{"id":3243,"date":"2024-03-13T21:00:20","date_gmt":"2024-03-13T21:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=3243"},"modified":"2024-03-15T20:50:03","modified_gmt":"2024-03-15T20:50:03","slug":"testemunhos-da-guerra-em-gaza","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/testemunhos-da-guerra-em-gaza\/","title":{"rendered":"Testemunhos da Guerra em Gaza<br><span style=\"font-size:16px\">Oleg Muschei<\/span>"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Familiares que permaneceram em Gaza. Fonte: Acervo pessoal<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Quanto vale uma vida humana? Esse valor \u00e9 mensur\u00e1vel? H\u00e1 crit\u00e9rios que determinam se uma vida tem maior valor que outra? 1.200 mortos e em torno de 240 sequestrados equivalem a mais de 30.000 mortos? N\u00e3o h\u00e1 respostas certas ou definitivas para essas quest\u00f5es, mas Oleg Muschei fornece uma alternativa para sairmos dessa aporia. Uma vida pode ser mensurada pela quantidade de outras vidas que ela tocou, pelos familiares, amantes e amigos que deixou. Nesse contexto, a trag\u00e9dia humanit\u00e1ria que se acelerou a partir dos eventos de 7 de outubro tem dimens\u00f5es colossais. No final, s\u00e3o todos seres humanos cuja morte acarreta dor e aus\u00eancia. Optando por trabalhar pela consci\u00eancia e pela humanidade, Oleg se engajou na campanha de preven\u00e7\u00e3o ao suic\u00eddio na comunidade palestina-americana na cidade de Sacramento, nos EUA. Em seu trabalho, recolheu testemunhos de dois palestinos que perderam familiares no atual conflito. O texto a seguir foi escrito a partir dessa experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:center\">***<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Como natural da Europa do Leste, fui profundamente afetado pelo conflito na Ucr\u00e2nia. Para mim, foi mais do que uma guerra externa; foi como se se tivesse aberto um campo de batalha interno, onde o meu esp\u00edrito lutava pelos valores que os ucranianos defendem, n\u00e3o s\u00f3 para o seu pr\u00f3prio pa\u00eds, mas para toda a Europa e o mundo livre. No entanto, no 7 de outubro de 2023, esse sentimento de luta rapidamente se transformou em culpa. Eu me peguntei como poderia me considerar um defensor dos direitos humanos, da liberdade e de todos os valores fundamentais se ignoro o sofrimento de outros povos e me concentro em apenas um? Percebi que, embora cada sofrimento humano seja \u00fanico e complexo, ele tem a mesma origem e gera as mesmas consequ\u00eancias. Fui ent\u00e3o confrontado com uma escolha: alargar o meu empenho na defesa desses valores em que tanto acredito, n\u00e3o s\u00f3 para os ucranianos, mas para todos os povos devastados pela guerra, ou desistir e viver na ignor\u00e2ncia. Apesar da tristeza que eu sabia ser inerente a essa devo\u00e7\u00e3o, optei pela consci\u00eancia e pela humanidade. Com isso em mente, envolvi-me numa campanha comunit\u00e1ria de sensibiliza\u00e7\u00e3o para o trauma de guerra como forma de prevenir o suic\u00eddio na comunidade de l\u00edngua \u00e1rabe de Sacramento, nos EUA. Entrevistei palestinos-americanos nos Estados Unidos que perderam familiares na guerra atual. At\u00e9 o momento, recolhi os testemunhos de duas pessoas que perderam numerosos familiares em Gaza. Ambos cresceram na Faixa de Gaza antes de se mudarem para os Estados Unidos para estudar. Eles continuam a ter muitos la\u00e7os familiares na regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em seus testemunhos, ambos concordam que, embora estivessem &#8220;<em>habituados a ter conflitos e guerras durante alguns anos<\/em>&#8221; e que &#8220;<em>o sofrimento existia<\/em>&#8220;, n\u00e3o era da mesma dimens\u00e3o que \u00e9 atualmente. Al\u00e9m disso, como j\u00e1 n\u00e3o recebem not\u00edcias de seus familiares em Gaza, que &#8220;<em>temem pela seguran\u00e7a das pessoas<\/em>&#8221; porque &#8220;<em>pensam que todas as redes sociais e mensagens s\u00e3o monitoradas<\/em>&#8220;, as testemunhas n\u00e3o sabem dizer quantos membros das suas fam\u00edlias morreram. Um deles diz que &#8220;<em>a \u00faltima contagem<\/em>&#8220;, que fez h\u00e1 mais de um m\u00eas, &#8220;<em>apontava que 32 pessoas<\/em>&#8221; da sua fam\u00edlia tinham sido mortas. O outro revela que 12 membros da sua fam\u00edlia foram mortos por uma bomba quando procuravam ref\u00fagio na igreja de S\u00e3o Porf\u00edrio e que outro membro morreu devido \u00e0 &#8220;<em>falta de hospitais ou de equipamento hospitalar para tratar os seus ferimentos<\/em>&#8220;. O que acrescenta dor \u00e0 sua experi\u00eancia de perda familiar \u00e9 o fato de, devido \u00e0s barreiras para chegar e entrar em Gaza, as testemunhas recordam os familiares mortos no atual conflito &#8220;<em>como crian\u00e7as<\/em>&#8221; que viram e conheceram na sua \u00faltima visita a Gaza, na melhor das hip\u00f3teses, ou na pior, sem sequer terem tido a oportunidade de os conhecer fisicamente.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">As pessoas ultrapassaram aquilo a que chamamos de o limiar do sofrimento. E est\u00e1 piorando. E s\u00e3o o povo mais corajoso. Eles s\u00e3o resilientes e, quando est\u00e3o na mis\u00e9ria, continuam a ser as pessoas mais felizes que j\u00e1 vi.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Quando se trata de descrever a vida dos palestinos deixados em Gaza, as minhas testemunhas escolhem palavras imbu\u00eddas de beleza e atribuem-lhes qualidades admir\u00e1veis. As suas hist\u00f3rias destacam-se das narrativas frequentemente demonizadoras veiculadas por muitos ve\u00edculos de imprensa. Quando pergunto por que raz\u00e3o testemunham, um deles diz: &#8220;<em>para que as pessoas saibam que s\u00e3o seres humanos normais, que ser crist\u00e3o, mu\u00e7ulmano ou o que quer que seja n\u00e3o \u00e9 um n\u00famero, mas membros de uma fam\u00edlia, e de uma fam\u00edlia com filhos, cheia de sonhos e esperan\u00e7as<\/em>&#8220;. Ele afirma ainda que os palestinos s\u00e3o profundamente ligados \u00e0 sua terra e que desejam permanecer nela e desenvolv\u00ea-la. Esse sentimento \u00e9 partilhado pela segunda testemunha, que afirma que, apesar de &#8220;<em>as pessoas terem ultrapassado aquilo a que chamamos o limiar do sofrimento<\/em>&#8220;, elas continuam a ser &#8220;<em>o povo mais corajoso e mais feliz<\/em>&#8221; que alguma vez viu. Acrescenta mesmo que ele pr\u00f3prio s\u00f3 experimentou &#8220;<em>o sentimento de pertencimento a um lugar onde nos sentimos em casa<\/em>&#8221; em Gaza, mesmo que isso tenha durado apenas &#8220;<em>alguns dias na [sua] vida<\/em>&#8220;. Os dois protagonistas s\u00e3o un\u00e2nimes: a sua experi\u00eancia em Gaza e com os palestinos locais n\u00e3o tem nada a ver com pol\u00edtica ou com o conflito em geral. Os habitantes vivem a sua vida e encontram a felicidade, apesar das condi\u00e7\u00f5es de cerco que moldam o seu ambiente.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">N\u00f3s nos encontramos em situa\u00e7\u00f5es como essa, em que temos de falar em nome deles, e, com toda a honestidade, eu me sinto um impostor. Quem sou eu para falar em nome deles? [&#8230;] N\u00e3o posso descrever, n\u00e3o posso explicar, n\u00e3o posso falar em nome deles, n\u00e3o posso dizer como sofrem, porque n\u00e3o sei. Nunca passei por isso. N\u00e3o posso me colocar no lugar deles e falar com franqueza. Posso dizer a voc\u00eas o que sinto, posso dizer o que isso faz comigo. Posso dizer, de certa forma, informa\u00e7\u00f5es em segunda m\u00e3o que recebo deles, mas n\u00e3o posso dizer mais do que isso.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Os testemunhos que pude recolher revelam uma mistura profunda de nostalgia do passado e de ansiedade em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, enquanto os protagonistas enfrentam um presente cheio de incertezas, onde se sentem impotentes, como se estivessem &#8220;<em>presos num sonho<\/em>&#8220;. A guerra atual mergulha-os num sentimento de &#8220;<em>perda de si<\/em>&#8220;, uma sensa\u00e7\u00e3o de &#8220;<em>morte enquanto vivo<\/em>&#8220;, alimentada pela &#8220;<em>culpa da sobreviv\u00eancia<\/em>&#8221; enquanto outros se perdem. Essa experi\u00eancia persegue-os diariamente e os confronta com quest\u00f5es existenciais, tais como a forma de apreciar a vida ou de prestar homenagem aos que morreram. Quando tentam testemunhar sobre os que pereceram no conflito, sentem-se como impostores, incapazes de exprimir adequadamente o seu sofrimento.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Nessa situa\u00e7\u00e3o, acabamos por preferir a morte \u00e0 vida. N\u00e3o h\u00e1 comida suficiente, n\u00e3o h\u00e1 abrigo onde se possa estar seguro, n\u00e3o h\u00e1 igreja, n\u00e3o h\u00e1 edif\u00edcio das Na\u00e7\u00f5es Unidas, n\u00e3o h\u00e1 escola. H\u00e1 pouco ou nenhum equipamento m\u00e9dico, n\u00e3o h\u00e1 acesso a m\u00e9dicos ou hospitais. N\u00e3o h\u00e1 nem comida e \u00e1gua. A \u00e1gua \u00e9 sempre um problema e at\u00e9 bebem \u00e1gua do mar. Todo mundo est\u00e1 doente. S\u00e3o condi\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis e muitos preferem morrer a viver nessas situa\u00e7\u00f5es. Sobretudo porque n\u00e3o h\u00e1 fim \u00e0 vista e tudo est\u00e1 completamente destru\u00eddo. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o muito sombria e triste, e eles n\u00e3o sabem se v\u00e3o sobreviver.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">A sinceridade das pessoas que partilharam as suas hist\u00f3rias me deixou profundamente impressionado. Devo admitir que n\u00e3o tinha previsto at\u00e9 que ponto isso as colocaria numa posi\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel, at\u00e9 mesmo frustrante e dolorosa. Tamb\u00e9m me confidenciaram que as conversas com os seus entes queridos ainda vivos em Gaza, por muito raras que sejam, giram em torno de &#8220;<em>t\u00e1ticas de sobreviv\u00eancia<\/em>&#8220;, de um &#8220;<em>modo de sobreviv\u00eancia di\u00e1rio<\/em>&#8220;. Nessas condi\u00e7\u00f5es de pesadelo, \u00e9 desolador constatar que &#8220;<em>muitos preferem morrer a estar vivos<\/em>&#8220;. Isso \u00e9 muito mais injusto porque as fam\u00edlias de Gaza n\u00e3o gostariam de nada mais do que &#8220;<em>viver em p\u00e9 de igualdade, ter direitos, n\u00e3o sofrer com a ocupa\u00e7\u00e3o e criar os seus filhos e sua fam\u00edlia<\/em>&#8220;.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Como todas as outras fam\u00edlias de Gaza, tudo o que querem \u00e9 viver em p\u00e9 de igualdade, ter direitos, n\u00e3o sofrer com a ocupa\u00e7\u00e3o e criar os seus filhos e a sua fam\u00edlia. Ser livre e viajar, sabe, de Gaza para a Cisjord\u00e2nia e vice-versa. Como qualquer outro ser humano.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Para concluir, espero fervorosamente que os palestinos ainda presentes e vivos em Gaza encontrem ref\u00fagio e alcancem finalmente a paz. Ainda que o fim do seu sofrimento possa n\u00e3o estar t\u00e3o pr\u00f3ximo como eu gostaria, ao menos um fim definitivo para um futuro de paz incessante, abstenho-me de propor solu\u00e7\u00f5es, de tomar partido ou de fazer acusa\u00e7\u00f5es. O meu \u00fanico apelo \u00e9 \u00e0 paz e \u00e0 empatia humana. Espero que todos sintam a urg\u00eancia de criar um mundo onde cada ser humano seja inquestionavelmente valorizado de forma igual. Devemos recordar que, atr\u00e1s de cada estat\u00edstica, existe uma vida, uma hist\u00f3ria e aspira\u00e7\u00f5es a um futuro melhor. Cultivando a compaix\u00e3o e promovendo o di\u00e1logo, podemos ajudar a criar um mundo onde todos, independentemente da sua origem, possam viver com dignidade e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Oleg Muschei<\/strong><br \/>\n\u00c9 estudante da <em>Sciences Po<\/em>, em Paris, e faz interc\u00e2mbio com a <em>University of California<\/em>, nos EUA. Atualmente, faz est\u00e1gio na <em>Refugee Enrichment and Development Association<\/em>, onde trabalha com os refugiados provientes do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quanto vale uma vida humana? Esse valor \u00e9 mensur\u00e1vel? H\u00e1 crit\u00e9rios que determinam se uma vida tem maior valor que outra? 1.200 mortos e em torno de 240 sequestrados equivalem a mais de 30.000 mortos? N\u00e3o h\u00e1 respostas certas ou definitivas para essas quest\u00f5es, mas Oleg Muschei fornece uma alternativa para sairmos dessa aporia. Uma vida pode ser mensurada pela quantidade de outras vidas que ela tocou, pelos familiares, amantes e amigos que deixou. Nesse contexto, a trag\u00e9dia humanit\u00e1ria que se acelerou a partir dos eventos de 7 de outubro tem dimens\u00f5es colossais. No final, s\u00e3o todos seres humanos cuja morte acarreta dor e aus\u00eancia. 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