{"id":2767,"date":"2023-08-24T15:51:11","date_gmt":"2023-08-24T15:51:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=2767"},"modified":"2023-08-25T16:12:52","modified_gmt":"2023-08-25T16:12:52","slug":"marcha-das-margaridas-2023-florescendo-luta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/marcha-das-margaridas-2023-florescendo-luta\/","title":{"rendered":"Marcha das Margaridas 2023, florescendo luta<br><span style=\"font-size:16px\">Luiz Capelo<\/span>"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\"> Foto: BordaLuta<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nesse tempo em que h\u00e1 quem semeie a secess\u00e3o no Brasil, \u00e9 importante rememorar um elemento determinante na forma\u00e7\u00e3o de nosso pa\u00eds: o Nordeste \u00e9 uma terra de lutas. Por exemplo, no s\u00e9culo XVII,Ganga Zumba estabeleceu na Serra da Barriga um Quilombo que se tornou territ\u00f3rio de luta e liberdade para os africanos sujeitos \u00e0 escravid\u00e3o. Ali, no Quilombo dos Palmares, resistindo a sucessivos ataques da Coroa Portuguesa, Zumbi dos Palmares se imp\u00f5e como um l\u00edder. Assim, mesmo fisicamente destru\u00eddo o Quilombo e mortos os quilombolas, Zumbi consagra-se como grande h\u00e9roi da luta antirracista e fundi\u00e1ria. Em um Brasil j\u00e1 republicano, no interior do Bahia, o cearense Anton\u00f4nio Conselheiro erige sua fervorosa comunidade que oferecia uma alternativa m\u00edstico-religiosa para sobreviver \u00e0 seca vida do Sert\u00e3o. A rea\u00e7\u00e3o do Estado n\u00e3o tarda, e foram necess\u00e1rias quatro expedi\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito Brasileiro para que Canudos fosse colocada a baixo. Mas <a href=\"http:\/\/www.nilc.icmc.usp.br\/nilc\/literatura\/ossert.es2.htm\">&#8220;o sertanejo \u00e9 antes de tudo um forte&#8221;<\/a>, e o Conselheiro continua presente na cultura popular. Tamb\u00e9m no fim s\u00e9culo XIX, o munic\u00edpio de Quebrangulo, em Alagoas, v\u00ea nascer Graciliano Ramos, grande nome da literatura brasileira e grande comunista. Acusado de ter participado da Intentona Comunista de 1935, Graciliano foi preso em Macei\u00f3, transferido para o Recife e ent\u00e3o enviado, junto com outros presos pol\u00edticos, para o Rio de Janeiro, onde passou dez meses preso em Ilha Grande. <em>Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere<\/em>, livro de mem\u00f3rias publicado postumamente, relata esse per\u00edodo da vida de Ramos. Uma vez livre, Graciliano, a convite de Lu\u00eds Carlos Prestes, filia-se ao Partido Comunista Brasileiro. Em seu romance <em>Vidas Secas<\/em> Graciliano descreve as agruras e as dificuldades da vida no sert\u00e3o. Ora, o Nordeste tamb\u00e9m gerou outra filha que muito lutou para que a vida sertaneja fosse um pouco menos sofrida e desigual: Margarida Alves.<\/p>\n<p><figure>\n<center><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/79371444\/261694810-e61ed3e2-fb8a-419c-b97a-3bdf3d84c686.jpg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\"> Margarida Alves, presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande &#8211; PB, discursa em meados dos anos 1980. Ao seu lado est\u00e1 Lula. Foto: Acervo de Severino Antonio<\/p>\n<\/figcaption><p><\/center><\/figure>\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Margarida Maria Alves, filha mais nova de uma fam\u00edlia de nove irm\u00e3os, nasceu em 1933 na zona rural de Alagoa Grande &#8211; PB, onde morou at\u00e9 o in\u00edcio de sua vida adulta. Contudo, expulsos da terra por latifundi\u00e1rios, Margarida e sua fam\u00edlia foram morar na periferia urbana do munic\u00edpio. Os conflitos fundi\u00e1rios t\u00e3o recorrentes no desigual Brasil marcaram a vida de Margarida. Apesar das dificuldades, ela n\u00e3o aceita passivamente a sina que querem lhe impor. Em 1973, aos 40 anos, Margarida torna-se presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande. Ela foi uma das primeiras mulheres a se tornarem lideran\u00e7a sindical no Brasil. Grande ativista pelos direitos dos trabalhadores, Margarida lutou para que camponeses tivessem sua carteira de trabalho assinada, 13<sup>o<\/sup> sal\u00e1rio, uma jornada de trabalho de 8 horas, f\u00e9rias remuneradas e licen\u00e7a maternidade. Ela tamb\u00e9m fundou o Centro de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura do Trabalhador Rural, onde criou um programa de alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos e lutou pelo fim do trabalho infantil. Na seara judicial, Margarida moveu diversas a\u00e7\u00f5es na Justi\u00e7a do Trabalho para defender trabalhadores. Obviamente, toda essa luta por direitos n\u00e3o passou desapercebida dos latifundi\u00e1rios locais, e, em 1983, Margarida foi assassinada na porta de sua casa por um assassino de aluguel com um tiro de espingarda em seu rosto. O que os algozes n\u00e3o esperavam era que, mesmo cruelmente assassinada, Margarida se multiplicasse e continuasse lutando.<\/p>\n<p><figure>\n<center><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/79371444\/261686652-e8dfd897-cea7-4e1f-84a7-7c34734dc9ca.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\"> Marcha das Margaridas 2023. Foto: BordaLuta<\/p>\n<\/figcaption><p><\/center><\/figure>\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"> Inspirada e nomeada em homenagem \u00e0 Margarida Alvez, a <a href=\"https:\/\/www.marchadasmargaridas.org.br\/\">Marcha das Margaridas<\/a> \u00e9 um movimento popular que prop\u00f5e a constru\u00e7\u00e3o de um projeto de sociedade democr\u00e1tica, justa, igualit\u00e1ria e baseada na soberania popular. Para tanto, a Marcha elenca alguns de seus objetivos pol\u00edticos:<\/p>\n<ul>\n<li>Fortalecimento e amplia\u00e7\u00e3o da mobiliza\u00e7\u00e3o popular, sindical e feminista das trabalhadoras rurais;<\/li>\n<li>Apresenta\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica ao modelo econ\u00f4mico hegem\u00f4nico;<\/li>\n<li>A den\u00fancia e o protesto contra toda forma de viol\u00eancia e explora\u00e7\u00e3o das mulheres;<\/li>\n<li>Reafirma\u00e7\u00e3o do protagonismo pol\u00edtico e econ\u00f4mico das mulheres do campo, da floresta e das \u00e1guas<\/li>\n<li>Protesto contra as causas estruturantes da inseguran\u00e7a alimentar e nutricional;<\/li>\n<li>Atualiza\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o da pauta de uma negocia\u00e7\u00e3o que leve em considera\u00e7\u00e3o a maior inser\u00e7\u00e3o das mulheres do campo, da floresta e das \u00e1guas;<\/li>\n<li>Luta pela consolida\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento das pol\u00edticas p\u00fablicas que concernem as mulheres do campo, da floresta e das \u00e1guas.<\/li>\n<\/ul>\n<p><figure>\n<center><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/79371444\/261686647-7fafb8a4-51ed-42ba-ae57-5f2486949234.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\"> Marcha das Margaridas 2023. Foto: BordaLuta<\/p>\n<\/figcaption><p><\/center><\/figure>\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A primeira Marcha das Margaridas desceu a Esplanada dos Minist\u00e9rios no ano 2000, e desde ent\u00e3o ocorreram edi\u00e7\u00f5es nos anos de 2003, 2007, 2011, 2015 e 2019. Em 2023, a Marcha comemorou seus 20 anos e, mais uma vez, no dia 12 de agosta, data em que Margarida Alvez foi assassinada, percorreu o centro f\u00edsico do poder federal defendendo seu projeto pol\u00edtico e clamando por seus direitos.<\/p>\n<p><figure>\n<center><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/79371444\/261686620-dc95c62b-e9fa-4cb8-b598-d31a0cb3219d.jpeg\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/79371444\/261686633-d8de715d-1333-424a-a64f-707774f48920.jpeg\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/79371444\/261686631-7cb09357-3f4a-4bed-a649-c697e6388b8c.jpeg\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/79371444\/261686642-6e60ce8b-08a0-436b-960c-eeaf9c9a5229.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\"> Margaridas de diversas partes do pa\u00eds se encontram em Bras\u00edlia na Marcha das Margaridas 2023. Fotos: BordaLuta<\/p>\n<\/figcaption><p><\/center><\/figure>\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">\nBarbara Cassin<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2767\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2767-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2767-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\">Cassin, Barbara. <em>Quand dire, c\u2019est vraiment faire: Hom\u00e8re, Gorgias et le peuple arc-en-ciel<\/em>. Ouvertures. Paris: Fayard, 2018<\/span>, em seu estudo sobre o lado performativo da linguagem, discorre sobre a terceira dimens\u00e3o da linguagem. A primeira dimens\u00e3o \u00e9 o &#8220;falar de&#8221; constatativo. \u00c9 o regime do verdadeiro e do falso particular \u00e0 filosofia. Por exemplo, ao falar do caso Margarida, \u00e9 afirmar que \u00e9 verdadeira a afirma\u00e7\u00e3o de que ela foi assassinada. A  segunda dimens\u00e3o \u00e9 o &#8220;falar a&#8221; persuasivo, cujo objetivo \u00e9 convencer algu\u00e9m de algo e que pertence ao campo da ret\u00f3rica. Por exemplo, \u00e9 o texto defendendo que Margarida foi assassinada devido \u00e0 sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A terceira dimens\u00e3o da linguagem, \u00e9 a palavra que nem descreve ou persuade, mas faz acontecer. \u00c9 o discurso sof\u00edstico em que a palavra cria e transforma o mundo, uma palavra que tem um &#8220;efeito mundo&#8221;. Ora, quando Margarida afirma, em seu discurso no 1<sup>o<\/sup> de Maio de 1983 que <a href=\"https:\/\/www.marchadasmargaridas.org.br\/?pagina=asmargaridas#discursoModal\">&#8220;da luta eu n\u00e3o fujo porque eu entendo que \u00e9 melhor morrer na luta do que morrer de fome<\/a>, sua palavra \u00e9 performativa. \u00c9 essa a palavra que periodicamente enche a Esplanada dos Minist\u00e9rios de mulheres em luta.<\/p>\n<p><figure>\n<center><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/79371444\/261686645-e6687dda-51ee-4fee-a807-5e6a3df96813.jpeg\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\"> Marcha das Margaridas 2023. Foto: BordaLuta<\/p>\n<\/figcaption><p><\/center><\/figure>\n<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\">\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div>Cassin, Barbara. <em>Quand dire, c\u2019est vraiment faire: Hom\u00e8re, Gorgias et le peuple arc-en-ciel<\/em>. Ouvertures. Paris: Fayard, 2018<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os dias 15 e 16 de agosto de 2023, ocorreu em Bras\u00edlia a Marcha das Margaridas. O BordaLuta participou da Marcha e enviou ao Coletivo Brasil as fotos que ilustram o artigo.<span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":2779,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,81,49,51],"tags":[176,56,175,103,137,172,177,173,63],"class_list":["post-2767","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-feminismos","category-movimentos","category-territorios","tag-bordaluta","tag-brasil","tag-conflitos-fundiarios","tag-feminismo","tag-luiz-capelo","tag-marcha-das-margaridas","tag-margarida-alves","tag-movimentos-sociais","tag-politica"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2767","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2767"}],"version-history":[{"count":13,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2767\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3010,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2767\/revisions\/3010"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2779"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2767"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2767"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}