{"id":3153,"date":"2024-01-19T20:35:00","date_gmt":"2024-01-19T20:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=3153"},"modified":"2024-06-24T14:24:51","modified_gmt":"2024-06-24T14:24:51","slug":"o-corpo-nenhuma-identidade-entrevista-com-marina-abramovic","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/o-corpo-nenhuma-identidade-entrevista-com-marina-abramovic\/","title":{"rendered":"O corpo, nenhuma identidade. Entrevista com Marina AbramovicMarina Abramovic"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify\">Marina Abramovic \u00e9 uma guerreira. Nascida em Belgrado, em 1946, ela viveu bastante tempo na Holanda e na Alemanha e hoje vive em Nova Iorque. Visita com frequ\u00eancia a It\u00e1lia e vai sempre quando pode ao Oriente ou a lugares onde se coloca em contato com a natureza selvagem dos vulc\u00f5es, das cascatas e das florestas.<br \/>\nEla conhece bem o mundo e o revela atrav\u00e9s de seu pr\u00f3prio corpo, al\u00e9m de explorar os limites da resist\u00eancia f\u00edsica e as diferentes faces do medo. Para ela, a performance \u00e9 a arte do inef\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 distanciamento do p\u00fablico e nenhuma possibilidade de inverdade ou de repeti\u00e7\u00e3o: ela acontece no presente, opera em um momento preciso e nunca se repete. Com o tempo, ela  extrapolou os limites do corpo e passou a desafiar os limites do esp\u00edrito, explorando o sil\u00eancio, a imobilidade e a escuta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Gioia Costa \u2013 O que os Balc\u00e3s representam para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Marina Abramovic<\/strong> \u2013 Uma ponte: o Leste representa o tempo da lentid\u00e3o enquanto o Oeste representa a velocidade. A regi\u00e3o dos Balc\u00e3s \u00e9 a ponte que os une. Um lugar onde o vento \u00e9 abundante. O vento \u00e9 t\u00e3o forte que \u00e9 dif\u00edcil ficar im\u00f3vel e \u00e9 por essa raz\u00e3o que estamos constantemente \u00e0 merc\u00ea das mais diversas emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Um homem, que foi ca\u00e7ador de ratos por 35 anos, contou-me a hist\u00f3ria do &#8220;rato-lobo&#8221;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3153\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3153-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3153-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\"><em>Wolf rat<\/em> &#8211; personagem parte da trilha sonora da instala\u00e7\u00e3o <em>Balkan Baroque<\/em>.<\/span>: era a hist\u00f3ria de como o exterm\u00ednio dos ratos nos Balc\u00e3s deu origem a um monstro. Os ratos s\u00e3o animais altamente inteligentes com um forte senso de solidariedade. Se isolarmos um grupo de 30 a 40 ratos da mesma fam\u00edlia e n\u00e3o lhes dermos nada al\u00e9m de \u00e1gua, seus dentes incisivos crescem excessivamente at\u00e9 sufoc\u00e1-los. Famintos e em perigo, eles matam os mais fracos para comer, algo que nunca fariam na natureza. Eles continuar\u00e3o a matar uns aos outros, at\u00e9 que reste apenas um. Esse \u00faltimo rato precisar\u00e1, por sua vez, se alimentar rapidamente ou tamb\u00e9m ser\u00e1 sufocado por seus pr\u00f3prios incisivos. S\u00f3 ent\u00e3o, quando ele est\u00e1 assustado e faminto, o ca\u00e7ador o cega e liberta. Em p\u00e2nico, o sobrevivente sente que a morte est\u00e1 pr\u00f3xima e corre para sua toca, matando todos os outros ratos, at\u00e9 que um rato mais forte o mate. Assim foi criado o rato-lobo dos Balc\u00e3s. Para mim, essa \u00e9 uma alegoria perfeita da guerra dos Balc\u00e3s e de toda aquela trag\u00e9dia. Eu nunca entendi realmente como foi poss\u00edvel que matassem uns aos outros depois de viverem juntos por quarenta anos. A n\u00e3o ser pelo fato de estarem submetidos a uma press\u00e3o externa, assim como os ratos. O povo dos Balc\u00e3s \u00e9 um povo apaixonado, com amor e \u00f3dio em igual medida. Eles vivem desse vento e, nesse sentido, \u00e9 quase il\u00f3gico tentar explicar sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Quando criei <em>Balkan Baroque<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"2\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3153\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3153-2\">2<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3153-2\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"2\">Todos os t\u00edtulos permanecer\u00e3o na l\u00edngua original.<\/span>, em 1997, estava pensando no que havia de barroco no esp\u00edrito do povo dos Balc\u00e3s, na maneira como os extremos que o habitam exercem influ\u00eancias il\u00f3gicas sob o amor e o \u00f3dio sempre fusionais. Ganhei um Le\u00e3o de Ouro e perdi minhas ilus\u00f5es. Desde ent\u00e3o, eu desacelerei um pouco e pe\u00e7o \u00e0queles pr\u00f3ximos a mim que desacelerem tamb\u00e9m&#8230; Nossa aten\u00e7\u00e3o dura em m\u00e9dia doze segundos. N\u00f3s corremos, inconscientes. A arte deve ent\u00e3o desacelerar, nos desacelerar. Eu entendo hoje como o tempo \u00e9 essencial, quando falamos de performance. Quanto mais tempo ela durar melhor, pois \u00e9 preciso tempo para produzir a energia de que tanto o artista quanto o p\u00fablico precisam para de fato criar uma transforma\u00e7\u00e3o. Seis horas \u00e9 uma boa dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>G.C. &#8211; Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre mem\u00f3ria e identidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>M.A.<\/strong> &#8211; A mem\u00f3ria \u00e9 um assunto complicado: podemos nos lembrar de coisas de muito tempo atr\u00e1s e esquecer coisas que n\u00e3o queremos levar conosco. A mem\u00f3ria pode ser apagada, corrigida e redesenhada. \u00c9 o que fa\u00e7o com a minha: misturo a inf\u00e2ncia e o mundo em que nasci em meu trabalho. Portanto, n\u00e3o tenho lembran\u00e7a do que era, da chamada verdade, mas do que eu quero que seja. No espet\u00e1culo com Bob Wilson, <em>Death and life of Marina Abramovic<\/em>, toda a minha vida de sessenta e dois anos \u00e9 resumida em uma frase por ano. Por exemplo, 1946: nascimento, m\u00e3e e pai <em>partisans<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"3\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3153\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3153-3\">3<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3153-3\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"3\">Iugoslavos de diversas nacionalidades e de orienta\u00e7\u00e3o comunista que lutavam contra o nazismo e contra o fascismo Usta\u0161e. Os <em>partisans<\/em> eram liderados por Josip Broz Tito.<\/span>. 1948: Eu me recuso a andar. 1951: vejo meu pai dormir com uma pistola. 1952: m\u00e3e compra m\u00e1quina de lavar. 1959: pais se divorciam. 1961: primeira menstrua\u00e7\u00e3o. Come\u00e7o a pintar meus sonhos. \\[&#8230;] 1995:  <em>Cleaning the Mirror<\/em>. 1996: <em>Cleaning the House<\/em>. Isso \u00e9 redesenhar a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Eu n\u00e3o tenho identidade: n\u00e3o me sinto iugoslava. Meus pais s\u00e3o de Montenegro, comunistas e <em>partisans<\/em>. Eles me criaram como um soldado: sem carinho e com disciplina r\u00edgida. Adoro as paisagens de Montenegro e essa mistura insepar\u00e1vel de vitalidade e hero\u00edsmo que as pessoas t\u00eam l\u00e1. Mas isso \u00e9 tudo. Tenho passaporte alem\u00e3o, morei por mais de quarenta anos nos Estados Unidos e por dezesseis anos na Alemanha, venho \u00e0 It\u00e1lia desde o in\u00edcio dos anos setenta, mas n\u00e3o sinto que perten\u00e7o a lugar algum. Ou melhor: n\u00e3o acredito na identidade, porque para mim nossa na\u00e7\u00e3o \u00e9 o planeta, esse \u00e9 o lugar em que realmente vivemos e estou interessada em ver tudo atrav\u00e9s de uma perspectiva global. Adoro viajar, conhecer culturas diferentes e aprendo muito, porque adoro estar atenta. Cada nova descoberta integra e alimenta meu trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nessa perspectiva, a identidade \u00e9 um empecilho, uma barreira que nos impede de ver a vasta paisagem. Eu me interesso pelo sol, pela lua, pelos outros planetas, pela Via L\u00e1ctea. Logo, eu diria que odeio a pr\u00f3pria ideia de identidade, porque toda categoria \u00e9 um limite. Falar sobre um artista chin\u00eas ou italiano significa n\u00e3o falar sobre sua arte, isso \u00e9 falat\u00f3rio, \u00e9 outra coisa. Espero ter perdido minha identidade h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>G.C. &#8211; Voc\u00ea conhece o ex\u00edlio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>M.A.<\/strong> &#8211; O artista \u00e9 o ser humano mais livre que existe, pois pode realizar um milagre, pode criar a mais bela obra a partir do nada, apenas a ideia realmente importa. Eu acredito na liberdade, portanto, n\u00e3o posso viver de forma mental ou sentimental como uma exilada, nenhum artista pode. Por outro lado, um refugiado pol\u00edtico, que tem um relacionamento com seu pa\u00eds, mas n\u00e3o pode viver nele, sofre um desenraizamento, ele abandona seus entes queridos, sua vida e seu trabalho, ele perde tudo e sente uma tristeza profunda. Mas esse \u00e9 um caso espec\u00edfico. Quando decidimos ir embora, \u00e9 diferente: n\u00e3o perdi minha terra, mas parti em dire\u00e7\u00e3o a lugares diferentes. Ser\u00e1 que estou em constante conflito, mesmo dentro das paredes de meu est\u00fadio\/escrit\u00f3rio? Eu nem gosto de casas, prefiro quartos de hotel, porque l\u00e1 temos a liberdade de trabalhar e pensar para al\u00e9m das coisas. O mundo todo \u00e9 minha refer\u00eancia e n\u00e3o posso fechar as portas. O ex\u00edlio \u00e9 uma categoria que nos exclui do resto do mundo. Eu, pelo contr\u00e1rio, quero ser inclu\u00edda. Sa\u00ed de meu pa\u00eds de origem para conhecer o mundo e nunca mais parei. Fui a lugares onde as pessoas n\u00e3o compreendiam meu trabalho, em Papua Nova Guin\u00e9, por exemplo, entre os canibais, ou em certas regi\u00f5es do Tibete ou da \u00cdndia. Mas ser\u00e1 que \u00e9 realmente importante entendermos uns aos outros? \u00c9 importante termos uma ideia real e ela basta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>G.C.&nbsp;&#8211;&nbsp;O que voc\u00ea pensa sobre as mulheres hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>M.A.<\/strong>&nbsp;&#8211;&nbsp;Elas s\u00e3o t\u00e3o fortes, t\u00e3o mais fortes! N\u00e3o sou feminista porque, mais uma vez, \u00e9 uma categoria que isola, exclui e cria um gueto. Mas as mulheres&#8230; o simples fato de poderem dar \u00e0 luz \u00e9 um milagre e elas s\u00e3o muito mais fortes do que qualquer homem. Em Montenegro, conta-se a hist\u00f3ria de um homem que vai para a guerra, deixando para tr\u00e1s sua esposa e muitos filhos. Ele acaba morrendo e ela passa a usar as roupas e as armas do marido para defender a fam\u00edlia. Seu corpo muda, ela deixa de menstruar e passa a ter bigodes. Ela se torna um homem. Ela muda biologicamente para defender seus filhos. \u00c9 uma hist\u00f3ria impressionante: ela nos diz que as mulheres n\u00e3o t\u00eam limites, que s\u00e3o as criaturas mais poderosas que existem. Mas as mulheres sempre brincaram com a no\u00e7\u00e3o de fragilidade, caso contr\u00e1rio, os homens n\u00e3o ficariam conosco; n\u00f3s criamos a ilus\u00e3o de que precisamos deles.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A It\u00e1lia \u00e9 \u00fanica nesse aspecto: todas as mulheres parecem abandonadas, infelizes e fr\u00e1geis. Mas a It\u00e1lia \u00e9 um pa\u00eds muito particular: identidade, identidade, identidade! Em todos os lugares, parece ser diferente, mas em seu pa\u00eds, as mulheres ocupam uma posi\u00e7\u00e3o \u00ednfima. Quando vim pela primeira vez, em 1992, fiquei muito surpresa: n\u00e3o havia mulheres artistas, apenas homens. Em todo caso, as poucas que conheci eram pouco reconhecidas. Lembro-me de pessoas falando de Mario Merz, mas Marisa Merz tamb\u00e9m \u00e9 uma grande artista. No entanto, ela est\u00e1 sempre em segundo plano em rela\u00e7\u00e3o a ele &#8211; \u00e9 um esc\u00e2ndalo. Isso tamb\u00e9m acontecia entre escritores, pintores e poetas. Al\u00e9m do que, ligar a televis\u00e3o na It\u00e1lia hoje \u00e9 sempre um choque: todas as mulheres na tela parecem, como posso dizer? Atrizes porn\u00f4s. Mas por que voc\u00eas aceitam isso, ou melhor, por que voc\u00eas permitem isso? Fazendo isso, voc\u00eas s\u00e3o c\u00famplices.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>G.C. &#8211; Voc\u00ea assumiu riscos em suas a\u00e7\u00f5es. O que o vazio e a morte significam para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>M.A.<\/strong>&nbsp;&#8211;&nbsp;A morte est\u00e1 presente desde o nosso primeiro grito: se voc\u00ea nascer, voc\u00ea vai morrer. \u00c9 um limite, um limite extremo. Os sufis dizem que &#8220;a vida \u00e9 um sonho e a morte \u00e9 o despertar&#8221;. De fato, quando temos menos medo, descobrimos que os limites podem ser desafiados e que podemos ir um pouco mais longe a cada dia. Acabei de passar dois meses no Brasil<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"4\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_3153\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3153-4\">4<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_3153-4\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"4\">Marina Abramovic esteve no Brasil entre 2012 e 2015, per\u00edodo em que filmou o document\u00e1rio intitulado \u201cEspa\u00e7o Al\u00e9m\u201d.<\/span> e conheci alguns xam\u00e3s que incorporam esp\u00edritos ou &#8220;entidades&#8221;, como eles os chamam, que nos guiam e curam. A morte f\u00edsica existe, mas a energia n\u00e3o morre, essa \u00e9 minha \u00faltima descoberta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O medo da dor pode ser superado, pois a mente \u00e9 capaz de controlar tudo. E foi isso que fiz desde o in\u00edcio, mesmo sem me dar conta. Anos atr\u00e1s, eu n\u00e3o teria sido capaz de fazer <em>The Artist is Present<\/em>: quando somos jovens, n\u00e3o temos muita confian\u00e7a em n\u00f3s mesmos. Achamos que precisamos de muitas coisas, mas elas nunca s\u00e3o suficientes. Agora sei que quanto mais me concentro na energia pura, que \u00e9 invis\u00edvel mas pode ser sentida, mais posso prescindir de tudo. Menos \u00e9 mais. \u00c9 por isso que meu palco se comp\u00f5e sempre de menos e \u00e9 sempre mais simples, isso tem mais efeito, mais pot\u00eancia, mais impacto. Pode parecer contradit\u00f3rio, mas \u00e9 um fato. O sil\u00eancio em si \u00e9 uma das faces do vazio: as palavras n\u00e3o t\u00eam utilidade alguma. Explicar \u00e9 um desperd\u00edcio de energia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Na Idade M\u00e9dia, dizia-se que um mestre zen tinha tr\u00eas maneiras de ensinar seus disc\u00edpulos. A primeira e mais comum consistia em explicar seu conhecimento atrav\u00e9s das palavras; a segunda, em demonstr\u00e1-lo por meio de sinais e gestos; a terceira, em sentar-se diante deles em sil\u00eancio. Nenhuma palavra, nenhum gesto. A pura presen\u00e7a. Nem passado, nem futuro, apenas o aqui e agora, \u00e9 isso que estou tentando comunicar ao meu p\u00fablico hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Atualmente, estou trabalhando em um grande projeto: o <em>Marina Abramovic Institute of Performing Arts<\/em>, em Hudson Upstate, que ser\u00e1 inaugurado em 2014. Para torn\u00e1-lo realidade, precisamos de quinze milh\u00f5es de d\u00f3lares, que eu mesma estou levantando. Ele ser\u00e1 dedicado n\u00e3o apenas \u00e0 performance, mas a todas as artes &#8211; m\u00fasica, teatro e dan\u00e7a. Acima de tudo, ser\u00e1 gratuito: ao entrar, os visitantes assinar\u00e3o um contrato comigo, com base em sua palavra de honra: eles me dar\u00e3o seu tempo e eu lhes darei minha experi\u00eancia. Eles ter\u00e3o que entregar iPods, rel\u00f3gios, telefones celulares e c\u00e2meras, vestir\u00e3o jalecos de laborat\u00f3rio e far\u00e3o parte da apresenta\u00e7\u00e3o. Haver\u00e1 comida dispon\u00edvel e a experi\u00eancia ter\u00e1 dura\u00e7\u00e3o de seis horas. Descobri que quanto maior a dura\u00e7\u00e3o de uma apresenta\u00e7\u00e3o, maior sua capacidade de transforma\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m descobri outra coisa: no momento presente, o tempo n\u00e3o existe e, como a arte perform\u00e1tica se baseia no tempo, ele \u00e9 essencial. Ent\u00e3o, se transformarmos tudo o que fazemos em uma quest\u00e3o de vida ou morte e estivermos cem por cento envolvidos em nosso trabalho, as coisas realmente acontecem. Qualquer coisa abaixo de cem por cento n\u00e3o resulta em boa arte. \u00c9 muito dif\u00edcil, mas \u00e9 a \u00fanica maneira. Isso tamb\u00e9m significa que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel haver concess\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>G.C.&nbsp;&#8211;&nbsp;O artista tem um dever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>M.A.<\/strong>&nbsp;&#8211;&nbsp;Como eu estava dizendo, o artista \u00e9 o ser mais livre que existe, portanto, ele tem uma grande responsabilidade. Nunca antes o artista desempenhou um papel t\u00e3o importante. A lenda acabou, os templos se tornaram museus e o artista tem o dever fundamental de se comunicar com sua intui\u00e7\u00e3o e guiar o esp\u00edrito humano no caminho para o despertar da consci\u00eancia. Hoje, o verdadeiro desafio \u00e9 conseguir mudar a consci\u00eancia das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O <em>Abramovic Institute of Performing Arts<\/em> \u00e9 um ato de responsabilidade pessoal: estou tentando mudar algo no pensamento das pessoas, se eu conseguir isso com uma, duas ou tr\u00eas, j\u00e1 \u00e9 muito. Toda grande caminhada come\u00e7a com um pequeno passo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">De qualquer forma, h\u00e1 uma m\u00e1gica nas artes e, em determinado sentido, todas elas s\u00e3o iguais: quando tomamos consci\u00eancia, come\u00e7amos a nos retirar, a simplificar, a nos calar. Na escrita, no palco, na performance. Esse \u00e9 um segredo essencial que \u00e9 sempre v\u00e1lido. Com a verdadeira clareza, surgem o sil\u00eancio, a quietude e o vazio. Todas as artes se encontram em seu pr\u00f3prio vazio. H\u00e1 uma for\u00e7a invis\u00edvel que se mostra de forma clara quando h\u00e1 energia. E ent\u00e3o acontece o milagre da arte &#8211; o milagre que muda o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;font-size:16px\">Traduzido do franc\u00eas por Clara Cerqueira<\/p>\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div><em>Wolf rat<\/em> &#8211; personagem parte da trilha sonora da instala\u00e7\u00e3o <em>Balkan Baroque<\/em>.<\/div><\/li><li><span>2<\/span><div>Todos os t\u00edtulos permanecer\u00e3o na l\u00edngua original.<\/div><\/li><li><span>3<\/span><div>Iugoslavos de diversas nacionalidades e de orienta\u00e7\u00e3o comunista que lutavam contra o nazismo e contra o fascismo Usta\u0161e. Os <em>partisans<\/em> eram liderados por Josip Broz Tito.<\/div><\/li><li><span>4<\/span><div>Marina Abramovic esteve no Brasil entre 2012 e 2015, per\u00edodo em que filmou o document\u00e1rio intitulado \u201cEspa\u00e7o Al\u00e9m\u201d.<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista para Gioia Costa, publicada originalmente em franc\u00eas, na revista internacional <a href=\"https:\/\/sens-public.org\/users\/826\/\">Sens Public<\/a>, em 2014, Marina Abramovic fala sobre os Balc\u00e3s, regi\u00e3o onde nasceu, sobre identidade e sobre o papel da arte e do artista no mundo contempor\u00e2neo. A artista discorre ainda sobre suas obras e suas experi\u00eancias em alguns dos muitos lugares do mundo onde j\u00e1 esteve, inclusive o Brasil. Atualmente Marina est\u00e1 em Pernambuco para inaugurar a obra de arte &#8220;Generator&#8221;, sua primeira cria\u00e7\u00e3o instalada em espa\u00e7o livre e aberto ao p\u00fablico no pa\u00eds.<span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":3154,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,48,81,75],"tags":[271,273,272,192,270],"class_list":["post-3153","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-cultura","category-feminismos","category-performance-urbana","tag-artes-performaticas","tag-corporalidade","tag-entrevista","tag-identidade","tag-marina-abramovic"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3153","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3153"}],"version-history":[{"count":6,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3153\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3556,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3153\/revisions\/3556"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3154"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3153"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3153"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3153"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}