{"id":3340,"date":"2024-04-24T21:34:25","date_gmt":"2024-04-24T21:34:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=3340"},"modified":"2024-04-24T21:50:47","modified_gmt":"2024-04-24T21:50:47","slug":"vozes-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/vozes-indigenas\/","title":{"rendered":"Vozes ind\u00edgenas, trilhas para renovar o Brasil<br><span style=\"font-size:16px\">Junia Barreto<\/span>"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">S\u00f4nia Guajajara e C\u00e9lia Xakriab\u00e1 em Paris, novembro de 2019. Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Neste m\u00eas ocorreu a 20<sup>a<\/sup> edi\u00e7\u00e3o do Acampamento Terra Livre em Bras\u00edlia, no momento em que temos um Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas; em que a FUNAI \u00e9 presidida por uma mulher ind\u00edgena e em que um ind\u00edgena foi eleito como imortal da Academia Brasileira de Letras. Os ventos parecem soprar favoravelmente, mas nem sempre foi assim.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A luta dos povos ind\u00edgenas \u00e9 ancestral. Ela come\u00e7a no exato momento em que se inicia a empresa colonial portuguesa na <em>Terra Brasilis<\/em>. N\u00e3o h\u00e1 julgamento algum que altere esse fato. Se precisamos realmente falar em Marco Temporal, \u00e9 melhor come\u00e7ar falando do Cabral. A causa ind\u00edgena \u00e9 de suma import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o do Brasil. \u00c9 uma luta que concerne aos povos ind\u00edgenas, diretamente implicados, mas tamb\u00e9m aos n\u00e3o ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Durante a pandemia Junia Barreto idealizou o projeto <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/dossiers\/1656\/\">Vozes ind\u00edgenas, trilhas para renovar o Brasil<\/a> com o objetivo de abrir espa\u00e7o \u00e0s diferentes comunidades ind\u00edgenas de norte a sul do pa\u00eds. O dossi\u00ea foi publicado em portugu\u00eas e franc\u00eas pela revista internacional <em>Sens public<\/em> em novembro de 2022. Publicamos, hoje, seu texto de apresenta\u00e7\u00e3o do dossi\u00ea. No Coletivo Brasil, percorremos o caminho inverso e republicamos este texto ao final das diferentes contribui\u00e7\u00f5es. Ao finalizar as republica\u00e7\u00f5es do dossi\u00ea, esse texto contextualiza o projeto e d\u00e1 sentido de conjunto \u00e0 obra.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O dossi\u00ea <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/dossiers\/1656\/\">Vozes ind\u00edgenas, trilhas para renovar o Brasil<\/a> \u00e9 fruto de uma parceria de longa data. J\u00e1 no evento internacional realizado na Universidade de Bras\u00edlia \u201c<em>Alucina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das telas<\/em>\u201d, Erisvan Bone Guajajara exp\u00f4s sobre seu trabalho na cria\u00e7\u00e3o do M\u00eddia \u00cdndia. A jornada \u201cSangue ind\u00edgena, nenhuma gota a mais\u201d, em p\u00e9riplo pela Europa para denunciar as atrocidades cometidas durante o governo Bolsonaro, se fez anunciar em outubro de 2019 no <em>29<sup>e<\/sup> Salon de la Revue<\/em>, em Paris; em jantares \u00edntimos parisienses e mesmo durante a comemora\u00e7\u00e3o em homenagem a Clemenceau patrocinada pelo Estado franc\u00eas. Tamb\u00e9m no ATL de 2021, estivemos ao lado dos povos ind\u00edgenas e em apoio a suas reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nesse momento em que o Acampamento Terra Livre 2024 est\u00e1 em seu pleno curso, a professora e pesquisadora Junia Barreto renova seu apoio \u00e0 luta e \u00e0 resist\u00eancia ind\u00edgenas. Frente ao conformismo, \u00e0 passividade e at\u00e9 mesmo \u00e0 viol\u00eancia reinantes, os ind\u00edgenas se organizaram e fizeram a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Assim como no momento de publica\u00e7\u00e3o do dossi\u00ea <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/dossiers\/1656\/\">Vozes ind\u00edgenas, trilhas para renovar o Brasil<\/a>, o Coletivo Brasil pretende refor\u00e7ar o seu apoio aos povos ind\u00edgenas, assim como reiterar o convite para que participem de nossa plataforma com suas ideias testemunhos e projetos, multiplicando suas vozes e amplificando o som de seus marac\u00e1s &#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:center\">***<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O estado ca\u00f3tico do mundo contempor\u00e2neo em seus diferentes governos das diversas sociedades&nbsp;&#8212;&nbsp;com suas tantas l\u00ednguas e especificidades, produtores\/as de largo conhecimento sobre o planeta, detentores\/as de infinitas e multifacetadas experi\u00eancias&nbsp;&#8212;&nbsp;nos obriga a refletir sobre como e para onde estamos nos encaminhando hoje, em 2022. Nos sugere pensar, e de forma radical, sobre como temos administrado nosso espa\u00e7o global, como temos nos relacionado entre n\u00f3s&nbsp;&#8212;&nbsp;homens, e como temos gerenciado a nossa pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o nas mais diversas inst\u00e2ncias e sistemas&nbsp;&#8212;&nbsp;pol\u00edtico, econ\u00f4mico, social, humano e ambiental. Em meio ao desregramento geral, a percep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica sobre a evolu\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o das comunidades ind\u00edgenas do Brasil se imp\u00f5e. No momento em que a circula\u00e7\u00e3o mundial \u00e9 realidade e que as muitas popula\u00e7\u00f5es migram e se misturam e as civiliza\u00e7\u00f5es intercambiam, povos chamados origin\u00e1rios clamam sua ancestralidade e suas tradi\u00e7\u00f5es, o direito ao seu \u2018lugar\u2019 e a fazer escutar a sua voz. Os t\u00e3o distintos ind\u00edgenas brasileiros mostram que a imagem do \u00edndio \u201cnu e inocente\u201d&nbsp;&#8212;&nbsp;assim descrita por Pero Vaz de Caminha em 1500, contribuindo ao mito do \u2018bom selvagem\u2019, de esp\u00edrito simples e subordinado, e um dos \u00edcones do exotismo mais absoluto&nbsp;&#8212;&nbsp;se confirmou completamente incongruente, uma ideia pequena, falida e ultrapassada. Deixemos aos antrop\u00f3logos, fil\u00f3sofos e psic\u00f3logos da posteridade a reflex\u00e3o em torno da perspectiva humana que separa nosso projeto de exist\u00eancia, confrontado \u00e0 ideia central que anima e une o projeto desse imenso arquip\u00e9lago ind\u00edgena, hoje drasticamente reduzido, mas que ainda existe e resiste nas diferentes regi\u00f5es dessa extensa terra que \u00e9 o Brasil. Apesar das tantas tentativas de extermin\u00e1-los, de acultur\u00e1-los, de calar as suas vozes, de tomar-lhes o territ\u00f3rio e de impedi-los de exercer sua intera\u00e7\u00e3o com o meio, os ind\u00edgenas resistem! Resist\u00eancia \u00e9 a palavra de ordem para exercer seu bem viver.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">E sem fazer alarde, os ind\u00edgenas brasileiros se organizaram. Diante do avan\u00e7o mundial do pensamento extremista e de sua pr\u00e1tica, o que, no Brasil, culminou no governo Bolsonaro, os ind\u00edgenas constru\u00edram a resist\u00eancia. N\u00e3o mais se faziam entender de forma isolada como os m\u00edticos Caciques Juruna e Raoni, os grandes l\u00edderes Aritana Yawalapiti e Ailton Krenak ou o emblem\u00e1tico xam\u00e3 Yanomami Davi Kopenawa, que alcan\u00e7aram expressividade internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Face ao conformismo e \u00e0 passividade dos indiv\u00edduos da sociedade brasileira, inscritos em um contexto que ultrapassa o nacional, o acanhado n\u00famero de ind\u00edgenas que ainda resta no pa\u00eds se organizou, se agigantou, se multiplicou em vozes ecoando mundo afora. Denunciou no continente do outrora colonizador, hoje consciente da necessidade de preservar o planeta, as barb\u00e1ries \u00e0s quais ainda continuavam sendo submetidos nos anos ditos \u2018hipermodernos\u2019 de 2020. Os ind\u00edgenas n\u00e3o s\u00f3 bradaram para denunciar o projeto de genoc\u00eddio ind\u00edgena empreendido pelas a\u00e7\u00f5es em favor de interesses econ\u00f4micos sectaristas da pol\u00edtica do governo Bolsonaro, como fizeram soar seu marac\u00e1 para clamar pela floresta e os diferentes biomas brasileiros, alguns quase dizimados outros largamente desmatados; isso, no momento em que a enorme aldeia global mal come\u00e7a a despertar para a crise clim\u00e1tica deflagrada pelas m\u00e3os do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Imp\u00f4s-se, ent\u00e3o, ir al\u00e9m da franca simpatia e do interesse que os povos origin\u00e1rios da terra do pau-brasil sempre nos suscitaram. Ouvindo o som do marac\u00e1 e escutando a entoada das vozes ind\u00edgenas, tornou-se imposs\u00edvel n\u00e3o se juntar a eles de alguma maneira. E a forma que encontramos, modesta, mas que se pretende multiplicadora, se constituiu na escuta do chamado e no franqueamento dos espa\u00e7os diversos em que transitamos afim de acolher as suas vozes, a sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em 2019, o N\u00facleo de Pesquisas e Realiza\u00e7\u00f5es TELAA&nbsp;&#8212;&nbsp;<strong>T<\/strong>elas <strong>E<\/strong>letr\u00f4nicas, <strong>L<\/strong>iteratura &amp; <strong>A<\/strong>rtes <strong>A<\/strong>udiovisuais, ora baseado na Universidade de Bras\u00edlia, realizou o terceiro encontro interdisciplinar <em>Entre Telas<\/em>, centrado na presen\u00e7a das telas na cultura contempor\u00e2nea, para discutir a <em>Alucina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das telas<\/em>. Hoje, os fundamentos e a pr\u00e1tica da pol\u00edtica passam necessariamente pelas telas, sendo tamb\u00e9m, e cada vez mais, o caso da cultura. Da\u00ed sucedem as confronta\u00e7\u00f5es essenciais para todos n\u00f3s, n\u00e3o importa qual seja a nossa atua\u00e7\u00e3o no corpo social. Atualmente, nada escapa \u00e0s telas&nbsp;&#8212;&nbsp;de todos os tipos. As redes sociais revelam seu largo alcance, seu&nbsp;poder e sua soberania. Acreditamos que a utopia de transpar\u00eancia coexiste com uma esp\u00e9cie de alucina\u00e7\u00e3o, que mostra a cada um aquilo que ele quer ver&nbsp;&#8212;&nbsp;quando a autossugest\u00e3o substitui a janela sobre o real e gera passividade diante da submers\u00e3o dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">J\u00e1 \u00e0quela \u00e9poca, em 2019, a cena nacional, no rastro da pol\u00edtica de Donald Trump, parecia ter se tornado uma telenovela de mau gosto e horror, na qual assist\u00edamos aos epis\u00f3dios vulgarizados na internet, sem aferir ou intervir, tomados por um estranho fasc\u00ednio acr\u00edtico. No contexto pol\u00edtico nacional do final daquele ano, ap\u00f3s o golpe de Estado ao governo de Dilma Rousseff em 2016, o subsequente encarceramento arbitr\u00e1rio do ent\u00e3o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva&nbsp;&#8212;&nbsp;assim impedido de concorrer \u00e0s elei\u00e7\u00f5es em 2018, viv\u00edamos sob a catastr\u00f3fica gest\u00e3o do senhor Jair Bolsonaro, pol\u00edtico obscuro e de extrema direita que, rapidamente, imprimia na popula\u00e7\u00e3o suas puls\u00f5es de viol\u00eancia, tornava o pa\u00eds um p\u00e1ria mundial e impulsionava o Brasil a regredir em todos os setores que envolvem o desenvolvimento humano, econ\u00f4mico, ambiental e institucional.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Foi diante do desmantelamento da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade; do descaso e do desmatamento da floresta amaz\u00f4nica e de outros importantes biomas nacionais, a um ritmo alucinado; da crescente retomada da injusti\u00e7a social e da mis\u00e9ria; e, sobretudo, do apequenamento dos ideais pol\u00edticos e da viola\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas republicanas brasileiras; que nos pareceu urgente discutir a pol\u00edtica das telas&nbsp;&#8212;&nbsp;mal sab\u00edamos n\u00f3s que est\u00e1vamos a poucos meses de uma crise mundial gerada pela pandemia da COVID-19, que coibiu o contato humano e nos enredou todos, ainda mais, diante das telas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Com os subs\u00eddios para as universidades, a cultura e a pesquisa drasticamente reduzidos pelo governo Jair Bolsonaro, o N\u00facleo TELAA, apoiado sobretudo pela Embaixada da Fran\u00e7a e pela associa\u00e7\u00e3o <em>Sens public<\/em>, p\u00f4de, enfim, reunir um grupo heterog\u00eaneo de pesquisadores, artistas e agentes culturais no \u00e2mbito nacional e internacional para refletir e tentar compreender o fen\u00f4meno das \u2018telas\u2019 e suas implica\u00e7\u00f5es sociopol\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nesse contexto, antenados com o som do marac\u00e1 ind\u00edgena j\u00e1 ecoando forte aqui e l\u00e1, decidimos convidar para integrar o grupo de uma das linhas de discuss\u00e3o, em torno das narrativas de m\u00eddias eletr\u00f4nicas (TV, v\u00eddeo, revista digital, videogame, filmes publicit\u00e1rios, redes sociais, blogs e smartphones), o jornalista Erisvan Bone&nbsp;&#8212;&nbsp;ativista ind\u00edgena, lideran\u00e7a jovem do povo Guajajara no Maranh\u00e3o e tamb\u00e9m fundador da rede \u201cM\u00eddia India\u201d, ve\u00edculo que pretende dar voz aos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/201801540-0aa96aee-a7b3-4d7f-adfd-2ec2fd6dd043.png\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Erisvan Bone Guajajara durante o III Encontro Internacional Entre Telas, <em>A Alucina\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica das Telas<\/em>, realizado na Universidade de Bras\u00edlia, em setembro de 2019. Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O contato estabelecido com o jovem Erisvan Bone Guajajara nos aproximou das pautas ind\u00edgenas, assim como acresceu ainda mais o nosso respeito pela fina articula\u00e7\u00e3o de ideias e de a\u00e7\u00f5es empreendidas pelas diferentes comunidades em todo o pa\u00eds. Nosso encontro com Erisvan Bone tamb\u00e9m nos informou que, no m\u00eas seguinte, lideran\u00e7as ind\u00edgenas de diferentes comunidades deixariam o continente e atravessariam o Atl\u00e2ntico em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa, para realizar uma jornada de 35 dias intitulada \u2018<a href=\"https:\/\/www.nenhumagotamais.org\/\">Sangue ind\u00edgena, nenhuma gota a mais<\/a>\u2019, percorrendo 12 pa\u00edses. Seu objetivo: \u201cdenunciar as graves viola\u00e7\u00f5es perpetradas contra os povos ind\u00edgenas e o meio ambiente do Brasil, que vem ocorrendo sistematicamente desde a posse do presidente Jair Bolsonaro.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Imposs\u00edvel negar que muito nos impressionou a a\u00e7\u00e3o de tamanho porte realizada pela Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil&nbsp;&#8212;&nbsp;APIB, em parceria com organismos da sociedade civil, \u201cpara promover medidas que pressionem o governo brasileiro e empresas do agroneg\u00f3cio a cumprirem os acordos de preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente e respeito aos direitos dos povos ind\u00edgenas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nessa perspectiva, a APIB incrementou e institucionalizou seu departamento jur\u00eddico, hoje coordenado pelo ind\u00edgena Luiz Eloy Terena, estabelecendo o que definem como \u2018advocacia ind\u00edgena org\u00e2nica\u2019, em que a atua\u00e7\u00e3o judicial t\u00e9cnica est\u00e1 alinhada com as decis\u00f5es pol\u00edticas do movimento ind\u00edgena. A equipe jur\u00eddica da APIB trabalha a partir de 4 linhas de atua\u00e7\u00e3o: atua\u00e7\u00e3o no contencioso judicial, parlamentar, criminal e em \u00e2mbito internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Por ocasi\u00e3o de uma outra realiza\u00e7\u00e3o intelectual, dessa vez em Paris, em outubro do mesmo ano e por ocasi\u00e3o do <em>29<sup>e<\/sup> Salon de la Revue<\/em>, trouxemos \u00e0 mesa a solit\u00e1ria, mas potente e atuante, resist\u00eancia ind\u00edgena diante das atrocidades cometidas pelo governo Bolsonaro e do desmantelamento das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas brasileiras, durante as interven\u00e7\u00f5es e as discuss\u00f5es em torno do tema proposto pela revista internacional <em>Sens public&nbsp;\u2013&nbsp;R\u00e9sistance culturelle &amp; d\u00e9mocratique au Br\u00e9sil<\/em> [Resist\u00eancia cultural e democr\u00e1tica no Brasil].<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/201998312-cf71c693-6c07-43f8-8393-23972e331fd6.png\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Parte do Programa do 29\u00ba Sal\u00e3o da Revista, Paris, 2019<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Aos nossos olhos, a resist\u00eancia das lideran\u00e7as ind\u00edgenas se destacava diante do mutismo e da in\u00e9rcia da sociedade brasileira em geral, escancarando sua incapacidade em se organizar para resistir ao retrocesso a que o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro condenou o pa\u00eds. Assim, centramos nossa interven\u00e7\u00e3o na quest\u00e3o ind\u00edgena e aproveitamos do momento para contribuir com a divulga\u00e7\u00e3o das pautas da Jornada ind\u00edgena em sua trajet\u00f3ria atrav\u00e9s de 18 cidades europeias.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<p><iframe width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lFHIn2xgQGs\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">V\u00eddeo de divulga\u00e7\u00e3o \u2018Turn\u00ea Sangue Ind\u00edgena, nenhuma gota a mais\u2019, APIB, 2019<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nessa ocasi\u00e3o, juntamente com a fil\u00f3sofa M\u00e1rcia Tiburi&nbsp;&#8212;&nbsp;exilada em Paris devido a graves amea\u00e7as e retalia\u00e7\u00f5es advindas do campo bolsonarista, decidimos acolher e preparar em nossa casa um jantar para a delega\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, que j\u00e1 viajava h\u00e1 quase um m\u00eas pela Europa. Chegara at\u00e9 n\u00f3s a informa\u00e7\u00e3o de que os ind\u00edgenas estavam cansados da alimenta\u00e7\u00e3o que lhes era servida ao longo da Jornada, em muito distante do seu cotidiano e h\u00e1bitos alimentares. Recebemos, ent\u00e3o, os 13 ind\u00edgenas ora reunidos em Paris (\u00c2ngela Kaxuyana, Dinaman Tux\u00e1, Alberto Terena, Kret\u00e3 Kaingang, C\u00e9lia Xakriab\u00e1, S\u00f4nia Guajajara, Erisvan Bone Guajajara, Gasparini Kaingang, Erick Terena, Nara Bar\u00e9, Elizeu Guaran\u00ed Kaiowa, Djuena Tikuna e Diego Janat\u00e3), assim como duas outras integrantes da comitiva, membros da <a href=\"https:\/\/midianinja.org\">M\u00eddia Ninja<\/a>&nbsp;&#8212;&nbsp;que se define como base informativa digital em que o jornalismo se apresenta como \u201cuma das ferramentas e linguagens utilizadas para levantar temas e debates, fortalecendo narrativas que n\u00e3o tem visibilidade nos meios convencionais de comunica\u00e7\u00e3o\u201d. Juntamente \u00e0 comitiva, convidamos alguns amigos seletos para uma noite fora do comum, em que a for\u00e7a do discurso e o canto ind\u00edgena na voz de Djuena Tikuna contaminou todos os presentes. Era mais um elo que se constru\u00eda com a causa ind\u00edgena!<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/201801554-3f372e0c-0247-4405-b9a5-cdf57fbe4638.png\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Da esquerda para a direita: Djuena Tikuna, Nara Bar\u00e9, C\u00e9lia Xakriab\u00e1, M\u00e1rcia Tiburi, S\u00f4nia Guajajara e \u00c2ngela Kaxuyana. Foto: G\u00e9rard Wormser, Paris, novembro 2019<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Entre apresenta\u00e7\u00f5es, conhecimentos e conversas diversas soube-se que, no dia seguinte, 11 de novembro, data em que se comemora o fim da 1\u00aa Guerra Mundial (11\/11\/1918), estar\u00edamos no Champs-\u00c9lys\u00e9es diante da est\u00e1tua do chefe do governo franc\u00eas daquela \u00e9poca, para a homenagem anual. Georges Clemenceau, <em>Pr\u00e9sident du Conseil Fran\u00e7ais<\/em>&nbsp;&#8212;&nbsp;o equivalente \u00e0 figura de Primeiro Ministro, a termo de uma longa carreira pol\u00edtica e em idade avan\u00e7ada, soube mobilizar a sociedade francesa ao lado do ex\u00e9rcito dos aliados, para alcan\u00e7ar a vit\u00f3ria e p\u00f4r termo \u00e0 guerra. Evento restrito, com a presen\u00e7a do chefe de Estado, de altas personalidades pol\u00edticas e de descendentes da fam\u00edlia Clemenceau, nossa presen\u00e7a ali se justificava por raz\u00f5es familiares que nos ligam ao chefe do Gabinete de Guerra de Clemenceau, que permaneceu ao lado do Presidente do Conselho at\u00e9 o momento do Tratado de Versalhes, em junho de 1919.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Eis que ganhou for\u00e7a a ideia de burlar a seguran\u00e7a presidencial que policiava o entorno do evento e fazer passar conosco, munidos de apenas dois convites nominais, as ind\u00edgenas S\u00f4nia Guajajara e C\u00e9lia Xakriab\u00e1, para chamar aten\u00e7\u00e3o para a presen\u00e7a, os trabalhos e as manifesta\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que ocorreriam naqueles dias na capital francesa e obter um quase imposs\u00edvel aperto de m\u00e3o do presidente Emmanuel Macron. Em nosso p\u00e9riplo com as duas ind\u00edgenas devidamente paramentadas pelas ruas molhadas e frias da esta\u00e7\u00e3o outonal, n\u00e3o s\u00f3 conseguimos chamar a aten\u00e7\u00e3o, como ser barrados pelos militares, na espera de uma ordem superior acordando o acesso das ind\u00edgenas \u00e0 cerim\u00f4nia. A resposta positiva nunca veio. Mas, aproveitando de um deslize da guarda ou de sua indulg\u00eancia, eis-nos aos p\u00e9s da est\u00e1tua de Clemenceau com as duas ind\u00edgenas, prontos para assistir \u00e0 cerim\u00f4nia. Sob os olhares assustados e reprovadores da fam\u00edlia, nos instalamos com C\u00e9lia e S\u00f4nia, que posicionamos na linha de frente para o aperto de m\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 da prefeita de Paris Anne Hidalgo e outros representantes oficiais, como do pr\u00f3prio presidente Emmanuel Macron. Miss\u00e3o cumprida!<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/202009978-35060b41-5d72-4741-bc5a-3e950aac23b5.png\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Ao alto, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, cumprimenta S\u00f4nia Guajajara; acima, o presidente franc\u00eas Emmanuel Macron em aperto de m\u00e3o com C\u00e9lia Xakriab\u00e1. Fotos: G\u00e9rard Wormser, Paris, novembro 2019<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Para al\u00e9m do nosso pr\u00f3prio engajamento com a causa ind\u00edgena, temos a convic\u00e7\u00e3o de que a presen\u00e7a de C\u00e9lia Xakriab\u00e1 e S\u00f4nia Guajajara ao nosso lado em tal comemora\u00e7\u00e3o e homenagem se justificou plenamente pela figura de resist\u00eancia, coragem e afeita \u00e0 democracia de Georges Clemenceau, tal como, bravamente, resistem os ind\u00edgenas em sua luta pela manuten\u00e7\u00e3o da democracia em terras brasileiras. Contra os ares de reprova\u00e7\u00e3o familiar inicial, o nosso orgulho ao poder circular as fotos obtidas!<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/202000986-38bafd73-49ba-405a-b504-3840cddc8713.png\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Ao alto, as ind\u00edgenas S\u00f4nia Guajajara e C\u00e9lia Xakriab\u00e1 com G\u00e9rard Wormser, fundador e editor-chefe da revista Sens Public, aos p\u00e9s da est\u00e1tua de Georges Clemenceau; acima, C\u00e9lia Xakriab\u00e1 e Junia Barreto, idealizadora e organizadora deste dossi\u00ea, na Pra\u00e7a Clemenceau, em Paris. Fotos: Junia Barreto e G\u00e9rard Wormser, Paris, novembro de 2019.<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em 2020, a exposi\u00e7\u00e3o da fot\u00f3grafa Cl\u00e1udia Andujar, <em>La lutte Yanomami<\/em> [A luta Yanomami], apresentada na <em>Fondation Cartier<\/em>, em Paris, nos levou ao del\u00edrio! A mostra reuniu mais de 300 fotografias da artista (em cores e em preto e branco), uma s\u00e9rie de desenhos dos pr\u00f3prios ind\u00edgenas Yanomami, assim como algumas instala\u00e7\u00f5es audiovisuais, montadas a partir do vasto acervo de Andujar e tamb\u00e9m as interven\u00e7\u00f5es em imagem de Davi Kopenawa. A exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 marcada pela sensibilidade, seja a da pessoa da fot\u00f3grafa (que depreendemos atrav\u00e9s de diferentes testemunhos), de sua arte ou de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia ao lado dos Yanomami e a rela\u00e7\u00e3o que constroem, na qual a arte fotogr\u00e1fica foi o vetor principal de comunica\u00e7\u00e3o. As fotografias de Cl\u00e1udia Andujar transmitem a for\u00e7a desse povo de pouco mais de 30.000 pessoas, mas que re\u00fane um largo conjunto cultural e lingu\u00edstico. O militantismo de Andujar pela causa Yanomami, durante anos a fio, tamb\u00e9m impressiona; e compreendemos nas palavras de Davi Kopenawa que, para al\u00e9m do engajamento, est\u00e1 o afeto sobre o qual se constru\u00edram suas rela\u00e7\u00f5es. A artista tamb\u00e9m nos parece conseguir estabelecer um forte pacto com o espectador. Suas fotos parecem transpor o papel, dando vida aos in\u00fameros \u2018personagens\u2019 captados por suas lentes e suscitando no espectador admira\u00e7\u00e3o e respeito por esse povo origin\u00e1rio, habitante da floresta amaz\u00f4nica na fronteira com a Venezuela, em um territ\u00f3rio vivamente cobi\u00e7ado pelos interesses desenvolvimentistas e cuja superf\u00edcie excede a de Portugal.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/201801572-32768dc8-4ec4-48c7-827b-2e014e832798.png\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Cartaz da exposi\u00e7\u00e3o <em>La lutte Yanomami<\/em>, ocorrida na Fondation Cartier, em Paris, entre 30\/01 e 10\/05\/2020; reabertura de 16\/06 a 13\/09\/2020<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A exposi\u00e7\u00e3o de Andujar agu\u00e7ou ainda mais o desejo de empreender a leitura do instigante livro escrito por Davi Kopenawa e o antrop\u00f3logo franc\u00eas Bruce Albert, <em>La chute du ciel. Paroles d\u2019um chaman yanomami<\/em> [A queda do c\u00e9u. Palavras de um xam\u00e3 Yanomami], nascido dos relatos de Kopenawa ao etn\u00f3logo, em sua l\u00edngua materna, tra\u00e7ando sua trajet\u00f3ria pessoal, desde a descoberta de sua voca\u00e7\u00e3o para xam\u00e3 ainda na inf\u00e2ncia, at\u00e9 o avan\u00e7o devastador do homem branco pela floresta, assim como sua luta e suas viagens ao exterior, na tentativa de denunciar a barb\u00e1rie e defender seu povo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O interesse pelo l\u00edder Yanomami e seu manifesto xam\u00e2nico nos levou at\u00e9 Julien Pallotta, fil\u00f3sofo e tradutor franc\u00eas da obra de Ailton Krenak. Convidado a intervir no seio da equipe da revista <em>Sens public<\/em>, Pallotta nos ajudou a entender uma forma de triangula\u00e7\u00e3o entre (1) o posicionamento cient\u00edfico da antropologia ocidental na abordagem do bem viver ind\u00edgena e das cren\u00e7as ligadas a esse mundo em desaparecimento (L\u00e9vi-Strauss, Darcy Ribeiro, etc.); (2) a autenticidade da transmiss\u00e3o feita por Davi Kopenawa em sua pr\u00f3pria l\u00edngua a Bruce Albert, pois, ciente da fragilidade dos saberes da floresta, Kopenawa aceitou relatar a viv\u00eancia espiritual dos xam\u00e3s Yanomami para o mundo exterior, vigilante em n\u00e3o trair os mais \u00edntimos afetos dos povos da floresta; (3) Ailton Krenak, assumindo sua integra\u00e7\u00e3o na esfera midi\u00e1tica urbana, se posiciona como tradutor para seu p\u00fablico e no pr\u00f3prio idioma brasileiro, das formas mais gen\u00e9ricas e acess\u00edveis da experi\u00eancia do bem viver.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O dossi\u00ea que aqui constitu\u00edmos se posiciona no lugar da media\u00e7\u00e3o dessas tr\u00eas perspectivas, entre as quais convidamos o leitor a circular, pois as experi\u00eancias s\u00e3o m\u00faltiplas. Mas todas as comunidades ind\u00edgenas est\u00e3o fatalmente confrontadas com o imperativo de fazer coabitar a sua perspectiva original com as representa\u00e7\u00f5es dominantes. Essa necessidade foi claramente percebida, e de forma extremada, no confronto com a nova pandemia, quando assistimos \u00e0 deflagra\u00e7\u00e3o de um conflito entre vis\u00f5es contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Foi tamb\u00e9m em 2020 que a pandemia do coronav\u00edrus se espalhou e abra\u00e7ou a aldeia global. O negacionismo e o descaso do presidente Jair Bolsonaro com a popula\u00e7\u00e3o brasileira foram respons\u00e1veis pela dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus entre 162 povos ind\u00edgenas, resultando em 75.711 indiv\u00edduos infectados e 1.324 \u00f3bitos registrados, segundo o site Emerg\u00eancia Ind\u00edgena, da Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil&nbsp;&#8212;&nbsp;APIB, <a href=\"https:\/\/emergenciaindigena.apiboficial.org\">dados de 13\/11\/2022<\/a>. \u00c0 revelia do governo e de institui\u00e7\u00f5es oficiais como a FUNAI (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio)&nbsp;&#8212;&nbsp;claramente anti-ind\u00edgena na gest\u00e3o Bolsonaro&nbsp;&#8212;&nbsp;que tanto negligenciaram as a\u00e7\u00f5es de apoio aos povos ind\u00edgenas para enfrentar a pandemia, a APIB, juntamente a suas organiza\u00e7\u00f5es de base, lan\u00e7ou uma mobiliza\u00e7\u00e3o internacional para tentar salvar vidas ind\u00edgenas, visto que mais de 50% dos povos foram diretamente atingidos pelo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em meio \u00e0 pandemia da Covid-19, nos veio o desejo de acolher e dar espa\u00e7o nesta revista aos povos ind\u00edgenas de todo o Brasil, sob toda forma de express\u00e3o, atrav\u00e9s de textos, fotos, v\u00eddeos, testemunhos ou contribui\u00e7\u00f5es art\u00edsticas de toda esp\u00e9cie. Obviamente que n\u00e3o se divulga uma tal proposta aos moldes das conhecidas \u2018chamadas para contribui\u00e7\u00e3o\u2019. Al\u00e9m do que, em tempos bolsonaristas obscuros, toda e qualquer proposi\u00e7\u00e3o de cunho midi\u00e1tico dirigida diretamente poderia produzir desconfian\u00e7a e impor incertezas, quando o n\u00famero de ind\u00edgenas, indigenistas e aqueles engajados na luta pela preserva\u00e7\u00e3o da floresta e de seus povos poderiam ser intimidados e\/ou assassinados, sem que tais crimes fossem claramente elucidados e devidamente punidos. Por outro lado, muitas das lideran\u00e7as de cada uma das 7 organiza\u00e7\u00f5es regionais da APIB em todo o Brasil estiveram concentradas, de forma in\u00e9dita, em convocar e preparar candidaturas ind\u00edgenas, com vistas a ingressar suas lideran\u00e7as no cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional via elei\u00e7\u00f5es para deputados, senadores e presidente da Rep\u00fablica, que ocorreram entre 02 e 30 de outubro deste ano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Assim, para al\u00e9m dos convites feitos a alguns ind\u00edgenas diretamente, fomos ao encontro das manifesta\u00e7\u00f5es empreendidas em 2021, em Bras\u00edlia&nbsp;&#8212;&nbsp;\u2018Acampamento Luta pela vida\u2019 e \u2018Marcha das Mulheres Ind\u00edgenas\u2019, cujas mobiliza\u00e7\u00f5es visavam, sobretudo, acompanhar o julgamento do processo do <em>marco temporal<\/em> pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que definir\u00e1, ao seu t\u00e9rmino, o futuro das demarca\u00e7\u00f5es das Terras Ind\u00edgenas no pa\u00eds. A absurda tese do <em>marco temporal<\/em> de ocupa\u00e7\u00e3o da terra pretende que somente aqueles ind\u00edgenas que estavam em suas terras em 05 de outubro de 1988, data da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira, teriam direito \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o das mesmas. Nas palavras do ind\u00edgena Marcos Sabaru,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">o&nbsp;<em>marco temporal<\/em> \u00e9 uma m\u00e1quina de moer hist\u00f3ria\u2026 ele acaba com a hist\u00f3ria, muda toda a hist\u00f3ria.&nbsp;Porque de 5 de outubro de 88 pra tr\u00e1s n\u00e3o h\u00e1 mais hist\u00f3ria. (&#8230;) Ele reposiciona as pessoas, coloca o colonizador como dono da terra e o ind\u00edgena como invasor. O <em>marco temporal<\/em> nega a presen\u00e7a do ind\u00edgena neste territ\u00f3rio. (&#8230;)&nbsp;Nega que nesses mil\u00eanios todos os povos ind\u00edgenas estiveram presentes e cuidando da biodiversidade.&nbsp;O <em>marco temporal<\/em> \u00e9 isso, ele \u00e9 temporal mesmo, essa m\u00e1quina volta no tempo, reverte o tempo, troca as pessoas de tempo, coloca as pessoas em tempo diferente, apaga a mem\u00f3ria e muda a hist\u00f3ria (Sabaru, Marcos. \u00abM\u00e1quina de moer hist\u00f3ria sobre o marco temporal\u00bb. APIB Oficial. Acessado 24 de Janeiro de 2023. https:\/\/apiboficial.org\/marco-temporal\/.)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Durante essas vultuosas manifesta\u00e7\u00f5es ocorridas em Bras\u00edlia entre 22 e 28 de agosto de 2021, filmamos, fotografamos e, sobretudo, conversamos com alguns ind\u00edgenas ali reunidos para denunciar os invasores de seus territ\u00f3rios e os constantes ataques aos seus direitos fundamentais assegurados pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal. Mobiliza\u00e7\u00e3o impressionante!<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Iniciamos os contatos para este dossi\u00ea ao final de 2020 e demos a cada um ou a cada povo que aqui se manifesta o tempo que cada qual precisou. Dissemos a todos que a ideia era manifestar-se sobre a perspectiva do bem viver, t\u00e3o cara \u00e0s comunidades ind\u00edgenas e amea\u00e7ada em tempos de governo Bolsonaro. O material que nos foi enviado n\u00e3o sofreu restri\u00e7\u00e3o alguma e figura aqui, essencialmente em sua forma integral, tal como desejado por seus autores.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O dossi\u00ea se constitui em 4 grandes tempos: <em>eles escrevem<\/em>, <em>eles testemunham<\/em>, <em>eles criam<\/em> e <em>escrevendo sobre eles<\/em>; o todo capitaneado por esta introdu\u00e7\u00e3o e um derradeiro tempo, que pontua uma das perspectivas essenciais desta manifesta\u00e7\u00e3o. No quarto tempo, intitulado \u2018escrevendo sobre eles\u2019, convocamos olhares externos \u00e0 comunidade de origem ind\u00edgena, como o jovem linguista Ariel Pheula, especialista da l\u00edngua Av\u00e1-Canoeiro, da fam\u00edlia Tupi-Guarani, falada nos estados de Goi\u00e1s e Tocantins pelo povo Av\u00e1-Canoeiro, para testemunhar sobre seu trabalho como pesquisador do Laborat\u00f3rio de L\u00ednguas e Literaturas Ind\u00edgenas da Universidade de Bras\u00edlia&nbsp;&#8212;&nbsp;LALLI\/UnB, assim como suas viv\u00eancias no seio de comunidades ind\u00edgenas. Convidamos tamb\u00e9m o historiador Manoel Batista do Prado Junior, indigenista especializado da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio&nbsp;&#8212;&nbsp;FUNAI, que realiza, atualmente, pesquisa de doutorado em Direito em torno do tema \u2018Terras ind\u00edgenas, direitos em disputa: a prote\u00e7\u00e3o constitucional da posse ind\u00edgena, propriedade fundi\u00e1ria e os fundamentos do conflito\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Dado o car\u00e1ter internacional e transatl\u00e2ntico da revista <em>Sens Public<\/em> (baseada entre a Fran\u00e7a, o Qu\u00e9bec e o Brasil), este dossi\u00ea foi constru\u00eddo inteiramente em portugu\u00eas e em franc\u00eas, separadamente. Usando recursos distintos de cunho textual, gr\u00e1fico, imag\u00e9tico e sonoro, procuramos atentar aos eventuais problemas de acessibilidade, tentando incluir, na maior parte das produ\u00e7\u00f5es em \u00e1udio e v\u00eddeo, seus equivalentes em formato texto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Os ind\u00edgenas que participam do dossi\u00ea s\u00e3o juristas, educadores, agentes de sa\u00fade, l\u00edderes comunit\u00e1rios, antrop\u00f3logos, cultivadores, ge\u00f3grafos, ativistas, artes\u00e3os, linguistas, dom\u00e9sticas, nutricionistas, artistas&#8230; S\u00e3o homens e mulheres engajados n\u00e3o apenas nas pautas ind\u00edgenas e comunit\u00e1rias, mas tamb\u00e9m na luta pela solidifica\u00e7\u00e3o da democracia no Brasil, pela preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente e pelo uso consciente e respons\u00e1vel dos recursos naturais. Em tempos de exacerba\u00e7\u00e3o do individualismo, do avivamento dos interesses individuais, da competi\u00e7\u00e3o desenfreada, do desinteresse pelo conhecimento e a mem\u00f3ria; os ind\u00edgenas nos ensinam a import\u00e2ncia da comunidade, do outro, da partilha, do aprendizado, das tradi\u00e7\u00f5es. E, sobretudo, nos mostram que s\u00e3o eles os verdadeiros guardi\u00f5es da floresta e os agentes estabilizadores entre a a\u00e7\u00e3o humana e o meio ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A grande fam\u00edlia ind\u00edgena brasileira reivindica hoje o seu lugar enquanto povo origin\u00e1rio das terras brasileiras e n\u00e3o pretende aceitar o lugar de alteridade ao qual foi relegada, sobretudo nos \u00faltimos anos. Sua organiza\u00e7\u00e3o e capacidade de supera\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia mostram que n\u00e3o mais suportar\u00e3o a tutela das classes dominantes ou jugo de qualquer esp\u00e9cie. Os ind\u00edgenas se prepararam para serem tamb\u00e9m atores e n\u00e3o apenas coadjuvantes de uma hist\u00f3ria brasileira, na qual se inscreveram em primeira m\u00e3o.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/201801538-400dbb20-e7f8-4a00-af8c-e620fff6675a.png\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">Foto: G\u00e9rard Wormser, 2019<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No momento em que escrevo, a gest\u00e3o de Jair Bolsonaro definha, ap\u00f3s perder as elei\u00e7\u00f5es para o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Nem as mais torpes atitudes, as <em>fake news<\/em>, a tentativa de cooptar as For\u00e7as Armadas ou de manipular as institui\u00e7\u00f5es, o suborno popular com aux\u00edlios de \u00faltima hora, as intimida\u00e7\u00f5es de toda esp\u00e9cie dentre uma longa lista de atitudes execr\u00e1veis de uma extrema direita opaca e retr\u00f3grada n\u00e3o puderam impedir a queda do governo Bolsonaro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Queremos iniciar um outro tempo e trabalhamos para virar essa p\u00e1gina sombria da nossa hist\u00f3ria. Detrator incondicional da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, usurpador financista e interessado dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas, carrasco do bem viver das comunidades ind\u00edgenas, o iminente ex dirigente, p\u00e1ria diante da comunidade internacional, assiste, hoje, o \u00eaxito da atua\u00e7\u00e3o ind\u00edgena junto aos organismos internacionais e no seio da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social brasileira. Acontece nesse momento a reuni\u00e3o internacional da COP27 com a participa\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as ind\u00edgenas das diferentes regi\u00f5es de todo o pa\u00eds, trabalhando em prol da ado\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es imediatas para o enfrentamento da crise clim\u00e1tica e apontando a demarca\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas como parte do \u201ceixo central das estrat\u00e9gias para um futuro poss\u00edvel\u201d. Com Luiz In\u00e1cio da Silva convidado, Jair Bolsonaro, ainda em mandato, permanece isolado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Criado recentemente na cidade de S\u00e3o Paulo, o Museu das Culturas Ind\u00edgenas tem como finalidade a prote\u00e7\u00e3o, a difus\u00e3o e a valoriza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio cultural ind\u00edgena. \u00c9 \u201cum novo conceito de museu, que nasce com uma proposta inovadora de gest\u00e3o compartilhada a ser constru\u00edda ao longo da experi\u00eancia, com o fortalecimento do protagonismo ind\u00edgena. Um espa\u00e7o de di\u00e1logo intercultural, pluralidade, encontros entre povos ind\u00edgenas e n\u00e3o-ind\u00edgenas, onde a mem\u00f3ria da ancestralidade permitir\u00e1 aos diversos povos origin\u00e1rios compartilharem suas mensagens, ideias, saberes, conhecimentos, filosofias, m\u00fasicas, artes e hist\u00f3rias\u201d, prenuncia <a href=\"https:\/\/museudasculturasindigenas.org.br\">a equipe \u00e0 frente do museu<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ainda mais determinante ser\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio dos Povos Origin\u00e1rios no novo governo Lula, que toma posse em janeiro de 2023, e que certamente ser\u00e1 comandado por uma lideran\u00e7a ind\u00edgena. Na expectativa desse marco na hist\u00f3ria do pa\u00eds, os ind\u00edgenas trabalham na prepara\u00e7\u00e3o de propostas cunhadas pelas lideran\u00e7as nacionais, que dever\u00e3o municiar a equipe respons\u00e1vel pela transi\u00e7\u00e3o entre os governos atual e porvir. As propostas tra\u00e7adas pela APIB para encaminhar e reconstruir a pol\u00edtica ind\u00edgena do governo, afim de resgatar e fortalecer os direitos tolhidos pela gest\u00e3o Bolsonaro, s\u00e3o baseadas em seis eixos fundamentais: (1)&nbsp;Direitos Territoriais Ind\u00edgenas: Demarca\u00e7\u00e3o e Prote\u00e7\u00e3o Territorial; (2)&nbsp;Reestabelecimento de\/ou cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas sociais para povos ind\u00edgenas; (3)&nbsp;Retomada e\/ou cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es e espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o e\/ou controle social; (4)&nbsp;Agenda Legislativa: interrup\u00e7\u00e3o de iniciativas anti-ind\u00edgenas no Congresso Nacional e amea\u00e7as no Judici\u00e1rio; (5)&nbsp;Agenda ambiental; (6)&nbsp;Articula\u00e7\u00e3o e incid\u00eancia internacional e composi\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as e parcerias.&nbsp;A coordenadora executiva da APIB, Eunice&nbsp;Kerexu, j\u00e1 declarou que \u201cdurante os \u00faltimos quatro anos vimos a pol\u00edtica ind\u00edgena e ambiental brasileira ser desmontada. (&#8230;) Queremos ser ouvidos e consultados, algo que est\u00e1 previsto na Conven\u00e7\u00e3o n. 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) e n\u00e3o foi respeitado por Bolsonaro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em contraponto \u00e0 mediocridade e ao despreparo de grande parte da classe pol\u00edtica brasileira na atualidade, a recente elei\u00e7\u00e3o para o Congresso Nacional de mulheres ind\u00edgenas como C\u00e9lia Xakriab\u00e1 e S\u00f4nia Guajajara nos orgulha e conforta. \u00c0s v\u00e9speras da sa\u00edda de Jair Bolsonaro, a decis\u00e3o pelo tema da reda\u00e7\u00e3o do ENEM deste ano&nbsp;&#8212;&nbsp;\u201cdesafios para a valoriza\u00e7\u00e3o de comunidades e povos tradicionais no Brasil\u201d&nbsp;&#8212;&nbsp;suscitou o seguinte coment\u00e1rio da atuante S\u00f4nia Guajajara nas redes sociais, antevendo o tom de sua futura atua\u00e7\u00e3o no Congresso: \u201cdesde a invas\u00e3o em 1500 nossos direitos tem sido violados, sobretudo, nos \u00faltimos quatro anos onde declaradamente a atual gest\u00e3o, que j\u00e1 derrotamos nas elei\u00e7\u00f5es, executava sua pol\u00edtica de exterm\u00ednio dos povos origin\u00e1rios e comunidades tradicionais\u201d. C\u00e9lia Xakriab\u00e1 pontuou que \u201c\u00e9 tempo de olhar para a nossa ancestralidade, para a nossa cultura e para nossos povos origin\u00e1rios. Que isso entre nas escolas e no imagin\u00e1rio de todos os brasileiros e brasileiras.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A sensa\u00e7\u00e3o que temos \u00e9 de vit\u00f3ria e de reais perspectivas para o avan\u00e7o das pautas ind\u00edgenas, da demarca\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios ancestrais e da consequente preserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e outros biomas, essenciais ao equil\u00edbrio do clima e do planeta. A vit\u00f3ria do \u2018Fora Bolsonaro\u2019 reabre a viabilidade do projeto do \u2018bem viver\u2019 ind\u00edgena.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Agrade\u00e7o aqui, em nome da revista <em>Sens public<\/em>, a todos aqueles e aquelas que contribu\u00edram para este projeto com seus testemunhos, reflex\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. Tenham a certeza de que estamos bastante orgulhosos de apresentar-lhes este dossi\u00ea! <em>Sens public<\/em> guardar\u00e1 as portas sempre abertas para as pautas ind\u00edgenas e permanecer\u00e1 alerta e vigilante do engajamento do novo governo brasileiro com a causa ind\u00edgena e a quest\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<figure>\n<p><iframe width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9RkTIBhV_h8\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-style:italic;font-size:12px\">\u201cOutubro 30\u201d. Fotografia e edi\u00e7\u00e3o: Pedro Portella. Tradu\u00e7\u00e3o: Morzaniel Iramari. Realiza\u00e7\u00e3o: <a href=\"http:\/\/hutukara.org\/\">Hutukara Associa\u00e7\u00e3o Yanomami<\/a>. Todos os direitos reservados.<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><\/center><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;font-style:italic\">Ap\u00f3s o resultado da elei\u00e7\u00e3o presidencial brasileira, o xam\u00e3 Davi Kopenawa e os Yanomami de Watoriki comemoram a vit\u00f3ria de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (\u201ca lideran\u00e7a Lula\u201d) ao lado de suas pr\u00f3prias lideran\u00e7as. Nessa festa de luta, eles aproveitam para reivindicar suas demandas urgentes. A principal delas: a desintrus\u00e3o dos garimpeiros que ocupam e degradam a Terra Ind\u00edgena Yanomami e Ye&#8217;kwana.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Junia Barreto<\/strong><br \/>\n<em>Psic\u00f3loga cl\u00ednica, doutora em Literatura Comparada&nbsp;(UFMG) e em Literatura e Civiliza\u00e7\u00e3o Francesa&nbsp;(Sorbonne Nouvelle), professora universit\u00e1ria, especialista na obra de Victor Hugo, pesquisadora da Universidade de Bras\u00edlia. Suas pesquisas, centradas nas express\u00f5es da alteridade, cruzam a literatura e as artes visuais, especialmente o cinema, assim como a psican\u00e1lise, a filosofia e a tradu\u00e7\u00e3o. Tendo sido produtora e editora de televis\u00e3o e v\u00eddeo e redatora para jornais e revistas, \u00e9 atualmente diretora executiva da Associa\u00e7\u00e3o Sens Public (www.sens-public.org), um espa\u00e7o internacional para publica\u00e7\u00f5es culturais e em ci\u00eancias sociais. Ela \u00e9 fundadora da Revue XIX&nbsp;&#8212;&nbsp;Arts et techniques en transformation e coordenadora do N\u00facleo TELAA, que se concentra nas m\u00faltiplas cria\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e visuais ligadas \u00e0s telas eletr\u00f4nicas. Autora de v\u00e1rios artigos e livros em franc\u00eas e portugu\u00eas.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste m\u00eas ocorreu a 20<sup>a<\/sup> edi\u00e7\u00e3o do Acampamento Terra Livre em Bras\u00edlia, no momento em que temos um Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas; em que a FUNAI \u00e9 presidida por uma mulher ind\u00edgena e em que um ind\u00edgena foi eleito como imortal da Academia Brasileira de Letras. Os ventos parecem soprar favoravelmente, mas nem sempre foi assim. <\/p>\n<p>A luta dos povos ind\u00edgenas \u00e9 ancestral. Ela come\u00e7a no exato momento em que se inicia a empresa colonial portuguesa na <em>Terra Brasilis<\/em>. N\u00e3o h\u00e1 julgamento algum que altere esse fato. Se precisamos realmente falar em Marco Temporal, \u00e9 melhor come\u00e7ar falando do Cabral. A causa ind\u00edgena \u00e9 de suma import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o do Brasil. \u00c9 uma luta que concerne aos povos ind\u00edgenas, diretamente implicados, mas tamb\u00e9m aos n\u00e3o ind\u00edgenas. <\/p>\n<p>Durante a pandemia Junia Barreto idealizou o projeto <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/dossiers\/1656\/\">Vozes ind\u00edgenas, trilhas para renovar o Brasil<\/a> com o objetivo de abrir espa\u00e7o \u00e0s diferentes comunidades ind\u00edgenas de norte a sul do pa\u00eds. O dossi\u00ea foi publicado em portugu\u00eas e franc\u00eas pela revista internacional <em>Sens public<\/em> em novembro de 2022. Publicamos, hoje, seu texto de apresenta\u00e7\u00e3o do dossi\u00ea. No Coletivo Brasil, percorremos o caminho inverso e republicamos este texto ao final das diferentes contribui\u00e7\u00f5es. Ao finalizar as republica\u00e7\u00f5es do dossi\u00ea, esse texto contextualiza o projeto e d\u00e1 sentido de conjunto \u00e0 obra.<\/p>\n<p>O dossi\u00ea <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/dossiers\/1656\/\">Vozes ind\u00edgenas, trilhas para renovar o Brasil<\/a> \u00e9 fruto de uma parceria de longa data. J\u00e1 no evento internacional realizado na Universidade de Bras\u00edlia \u201c<em>Alucina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das telas<\/em>\u201d, Erisvan Bone Guajajara exp\u00f4s sobre seu trabalho na cria\u00e7\u00e3o do M\u00eddia \u00cdndia. A jornada \u201cSangue ind\u00edgena, nenhuma gota a mais\u201d, em p\u00e9riplo pela Europa para denunciar as atrocidades cometidas durante o governo Bolsonaro, se fez anunciar em outubro de 2019 no <em>29<sup>e<\/sup> Salon de la Revue<\/em>, em Paris; em jantares \u00edntimos parisienses e mesmo durante a comemora\u00e7\u00e3o em homenagem a Clemenceau patrocinada pelo Estado franc\u00eas. Tamb\u00e9m no ATL de 2021, estivemos ao lado dos povos ind\u00edgenas e em apoio a suas reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse momento em que o Acampamento Terra Livre 2024 est\u00e1 em seu pleno curso, a professora e pesquisadora Junia Barreto renova seu apoio \u00e0 luta e \u00e0 resist\u00eancia ind\u00edgenas. Frente ao conformismo, \u00e0 passividade e at\u00e9 mesmo \u00e0 viol\u00eancia reinantes, os ind\u00edgenas se organizaram e fizeram a diferen\u00e7a. <\/p>\n<p>Assim como no momento de publica\u00e7\u00e3o do dossi\u00ea <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/dossiers\/1656\/\">Vozes ind\u00edgenas, trilhas para renovar o Brasil<\/a>, o Coletivo Brasil pretende refor\u00e7ar o seu apoio aos povos ind\u00edgenas, assim como reiterar o convite para que participem de nossa plataforma com suas ideias testemunhos e projetos, multiplicando suas vozes e amplificando o som de seus marac\u00e1s<span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":3341,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,80,139,90,51],"tags":[217,169,196,113,199,228,320,186],"class_list":["post-3340","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-humanidades","category-midias","category-terras-indigenas","category-territorios","tag-apib","tag-cultura","tag-direitos-humanos","tag-junia-barreto","tag-marco-temporal","tag-povos-indigenas","tag-telaa","tag-vozes-indigenas-trilhas-para-renovar-o-brasil"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3340","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3340"}],"version-history":[{"count":8,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3340\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3354,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3340\/revisions\/3354"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3341"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3340"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3340"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3340"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}