes que recrutam essencialmente entre popula\u00e7\u00f5es carentes que muitas vezes ignoram completamente a dimens\u00e3o pol\u00edtica de sua marginalidade. Esses grupos ef\u00eameros e constantemente renovados s\u00e3o, contudo, a primeira forma de uma contesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Estado-na\u00e7\u00e3o e das desigualdades que ele protege. A partir da\u00ed, constata Bayart, essas redes se enxertam em todo tipo de imagin\u00e1rio transnacional e ao mesmo tempo se credenciam, tanto quanto poss\u00edvel, na singularidade de suas express\u00f5es culturais. O Estado-na\u00e7\u00e3o pode muito bem canalizar as emo\u00e7\u00f5es futebol\u00edsticas e esportivas desviando as expectativas pol\u00edticas dos torcedores e folclorizar tanto quanto poss\u00edvel e tornar <em>art\u00edsticas<\/em> as express\u00f5es corporais ou musicais de contesta\u00e7\u00e3o (a capoeira e as artes marciais no geral ou o reggae e o rap). Esse tipo de fen\u00f4meno retorna sempre e a cultura das favelas, a\u00ed compreendida uma religiosidade prof\u00e9tica e m\u00edstica, reinventa sem cessar os rituais e estilos contestando ao poderes do Estado a sua pretensa legitimidade. Bayart mostra assim que o Estado, longe de exercer, como pretende o ad\u00e1gio, o <em>monop\u00f3lio da viol\u00eancia leg\u00edtima<\/em>, alimenta-se ininterruptamente de uma viol\u00eancia perif\u00e9rica exacerbada por suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"6\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3389\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3389-6\">6<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3389-6\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"6\"><em>id<\/em>, p. 584<\/span>. A repress\u00e3o que se abate invariavelmente sobre aqueles que se dedicam a ela alimenta concomitantemente dois regimes de autoridade: o Estado nela encontra aquilo que precisa para justificar a revolu\u00e7\u00e3o passiva, a submiss\u00e3o das massas amedrontadas, e os marginalizados dela extraem sua vitalidade e din\u00e2mica adaptativa do drible que lhes \u00e9 imposto pela mis\u00e9ria e o abandono.<\/p>\n<p style=\"text-align:right\">Texto traduzido do franc\u00eas por Junia Barreto e Luiz Capelo<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/2RlD4Tv.jpeg\"><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Foto: Junia Barreto<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>G\u00e9rard Wormser<\/strong><br \/><em>Fil\u00f3sofo, doutor em filosofia, fundador, diretor e editor da Revista Eletr\u00f4nica Internacional, editora e associa\u00e7\u00e3o Sens Public, com sede na Fran\u00e7a. No Brasil, \u00e9 membro fundador do blog e da revista eletr\u00f4nica Coletivo Brasil.<\/em><\/p>\n<h2>Bibliografia<\/h2>\n<p>2023c. Parlamento PB, Dezembro. https:\/\/parlamentopb.com.br\/chineses-prometem-investir-r-9-trilhoes-em-mataraca-mas-projeto-parece-copia-de-ideia-dinamarquesa\/.<br \/>\n2023b. ClickPB\/Paraiba. https:\/\/www.clickpb.com.br\/policial\/prefeitura-de-mataraca-e-invadida-e-computadores-sao-roubados-apos-empresarios-da-china-divulgarem-investimento-de-r-9-trilhoes-na-cidade-806045.html.<br \/>\n2023a. ClickPB\/Paraiba. https:\/\/www.clickpb.com.br\/paraiba\/audiencia-entre-governador-e-grupo-chines-que-promete-investimentos-de-r-9-trilhoes-para-cidade-futurista-em-mataraca-e-cancelada-805551.html.<br \/>\nBayart, Jean-Fran\u00e7ois. 2022. L\u2019\u00e9nergie de l\u2019\u00c9tat. Pour une sociologie historique et compar\u00e9e du politique. Sciences humaines et sociales. Paris: La D\u00e9couverte. https:\/\/www.cairn.info\/l-energie-de-l-etat&#8211;9782348072321.htm.<br \/>\nMeyerfeld, Bruno. 2023. \u00abAu Br\u00e9sil, le soja, source de puissance mondiale et de d\u00e9stabilisation r\u00e9gionale\u00bb. Le Monde.fr, Setembro. https:\/\/www.lemonde.fr\/international\/article\/2023\/09\/10\/au-bresil-le-soja-source-de-puissance-mondiale-et-de-destabilisation-regionale_6188666_3210.html.<br \/>\nNunes, Angelica, e Laerte Cerqueira. 2023. \u00abVice-c\u00f4nsul da China diz que projeto futurista em Mataraca \u00e9 duvidoso: \u201ctemos motivo de acreditar que \u00e9 uma fraude\u201d\u00bb. Jornal da Para\u00edba, Dezembro. https:\/\/jornaldaparaiba.com.br\/politica\/conversa-politica\/vice-consul-china-mataraca\/.<\/p>\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div><a href=\"https:\/\/parlamentopb.com.br\/chineses-prometem-investir-r-9-trilhoes-em-mataraca-mas-projeto-parece-copia-de-ideia-dinamarquesa\/\">Chineses prometem investir R$ 9 trilh\u00f5es em Mataraca, mas projeto &#8220;parece&#8221; c\u00f3pia de um desenho dinamarqu\u00eas destinado a ser implantado nos pa\u00edses \u00e1rabes<\/a> (2023c)<\/div><\/li><li><span>2<\/span><div>A disputada zona entre a Guiana e a Venezuela n\u00e3o deveria se tornar uma zona protegida de toda perfura\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de ser a fonte de milh\u00f5es de toneladas de CO2 suplementares apenas em benef\u00edcio do lucro de companhias petrol\u00edferas, j\u00e1 que a regi\u00e3o \u00e9 quase inabitada e nenhum ator local tem os recursos para explorar por conta pr\u00f3pria esse ganho inesperado?<\/div><\/li><li><span>3<\/span><div>O tema foi tratado no artigo &#8220;Lula, o milagre&#8221;, publicado <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/articles\/1689\/\">em franc\u00eas<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/articles\/1721\/\">portugu\u00eas<\/a> pela revista <em>Sens public<\/em> e, posteriormente, republicado pelo Coletivo Brasil dividido em partes <a href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/lula-o-milagre-parte-1\/\">1<\/a>, <a href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/lula-o-milagre-parte-2\/\">2<\/a> e <a href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/lula-o-milagre-parte-3\/\">3<\/a>.<\/div><\/li><li><span>4<\/span><div>Os defensores do rigor or\u00e7ament\u00e1rio venceram em 2015 ao custo de uma invers\u00e3o da alian\u00e7a no Congresso, um psicodrama t\u00e3o mal explicado que resultou em uma radicaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica sem sentido. O atual governo est\u00e1 fazendo tudo o que pode para apagar esse epis\u00f3dio.<\/div><\/li><li><span>5<\/span><div>Tradu\u00e7\u00e3o nossa. Em franc\u00eas: &#8220;<em>une figure de style, qui est souvent une figure de la r\u00e9ussite. Une figure de style que portent g\u00e9n\u00e9ralement les \u00ab classes (moyennes) bourgeoises alors \u00e9conomiquement ascendantes [\u2026], les couches qui sont seulement en voie d\u2019ascension \u00bb (selon Max Weber, l\u2019\u00c9thique protestante et l\u2019esprit du capitalisme), et dont les groupements communautaires de croyants sont les ateliers, les laboratoires de subjectivation<\/em>&#8220;(Bayart, Jean-Fran\u00e7ois. <em>L&#8217;\u00e9nergie de l&#8217;\u00c9tat<\/em>. La D\u00e9couverte, 2022, p. 550)<\/div><\/li><li><span>6<\/span><div><em>id<\/em>, p. 584<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revolu\u00e7\u00f5es conservadoras, <em>ubers<\/em> voadores, investimentos chineses milion\u00e1rios e grupos de <em>WhatsApp<\/em>. O que realmente acontece no Brasil em 2024? Ora, esses s\u00e3o alguns elementos que G\u00e9rard Wormser relaciona na elabora\u00e7\u00e3o de um quadro interpretativo capaz de elucidar as motiva\u00e7\u00f5es dos atores sociais que marcaram a \u00faltima d\u00e9cada. A proposta de parceria entre a prefeitura de Mataraca, na Para\u00edba, e empres\u00e1rios chineses iluminou as intera\u00e7\u00f5es entre as esferas econ\u00f4micas, pol\u00edticas, sociais e territoriais. O econ\u00f4mico impacta o territ\u00f3rio, ao mesmo tempo em que ele caracteriza os grupos sociais. As a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas se ramificam do mesmo modo que os projetos econ\u00f4micos entre os n\u00edveis local, nacional e mundial. E as formas sociais tamb\u00e9m desvelam esses tr\u00eas componentes &#8211; tradi\u00e7\u00f5es populares, orgulho nacional e assimila\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas globalizadas. Assim, a triangula\u00e7\u00e3o local, estado-nacional e mundial que condiciona a cidadezinha de Mataraca serve aqui tamb\u00e9m como instrumento de an\u00e1lise da democracia brasileira. Este texto foi originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/articles\/1756\/\"><em>Sens public<\/em><\/a><span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":3193,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,47,76,51],"tags":[56,280,101,286,112,284,55,281,152,287,63,282],"class_list":["post-3389","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-coletivos-institucionais","category-politica","category-territorios","tag-brasil","tag-china","tag-democracia","tag-elites-sociais","tag-gerard-wormser","tag-globalizacao","tag-lula","tag-mataraca","tag-neoliberalismo","tag-pobreza","tag-politica","tag-revolucao-conservadora"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3389","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3389"}],"version-history":[{"count":30,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3389\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3475,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3389\/revisions\/3475"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3193"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3389"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3389"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3389"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}