{"id":2918,"date":"2023-11-24T15:40:37","date_gmt":"2023-11-24T15:40:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=2918"},"modified":"2023-11-24T15:40:38","modified_gmt":"2023-11-24T15:40:38","slug":"o-comportamento-da-classe-media-e-o-declinio-da-democracia-no-brasil-o-fator-subjetivo-na-historia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/o-comportamento-da-classe-media-e-o-declinio-da-democracia-no-brasil-o-fator-subjetivo-na-historia\/","title":{"rendered":"O comportamento da classe m\u00e9dia e o decl\u00ednio da democracia no Brasil, o fator subjetivo na hist\u00f3ria<br><span style=\"font-size:16px\">Soleni Fressato<\/span>"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\"> No Eixo Monumental, em Bras\u00edlia, transitam as desigualdades que marcam o pa\u00eds. Foto: Luiz Capelo<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O objetivo deste ensaio \u00e9 refletir sobre o papel da classe m\u00e9dia nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018 no Brasil, que levaram ao poder Jair Bolsonaro, candidato do Partido Social Liberal (PSL), defensor da ditadura e da tortura e que revelou, em diversas entrevistas, machismo exacerbado, racismo e homofobia. Considera-se como hip\u00f3tese principal que a classe m\u00e9dia brasileira n\u00e3o tem uma identidade e um sentido de pertencimento \u00e0 sua pr\u00f3pria classe&nbsp;: acredita que faz parte das classes superiores. Protegendo os interesses e os direitos dessas classes, ela acredita, pois, que est\u00e1 protegendo seus pr\u00f3prios interesses e direitos. Uma vez que se considera parte das classes superiores, a classe m\u00e9dia desenvolve um sentimento de \u00f3dio e repulsa para com as classes populares, sentindo-se ofendida quando os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) desenvolveram uma s\u00e9rie de pol\u00edticas sociais que tentaram atender \u00e0s necessidades das chamadas classes populares. Ferida, ofendida e com medo de perder seu espa\u00e7o social para as camadas mais populares, a classe m\u00e9dia brasileira torna-se mais vulner\u00e1vel a discursos autorit\u00e1rios que pregam a intoler\u00e2ncia (de ra\u00e7a, de sexo e de classe), como o de Bolsonaro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Para melhor compreender o \u00f3dio da classe m\u00e9dia contra as classes populares, \u00e9 preciso entender, primeiro, o processo hist\u00f3rico de forma\u00e7\u00e3o de classes no Brasil. Em segundo, \u00e9 necess\u00e1rio compreender como as pol\u00edticas sociais do governo do Partido dos Trabalhadores deram origem \u00e0 ideia de uma &#8220;nova&#8221; classe m\u00e9dia e, num terceiro momento, como a classe m\u00e9dia compreende a crise global.<\/p>\n<h2>Passeio hist\u00f3rico&nbsp;: as origens da classe m\u00e9dia brasileira<\/h2>\n<p style=\"text-align:justify\">A sociedade colonial brasileira (do s\u00e9culo XVI ao s\u00e9culo XIX) foi formada principalmente por grandes latifundi\u00e1rios e por escravos. Entre eles estava uma classe intermedi\u00e1ria de homens livres, mas pobres, que, para sobreviver, serviam a classe dos propriet\u00e1rios: eram os agregados.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Os agregados conviviam com a classe dos propriet\u00e1rios, fazendo surgir uma rela\u00e7\u00e3o social de troca amb\u00edgua e de compadrio, n\u00e3o somente produzindo um resultado material e econ\u00f4mico, mas, sobretudo, simb\u00f3lico. Esta dimens\u00e3o tornou-se muito importante, pois ir\u00e1 fundar a base da subjetividade dos herdeiros atuais desta camada social, uma vez que ser afilhado de um padrinho rico e poderoso poderia facilitar certas conquistas profissionais e econ\u00f4micas e, sobretudo, a ascens\u00e3o numa escala social. Dessa forma, o apadrinhamento permitiu que os agregados se considerassem parte da fam\u00edlia dos grandes propriet\u00e1rios de terras. O homem livre, ainda que pobre e n\u00e3o realmente livre, pois dependia totalmente dos propriet\u00e1rios de terra, sentia-se superior aos escravos, pois era recebido pelos latifundi\u00e1rios e, apesar de n\u00e3o ser tratado com dignidade, recebia certa considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Esse acordo t\u00e1cito, mas real, entre propriet\u00e1rios e agregados tornou-se um &#8220;acordo de classe&#8221;. Esse acordo acarretava o reconhecimento subentendido da humanidade e da dignidade dos agregados, dignidade e humanidade que, entretanto, eram negadas aos escravos. Atualmente, mesmo se as condi\u00e7\u00f5es objetivas se alteraram, essa estrutura subjetiva persiste e permanece como um dos pontos fundamentais para comprender as atuais rela\u00e7\u00f5es de classe no Brasil. Mesmo sem validarmos toda a an\u00e1lise de Jess\u00e9 de Souza, o pesquisador que talvez mais tenha estudado a classe m\u00e9dia brasileira, n\u00f3s podemos invocar essa sua afirma\u00e7\u00e3o, que nos parece correta&nbsp;: &#8220;a manuten\u00e7\u00e3o da dist\u00e2ncia social de todas as classes em rela\u00e7\u00e3o aos escravos assegura um espa\u00e7o de distin\u00e7\u00e3o e privil\u00e9gio social, permitindo a lealdade e a submiss\u00e3o das classes m\u00e9dias \u00e0s classes superiores&#8221;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2918\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2918-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2918-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\">Jesse Souza, <em>A classe m\u00e9dia no espelho<\/em>, Rio de Janeiro: Esta\u00e7\u00e3o Brasil, 2018, p. 80<\/span>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nas primeiras cidades brasileira aconteceu um fen\u00f4meno an\u00e1logo. Com o ciclo da minera\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XVIII e a chegada da fam\u00edlia real portuguesa em 1806, o Brasil viu o crescimento de cidades, o desenvolvimento do com\u00e9rcio e da administra\u00e7\u00e3o e a implementa\u00e7\u00e3o do aparelho de Estado mon\u00e1rquico. Nesse contexto, surgiu progressivamente uma &#8220;classe m\u00e9dia urbana&#8221;&nbsp;: uma classe que n\u00e3o possu\u00eda dinheiro e poder, mas que n\u00e3o estava completamente despossu\u00edda (como os agregados), uma vez que possu\u00eda conhecimentos que poderiam ser \u00fateis para adquirir prest\u00edgio e diferenci\u00e1-la da massa de escravos. Essa classe m\u00e9dia das cidades, como a dos agregados nas \u00e1reas rurais, tinha a mesma sensa\u00e7\u00e3o de pertencer \u00e0 classe dos propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Se as classes altas s\u00e3o herdeiras dos latifundi\u00e1rios e a classe m\u00e9dia \u00e9 herdeira dos agregados, as classes populares no Brasil descendem da grande massa de escravos. Foram eles que, na pr\u00e1tica material de seus trabalhos, impulsionaram a economia do pa\u00eds. Gra\u00e7as \u00e0 for\u00e7a de seus trabalhos, durante mais de quatro s\u00e9culos, o capitalismo conheceu uma via particular na forma\u00e7\u00e3o do Brasil, produzindo mercadorias e riquezas para as classes superiores na col\u00f4nia e na Europa. Mas, apesar dessa import\u00e2ncia, as classes populares s\u00e3o completamente marginalizadas, abandonadas e humilhadas, sem que o resto da popula\u00e7\u00e3o, especialmente a classe m\u00e9dia, preocupe-se com sua situa\u00e7\u00e3o. Elas herdam o abandono, o esquecimento, o \u00f3dio, a humilha\u00e7\u00e3o e o desprezo direcionados originalmente contra os escravos, que n\u00e3o eram reconhecidos como seres humanos. Elas s\u00e3o v\u00edtimas do mesmo sadismo e prazer na humilha\u00e7\u00e3o que animava os senhores brancos e seus agregados contra os negros. Todos os preconceitos ideol\u00f3gicos contra os escravos s\u00e3o transferidos, atualmente, para as classes populares, como se fossem verdadeiras ideias cient\u00edficas, como se fossem uma verdade natural.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Devido \u00e0 cor de sua pele, mas, antes mesmo, decorr\u00eancia de suas posi\u00e7\u00f5es sociais, essas pessoas s\u00e3o exclu\u00eddas, pelo sistema de sele\u00e7\u00e3o social, do acesso ao conhecimento (falta de acesso \u00e0s universidades) e do mercado de trabalho. Elas desenvolvem a grande maioria dos empregos semiqualificados, assim como s\u00e3o uma boa parte do contigente social daquilo que se chama, atualmente, de precariza\u00e7\u00e3o e da enorme massa social de trabalhadores &#8220;desqualificados&#8221; que faz crescer de maneira permanente o dito trabalho informal. A maior parte desse conglomerado humano est\u00e1 sujeita \u00e0 explora\u00e7\u00e3o pessoal e ao mecanismo de desumaniza\u00e7\u00e3o que foi promovido contra os escravos nos per\u00edodos colonial e imperial. Os indiv\u00edduos das classes populares s\u00e3o separados por processos invis\u00edveis (subjetivos) dos indiv\u00edduos das outras classes, esses processos, entretanto, produzem efeitos semelhantes aos da \u00e9poca colonial. Nesse contexto, os preconceitos de ra\u00e7a e de cor da pele tornam-se preconceitos de classe.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Esse sistema de classes nascido em \u00e1reas rurais sobreviveu nas cidades, uma vez que a urbaniza\u00e7\u00e3o e a industrializa\u00e7\u00e3o no Brasil foram tardias. De acordo com a Figura 1,  pode-se afirmar que a popula\u00e7\u00e3o urbana superou, de forma significativa, a popula\u00e7\u00e3o rural apenas nos anos 1980. Outra quest\u00e3o importante&nbsp;: o processo, complexo e n\u00e3o linear, de urbaniza\u00e7\u00e3o e industrializa\u00e7\u00e3o do Brasil foi resultado, antes de tudo, do investimento de propriet\u00e1rios rurais, de comerciantes exportadores e importadores, de banqueiros brasileiros e do Estado, particularmente a partir dos anos 1930 e durante os anos 1950 a 1980. Evidentemente, a industrializa\u00e7\u00e3o mais recente foi feita com os investimentos dos conglomerados financeiros internacionais que influenciaram na economia brasileira a partir de 1956, com o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), assim como durante os governos militares (1964-1985).<\/p>\n<p><figure>\n<center><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/oa55jxD.png\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\"> Figura 1: Aumento da urbaniza\u00e7\u00e3o por d\u00e9cadas. Fonte: IBGE<\/p>\n<\/figcaption><p><\/center><\/figure>\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Se \u00e9 poss\u00edvel considerar que os valores subjetivos e as ideologias incrustradas nas consci\u00eancias sociais durante o processo de forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Brasil s\u00e3o os maiores obst\u00e1culos a ultrapassar, isso significa que houve (e ainda h\u00e1) uma perman\u00eancia e persist\u00eancia de h\u00e1bitos e valores \u201cescravistas\u201d rurais nas mentalidades da popula\u00e7\u00e3o urbana, incluindo a rela\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia com as classes altas e as classes populares populares, a tal ponto que o antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro afirmou, e isso j\u00e1 h\u00e1 certo tempo, que, no Brasil, n\u00e3o somente as diferen\u00e7as sociais s\u00e3o uma realidade, h\u00e1, sobretudo, as &#8220;dist\u00e2ncias sociais&#8221;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"2\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2918\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2918-2\">2<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2918-2\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"2\">Darcy Ribeiro, <em>O povo brasileiro: a forma\u00e7\u00e3o e o sentido do Brasil<\/em>, S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1995<\/span> . Em realidade, as diferen\u00e7as e as dist\u00e2ncias sociais persistentes reproduzem-se em conflitos e antagonismos sociais em conjunturas de pequena, m\u00e9dia ou longa dura\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria brasileira, ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura e da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica at\u00e9 os dias mais recentes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A dist\u00e2ncia social de outras classes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s classes populares proporciona um espa\u00e7o de distin\u00e7\u00e3o e privil\u00e9gio social, permitindo a lealdade e submiss\u00e3o da classe m\u00e9dia \u00e0s classes superiores. Acrescentamos que essa. dist\u00e2ncia, al\u00e9m de psicol\u00f3gica, \u00e9 tamb\u00e9m subjetiva.<\/p>\n<h2>A emerg\u00eancia de uma &#8220;nova&#8221; classe m\u00e9dia e o \u00f3dio da classe m\u00e9dia &#8220;tradicional&#8221;<\/h2>\n<p style=\"text-align:justify\">Desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o do Brasil em 1985, com o fim da ditadura militar e a primeira elei\u00e7\u00e3o presidencial da Nova Rep\u00fablica em 1989, Lula e sua pol\u00edtica social foram uma sombra amea\u00e7adora para os partidos de direita, que foram obrigados a colocar essas pol\u00edticas em sua agenda, a fim de n\u00e3o perder eleitores para o Partido dos Trabalhadores. O pr\u00f3prio PT sofreu press\u00f5es sociais que o impulsionaram a ter uma pol\u00edtica mais \u00e0 esquerda que outros partidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O governo de Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), grande opositor do PT entre 1994 e 2014, implementou uma s\u00e9rie de pol\u00edticas sociais, como a expans\u00e3o do seguro desemprego, o combate \u00e0 pobreza, a expans\u00e3o do cr\u00e9dito com juros mais baixos, a redu\u00e7\u00e3o do imposto sobre produtos industrializados (eletrodom\u00e9sticos e ve\u00edculos automotores) e, principalmente, a estabiliza\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o com a moeda &#8220;real&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">No entanto, ser\u00e1 com a chegada de Lula \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, em 2003, que as pol\u00edticas sociais p\u00fablicas do governo do PT mudaram de forma mais vis\u00edvel a vida de grande parte de muitos brasileiros das classes populares e m\u00e9dias. O Bolsa Fam\u00edlia, maior programa de transfer\u00eancia de recursos financeiros do Estado no mundo, beneficiou 11 milh\u00f5es de fam\u00edlias, que, assim, sa\u00edram da pobreza extrema. O programa Universidade para Todos, por interm\u00e9dio da concess\u00e3o de bolsas de estudo integrais ou parciais, tem permitido o acesso de jovens pobres ao ensino superior. As antigas Escolas T\u00e9cnicas, originalmente destinadas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos mais pobres, foram transformadas em Institutos Federais de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia com o mesmo estatuto que as universidades, investindo em pesquisa cient\u00edfica. O projeto Minha Casa, Minha Vida subsidia a compra de uma casa pr\u00f3pria para fam\u00edlias cujo sal\u00e1rio \u00e9 inferior a R$ 1.800 e facilita as condi\u00e7\u00f5es de compra para fam\u00edlias cujo sal\u00e1rio \u00e9 inferior a R$ 7.000. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel negar o esfor\u00e7o dos governos do PT para aprofundar as pol\u00edticas p\u00fablicas para com os segmentos mais desfavorecidos da popula\u00e7\u00e3o brasileira, mesmo que, por outro lado, tenham favorecido os m\u00e9dios e os grandes capitalistas, bem como os banqueiros.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">As pol\u00edticas sociais p\u00fablicas dos governos de Fernando Henrique Cardoso e, em particular, do PT melhoraram a vida de muitos trabalhadores brasileiros, a ponto de surgir a ideia da exist\u00eancia de uma &#8220;nova&#8221; classe m\u00e9dia. Essa ideia surgiu em 2008, quando o economista Marcelo Neri publicou o resultado de uma pesquisa, que, em 2011, tornou-se um livro produzido pelo Centro de Pol\u00edticas Sociais (CPS) da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV), intitulado <em>A Nova Classe M\u00e9dia: O Lado Brilhante da Base da Pir\u00e2mide<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"3\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2918\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2918-3\">3<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2918-3\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"3\">Marcelo Neri, <em>A nova classe m\u00e9dia: o lado brilhante da pir\u00e2mide<\/em>, S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2011<\/span> . Como ponto te\u00f3rico, Neri utilizou o conceito de &#8220;classes econ\u00f4micas&#8221;, ou seja, a segmenta\u00e7\u00e3o em cinco estratos proposta pelo Crit\u00e9rio de Classifica\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica Brasileira (CCEB), conhecido como Crit\u00e9rio Brasil. Esse \u00edndice \u00e9 uma estimativa padronizada da capacidade de consumo das fam\u00edlias brasileiras. A metodologia est\u00e1 ligada \u00e0 considera\u00e7\u00e3o da posse de certos bens que, formando uma hierarquia de pontos, informam os limites da classe econ\u00f4mica. Na verdade, \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o da velha no\u00e7\u00e3o de &#8220;poder de compra&#8221; que \u00e9 utilizada como crit\u00e9rio para medir uma mudan\u00e7a qualitativa no processo real, o que requer a considera\u00e7\u00e3o dos limites funcionais e quantitativos desta abordagem. O que Neri denomina de &#8220;nova&#8221; classe m\u00e9dia nada mais \u00e9 do que uma fra\u00e7\u00e3o da classe popular que, beneficiada por pol\u00edticas sociais, conseguiu comprar mais equipamentos para suas casas. Mas a qualidade de sua estrutura social domina a mudan\u00e7a econ\u00f4mica conjuntural quantitativa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Imediatamente, o governo federal e o mercado capturaram a ideia de uma \u201cnova\u201d classe m\u00e9dia em proveito pr\u00f3prio. Terem os comerciantes se aproveitado da &#8220;nova situa\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 da ordem das coisas&nbsp;; terem os governos do PT ampliado esses mudan\u00e7as por meio da propaganda para fins pol\u00edticos for\u00e7a a pesquisa em ci\u00eancias sociais a n\u00e3o confundir a apar\u00eancia com o processo real.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Utilizando-se das proje\u00e7\u00f5es divulgadas pelo Instituto Data Popular (figura 2), o governo lan\u00e7ou uma publicidade positiva sobre as pol\u00edticas p\u00fablicas do PT, afirmando que o Brasil havia se tornado o \u201cpa\u00eds da classe m\u00e9dia!\u201d e que j\u00e1 n\u00e3o teria uma pir\u00e2mide social, mas um losango social.<\/p>\n<p><figure>\n<center><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/of7dJ6Q.png)\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\"> Figura 2: A pir\u00e2mide e o losango social. Fonte: Serasa Experian \/ DataPopular<\/p>\n<\/figcaption><p><\/center><\/figure>\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A ideia do losango social no lugar da pir\u00e2mide social reflete a tese da propaganda de que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 mais concentrada na base da pir\u00e2mide, mas no centro quadril\u00e1tero dessa esp\u00e9cie de diamante social. Em 2012, o governo de Dilma Roussef promoveu um projeto chamado <em>Vozes da Classe M\u00e9dia<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"4\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2918\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2918-4\">4<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2918-4\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"4\">Vozes da classe m\u00e9dia, Bras\u00edlia: Marco Zero, 2012<\/span> , alegando que, entre 2002 e 2012, 35 milh\u00f5es de pessoas entraram na &#8220;nova&#8221; classe m\u00e9dia, passando de 38% da popula\u00e7\u00e3o em 2002 para 53% em 2012 e somando mais de 100 milh\u00f5es de brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O projeto tamb\u00e9m prop\u00f4s uma nova classifica\u00e7\u00e3o das classes sociais&nbsp;:<\/p>\n<ul>\n<li>Classe baixa: todos aqueles com alta probabilidade de permanecerem ou tornarem-se pobres em um futuro pr\u00f3ximo, as fam\u00edlias possuem uma renda <em>per capita<\/em> inferior a R$ 291 por m\u00eas&nbsp;;<\/li>\n<li>Classe m\u00e9dia: todos aqueles que est\u00e3o em baixo risco de se tornarem pobres no futuro pr\u00f3ximo, as fam\u00edlias possuem uma renda <em>per capita<\/em> entre R$ 291 e R$ 1.019 por m\u00eas&nbsp;;<\/li>\n<li>Classe alta: todas as pessoas com baixa probabilidade de se tornarem pobres no futuro pr\u00f3ximo, fam\u00edlias possuem uma renda <em>per capita<\/em> e acima de R$ 1.019 por m\u00eas.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align:justify\">Curiosamente, o sal\u00e1rio m\u00ednimo em 2012 era de R$ 622 por m\u00eas, o que, segundo a classifica\u00e7\u00e3o proposta pelo governo, significa que uma pessoa que ganhava metade do sal\u00e1rio m\u00ednimo j\u00e1 era considerada da classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O mercado tamb\u00e9m se beneficiou da ideia de uma &#8220;nova&#8221; classe m\u00e9dia, oferecendo produtos (casa, carro, viagem&#8230;) a baixo custo e para serem pagos em v\u00e1rios meses ou mesmo anos. Na realidade, a ideia de uma &#8220;nova&#8221; classe m\u00e9dia criou uma ilus\u00e3o de poder de compra, que levou ao endividamento cr\u00f4nico de muitas fam\u00edlias. A agricultura, a ind\u00fastria, o com\u00e9rcio e o setor de servi\u00e7os tiveram lucros. Mas s\u00e3o os bancos que t\u00eam um lucro cada vez mais duradouro. As fam\u00edlias &#8220;felizes&#8221; passar\u00e3o anos (ou mesmo toda a vida) pagando juros banc\u00e1rios para comprar uma casa ou passam, pelo menos 10 meses, pagando uma viagem de sete dias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Mesmo endividada, essa \u201cnova\u201d classe m\u00e9dia come\u00e7ou a frequentar lugares (centros comerciais, restaurantes, aeroportos, etc.) anteriormente inacess\u00edveis, despertando o \u00f3dio e o desprezo da classe m\u00e9dia \u201ctradicional\u201d que se sentiu invadida em seu espa\u00e7o. Para ilustrar esse \u00f3dio em muitos casos de &#8220;racismo social&#8221; que proliferaram na m\u00eddia e nas redes sociais, citamos um que aconteceu no aeroporto do Rio de Janeiro em 2014. Quando a professora Rosa Maria Meyer, da PUC do Rio de Janeiro, viu um passageiro de bermuda e camiseta no aeroporto, ela n\u00e3o hesitou em fotograf\u00e1-lo e colocou sua foto em sua p\u00e1gina pessoal, perguntando ironicamente&nbsp;: \u201cUm aeroporto ou uma rodovi\u00e1ria?\u201d. Imediatamente, todos os seus \u201camigos de Facebook\u201d reagiram \u00e0 sua postagem fazendo coment\u00e1rios preconceituosos e considerando como responsabilidade do governo PT a presen\u00e7a de \u201cpessoas indesej\u00e1veis\u201d em lugares que antes eram destinados \u00e0s pessoas \u201cde bem\u201d, isso quer dizer, as classes m\u00e9dias e superiores.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Para a Profa. Rosa Maria Meyer, para seus colegas e para uma grande fra\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia \u201ctradicional\u201d, que na realidade se compreende como uma elite, a partir dos beneficiamentos do PT, os pobres invadiram espa\u00e7os que n\u00e3o s\u00e3o para eles e onde n\u00e3o deveriam estar.<\/p>\n<h2>A percep\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia sobre a crise global<\/h2>\n<p style=\"text-align:justify\">O fim do governo do PT (Lula \/ Dilma) coincidiu com a intensifica\u00e7\u00e3o da crise global. Muitas pessoas, especialmente as da classe m\u00e9dia, perderam os seus empregos e o seu poder de compra e foram for\u00e7adas a adaptar-se a empregos de estatuto social inferior. Outra parte, que teve acesso a cursos superiores, na maioria das vezes beneficiada pelas pol\u00edticas sociais do PT, n\u00e3o conseguiu encontrar empregos compat\u00edveis com sua forma\u00e7\u00e3o superior. Diante dessa frustra\u00e7\u00e3o e da diferen\u00e7a entre as aspira\u00e7\u00f5es e aquilo que de fato o mercado oferece, os integrantes dessas camadas sociais passaram pela contradi\u00e7\u00e3o de estarem objetivamente nas classes populares e subjetivamente desejosas de serem uma classe m\u00e9dia. O medo de ser confundido com a classe popular torna-se um fantasma. Houve tamb\u00e9m integrantes da classe m\u00e9dia \u201ctradicional\u201d que, frente ao processo de automa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de v\u00e1rios setores econ\u00f4micos, ca\u00edram no abismo social real das classes m\u00e9dias inferiores ou mesmo das classes populares.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Essas pessoas n\u00e3o entendem a crise como um fen\u00f4meno mundial. Elas sentem a crise global de 2007-2008, que reverbera na economia brasileira progressivamente e aprofundou-se em 2013-2014 com os preparativos para a Copa do Mundo e os Jogos Ol\u00edmpicos, como uma responsabilidade direta e exclusiva do PT, de Lula e de Dilma. Elas acreditam que a crise \u00e9 apenas o resultado da corrup\u00e7\u00e3o do governo do PT, o \u00fanico partido corrupto para essas camadas sociais. Essa ideia foi difundida e legitimada pela a\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato e amplamente divulgada pela m\u00eddia, especialmente pela Rede Globo de Televis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O \u00f3dio pol\u00edtico, que est\u00e1 na origem dos movimentos fascistas, pode aumentar em tempos de crise econ\u00f4mica, porque as pessoas n\u00e3o t\u00eam formas de resolver os seus problemas e, o pior, confundem suas causas. Elas preferem encontrar \u201cculpados\u201d para a sua situa\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o geralmente os mais vulner\u00e1veis socialmente e economicamente. No Brasil, essas pessoas fr\u00e1geis s\u00e3o, acima de tudo, os pobres e os negros.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A classe m\u00e9dia brasileira \u00e9 a herdeira n\u00e3o s\u00f3 da posi\u00e7\u00e3o social intermedi\u00e1ria, entre os mais ricos e os mais pobres, mas tamb\u00e9m do sentimento dos agregados, acreditando que pertence a uma \u201cclasse alta\u201d, pensando como ela e protegendo seus direitos. Ao agir dessa forma, a classe m\u00e9dia acredita que est\u00e1 protegendo seus pr\u00f3prios direitos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A classe m\u00e9dia no Brasil n\u00e3o tem identidade, nem consci\u00eancia de sua pr\u00f3pria classe. Assim, quando um governo adota uma s\u00e9rie de pol\u00edticas sociais que beneficiam as classes populares (herdeiras da massa de escravos), a classe m\u00e9dia tradicional sente-se ofendida porque acredita que seu espa\u00e7o \u00e9 invadido por um grupo de pessoas que n\u00e3o deveriam estar ali. Os integrantes da classe m\u00e9dia \u201ctradicional&#8221; tendem a desprezar a classe m\u00e9dia baixa e a &#8220;nova&#8221; classe m\u00e9dia, bem como os pobres das classes populares. Esse desprezo \u00e9 transformado em rejei\u00e7\u00e3o e \u00f3dio em certas conjunturas de estagna\u00e7\u00e3o ou recess\u00e3o econ\u00f4mica, como \u00e9 o caso do Brasil e da maior parte das regi\u00f5es da economia mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Neste processo, a classe m\u00e9dia ressentida prefere ouvir promessas conservadoras e autorit\u00e1rias de agentes pol\u00edticos, inclusive de <em>outsiders<\/em> oportunistas, no lugar de procurar resultados pol\u00edticos consequentes e coerentes com sua necessidade de satisfazer os interesses da sua verdadeira situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica. A democracia, o respeito pelas diferen\u00e7as e a igualdade de direitos s\u00e3o vistos como uma amea\u00e7a imediata \u00e0 sua exist\u00eancia social e individual, f\u00edsica e psicol\u00f3gica. A prociss\u00e3o de preconceitos conduzir\u00e1 finalmente \u00e0 pol\u00edtica em que a democracia \u00e9 identificada com o comunismo e seus defensores s\u00e3o responsabilizados pela realidade da crise.<\/p>\n<h2>Bibliografia<\/h2>\n<p>Neri, Marcelo. 2011. <em>A nova classe m\u00e9dia: o lado brilhante da base da pir\u00e2mide<\/em>. S\u00e3o Paulo: Saraiva.<br \/>\nRibeiro, Darcy. 1995. <em>O povo brasileiro: a forma\u00e7\u00e3o e o sentido do Brasil<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<br \/>\nSouza, Jess\u00e9. 2018. <em>A classe m\u00e9dia no espelho<\/em>. Rio de Janeiro: Esta\u00e7\u00e3o Brasil.<br \/>\nVozes da classe m\u00e9dia. 2012. Bras\u00edlia: Marco Zero.<\/p>\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div>Jesse Souza, <em>A classe m\u00e9dia no espelho<\/em>, Rio de Janeiro: Esta\u00e7\u00e3o Brasil, 2018, p. 80<\/div><\/li><li><span>2<\/span><div>Darcy Ribeiro, <em>O povo brasileiro: a forma\u00e7\u00e3o e o sentido do Brasil<\/em>, S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1995<\/div><\/li><li><span>3<\/span><div>Marcelo Neri, <em>A nova classe m\u00e9dia: o lado brilhante da pir\u00e2mide<\/em>, S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2011<\/div><\/li><li><span>4<\/span><div>Vozes da classe m\u00e9dia, Bras\u00edlia: Marco Zero, 2012<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto tem como objetivo pensar a classe m\u00e9dia e o seu papel nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018, que levaram Jair Messias Bolsonaro, do Partido Social Liberal (PSL), ao Pal\u00e1cio do Planalto. Como tese principal, o texto argumenta que a classe m\u00e9dia n\u00e3o possui uma identidade de classe que lhe seja pr\u00f3pria e, assim, assimila as refer\u00eancias culturais das classes superiores. Como consequ\u00eancia dessa aus\u00eancia de ideologia pr\u00f3pria, a classe m\u00e9dia, em uma tentativa de diferenciar-se, demonstra preconceito com as classes populares. Para compreender essa quest\u00e3o, o texto divide-se em tr\u00eas momentos. Inicialmente, \u00e9 feita uma an\u00e1lise hist\u00f3rica da forma\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia; em seguida, \u00e9 discutida a emerg\u00eancia da \u00ab nova \u00bb classe m\u00e9dia; em um terceiro momento, \u00e9 apresentada a percep\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia sobre a crise econ\u00f4mica global iniciada em 2008. Texto originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.sens-public.org\/articles\/1460\/\"><em>Sens public<\/em><\/a><span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":3019,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,47,80,76],"tags":[56,17,101,231,65,234],"class_list":["post-2918","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-coletivos-institucionais","category-humanidades","category-politica","tag-brasil","tag-classe-media","tag-democracia","tag-historia","tag-sociedade","tag-soleni-fressato"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2918","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2918"}],"version-history":[{"count":11,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2918\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3025,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2918\/revisions\/3025"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3019"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2918"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2918"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2918"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}