{"id":2115,"date":"2023-06-21T15:31:49","date_gmt":"2023-06-21T15:31:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=2115"},"modified":"2023-07-14T13:30:33","modified_gmt":"2023-07-14T13:30:33","slug":"carta-sobre-a-democracia-oksana-zabuzhko","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/carta-sobre-a-democracia-oksana-zabuzhko\/","title":{"rendered":"Cartas sobre a democracia<br><span style=\"font-size:16px\">Oksana Zabuzhko<\/span>"},"content":{"rendered":"\n\n<p style=\"text-align:right;font-size:12px\">A obra do fot\u00f3grafo Boris Mikhailov, nascido em Kharkiv em 1938, \u00e9 uma cr\u00f4nica desesperada da vida sovi\u00e9tica. Suas fotografias de 2013-2014 mostram o rastro de armas que foi a revolu\u00e7\u00e3o Ma\u00efdan na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-button is-style-fill has-text-align-right\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/carta-sobre-la-democracia-oksana-zabuzhko\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Leia em espanhol<\/a><\/div>\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Querido Arnon,<\/p><\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Obrigada por sua carta sincera. No ano de 1995, n\u00f3s fizemos a mesma ponte a\u00e9rea, em dire\u00e7\u00f5es opostas\u00a0&#8212;\u00a0talvez tenhamos at\u00e9 viajado ao mesmo tempo e nos cruzado, sem saber, em algum caf\u00e9, em Schiphol: voc\u00ea estava indo da Europa para Nova York, enquanto eu voltava de Nova York (depois de passar quase dois anos nos Estados Unidos) para a Europa, com a firme convic\u00e7\u00e3o, pensada e testada, durante os dois anos anteriores, de que, apesar de todo o meu amor por viagens e de minha sede por terras desconhecidas, eu n\u00e3o conseguiria e n\u00e3o queria viver em nenhum outro lugar. Talvez por isso, sua carta tenha despertado em mim tanta nostalgia de um mundo que n\u00e3o existe mais.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">De minha pr\u00f3pria juventude, da euforia ainda presente no ar, depois da queda do muro de Berlim e do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e de nossa f\u00e9 inabal\u00e1vel de que aquela Europa renovada finalmente mostraria ao mundo &#8220;o fim da hist\u00f3ria&#8221;, prometido por Fukuyama, de que mesmo velhas tiranias como a R\u00fassia e a China estariam prestes a alcan\u00e7ar a democracia liberal, depois de perceberem qu\u00e3o boa ela era, de que o lobo se deitaria junto ao cordeiro e de que aqueles que gostariam de nos matar aceitariam jantar conosco, gra\u00e7as a um convite seu&#8230;<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Pelo que me lembro, o mundo nunca mais foi governado por uma ingenuidade pol\u00edtica t\u00e3o doce\u00a0&#8212;\u00a0doce como o algod\u00e3o doce, em uma feira infantil com carross\u00e9is\u00a0&#8212;\u00a0e essa lembran\u00e7a me traz agora algo semelhante a uma onda de ternura materna: foi uma \u00e9poca maravilhosa, pena que foi t\u00e3o curta.<\/p>\n\n<h2>Onde est\u00e1 a guerra da Ucr\u00e2nia?<\/h2>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Li sua carta tr\u00eas vezes, a \u00faltima delas esta manh\u00e3. Ontem \u00e0 noite, Kiev sobreviveu ao d\u00e9cimo primeiro ataque a\u00e9reo russo, em maio deste ano, dessa vez com trinta foguetes &#8220;Kalibr&#8221;, que felizmente foram abatidos por nossas for\u00e7as de defesa a\u00e9rea. No entanto, um m\u00eas de sono arruinado tem efeitos ineg\u00e1veis (posso lhe dizer que esse equipamento \u00e9 barulhento como o inferno quando explode!) e eu queria ter certeza de que n\u00e3o havia perdido nada, em meu estado nebuloso: me pergunto se \u00e9 realmente poss\u00edvel, em sua Europa imaginada, aquela que voc\u00ea est\u00e1 construindo do outro lado do Atl\u00e2ntico, nestes mesmos dias de primavera de 2023, fingir que nada disso est\u00e1 acontecendo\u00a0&#8212;\u00a0ser\u00e1 que a guerra mais aterrorizante, desde a Segunda Guerra Mundial (e compar\u00e1vel a ela, no volume de armamentos e na extens\u00e3o do front), e uma guerra para aniquilar quarenta milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o est\u00e1 sendo travada, neste exato momento, neste continente e pode ser simplesmente omitida, como algo irrelevante para o tema do futuro da Europa?<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Mas, pela terceira vez, confirmei que n\u00e3o, n\u00e3o havia perdido nada: voc\u00ea realmente se recusa a ver a Europa de hoje como um produto de duas guerras mundiais\u00a0&#8212;\u00a0a \u00fanica guerra europeia que voc\u00ea menciona \u00e9 o colapso da Iugosl\u00e1via, h\u00e1 trinta anos.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Sei com que facilidade guerras podem ser transferidas para o formato on-line,  do outro lado do Atl\u00e2ntico: n\u00e3o houve nenhuma na mem\u00f3ria viva desses pa\u00edses e isso muda a \u00f3tica cultural. Quando voc\u00ea chegou a Nova York, os m\u00fasicos de rua ainda cantavam <em>&#8220;Help Bosnia now&#8221;<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2115\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2115-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2115-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\">Ajude a B\u00f3snia agora.<\/span>, nas esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4\u00a0&#8212;\u00a0 me lembro bem deles. Eles mudaram seu repert\u00f3rio desde ent\u00e3o e voc\u00ea escreve com confian\u00e7a que a guerra da Iugosl\u00e1via &#8220;desapareceu do inconsciente coletivo, ao menos fora de seu antigo territ\u00f3rio.&#8221;<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Gostaria de ser mais cuidadosa com declara\u00e7\u00f5es apod\u00edcticas e pretendo provar que essa guerra n\u00e3o desapareceu, de fato, da consci\u00eancia europeia, muito menos de seu inconsciente (se algu\u00e9m souber como digitaliza-lo!): o dil\u00favio de migrantes dos B\u00e1lc\u00e3s, que mudou para sempre a vida de centenas de cidades italianas, su\u00ed\u00e7as e alem\u00e3s, n\u00e3o deixar\u00e1 que ela seja esquecida\u00a0&#8212;\u00a0assim como a avalanche de oito milh\u00f5es de mulheres ucranianas refugiadas, que est\u00e1 agora mudando a vida de cidades tchecas, b\u00e1lticas e polonesas\u00a0&#8212;\u00a0tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 esquecido (j\u00e1 que mencionamos o inconsciente) o profundo sentimento de <b>culpa<\/b> europeu, que permanece como uma pedra no sapato, pela primeira trai\u00e7\u00e3o s\u00e9ria do sistema legal, p\u00f3s-Yalta: o primeiro fiasco das tropas de manuten\u00e7\u00e3o da paz da ONU, que se mostraram t\u00e3o impotentes ao enfrentar o furioso Ratko Mladic, em Srebrenica, quanto todo o edif\u00edcio diplom\u00e1tico europeu, ao enfrentar Putin, em 2008 e 2014<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"2\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2115\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2115-2\">2<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2115-2\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"2\">As invas\u00f5es russas, respectivamente, da Ge\u00f3rgia e da Ucr\u00e2nia. (Nota da tradutora)<\/span>.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">O que voc\u00ea est\u00e1 chamando de crise da democracia liberal\u00a0&#8212;\u00a0 que identifico como uma crise das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas internacionais\u00a0&#8212;\u00a0come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1990 e, nesse sentido, a guerra nos B\u00e1lc\u00e3s n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o foi esquecida, como nem sequer terminou.<\/p>\n\n<p><figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/247229661-c41a1dc1-e1db-441b-8d3f-65b8a823c1c1.jpg\" alt=\"capa do livro Air de la guerre\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> O jornalista Jean Hatzfeld contou em <em>Air de la guerra<\/em><br> como a urg\u00eancia na cobertura dos acontecimentos na B\u00f4snia levou ao grave acidente que mudou sua vida.<br>Ele tornou-se autor de uma obra magistral centrada nas consequ\u00eancias do genoc\u00eddio em Ruanda.<br>Foto: Editor<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure><\/p>\n\n<h2>A &#8220;gera\u00e7\u00e3o da guerra&#8221; Iugoslava<\/h2>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Esse \u00faltimo ponto, a prop\u00f3sito, pode ser facilmente confirmado, atrav\u00e9s da leitura dos romances dos B\u00e1lc\u00e3s, que emergiram a partir da guerra\u00a0&#8212;\u00a0um dos fen\u00f4menos mais interessantes da literatura europeia do s\u00e9culo XXI, na minha opini\u00e3o. N\u00e3o poderia concordar mais, quando voc\u00ea diz que um escritor n\u00e3o deve fazer o trabalho de evangeliza\u00e7\u00e3o (a menos que seja for\u00e7ado a faz\u00ea-lo, por circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas t\u00f3xicas para a humanidade, como a guerra, a tirania etc), mas nossas obriga\u00e7\u00f5es sociais incluem, quer queiramos ou n\u00e3o, o dever de deixar um retrato de nosso tempo para as gera\u00e7\u00f5es futuras. Essa \u00e9 uma das habilidades pelas quais somos pagos e, dessa perspectiva, os autores da &#8220;gera\u00e7\u00e3o da guerra&#8221; dos B\u00e1lc\u00e3s ganhou seus honor\u00e1rios com um trabalho honesto.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Uma prova disso \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o da grande urg\u00eancia com que a literatura contempor\u00e2nea croata, s\u00e9rvia e b\u00f3snia come\u00e7ou a ser traduzida e lida na Ucr\u00e2nia, ap\u00f3s o in\u00edcio da agress\u00e3o russa, em 2014: diante de uma amea\u00e7a existencial coletiva, as pessoas consideram essencial saber que &#8220;algu\u00e9m esteve aqui antes de n\u00f3s&#8221;\u00a0&#8212;\u00a0algu\u00e9m que sobreviveu para contar a hist\u00f3ria. A literatura tamb\u00e9m existe com o objetivo de criar essas comunidades &#8220;transgeracionais&#8221;\u00a0&#8212;\u00a0no sentido de sinalizar aos indiv\u00edduos, atrav\u00e9s do tempo e do espa\u00e7o, que eles n\u00e3o est\u00e3o sozinhos e, em grande parte, s\u00e3o exatamente essas comunidades que t\u00eam mantido a Europa unida, enquanto continuum cultural, nos \u00faltimos cinco mil anos.<\/p>\n\n<h2>O Di\u00e1rio de Anne Frank<\/h2>\n\n<p style=\"text-align:justify\">O di\u00e1rio de Anne Frank tamb\u00e9m se revelou uma carta para uma menina da cidade de Yahidne, na regi\u00e3o de Chernihiv, que, na primavera de 2022, foi mantida, por um m\u00eas, junto com outros quatrocentos moradores, como um &#8220;escudo humano&#8221;, em um por\u00e3o sem \u00e1gua, ventila\u00e7\u00e3o ou luz: durante todo aquele m\u00eas, ela registrou a contagem dos dias e dos mortos com um marcador sobre a parede, pois aprendeu a linguagem de certas formas prontas de comportamento, absorvidas da mesma cultura que, oitenta anos antes, guiou a pena de sua colega alem\u00e3.<\/p>\n\n<p><figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/247229673-c34ea2a1-3061-41e9-b595-45dd78e1f5d9.jpg\" alt=\"Pois nada \u00e9 mais dif\u00edcil e exige mais do que estar em oposi\u00e7\u00e3o aberta \u00e0 sua \u00e9poca e dizer em voz alta: n\u00e3o\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> No campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista de Mauthausen, perto de Linz,na \u00c1ustria, est\u00e1 gravada a frase de Kurt Tucholsk\u00fd (Die Verteidigung des Vaterlandes, 1921) &#8220;<em>Denn nichts ist schwerer und nichts erfordert mehr Charakter, als sich in offenem Gegensatz zu seiner Zeit zu befinden und laut zu sagen: Nein<\/em>&#8221; (Pois nada \u00e9 mais dif\u00edcil e exige mais do que estar em oposi\u00e7\u00e3o aberta \u00e0 sua \u00e9poca e dizer em voz alta: n\u00e3o). Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure><\/p>\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Todas essas coisas s\u00e3o bastante \u00f3bvias e me sinto um pouco est\u00fapida ao falar delas com voc\u00ea, filho de uma judia alem\u00e3 que sobreviveu ao Holocausto e, al\u00e9m disso, um homem que passou pela experi\u00eancia do servi\u00e7o militar, elemento que me falta. Em vez disso, tenho uma experi\u00eancia diferente, que me faz escrever estas linhas, neste momento: no ano da guerra russo-ucraniana, fiz, se o Google for confi\u00e1vel, apresenta\u00e7\u00f5es em 21 pa\u00edses da Europa, em 93 cidades (o que inclui n\u00e3o apenas as capitais, como Estrasburgo, mas uma amostra bastante representativa, da Pol\u00f4nia ao Reino Unido), na tentativa de, como disse meu editor italiano, &#8220;explicar ao Ocidente tudo que nos escapou, nos \u00faltimos oito anos, sobre a guerra&#8221;.<\/p><\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Vi a forma r\u00e1pida e decisiva com que essa guerra (que parecia impens\u00e1vel para muitos, antes do dia 24 de fevereiro de 2022, e sobre a qual mais bobagens foram ditas do que seria apropriado para uma cultura de universidades milenares, na tentativa de racionaliz\u00e1-la) mudou a Europa, literalmente diante de nossos olhos, e qu\u00e3o distinta \u00e9 essa mudan\u00e7a.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">\u00c9 poss\u00edvel escrever um livro inteiro sobre isso: como as feridas de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es relegadas ao esquecimento se abrem e sangram novamente, de maneiras diferentes e em pa\u00edses diferentes; como as constru\u00e7\u00f5es mentais, desenvolvidas ao longo de d\u00e9cadas e \u00e0s vezes s\u00e9culos, para ocultar verdades inconvenientes, racham e despeda\u00e7am; como os netos se voltam para os padr\u00f5es de comportamento (e medos e traumas) de seus av\u00f3s e bisav\u00f3s\u00a0&#8212;\u00a0e como a Europa, de forma inesperada para muitos, segue dividida a partir da linha tra\u00e7ada pelo muro de Berlim, exceto que ela n\u00e3o est\u00e1 dividida em &#8220;velhas&#8221; e &#8220;novas&#8221; democracias, como se acreditava com otimismo, at\u00e9 agora, mas em pa\u00edses com diferentes experi\u00eancias formativas, da Primeira e da Segunda Guerra Mundiais, respectivamente, ou, para simplificar ainda mais (e com a exce\u00e7\u00e3o da Gr\u00e3-Bretanha), em antigos imp\u00e9rios e antigas col\u00f4nias.<\/p>\n\n<h2>Contas hist\u00f3ricas a pagar<\/h2>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Os arm\u00e1rios se abriram e os esqueletos est\u00e3o aparecendo. Todas as li\u00e7\u00f5es n\u00e3o aprendidas e as contas hist\u00f3ricas n\u00e3o pagas se est\u00e3o livres e voam diante de n\u00f3s, como o baralho de cartas, no tribunal de Alice no Pa\u00eds das Maravilhas. Sofi Oksanen contou sobre idosos de toda a Finl\u00e2ndia que, em 24 de fevereiro de 2022, correram para ligar para seus netos, para instru\u00ed-los sobre como fazer as malas e sobre como, caso o ex\u00e9rcito russo entrasse na Finl\u00e2ndia, subornar os russos &#8220;da maneira certa&#8221; (mais tarde, descobriu-se que esse conhecimento aumentava as chances de sobreviv\u00eancia at\u00e9 mesmo em Bucha e Izyum).<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Ao mesmo tempo, no outro extremo do continente, um diplomata belga tentava convencer meu amigo (um ucraniano) de que era melhor os ucranianos se renderem aos russos e viverem em paz, assim como a B\u00e9lgica sob a ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3. &#8220;Mas e os judeus belgas?&#8221;, perguntou meu amigo, uma pessoa bastante sarc\u00e1stica. &#8220;Eles tamb\u00e9m conseguiram viver em paz?&#8221; Quando seu interlocutor, compreensivelmente, n\u00e3o conseguiu responder, meu amigo acrescentou: &#8220;O problema dessa guerra, meu amigo, \u00e9 que somos todos judeus nela&#8221;\u00a0&#8212;\u00a0uma declara\u00e7\u00e3o cuja precis\u00e3o n\u00e3o foi apreciada na Europa, que nunca prestou muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria das &#8220;Terras de Sangue&#8221; (termo de Timothy Snyder) ou na Europa &#8220;da Trizona e do Plano Marshall&#8221; (termos meus), mesmo ap\u00f3s um ano de observa\u00e7\u00e3o cuidadosa das Srebrenicas ucranianas massivas, executadas pelo Kremlin em escala industrial. Dessa forma\u00a0&#8212;\u00a0\u00e0s custas de outro genoc\u00eddio europeu\u00a0&#8212;\u00a0a experi\u00eancia, antes desvalorizada, est\u00e1 sendo reavaliada. Voc\u00ea realmente acredita que isso n\u00e3o merece sua aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Que fique claro: n\u00e3o estou buscando uma &#8220;renova\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a hist\u00f3rica&#8221; para o chamado &#8220;Bloco Oriental&#8221; (observe que esse termo ainda est\u00e1 em uso!)\u00a0&#8212;\u00a0Deus me livre de acreditar em justi\u00e7a hist\u00f3rica, n\u00e3o sou mais uma menina pequena (mas n\u00e3o posso negar, que senti grande prazer em ver os deputados lituanos praticamente desfilando pelos corredores do Parlamento Europeu com camisetas de &#8220;N\u00f3s avisamos!&#8221;, ap\u00f3s passarem anos sendo grosseiramente informados pelos deputados das &#8220;velhas democracias&#8221; que seus alertas contra o <em>Wandel durch Handel<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"3\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2115\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2115-3\">3<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2115-3\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"3\">Mudan\u00e7a por meio do com\u00e9rcio.<\/span> com Moscou n\u00e3o passavam de &#8220;dores fantasmas&#8221;\u00a0&#8212;\u00a0um intelectual sempre fica feliz ao ver a compet\u00eancia vencer a ignor\u00e2ncia, seja qual for o contexto).<\/p>\n\n<p><figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/247229665-a8d10c0c-bbc8-49aa-bf40-2601767f4b01.jpg\" alt=\"capa do livro The road to unfreedom\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> Depois de estudar as atrocidades sofridas pela Europa Oriental no s\u00e9culo XX,<br>Timothy Snyder situa a guerra de Putin na Ucr\u00e2nia no continuidade do imperialismo.<br>O historiador pede um despertar de consci\u00eancia diante das fraquezas diplom\u00e1ticas. Foto: Editor<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure><\/p>\n\n<h2>Um novo imp\u00e9rio fascista batendo \u00e0 porta<\/h2>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Em oposi\u00e7\u00e3o, decidi investir em algo diferente: na mem\u00f3ria coletiva e na experi\u00eancia coletiva, sem as quais nenhuma literatura \u00e9 poss\u00edvel. A atual guerra genocida no Leste Europeu provou que nem tudo est\u00e1 t\u00e3o bem quanto acredit\u00e1vamos, no que diz respeito \u00e0 mem\u00f3ria europeia e a toda a sua cultura de memorializa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que milhares de livros e filmes sobre os nazistas e o Holocausto n\u00e3o ajudaram em nada a Europa a reconhecer trinta anos de crescimento de um novo imp\u00e9rio fascista e n\u00e3o a impediu de engajar-se, como sob feiti\u00e7o, em todas as mesmas medidas de apaziguamento que havia tomado, na d\u00e9cada de 1930, em rela\u00e7\u00e3o ao Terceiro Reich\u00a0&#8212;\u00a0at\u00e9 o momento em que esse novo imp\u00e9rio j\u00e1 estava pronto para lan\u00e7ar seus tanques porta adentro (o que teria sido feito, se a Ucr\u00e2nia n\u00e3o houvesse impedido!). Ent\u00e3o, cabe nos perguntar de que adiantam todos esses livros e filmes, se n\u00e3o aprendermos nada com eles, n\u00e3o sobre o passado, mas sobre o futuro. (Porque a literatura, se \u00e9 que vale alguma coisa, \u00e9 sempre sobre o futuro, mesmo ao tratar de tempos hom\u00e9ricos).<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Eu n\u00e3o sou a primeira pessoa a levantar essa quest\u00e3o. A primeira pessoa que conhe\u00e7o a levant\u00e1-la\u00a0&#8212;\u00a0em 1994, quando voc\u00ea e eu est\u00e1vamos ocupados com &#8220;a aventura da Am\u00e9rica&#8221;, nas palavras de Czeslaw Milosz\u00a0&#8212;\u00a0\u00e9 Marek Edelman, uma das b\u00fassolas morais da intelligentsia polonesa de sua gera\u00e7\u00e3o e l\u00edder do levante do Gueto de Vars\u00f3via: durante um anivers\u00e1rio do levante, em respota \u00e0s perguntas dos jornalistas, mais interessados sobre o passado que sobre a guerra da B\u00f3snia, ele declarou &#8211; &#8220;Precisamos parar esta guerra, caso contr\u00e1rio, tudo pelo que lutamos naquela \u00e9poca perder\u00e1 o sentido&#8221; (<em>sic<\/em>). Voc\u00ea n\u00e3o concorda que essa \u00e9 uma coloca\u00e7\u00e3o brilhante? Um ano antes de Srebrenica, Edelman, que havia dedicado meio s\u00e9culo \u00e0 mem\u00f3ria das v\u00edtimas polonesas do Holocausto, sentiu de forma inequ\u00edvoca que a nova guerra j\u00e1 havia escolhido &#8220;seus judeus&#8221;\u00a0&#8212;\u00a0e isso, para ele, colocava em quest\u00e3o a vit\u00f3ria hist\u00f3rica conquistada pelos her\u00f3is do gueto. Hamlet certamente reconheceria esse cen\u00e1rio!<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Culturas diferem, entre outras coisas, em suas formas de vivenciar o tempo e, nesse sentido, a formula\u00e7\u00e3o de Marek Edelman \u00e9, para mim, a ess\u00eancia do europe\u00edsmo. Voc\u00ea se lembra da coloca\u00e7\u00e3o de Faulkner, em Requiem Por Uma Freira\u00a0&#8212;\u00a0\u201cO passado nunca est\u00e1 morto. Nem sequer passou&#8221;? Voc\u00ea descartaria a hist\u00f3ria, assim como a guerra, com uma evasiva r\u00e1pida e um sorriso, no momento apropriado, pelo fato de o universal ser, em sua opini\u00e3o, uma tend\u00eancia humana de idealizar o passado (que, a prop\u00f3sito, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o universal quanto nos ensinaram e nem todos os pa\u00edses europeus t\u00eam seu pr\u00f3prio mito da Idade de Ouro\u00a0&#8212;\u00a0esse tamb\u00e9m \u00e9 um atributo que diz respeito a antigos imp\u00e9rios).<\/p>\n\n<p><figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/247229667-3c36049d-bf63-4f2e-b1c1-b214047f790a.jpg\" alt=\"Foto de Marek Eldeman\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> Depois de lutar contra as tropas nazistas de dentro do Gueto de Vars\u00f3via em 1943 e depois defender a cidade em 1944, Marek Edelman, que se tornou m\u00e9dico na Pol\u00f4nia socialista, falou contra o totalitarismo sovi\u00e9tico e a &#8220;limpeza \u00e9tnica&#8221; na Iugosl\u00e1via. Foto: Marcin Obara, 2016<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure><\/p>\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Para mim, h\u00e1 aqui uma correspond\u00eancia com o que voc\u00ea descreve sobre a fuga: eu tamb\u00e9m conhe\u00e7o esse m\u00e9todo de evitar um trauma, seja ele heredit\u00e1rio, familiar ou coletivo (a literatura, afinal, \u00e9 outro m\u00e9todo de fazer o mesmo, at\u00e9 sermos perseguidos pelos que escrevemos!)\u00a0&#8212;\u00a0ele tamb\u00e9m faz parte de meu repert\u00f3rio psicol\u00f3gico, que inclui uma fuga for\u00e7ada, em 2014 (felizmente, n\u00e3o por muito tempo, apenas por alguns meses), de assassinos contratados (spoiler: as pessoas que querem mat\u00e1-lo n\u00e3o jantam com voc\u00ea, Arnon, e pe\u00e7o que n\u00e3o se sente com elas se de repente o convidarem!). Mas, em 2014, tamb\u00e9m aprendi outra li\u00e7\u00e3o: esse m\u00e9todo n\u00e3o funciona mais.<\/p><\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Para que a fuga funcione, o fugitivo deve, antes de mais nada, ter para onde fugir e deve ter um mapa mental das &#8220;zonas de seguran\u00e7a&#8221; garantidas a ele, dentro de uma ordem civilizacional confi\u00e1vel, mantida e defendida por outra pessoa. E, neste s\u00e9culo, a humanidade est\u00e1 come\u00e7ando a ficar sem essas &#8220;zonas de seguran\u00e7a&#8221;, pelo menos na parte da aldeia global em que h\u00e1 lei, pol\u00edcia, eletricidade e \u00e1gua corrente: tanto a Europa quanto os Estados Unidos est\u00e3o deixando, diante de nossos pr\u00f3prios olhos, de ser lugares seguros (quando nos encontrarmos, posso contar como na Alemanha, na Pol\u00f4nia e em alguns outros pa\u00edses da UE, grupos de neonazistas pr\u00f3-russos est\u00e3o ficando cada vez mais audaciociosos em seus ataques contra mulheres refugiadas ucranianas, enquanto a pol\u00edcia local n\u00e3o sabe como det\u00ea-los). Receio que apenas a Austr\u00e1lia e o oeste do Canad\u00e1 permane\u00e7am intocados, mas \u00e9 preciso considerar a previs\u00e3o do n\u00famero de refugiados clim\u00e1ticos, at\u00e9 2050&#8230;<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">N\u00e3o h\u00e1 escapat\u00f3ria, Arnon. Essa \u00e9 a quest\u00e3o. N\u00e3o temos mais nenhum lugar neste planeta para fugir daqueles que querem matar algo ou algu\u00e9m. E \u00e9 por isso que meu pa\u00eds est\u00e1 lutando t\u00e3o ferozmente quanto o Gueto de Vars\u00f3via, h\u00e1 oitenta anos atr\u00e1s: fomos apenas os primeiros a perceber isso.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Esta carta j\u00e1 atingiu uma extens\u00e3o indecente e, com pesar, devo deixar de fora o assunto que considero mais doloroso, em rela\u00e7\u00e3o ao destino da Europa, e sobre o qual (se a invas\u00e3o russa de 24 de fevereiro de 2022 n\u00e3o tivesse interrompido tudo) eu estaria agora terminando um novo romance, que venho carregando com carinho h\u00e1 muitos anos: a saber, o fim da cultura do livro ou, de modo mais geral, de todo o projeto do Iluminismo.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Algum dia, depois que vencermos essa guerra, com certeza terminarei esse romance. Infelizmente, no momento, n\u00e3o tenho acesso a essa fuga\u00a0&#8212;\u00a0at\u00e9 a nossa vit\u00f3ria, o pr\u00f3prio idioma em que escrevo continua em risco: nos territ\u00f3rios ocupados pela R\u00fassia, pessoas s\u00e3o mortas por falarem em nosso idioma e tudo o que foi escrito nele est\u00e1 sendo eliminado de bibliotecas e arquivos\u00a0&#8212;\u00a0uma mensagem inequ\u00edvoca do que nos aguarda, a mim e \u00e0 minha cultura, se perdermos. \u00c9 por isso que tantos escritores, m\u00fasicos, atores e cientistas se ofereceram para ir ao front: antes de recuperarmos nossa op\u00e7\u00e3o de fuga, precisamos equipar a &#8220;zona de seguran\u00e7a&#8221;, para que possamos escapar por nossos pr\u00f3prios meios. E, para isso, precisamos vencer essa guerra e repelir o ataque ao nosso pr\u00f3prio pa\u00eds e \u00e0 Europa.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Portanto, farei uma \u00faltima pergunta\u00a0&#8212;\u00a0j\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o tem certeza se a Europa &#8220;\u00e9 mais que mera geografia&#8221; (estou um pouco perdida aqui: geografia de qu\u00ea? Da plan\u00edcie europeia? Sem as Ilhas Brit\u00e2nicas, mas incluindo os Urais, o Cazaquist\u00e3o e a Grande Estepe? Onde exatamente est\u00e3o as fronteiras geogr\u00e1ficas de sua Europa\u00a0&#8212;\u00a0e onde, depois do s\u00e9culo XX, ainda \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma geografia independente da m\u00e3o do cart\u00f3grafo? Ser\u00e1 que os mapas sovi\u00e9ticos de 1985, que a R\u00fassia usou para entrar na Ucr\u00e2nia, acreditando firmemente que nada poderia ter mudado em nosso pa\u00eds, ao longo de trinta anos de independ\u00eancia, n\u00e3o comprovam o fim definitivo do pensamento nascido na era das descobertas geogr\u00e1ficas?\u00a0&#8212;\u00a0sim, o \u00faltimo passo seria rememorar alguns exemplos geogr\u00e1ficos.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Na verdade, eu deveria come\u00e7ar com aqueles que constituem os marcadores simb\u00f3licos da minha Europa, que s\u00e3o familiares para todos, na mesma escala: Roma\u00a0&#8212;\u00a0Paris\u00a0&#8212;\u00a0Canossa\u00a0&#8212;\u00a0Magdeburgo. Roma, nesse quarteto, significa o estado de direito, Paris\u00a0&#8212;\u00a0os direitos humanos (a primeira Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos e do Cidad\u00e3o!), Canossa\u00a0&#8212;\u00a0a separa\u00e7\u00e3o entre a autoridade eclesi\u00e1stica e a secular (gra\u00e7as a Henrique IV, n\u00e3o somos obrigados, como os russos, a endeusar nossos governantes!) e Magdeburgo\u00a0&#8212;\u00a0a autogovernan\u00e7a local (as pol\u00edticas municipais s\u00e3o, \u00e9 claro, uma inven\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia Antiga, mas, para fins de continuidade, vamos come\u00e7ar nossa contagem a partir dos direitos de Magdeburgo, de Otto, o Grande). Para mim, esse quarteto resume de forma compacta tudo de mais valioso que a humanidade deve \u00e0 Europa e \u00e9 o motivo pelo qual devemos am\u00e1-la, valoriz\u00e1-la e defend\u00ea-la, at\u00e9 o fim e com a pr\u00f3pria vida, se necess\u00e1rio, apesar das cruzadas, das limpezas \u00e9tnicas e de outras in\u00fameras manifesta\u00e7\u00f5es de barb\u00e1rie, presentes em seu curr\u00edculo.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Deixe-me voltar \u00e0 geografia e \u00e0s fronteiras. Em sua mais recente coluna no <em>The Atlantic<\/em> (<a href=\"https:\/\/www.anneapplebaum.com\/2023\/02\/14\/incompetence-and-torture-in-occupied-ukraine\/\">\u201c<em>Incompetence and Torture in Occupied Ukraine<\/em>\u201d<\/a><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"4\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_2115\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2115-4\">4<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_2115-4\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"4\">Incompet\u00eancia e Tortura na Ucr\u00e2nia Ocupada.<\/span>), Anne Applebaum faz uma observa\u00e7\u00e3o importante: os ocupantes russos acharam surpreendente e totalmente incompreens\u00edvel o fato de, na Ucr\u00e2nia, os prefeitos das cidades e os chefes das comunidades rurais serem, de fato, eleitos por seus pares e n\u00e3o nomeados &#8220;de cima&#8221;, e de permanecerem respons\u00e1veis perante seu eleitorado, mesmo perdendo a comunica\u00e7\u00e3o com Kiev, ou seja (em termos russos), com seus &#8220;chefes&#8221; (Infelizmente, quando os russos n\u00e3o entendem algo, eles o destroem, de modo que, durante a ocupa\u00e7\u00e3o, esses indiv\u00edduos constituem nosso principal grupo de risco\u00a0&#8212;\u00a0a maior porcentagem de pris\u00f5es, mortes e desaparecimentos \u00e9 registrada entre eles).<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Li o texto de Anne Applebaum como um r\u00e9quiem para os escritos de Fukuyama, da d\u00e9cada de 1990: nele, fica bem claro que a democracia n\u00e3o pode ser exportada como as batatas. Lembrei-me de que o direito de Magdeburgo durou quase 600 anos, na Ucr\u00e2nia: ele come\u00e7ou a ser usado no s\u00e9culo XIII, durante a dinastia da Gal\u00edcia-Volhynia, e foi liquidado pelo Imp\u00e9rio Russo, no s\u00e9culo XVIII, junto com outras institui\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas do Hetmanato Cossaco.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Se observarmos o mapa da guerra, algumas batalhas lend\u00e1rias e especialmente dram\u00e1ticas, com v\u00e1rios epis\u00f3dios, se destacam: Hostomel, onde, em 24 de fevereiro de 2022, paraquedistas russos n\u00e3o conseguiram tomar o controle do aeroporto e recuaram, sem saber que a \u00fanica for\u00e7a que se opunha a eles era a defesa territorial local; Chernihiv\u00a0&#8212;\u00a0a cidade de igrejas milenares, que consta na lista de patrim\u00f4nio cultural mundial da UNESCO, que os russos arrasaram, de 24 de fevereiro a 1\u00ba de abril, como mais tarde arrasariam Mariupol e Bakhmut, mas nunca conseguiram tomar; Nizhyn, que resistiu ao cerco, como se estivesse de volta \u00e0 Idade M\u00e9dia, por um m\u00eas (quando os alimentos come\u00e7aram a se esgotar, os fazendeiros locais levaram leite e farinha para a cidade, por caminhos tortuosos, e os distribu\u00edram aos moradores), mas n\u00e3o permitiu a entrada dos invasores\u00a0&#8212;\u00a0n\u00e3o posso deixar de mencionar que essas foram, durante s\u00e9culos, cidades de cidad\u00e3os livres: Hostomel, desde 1614, Chernihiv, desde 1622 e Nizhyn, desde 1625. Ainda bem que eles defenderam seu direito \u00e0 liberdade.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">A fronteira da Europa agora se encontra\u00a0&#8212;\u00a0n\u00e3o apenas metaforicamente\u00a0&#8212;\u00a0aqui, ao longo da antiga extens\u00e3o oriental do direito de Magdeburgo: cada cidade (vila, vilarejo) da Ucr\u00e2nia Oriental que enfrenta o inimigo \u00e9 uma fortaleza em nossa fronteira. E o futuro da Europa depende diretamente do fato de eles se manterem firmes ou n\u00e3o.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">N\u00e3o sei se isso \u00e9 &#8220;mais que mera geografia&#8221;, porque n\u00e3o sei o que &#8220;mera geografia&#8221; significa. Eu apenas repito os nomes das cidades para mim mesma, de tempos em tempos, como se repete os nomes de pessoas queridas\u00a0&#8212;\u00a0para apreciar seu som, sua materialidade f\u00edsica, a consistente elasticidade e suavidade de suas consoantes e os espa\u00e7os vazios de suas vogais: Hostomel. Chernihiv. Nizhyn. Sempre me emociono de gratid\u00e3o.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Ficaria muito feliz se voc\u00ea tamb\u00e9m lembrasse desses nomes.<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Meus sinceros cumprimentos,<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\">Oksana Zabuzhko<\/p>\n\n<p style=\"text-align:right;font-size:16px\">Traduzido do ingl\u00eas por Clara Cerqueira<\/p>\n\n<p style=\"text-align:justify\"><b>Oksana Zabuzhko<\/b> (b. 1960) \u00e9 provavelmente a maior escritora contempor\u00e2nea da Ucr\u00e2nia e uma das principais intelectuais do pa\u00eds. Filha de pais que estavam na lista negra, durante os expurgos sovi\u00e9ticos dos anos 70, seu primeiro livro foi publicado apenas ap\u00f3s a perestroika. Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de seu romance &#8220;Field Work in Ukrainian Sex&#8221; (1996), considerado, em 2006, &#8220;o livro ucraniano mais influente, nesses 15 anos de independ\u00eancia&#8221;, ela tem vivido como autora aut\u00f4noma.<\/p>\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div>Ajude a B\u00f3snia agora.<\/div><\/li><li><span>2<\/span><div>As invas\u00f5es russas, respectivamente, da Ge\u00f3rgia e da Ucr\u00e2nia. (Nota da tradutora)<\/div><\/li><li><span>3<\/span><div>Mudan\u00e7a por meio do com\u00e9rcio.<\/div><\/li><li><span>4<\/span><div>Incompet\u00eancia e Tortura na Ucr\u00e2nia Ocupada.<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta carta faz parte das <a href=\"https:\/\/cultureforum.eu\/programme\/letters-on-democracry\/\">Cartas sobre a democracia<\/a>, um projeto do <a href=\"https:\/\/cultureforum.eu\/\"> 4o F\u00f3rum sobre a cultura na Europa<\/a>, em junho de 2023, em Amsterdam. Organizado pela De Balie, o F\u00f3rum se concentra no significado e no futuro da democracia na Europa. Ele re\u00fane artistas, ativistas e intelectuais para explorar a democracia, sobretudo enquanto express\u00e3o cultural e n\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Para as Cartas sobre a democracia, cinco escritores examinam o futuro da Europa, em uma s\u00e9rie de cinco cartas, iniciada por Arnon Grunberg. Os escritores \u2013 Arnon Grunberg, Drago Jan\u010dar, Lana Basta\u0161i\u0107, Oksana Zabuzhko e Kamel Daoud \u2013 encontram-se durante o F\u00f3rum, no contexto de uma conversa sobre a Europa que nos espera e o papel do escritor nela.<span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":2120,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,52,2],"tags":[57,58,116,63,65],"class_list":["post-2115","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-cartas-abertas","category-traducoes","tag-cartas","tag-europa","tag-oksana-zabuzhko","tag-politica","tag-sociedade"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2115","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2115"}],"version-history":[{"count":27,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2115\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2421,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2115\/revisions\/2421"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2120"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}