{"id":2723,"date":"2023-08-11T15:30:25","date_gmt":"2023-08-11T15:30:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=2723"},"modified":"2023-09-08T15:17:14","modified_gmt":"2023-09-08T15:17:14","slug":"povos-indigenas-saude-e-doenca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/povos-indigenas-saude-e-doenca\/","title":{"rendered":"Povos ind\u00edgenas, sa\u00fade e doen\u00e7a<br><spam style=\"font-size:16px\">Ariel Pheula do Couto e Silva<\/spam>"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:right;font-size:12px;font-style:italic\">Cachimbos dos Av\u00e1-Canoeiro do Tocantins. Foto: Lorranne Gomes da Silva<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Apresento, nesta interven\u00e7\u00e3o, alguns aspectos da minha atua\u00e7\u00e3o como linguista tradutor-int\u00e9rprete em contextos de sa\u00fade junto a povos ind\u00edgenas, sobretudo aos Av\u00e1-Canoeiro e a povos ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia Brasileira. Atuei de 2014 a 2017, a pedido da FUNAI e da SESAI, como acompanhante de ind\u00edgenas Av\u00e1-Canoeiro em hospitais. Trata-se de um povo de recente contato com alto grau de vulnerabilidade. Busquei oferecer um acompanhamento sens\u00edvel \u00e0s diferen\u00e7as culturais na concep\u00e7\u00e3o de sa\u00fade e doen\u00e7a, fazendo com que a minha fun\u00e7\u00e3o de tradutor-int\u00e9rprete tamb\u00e9m desse conta dessas diferen\u00e7as. No \u00e2mbito da pandemia de Covid-19, tive a oportunidade de prestar consultoria \u00e0 COIAB, na supervis\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o de materiais sobre a doen\u00e7a, sobre viol\u00eancia contra crian\u00e7as, adolescentes e mulheres, e sobre sa\u00fade mental ind\u00edgena para aproximadamente vinte l\u00ednguas ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia Brasileira.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HzLPWlkvec4\" title=\"YouTube video player\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<h2>Transcri\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo<\/h2>\n<p style=\"text-align:justify\">Bom, primeiramente ol\u00e1 a todos que est\u00e3o a\u00ed do outro lado e que est\u00e3o me ouvindo. Aqui \u00e9 boa noite, a\u00ed provavelmente bom dia, boa tarde ou boa noite tamb\u00e9m. Eu trago para voc\u00eas algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a lingu\u00edstica da sa\u00fade e da doen\u00e7a, pensando aqui alguns apontamentos somente. Eu penso em trazer algumas informa\u00e7\u00f5es sobre a lingu\u00edstica da sa\u00fade e da doen\u00e7a para os Av\u00e1-Canoeiro antes do contexto da pandemia. E, sobre esse tema, para outros povos ind\u00edgenas, para o contexto da pandemia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Vamos come\u00e7ar ent\u00e3o com os Av\u00e1-Canoeiro. Eles s\u00e3o 2 grupos ind\u00edgenas com poucas pessoas. Ambos s\u00e3o sobreviventes de massacres. S\u00e3o 2 grupos. Um grupo que hoje est\u00e1 na ilha do Bananal \u00e9 sobrevivente de um massacre acontecido na d\u00e9cada de 50 mais ou menos. Eles foram contatados \u00e0 for\u00e7a na d\u00e9cada de 70 pela FUNAI e hoje vivem em uma Terra Ind\u00edgena que n\u00e3o \u00e9 a deles em uma situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o muito interessante, que \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o de presente de guerra, mas n\u00e3o eu n\u00e3o vou adentrar nos detalhes aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O outro grupo s\u00e3o os Av\u00e1-Canoeiro do Tocantins. Atualmente eles moram na Terra Ind\u00edgena Av\u00e1-Canoeiro localizada no norte do estado do Goi\u00e1s. A gente tem a refer\u00eancia dos nomes de povos ind\u00edgenas pelos rios. Ent\u00e3o Av\u00e1-Canoeiro do Tocantins porque eles se localizam na bacia do rio Tocantins, e Av\u00e1-Canoeiro do Araguaia, que \u00e9 o outro grupo, o da Ilha do Bananal, que se localizam no rio Araguaia, na regi\u00e3o da bacia do rio Araguaia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Bom, e como que eu chego a pensar essas quest\u00f5es lingu\u00edsticas da sa\u00fade e da doen\u00e7a para os Av\u00e1-Canoeiro? Eu tive e tenho um contato muito forte principalmente com os Av\u00e1-Canoeiro do norte do Goi\u00e1s. Eu tive a oportunidade de trabalhar com eles desde 2012 a convite da FUNAI. No in\u00edcio era um projeto de assessoria lingu\u00edstica que buscava compreender um pouco mais da l\u00edngua Av\u00e1-Canoeiro para facilitar de certa forma o trabalho da FUNAI junto a esse povo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">\u00c9 importante notar que os Av\u00e1-Canoeiro s\u00e3o povos de recente contato. Dada a vulnerabilidade desse grupo e o contato recente e al\u00e9m disso ambos s\u00e3o tamb\u00e9m sobreviventes de massacres e passaram por redu\u00e7\u00e3o populacional dr\u00e1stica &#8212; uma aldeia que tem em m\u00e9dia entre 80 a 150 pessoas foi reduzida a 4 para os Av\u00e1-Canoeiro do Tocantins e 11 para os Av\u00e1-Canoeiro do Araguaia &#8211;, ent\u00e3o esse trabalho buscava inicialmente ajudar a FUNAI a ter uma interlocu\u00e7\u00e3o melhor com os Av\u00e1-Canoeiro na medida deles conseguirem expressar os desejos, os anseios e as suas necessidades. Ent\u00e3o eu fui um pouco nesse sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ao longo do tempo dos primeiros anos, eu percebi que a lingu\u00edstica n\u00e3o dava conta dos aspectos interacionais que eu precisava ter com os Av\u00e1-Canoeiro. Eu precisei entender um pouco mais da cultura deles, entender um pouco mais a profundidade dos traumas que eles tinham e t\u00eam do massacre, do per\u00edodo de fuga &#8212; que para os Av\u00e1 do Tocantins durou a\u00ed pelo menos 20 anos &#8211;, do momento do contato e do momento do p\u00f3s-contato, que tamb\u00e9m n\u00e3o foram momentos muito interessantes para eles.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Algo que sempre me chamou a aten\u00e7\u00e3o nesse nessa minha hist\u00f3ria com eles, principalmente nos primeiros 4 ou 5 anos ali, era a minha identidade. Quem eu era para os Av\u00e1-Canoeiro e como que eles se relacionavam comigo a partir da interpreta\u00e7\u00e3o cultural deles de quem \u00e9 o outro e das categorias de outro que eles t\u00eam.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Algo muito importante que derivou dessa minha observa\u00e7\u00e3o foi observar por exemplo como que a minha identidade mudava e como isso poderia representar uma forma deles de ver as outras pessoas e o mundo. Fui ler tamb\u00e9m trabalhos da antropologia e de outras \u00e1reas que contribu\u00edram para eu pensar um pouco mais sobre essas quest\u00f5es. Daqui a pouco eu vou comentar como isso se relaciona com sa\u00fade e doen\u00e7a.<\/p>\n<p><figure>\n<center><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/200653493-3a283c46-d47c-468d-b46b-3a7b03c4a731.png\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Iawi Av\u00e1-Canoeiro e Ariel Pheula. Foto: Egipson Correia<\/p>\n<\/figcaption><p><\/center><\/figure>\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ent\u00e3o, num primeiro momento eu era considerado como motivo de piadas, n\u00f3s vamos dizer assim, uma jocosidade. Eu recebi um apelido que era o mesmo apelido que os regionais davam para os Av\u00e1-Canoeiro em refer\u00eancia a serem moles, serem pregui\u00e7osos &#8212; o que \u00e9 um preconceito arraigado na nossa cultura em rela\u00e7\u00e3o a povos ind\u00edgenas &#8211;, que \u00e9 o termo &#8220;mandioca&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Num segundo momento, eles passaram a me chamar pelo nome. Foi quando eles conseguiam prever o que eu ia fazer. No in\u00edcio eu escorregava, eu falava coisas que eles n\u00e3o previam. Ent\u00e3o era chamado de &#8220;mandioca&#8221; por ter um pouco de uma certa, talvez, inseguran\u00e7a que se expressa em uma risada. Com o tempo, depois de 1 ano mais ou menos de contato com eles, eles passaram a me chamar pelo nome, o que j\u00e1 diz a minha identidade. Eu passo a ter uma identidade na inter-rela\u00e7\u00e3o com eles. Eu sou o &#8220;Adriel&#8221;, o &#8220;Ariel&#8221;, que \u00e9 o meu nome.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ent\u00e3o, \u00e9 muito interessante porque \u00e9 nesse momento que eles tentam identificar coisas para saber quem eu sou. &#8220;Bom, voc\u00ea est\u00e1 aqui, mas voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 relacionado \u00e0 FUNAI, que trabalha com a gente, nem com a SESAI&#8221;. Eles passam ent\u00e3o a vir para Bras\u00edlia, conhecem a Universidade de Bras\u00edlia, conhecem o Minhoc\u00e3o, que \u00e9 o ICC, o Instituto Central de Ci\u00eancias, que \u00e9 o pr\u00e9dio onde se localiza o laborat\u00f3rio onde eu fa\u00e7o pesquisa e sou vinculado, que \u00e9 o Laborat\u00f3rio de L\u00ednguas e Literaturas Ind\u00edgenas da Universidade de Bras\u00edlia. Eles passam ent\u00e3o a chamar o pr\u00e9dio de Minhoc\u00e3o e a me relacionar a Minhoc\u00e3o, a Universidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Algo muito interessante acontece quando eu passo a acompanhar os Av\u00e1-Canoeiro em interna\u00e7\u00f5es hospitalares que foi uma cena de uma t\u00e9cnica de enfermagem que, brincando, perguntou para o \u00fanico homem remanescente do contato com os Av\u00e1-Canoeiro do Tocantins se eu era filho dele, n\u00e9. Fisionomicamente a gente n\u00e3o tem muita semelhan\u00e7a. A\u00ed ele riu, porque ele viu que era um motivo de piada, e falou: &#8220;n\u00e3o, n\u00e3o, esso aqui \u00e9 o meu amigo&#8221;. Ele falou em portugu\u00eas. Ele falava um pouco em portugu\u00eas algumas coisas. E a\u00ed eu fiquei com a pulga atr\u00e1s da orelha para tentar entender qual \u00e9 o significado de amigo na l\u00edngua Av\u00e1-Canoeiro e como que eu poderia entender isso melhor.<\/p>\n<p><figure>\n<center><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/200653490-232b7d7c-8ea5-4faa-88bc-fc7aa1b37f26.png\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Conversa com Iawi Av\u00e1-Canoeiro. Foto: Egipson Correia<\/p>\n<\/figcaption><p><\/center><\/figure>\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ai eu encontrei um artigo<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2723\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2723-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2723-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\">Trata-se do texto <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/0104-93132015v21n1p091\"><em>Sobre o poder da cria\u00e7\u00e3o: parentesco e outras rela\u00e7\u00f5es Aw\u00e1-Guaj\u00e1<\/em><\/a>, de Uir\u00e1 Garcia.<\/span> muito interessante do Uir\u00e1 Garcia, que \u00e9 um antrop\u00f3logo. Esse artigo \u00e9 de 2015. Ele vai trabalhar tamb\u00e9m nesse tema, sobre como os Aw\u00e1-Guaj\u00e1, localizados l\u00e1 no norte do Maranh\u00e3o, interagem entre si. Um aspecto interessante \u00e9 que a l\u00edngua deles tamb\u00e9m \u00e9 da fam\u00edlia Tupi-Guarani. Ent\u00e3o eles t\u00eam alguma similaridade de certa forma com a l\u00edngua Av\u00e1-Canoeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A\u00ed eu fui tentar interpretar e entender essas quest\u00f5es que eu passei com os Av\u00e1-Canoeiro a partir da l\u00edngua Av\u00e1-Canoeiro. Eu achei quest\u00f5es muito interessantes. Por um lado a gente tem as rela\u00e7\u00f5es de parentesco. Os Av\u00e1 entre si, eles se relacionam por meio dos termos de parentesco: minha m\u00e3e, minha tia, meu filho, meu irm\u00e3o mais novo, meu mais velho e por a\u00ed vai. Quando eles n\u00e3o s\u00e3o parentes, vamos dizer assim, dessa fam\u00edlia estendida, a gente vai ter uma rela\u00e7\u00e3o com o outro, que tanto pode ser, por exemplo, a rela\u00e7\u00e3o do marido com a esposa, quanto pode ser a rela\u00e7\u00e3o de um dono com um animal de cria\u00e7\u00e3o ou daquele que tem <em>paj\u00e9<\/em> com um dos familiares desse <em>paj\u00e9<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A gente sabe que essa essa tradu\u00e7\u00e3o de mundos, que \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do <em>paj\u00e9<\/em>, \u00e9 fundamental para os ind\u00edgenas da Am\u00e9rica do Sul. Ela tem certas semelhan\u00e7as com o xamanismo da Am\u00e9rica do Norte por exemplo, mas tem as suas diferen\u00e7as tamb\u00e9m. Ai eu me vi nessa rela\u00e7\u00e3o dos Av\u00e1-Canoeiro mais <em>paj\u00e9s<\/em> comigo. Por que? Eu fui tentar entender as categorias de pessoas. Os Av\u00e1-Canoeiro s\u00e3o <em>\u00c3wa<\/em>, gente de verdade, e eu sou um <em>Maila<\/em>, um pele branca, do grupo daqueles que mataram e massacraram eles no passado. Ent\u00e3o para eles terem uma rela\u00e7\u00e3o comigo, eles n\u00e3o est\u00e3o tendo uma rela\u00e7\u00e3o com pessoas como eles, gente da mesma natureza que eles. Eles est\u00e3o tendo uma rela\u00e7\u00e3o com outro, e \u00e9 neste outro em que eu me incluo. Essa \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o potencialmente tensa, potencialmente hier\u00e1rquica, onde tem muita raiva presente, que \u00e9 a raiva que est\u00e1 presente na mem\u00f3ria deles, nas mem\u00f3rias traum\u00e1ticas sobre os <em>Maila<\/em> que mataram eles todos. O que \u00e9 uma fala muito presente por exemplo da <em>Matcha<\/em>, que \u00e9 uma Av\u00e1-Canoeiro mais velha. Ela fala que o branco matou tudo, que n\u00e3o sobrou nada, nada n\u00e9. At\u00e9 porque 7 sobreviveram ao massacre e 4 sobreviveram para fazer o contato depois.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ent\u00e3o eu fui tentar entender o que significaria amigo nessa rela\u00e7\u00e3o entre o <em>paj\u00e9<\/em> e eu e um familiar desse <em>paj\u00e9<\/em>. Dentro disso eu fui entender o que \u00e9 o amigo, que \u00e9 o estar e viver em movimento em rela\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m. Isso eu achei muito, muito, muito interessante. E como que isso se relaciona com sa\u00fade e doen\u00e7a? Foi porque exatamente quando eu entrei nessa categoria de amigo para os Av\u00e1-Canoeiro e por meio da l\u00edngua Av\u00e1-Canoeiro que eu passei a poder acompanhar eles em ambiente hospitalar com mais qualidade. Eu passei a entender como que eles se relacionam com essas outras pessoas; como que eles v\u00e3o se relacionar com os m\u00e9dicos, com os t\u00e9cnicos de enfermagem e com os enfermeiros; como que essa tradu\u00e7\u00e3o de um sistema de sa\u00fade-doen\u00e7a deles para o sistema biom\u00e9dico, vamos pensar assim, se daria; e como que eu poderia contribuir uma vez que eu estaria nesse lugar da tradu\u00e7\u00e3o de mundos de sa\u00fade-doen\u00e7a extremamente diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ent\u00e3o foi por meio dessa rela\u00e7\u00e3o que eu passei a ter com eles, dessa rela\u00e7\u00e3o entre eles mais <em>paj\u00e9<\/em> e eu mais familiar, e indiretamente eu mais <em>paj\u00e9<\/em> tamb\u00e9m, para conseguir interagir com eles e ter uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, uma rela\u00e7\u00e3o boa, que foi o que se estabeleceu.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Eu ent\u00e3o acompanhei eles em tratamentos de pneumonia, de tuberculose pleural, de c\u00e2ncer em v\u00e1rios est\u00e1gios, principalmente um que \u00e9 o <em>Tutawa<\/em>, que \u00e9 como a gente chama ele depois do falecimento &#8212; ele faleceu em 2017. Eu conheci ele l\u00e1 atr\u00e1s em 2012. A gente trocava ideias, conversava junto, sa\u00eda para as caminhadas. Ele era uma presen\u00e7a constante quando eu estava na aldeia e quando ele estava em outros lugares como Goi\u00e2nia, como Bras\u00edlia. Era uma rela\u00e7\u00e3o muito, muito interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">E ai, nesse contexto m\u00e9dico hospitalar, eu pude perceber v\u00e1rias outras coisas que na Terra Ind\u00edgena eu n\u00e3o conseguia perceber, que era como que se expressavam ent\u00e3o essas quest\u00f5es de sa\u00fade doen\u00e7a: o que \u00e9 estar saud\u00e1vel, o que \u00e9 estar doente e quais s\u00e3o as causas poss\u00edveis. E o que eu vou trazer para voc\u00eas \u00e9 um pouquinho, \u00e9 aquilo que eu consegui perceber na intera\u00e7\u00e3o com eles. Eu n\u00e3o almejo aqui representar um sistema inteiro de sa\u00fade doen\u00e7a, ainda mais porque a gente sabe que culturalmente, a cultura, ela \u00e9 atualizada a cada gera\u00e7\u00e3o e coisas mudam ao longo de gera\u00e7\u00f5es, e dentro de uma mesma gera\u00e7\u00e3o pode mudar tamb\u00e9m dependendo das experi\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ent\u00e3o bom, uma coisa que me chamou muita aten\u00e7\u00e3o foi a import\u00e2ncia dada ao frio e ao calor. A gente sabe que isso \u00e9 presente em v\u00e1rias culturas humanas, a import\u00e2ncia do frio e do calor. A gente tem, por exemplo, a <em>Ayurv\u00e9dica<\/em> na \u00cdndia. A gente tem v\u00e1rias outras culturas na Europa em que s\u00e3o necess\u00e1rias a rela\u00e7\u00e3o do frio do calor. Mas com os Av\u00e1-Canoeiro eu achei uma coisa muito muito interessante. Para eles o calor \u00e9 inerente ao corpo humano, e o frio n\u00e3o. Isso linguisticamente \u00e9 marcado, essa diferen\u00e7a na l\u00edngua Av\u00e1-Canoeiro. E a\u00ed se a gente faz um tipo de atividade que aumenta muito o calor do teu corpo \u00e9 equivalente a tu estar doente por excesso de calor. Ent\u00e3o por exemplo, se eu vou trabalhar na ro\u00e7a a manh\u00e3 inteira, eu vou precisar esfriar o meu corpo como medida terap\u00eautica para equilibrar a quantidade de calor no meu corpo. Ent\u00e3o eu vou por exemplo tomar um banho de rio. \u00c9 interessante notar que esse banho de rio n\u00e3o \u00e9 para tirar mau cheiro, tra\u00e7ando aqui um paralelo com o nosso banho, na nossa cultura ocidental no Brasil. L\u00e1 \u00e9 mais para regular a temperatura corporal.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Por outro lado, o frio, ele \u00e9 perigoso. O causador de frio para os Av\u00e1-Canoeiro \u00e9 o <em>Tigamana<\/em>, que \u00e9 o esp\u00edrito av\u00f4, o Jacar\u00e9. Esse Jacar\u00e9 \u00e9 uma entidade que entra no teu corpo como frio. A sensa\u00e7\u00e3o, o sintoma dessa entidade \u00e9 o frio. E \u00e9 um frio que se instala, \u00e9 um frio que n\u00e3o sai. Ele causa, al\u00e9m do frio, perda de movimento e paralisia. \u00c9 diferente por exemplo de uma dor muscular, que tem um sintoma de calor. E a\u00ed a gente trata com o frio. \u00c9 diferente de uma luxa\u00e7\u00e3o, n\u00e9, que quando a gente bate fica inchado. Isso tamb\u00e9m \u00e9, tamb\u00e9m tem sintoma de calor, e a gente trata com frio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Agora, o frio que pode vir do <em>Tigamana<\/em>, ele depende de uma terapia de calor com defuma\u00e7\u00e3o, com brasa, com cachimba\u00e7\u00e3o e, no caso do tratamento de c\u00e2ncer, com formas alternativas de expulsar o <em>Tigamana<\/em>, que era a grande expectativa dos Av\u00e1-Canoeiro em rela\u00e7\u00e3o ao tratamento dos <em>Maila<\/em>. &#8220;Bom os <em>Maila<\/em> tem um hospital grande, um hospital forte. Eles v\u00e3o conseguir expulsar o <em>Tigamana<\/em> do <em>Tutawa<\/em>.&#8221; N\u00e3o foi o que aconteceu, mas v\u00e1rias foram as coisas que foram poss\u00edveis. Por exemplo, uma das terapias que ele fez era uma terapia de calor, que \u00e9 uma radioterapia. A radioterapia nada mais \u00e9 do que uma exposi\u00e7\u00e3o localizada a um tipo de feixe de raios que vai esquentar de certa forma internamente essa regi\u00e3o, propiciando ent\u00e3o que c\u00e9lulas de c\u00e2ncer n\u00e3o cres\u00e7am e diminuam de tamanho. O que ele ia sentir como sintoma \u00e9 queima\u00e7\u00e3o, por exemplo. Esse feixe, esse r\u00e1dio da radioterapia precisou passar na regi\u00e3o da garganta. Ent\u00e3o, ele conseguia sentir a garganta arranhada como se tivesse queimado. Para ele ent\u00e3o, ele confiava que essa era uma terapia coesa com o sistema dele, uma vez que para ele \u00e9 o <em>Tigamana<\/em> que est\u00e1 causando tudo aquilo que ele est\u00e1 sentindo. C\u00e2ncer n\u00e3o faz sentido, e n\u00e3o teria como fazer sentido porque vem de um outro sistema de concep\u00e7\u00e3o de sa\u00fade e doen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Quando a gente fala de c\u00e2ncer, a pr\u00f3pria nossa ci\u00eancia n\u00e3o sabe muito bem o que \u00e9 c\u00e2ncer. A gente diz que seriam mais de 100 tipos de coisas diferentes, derivadas muito provavelmente da reprodu\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas que, ao longo de um tempo, elas v\u00e3o se reproduzir com algum tipo de defeito no DNA e c\u00e9lulas que conseguem de certa forma ter um autonomia dentro do nosso organismo e crescem e se desenvolvem e se espalham para os outros \u00f3rg\u00e3os, tendo ent\u00e3o o que a gente chama, desse c\u00e2ncer que se espalhou, um c\u00e2ncer maligno.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><em>Tutawa<\/em>, ele chegou a ter um c\u00e2ncer em est\u00e1gio mais elevado. N\u00e3o resistiu, mas a minha fun\u00e7\u00e3o l\u00e1 o tempo todo era tentar fazer essa tradu\u00e7\u00e3o do sistema de sa\u00fade e doen\u00e7a dele para o sistema de sa\u00fade e doen\u00e7a biom\u00e9dico do hospital. Isso foi necess\u00e1rio porque o aprendizado da diferen\u00e7a de concep\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria como ser feito em tempo h\u00e1bil. Ele j\u00e1 estava extremamente debilitado por conta da doen\u00e7a que ele teve e o que ele precisava naquele momento era exatamente conforto, ter um pouco da cultura e da l\u00edngua dele naquele ambiente extremamente estranho e estrangeiro, cheio de <em>Mailas<\/em>, que j\u00e1 causam todo esse desconforto porque lembram do massacre que aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Junto com isso e essa concep\u00e7\u00e3o de sa\u00fade doen\u00e7a relacionada ao frio e ao calor nesses pontos que eu trouxe, eu queria pontuar alguns outros elementos que s\u00e3o muito interessantes e se relacionam a isso para os Av\u00e1-Canoeiro. Se o frio, esse sintoma, vem da sintomatologia do <em>Tigamana<\/em> dentro do corpo, quando <em>Tutawa<\/em> estava por exemplo em uma enfermaria \u00e0 espera de vaga para ir para um quarto, ele estava ali \u00e0 espera, essa enfermaria com mais de 10 pessoas \u00e9 um lugar com ar-condicionado muito forte. Ent\u00e3o qual era a consequ\u00eancia disso para ele? Fazer com que ele sentisse que ele ia morrer a qualquer momento. Aquele frio forte do ar-condicionado para ele n\u00e3o vinha de ar-condicionado, vinha do <em>Tigamana<\/em>. Era o <em>Tigamana<\/em> que estava ficando mais forte dentro dele e consequentemente ele iria morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Esse foi um argumento cultural que eu precisei trazer para o pessoal da secretaria do hospital e fazer com que a gente conseguisse, em menos de um per\u00edodo, transferir imediatamente para o quarto na frente de todas as pessoas que estavam ali \u00e0 espera. Um dado importante em rela\u00e7\u00e3o a isso \u00e9 que o SUS, ele atende os ind\u00edgenas com o princ\u00edpio da equidade, de levar em considera\u00e7\u00e3o que eles s\u00e3o povos minorizados e com grau de vulnerabilidade diferente importante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o regular do Brasil, vamos dizer assim.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Outro detalhe extremamente importante, o conceito de quente e frio tamb\u00e9m se aplica ao que a gente consome. Tem coisas que a gente vai esquentar para consumir, e isso \u00e9 um princ\u00edpio de cura; e outras que a gente vai consumir fria, e isso \u00e9 um princ\u00edpio de cura. Por exemplo, a \u00e1gua, eles t\u00eam contato com \u00e1gua de rio durante a vida inteira. Ela \u00e9 uma \u00e1gua corrente e \u00e9 uma \u00e1gua mais fresca.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><em>Tutawa<\/em>, quando eu estava no hospital, por v\u00e1rios momentos, quando eu n\u00e3o estava l\u00e1, eu, quando eu voltava, recebia relatos de que ele n\u00e3o estaria bebendo \u00e1gua. Eu ficava super preocupado. Ele toma v\u00e1rios medicamentos. Se ele n\u00e3o conseguir se hidratar, isso vai afetar rim, vai afetar f\u00edgado, vai afetar intestino, vai afetar est\u00f4mago&#8230; S\u00e3o coisas extremamente complexas que a gente n\u00e3o pode deixar escalar. E eu percebia que eram \u00e1guas que ficavam, \u00e1guas que ficavam \u00e0 temperatura ambiente, que, pensando em um hospital, nos quartos n\u00e3o \u00e9 a temperatura mais fresca. \u00c9 uma temperatura meio morna. Ent\u00e3o \u00e9 uma \u00e1gua que ele n\u00e3o consumia porque \u00e9 uma \u00e1gua que n\u00e3o \u00e9 boa. \u00c9 uma \u00e1gua que t\u00e1 ruim, que n\u00e3o vai causar coisas boas para ele. Ent\u00e3o o que eu fazia era procurar uma \u00e1gua gelada, que fosse uma \u00e1gua de bebedouro que eu conseguia encontrar ali perto, ou ent\u00e3o junto com as refei\u00e7\u00f5es, ao conversar com a nutricionista, eu pedia para que entregassem uma \u00e1gua para ele gelada, com gelo, e que isso tivesse uma longa dura\u00e7\u00e3o no per\u00edodo que ele estivesse l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Esse tipo de aten\u00e7\u00e3o ao conceito de sa\u00fade doen\u00e7a, no contexto hospitalar, foi extremamente importante exatamente para que ele consiga ter um m\u00ednimo de conforto para tratar a doen\u00e7a que ele est\u00e1 tendo ali, seja a doen\u00e7a que os m\u00e9dicos dizem que ele tem, seja a doen\u00e7a que ele considera que ele tem. Ent\u00e3o esses pontos s\u00e3o muito muito importantes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Eu pulo agora ent\u00e3o para a gente pensar um contexto de povos amaz\u00f4nicos no contexto da Covid. A gente sabe que a Covid-19 \u00e9 uma doen\u00e7a que causa sintomas como febre, como perda de paladar, pode causar diarreia. Isso pensando aqui o quadro cl\u00e1ssico inicial l\u00e1 dos in\u00edcios do ano de 2020. E um dos sintomas a febre \u00e9 o frio. Tanto que a palavra para &#8220;frio&#8221;, em Av\u00e1-Canoeiro, \u00e9 a mesma palavra para &#8220;tenho febre&#8221;. O sintoma ai \u00e9 reconhecido.<\/p>\n<p><figure>\n<center><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/200653495-9c1a47b3-36b2-4cfb-88ea-933d0b1b242a.png\"><\/p><figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px;font-style:italic\">Ariel, Niwatima, Mar\u0268\u0303no, P\u00e3txio, Sebasti\u00e3o, Trumak e Iawi. Foto: Egipson Correia<\/p>\n<\/figcaption><p><\/center><\/figure>\n<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Eu tive a oportunidade de trabalhar para a Coordena\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas na Amaz\u00f4nia Brasileira, a COIAB (Coordena\u00e7\u00e3o das Organiza\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia Brasileira), no in\u00edcio de 2021. E foi uma experi\u00eancia muito interessante porque foi exatamente no apoio e no suporte \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o de materiais sobre Covid-19, medidas de preven\u00e7\u00e3o e medidas de remedia\u00e7\u00e3o da Covid-19, sobre sa\u00fade mental no contexto do isolamento propiciado pela pandemia e tamb\u00e9m sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica na pandemia. Foi uma experi\u00eancia muito importante para conseguir direcionar, de certa forma, a tradu\u00e7\u00e3o desses materiais de uma forma sens\u00edvel tanto \u00e0s quest\u00f5es lingu\u00edsticas e diferen\u00e7as lingu\u00edsticas que cada l\u00edngua ind\u00edgena vai ter em rela\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas quando a gente pensa na express\u00e3o desses conceitos relacionados a sa\u00fade e doen\u00e7a, mas tamb\u00e9m na parte cultural dos pr\u00f3prios conceitos de sa\u00fade e doen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A minha fun\u00e7\u00e3o ali n\u00e3o era fazer a tradu\u00e7\u00e3o, mas era supervisionar a tradu\u00e7\u00e3o que ind\u00edgenas iam fazer para as suas pr\u00f3prias l\u00ednguas, pensando ali a veicula\u00e7\u00e3o em suas pr\u00f3prias comunidades. Foi um trabalho muito bacana e com v\u00e1rios desafios. Os principais desafios foram tentar traduzir e pensar a vers\u00e3o desses materiais que consiga de certa forma transmitir informa\u00e7\u00f5es do que \u00e9, do que s\u00e3o os produtos que a gente usa em limpeza. O pr\u00f3prio conceito de higiene, higieniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 um conceito que ele n\u00e3o \u00e9 universal. O conceito de sujo e sujeira tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 universal. A import\u00e2ncia de se lavar a m\u00e3o. Porque \u00e9 que se lava a m\u00e3o? O pr\u00f3prio conceito de micr\u00f3bio \u00e9 algo que s\u00f3 vai se tornar poss\u00edvel e emp\u00edrico na nossa ci\u00eancia com o advento do microsc\u00f3pio. \u00c9 algo que tem pelo menos 250 anos, n\u00e3o muito mais do que isso. Ent\u00e3o a gente conseguir identificar essas doen\u00e7as e as suas causas para a gente tamb\u00e9m \u00e9 algo muito recente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ent\u00e3o para eles foi de tentar trazer a forma que eles j\u00e1 trabalham no tratamento da Covid-19 &#8212; todos eles trabalham com algum tipo, por exemplo, de banhos, de ch\u00e1s, de processos que os paj\u00e9s fazem nas casas ou com as pessoas &#8212; e ao mesmo tempo, em paralelo, de comentar a import\u00e2ncia do isolamento, do uso de m\u00e1scaras, de n\u00e3o ir para as cidades &#8212; de prefer\u00eancia n\u00e3o ir para a cidade, se for uma pessoa vai, n\u00e3o muitas mais &#8211;, de observar todos os sintomas poss\u00edveis de Covid &#8212; se uma pessoa tiver, propiciar um isolamento dela que seja importante e necess\u00e1rio para que isso n\u00e3o se espalhe.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Uma medida extremamente importante para os povos ind\u00edgenas foi a difus\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. A gente sabe que esses cantos mais distantes do Brasil, pensando principalmente aldeias ind\u00edgenas na Amaz\u00f4nia Brasileira, s\u00e3o ambientes com muita dist\u00e2ncia de chegada dessas informa\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o os ind\u00edgenas veiculando informa\u00e7\u00f5es para as suas pr\u00f3prias comunidades foi algo in\u00e9dito, algo fundamental. Os ind\u00edgenas sendo comunicadores dessas informa\u00e7\u00f5es para suas comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Foi um trabalho muito bacana. Demorou ali mais ou menos 2 meses e meio. E eu pude ajudar a pensar junto com eles como que a gente conceitualizaria esses instrumentos, essas ferramentas, esses materiais que est\u00e3o distantes. Como que a gente explica o que \u00e9 uma m\u00e1scara, como que a gente explica o que \u00e9 o, o que s\u00e3o, por exemplo, um \u00e1lcool, um \u00e1lcool em gel. Tem comunidades que j\u00e1 usam o termo \u00e1lcool para se referir \u00e0 bebida alco\u00f3lica. Ent\u00e3o, se a gente usa por exemplo o mesmo termo, eles podem querer beber o \u00e1lcool 70, que n\u00e3o pode. Vai causar mal pra pessoa. Ent\u00e3o todas essas nuances s\u00e3o extremamente importantes e foram levadas em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Eu queria ent\u00e3o finalizar essa fala reiterando a import\u00e2ncia do atendimento diferenciado e espec\u00edfico \u00e0s comunidades ind\u00edgenas. Diferenciado no que se refere ao atendimento padronizado irregular que a gente observa para as pessoas brasileiras em geral, diferenciado ent\u00e3o para ind\u00edgenas, e espec\u00edfico para cada etnia. No Brasil a gente tem mais de 300 etnias, e \u00e9 fundamental que a gente consiga compreender e conceber essas diferen\u00e7as como v\u00e1lidas em paralelo a como que o nosso sistema de sa\u00fade funciona e que isso seja levado em considera\u00e7\u00e3o para os tratamentos que eles v\u00e3o ter. Isso est\u00e1 previsto na Constitui\u00e7\u00e3o, mas a carta da lei n\u00e3o \u00e9 garantia que isso vai ser executado. \u00c9 importante que a gente tenha pessoas, ind\u00edgenas e n\u00e3o-ind\u00edgenas, que conhe\u00e7am essas diferen\u00e7as culturais relacionadas a sa\u00fade e doen\u00e7a, essas quest\u00f5es lingu\u00edsticas na express\u00e3o da sa\u00fade e doen\u00e7a, para que a gente tenha uma interlocu\u00e7\u00e3o m\u00ednima fundamental na garantia dos direitos deles \u00e0 vida. A gente est\u00e1 falando aqui do direito \u00e0 vida, principalmente pensando em uma pandemia em que a maioria dos mais velhos n\u00e3o resistiram \u00e0 primeira onda da Covid . Porque a gente teve 3 meses no Brasil para repensar um planejamento, pensar um planejamento estrat\u00e9gico no tratamento \u00e0 Covid, o que foi negligenciado. O pre\u00e7o disso para os povos ind\u00edgenas foi extremamente alto porque o recept\u00e1culo da cultura e da l\u00edngua nas vers\u00f5es mais conservadoras s\u00e3o os mais velhos, s\u00e3o as lideran\u00e7as. E essas s\u00e3o as pessoas que partiram quando a gente teve a pandemia chegando aqui no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Ent\u00e3o eu queria trazer esses pontos, queria agradecer a oportunidade e me disponho a esclarecer ou comentar em quaisquer n\u00edveis os aspectos que eu trouxe. O meu muito obrigado, e at\u00e9 a pr\u00f3xima.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Ariel Pheula<\/strong><br \/>\nDoutor em lingu\u00edstica pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Lingu\u00edstica da Universidade de Bras\u00edlia (PPGL\/LIP\/IL\/UnB), tendo participado do Programa de Doutorado Sandu\u00edche (PDSE\/CAPES), em 2017, na University of Michigan, sob a supervis\u00e3o da professora Sarah G. Thomason. Realizou pesquisa sobre a l\u00edngua Av\u00e1-Canoeiro, da fam\u00edlia Tupi-Guarani praticada em regi\u00f5es de Goi\u00e1s e do Tocantins, por meio do projeto de doutorado intitulado: &#8220;Contribui\u00e7\u00f5es para o Conhecimento da Hist\u00f3ria da L\u00edngua e da Cultura Av\u00e1-Canoeiro&#8221;.<\/p>\n<h2>Bibliografia<\/h2>\n<p>Garcia, Uir\u00e1. 2015. \u00abSOBRE O PODER DA CRIA\u00c7\u00c3O: PARENTESCO E OUTRAS RELA\u00c7\u00d5ES AW\u00c1-GUAJ\u00c1\u00bb. Mana 21 (Abril):91\u2013122. https:\/\/doi.org\/10.1590\/0104-93132015v21n1p091.<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\">\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div>Trata-se do texto <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/0104-93132015v21n1p091\"><em>Sobre o poder da cria\u00e7\u00e3o: parentesco e outras rela\u00e7\u00f5es Aw\u00e1-Guaj\u00e1<\/em><\/a>, de Uir\u00e1 Garcia.<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ariel Pheula discorre sobre sua experi\u00eancia junto aos Av\u00e1-canoeiro e sua atua\u00e7\u00e3o como tradutor-int\u00e9rprete. Esse artigo foi originalmente publicado no dossi\u00ea <a href=\"http:\/\/www.sens-public.org\/dossiers\/1656\/\">Vozes ind\u00edgenas, trilhas para renovar o Brasil<\/a> da revista <em>Sens public<\/em><span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":2732,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,90,51],"tags":[159,157,161,56,164,163,188,160,158,186],"class_list":["post-2723","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-terras-indigenas","category-territorios","tag-antropologia","tag-ariel-pheula","tag-ava-canoeiro","tag-brasil","tag-diversidade","tag-doenca","tag-linguas-indigenas","tag-linguistica","tag-saude","tag-vozes-indigenas-trilhas-para-renovar-o-brasil"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2723","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2723"}],"version-history":[{"count":15,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2723\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2753,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2723\/revisions\/2753"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2732"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}