{"id":1945,"date":"2023-06-13T16:55:57","date_gmt":"2023-06-13T16:55:57","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=1945"},"modified":"2023-07-14T13:31:16","modified_gmt":"2023-07-14T13:31:16","slug":"carta-sobre-a-democracia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/carta-sobre-a-democracia\/","title":{"rendered":"Cartas sobre a democracia<br><span style=\"font-size:16px\">Drago Jan\u010dar<\/span>"},"content":{"rendered":"\n\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\">Um trem austr\u00edaco e outro eslovaco parados em uma esta\u00e7\u00e3o, na Europa central: a livre circula\u00e7\u00e3o n\u00e3o aboliu as diferen\u00e7as.<br>Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-button is-style-fill has-text-align-right\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/carta-sobre-la-democracia-drago-jancar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Leia em espanhol<\/a><\/div>\n\n<p><p style=\"text-align: justify\">Querido Arnon,<\/p><\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Obrigado por lembrar, durante esse per\u00edodo t\u00e3o incerto, de uma certa\nguerra ocorrida h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s e das pessoas de Sarajevo, que se\nsentiam frequentemente isoladas e esquecidas pela Europa e pelo mundo\ncomo um todo, durante os muitos anos de s\u00edtio. Agora, parece ser\ndiferente com a Ucr\u00e2nia e parece haver muito mais solidariedade. Mas\ncabe \u00e0s pessoas das cidades ocupadas, que s\u00e3o acordadas por sirenes\nantia\u00e9reas, decidir se elas realmente sentem essa solidariedade.\nOksana Zabuzhko \u00e9 sem d\u00favidas a pessoa que deve falar sobre isso, em\nnosso debate.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Menos de um ano depois de Susan Sontag ter dirigido a pe\u00e7a de Beckett,\n<em>Esperando Godot<\/em>, em Sarajevo, tamb\u00e9m estive na cidade sitiada. Eu\nfazia parte de um grupo de quatro escritores que foram a Sarajevo, com o\nintuito de expressar solidariedade a nossos companheiros escritores\nvivendo na cidade exposta ao constante bombardeio das colinas no\nentorno. Mas eles precisavam de ajuda financeira mais do que de amizade\nou de palavras gentis, ent\u00e3o n\u00f3s levamos dinheiro preso a nossos corpos,\nsob nossos coletes \u00e0 prova de balas, uma quantia substancial de\ndinheiro, levantado pela PEN International, para tornar a vida dos\nescritores b\u00f3snios mais f\u00e1cil. A situa\u00e7\u00e3o era realmente muito dif\u00edcil.\nUm deles teve que queimar quase toda a sua biblioteca, para manter a si\ne a sua fam\u00edlia aquecidos, durante o inclemente inverno de Sarajevo,\nquando foram atingidos por um apag\u00e3o de energia e de aquecimento.<\/p>\n\n<h2>Susan Sontag em Sarajevo<\/h2>\n\n<p style=\"text-align: justify\">A quest\u00e3o sobre a civilisa\u00e7\u00e3o e a barb\u00e1rie na Europa, levantada por Susan\nSontag em Sarajevo, foi ecoada por n\u00f3s quatro, um grupo um tanto\nestranho e bizarro de escritores viajantes, usando capacetes militares e\ncoletes \u00e0 prova de balas. Quando chegamos ao aeroporto de Sarajevo, em\naeronaves militares de transporte, rodeados por fortifica\u00e7\u00f5es,\nmetralhadoras e arame farpado, fomos recebidos pela sinaliza\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica\ndo transporte a\u00e9reo da Unprofor: <em>Maybe Airlines<\/em>. E na estreita faixa\nde terra que t\u00ednhamos de cruzar para deixar o aeroporto, as for\u00e7as de\npaz francesas haviam colocado uma placa de rua que dizia:\n<em>Champs-Elys\u00e9es<\/em>.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c0 medida que a trag\u00e9dia das pessoas que morriam, em meio aos tiros e\nbombardeios, se desenrolava, imersas em priva\u00e7\u00f5es e \u00e0 beira da inani\u00e7\u00e3o,\na vontade de sobreviver era muitas vezes sustentada por um humor\nbastante sombrio e pela esperan\u00e7a de que a Europa, o farol da\nciviliza\u00e7\u00e3o, viria ao resgate. Esperando Godot? Um motorista de t\u00e1xi,\nque se tornou bastante habilidoso em evitar as ruas visadas pelos\natiradores de elite, instalados no topo das colinas, me contou que\ndirigia um t\u00e1xi durante o dia e passava as noites agachado com seu rifle\nnas linhas defensivas, acima da cidade. &#8220;Eu estou esperando Godot por\nl\u00e1,&#8221; brincou.<\/p>\n\n<p><figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/245644044-b494eae4-281c-41a3-80c9-721128c30c2c.png\" alt=\"Susan Sontag, em 1993\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\">Susan Sontag em 1993. Foto: Ullstein, Getty.<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure><\/p>\n\n<p><p style=\"text-align: justify\">Susan Sontag, que viajou de Nova York a Sarajevo, talvez tenha tido uma\nmelhor compreens\u00e3o do entrela\u00e7amento entre as maravilhosas conquistas\nculturais e sociais da europa e seus del\u00edrios nacionalistas e\nideol\u00f3gicos incrivelmente brutais, durante o s\u00e9culo turbulento que\ncome\u00e7ou com o assassinato de Sarajevo, em 1914. \u00c9 poss\u00edvel que seu\nentendimento seja maior que o de muitos europeus. E vejo que voc\u00ea tamb\u00e9m\nentende isso muito bem, Arnon. Claro que entende, visto que voc\u00ea \u00e9 um\nescritor e \u00e9 nossa fun\u00e7\u00e3o falar sobre o bem e o mal, sobre a luz e as\ntrevas que, assim como a civiliza\u00e7\u00e3o e a barb\u00e1rie, habitam n\u00e3o apenas\numa na\u00e7\u00e3o, mas frequentemente as pessoas. Temo, no entanto, que muitos e\ntalvez at\u00e9 a maioria dos europeus sejam propensos a preconceitos e a\nsimplifica\u00e7\u00f5es.<\/p><\/p>\n\n<h2>As tribos da Europa<\/h2>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Em fevereiro de 1993, fui convidado a Paris para participar de um debate\nentre&#8230; <em>escritores, intelectuais, pol\u00edticos e artistas pl\u00e1sticos\nvindos de toda a Europa<\/em>&#8230; como dizia o convite. O debate deveria girar\nem torno das mudan\u00e7as massivas ocorridas na Europa, ap\u00f3s as violentas\nagita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais ocorridas no Leste Europeu, como a queda\ndo Muro de Berlim, o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a guerra da\nIugosl\u00e1via. Quando cheguei ao Palais de Chaillot, um banner gigante, com\na silhueta da Torre Eiffel ao fundo, havia sido colocado diante das\ngrandes janelas, onde lia-se,<em>&#8220;Les tribus ou l&#8217;Europe?&#8221;<\/em><\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">As tribos ou a Europa? Imediatamente percebi que havia sido convidado\npara o evento como um representante da parte tribal da Europa. Ao que\nparece, na opini\u00e3o dos organizadores do grande debate, a desintegra\u00e7\u00e3o\necon\u00f4mica e social das sociedades comunistas, ap\u00f3s as revolu\u00e7\u00f5es nas\nruas , o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a desintegra\u00e7\u00e3o da Iugosl\u00e1via\n(onde batalhas nacionalistas e parcialmente religiosas estavam sendo\ntravadas) n\u00e3o passavam de um caminho trai\u00e7oeiro rumo a sociedades\ntribais &#8211; rumo \u00e0 barb\u00e1rie. Um fil\u00f3sofo franc\u00eas e um ensa\u00edsta polon\u00eas se\nopuseram a essa simplifica\u00e7\u00e3o, desde o in\u00edcio. N\u00e3o obstante, o debate que\nse seguiu gerou muitas palavras de esperan\u00e7a por uma Europa unida e\ntolerante, em nome da solidariedade e dos direitos humanos.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Mas n\u00e3o pude simplesmente esquecer a imagem do Palais de Chaillot, que\nme veio como um flash, muitos anos depois, no in\u00edcio do novo s\u00e9culo e do\nnovo mil\u00eanio, quando o &#8220;big bang&#8221; tamb\u00e9m trouxe uma unifica\u00e7\u00e3o formal,\nou melhor, uma incorpora\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses da Europa Oriental \u00e0 Europa\nOcidental. Penso com frequ\u00eancia que esse processo n\u00e3o foi capaz de\ntrazer nenhuma percep\u00e7\u00e3o mais profunda sobre como as pessoas da Europa\ndo Leste de fato viviam. Uma pessoa que passou grande parte de sua vida\nem Lyon ou Gante, digamos, teve uma experi\u00eancia de vida diferente de\nalgu\u00e9m que viveu em Praga ou Vilnius. A vida sob ditaduras comunistas,\ncom suas ilus\u00f5es pomposas de igualdade social, era completamente\ndiferente da vida inserida na democracia e no capitalismo parlamentares.\nTrinta anos depois, o Muro de Berlim ainda est\u00e1 na mem\u00f3ria de muitos\neuropeus.<\/p>\n\n<h2>Acenando para a sociedade do Leste<\/h2>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Czes\u0142aw Mi\u0142osz fala vividamente sobre isso. Cito uma frase de seu livro\n<em>Native Realm<\/em> (<em>Rodzinna Europa<\/em>): \u201cA ma\u00e7\u00e3 girat\u00f3ria da Terra \u00e9 min\u00fascula e nela n\u00e3o h\u00e1 mais manchas brancas. Mas basta que algu\u00e9m chegue aqui na Europa, vindo de uma de suas prov\u00edncias do leste ou do sul, aonde viajantes raramente v\u00e3o, para se tornar um rec\u00e9m-chegado de Setentri\u00e3o, de regi\u00f5es conhecidas apenas pelo frio.\u201d<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_1945\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1945-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1945-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\">Tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/span><\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Muitas pessoas do Ocidente ainda acreditam que seu dedo indicador\ndeveria apontar para as sociedades do Leste Europeu, como para\nensin\u00e1-las sobre a democracia e o Estado de Direito. Entretanto, no\nLeste existem muitas pessoas cujas grandes esperan\u00e7as foram frustradas,\numa vez que entenderam que a incorpora\u00e7\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o mudaria\nsuas vidas repentinamente, da mis\u00e9ria \u00e0 prosperidade celestial. Por\nanos, elas foram criadas dentro da utopia de um comunismo que nunca foi\ncapaz de se materializar.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Quando a utopia finalmente colapsou, elas se agarraram de imediato a\noutra ideia ut\u00f3pica: A Europa. A prosperidade, a democracia e o para\u00edso\nviriam naturalmente. Mas nada acontece naturalmente. Eu mesmo declarei\numa vez em um debate, &#8220;N\u00f3s sonhamos com a democracia, mas acordamos no\ncapitalismo,&#8221;&nbsp;&#8212;&nbsp;e de uma forma bastante cruel, uma vez que as\nsociedades do Leste Europeu tiveram que lidar com problemas de transi\u00e7\u00e3o:\na priva\u00e7\u00e3o, as divis\u00f5es sociais e a influ\u00eancia dos poderosos grupos de\n<em>nouveaux riches<\/em>, na pol\u00edtica, na m\u00eddia e em outras esferas da vida.<\/p>\n\n<p><figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/245644049-b3e8a858-c18d-4741-bf06-bb1974d3da7f.JPG\" alt=\"rua em Berlim\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> Berlim voltou a ser uma capital cultural, mas a queda do Muro n\u00e3o reduziu os preconceitos contra os europeus. Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure><\/p>\n\n<p><p style=\"text-align: justify\">Na Alemanha, que todos voc\u00eas conhecem e respeitam muito, at\u00e9 hoje uma\npessoa que viveu na RDA \u00e9 chamada de &#8220;Ossi&#8221;, que sugere algo bem\ndiferente, e n\u00e3o necessariamente positivo, em rela\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m que viveu\nna Alemanda Ocidental e \u00e9 chamado de &#8220;Wessi&#8221;. Talvez, Arnon, alguns\nachem sua afei\u00e7\u00e3o pela Alemanha um pouco estranha, especialmente se\nforem de uma parte do mundo que teve, para dizer o m\u00ednimo, uma m\u00e1\nexperi\u00eancia com eles, no passado. Mas posso entend\u00ea-lo at\u00e9 certo ponto.<\/p><\/p>\n\n<h2> Saber o que a democracia <em>n\u00e3o \u00e9<\/em><\/h2>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Talvez os alem\u00e3es sejam aqueles que melhor compreendem a ideia de\nEuropa. Qualquer um que queira entender a Europa deve ir aos museus de\nBerlim do s\u00e9culo XX ou falar com alem\u00e3es instru\u00eddos que, em virtude de\nsua experi\u00eancia de viver sob duas ditaduras, conseguiram suplantar as\ninsanidades nacionalistas e ideol\u00f3gicas. Heiner M\u00fcller descreve bem\nisso, em sua autobiografia intitulada &#8220;Guerra sem batalhas: uma vida\nentre duas ditaduras&#8221;.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 portanto interessante adquirir algum conhecimento da hist\u00f3ria\nEuropeia, para contemplar o futuro. Apenas quando sabemos o que a\ndemocracia <em>n\u00e3o \u00e9<\/em>, somo capazes de ter um entendimento justo do que a\ndemocracia de fato \u00e9, ou de como ela deveria ser.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Como escritores, n\u00f3s preferir\u00edamos que as pessoas estivessem mais\nengajadas com nossa literatura que com nossas interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas\nsobre quest\u00f5es sociais. \u00c0s vezes, isso simplesmente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Foi\ndurante a guerra da Iugosl\u00e1via, que minha primeira grande tradu\u00e7\u00e3o para\no alem\u00e3o (e incidentalmente para o holand\u00eas, pouco tempo depois, como\n<em>De galeislaaf<\/em>, 1995), o romance <em>The Galley Slave<\/em>, foi publicado. Que\nemo\u00e7\u00e3o para um escritor relativamente jovem! O livro havia sido\nlindamente projetado e o autor preparou um monte de coisas agrad\u00e1veis\npara dizer sobre ele nas entrevistas&nbsp;&#8212;&nbsp;caso houvesse algu\u00e9m interessado\ne com alguma esperan\u00e7a de que houvesse.<\/p>\n\n<p><figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/245644038-3fe2ac1e-4b35-4960-83b6-b9d1bae022d7.png\" alt=\"Drago Jan\u010dar\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> Drago Jan\u010dar exprime com veem\u00eancia a consterna\u00e7\u00e3o dos povos da Europa central com a identidade negada pela economia de mercado. Wikicommons<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure><\/p>\n\n<p><p style=\"text-align: justify\">Na Feira do Livro de Frankfurt, as luzes estavam sempre ligadas e a as\nc\u00e2meras de TV se agitavam ao redor do stand da editora austr\u00edaca, que\ntamb\u00e9m publicava livros de escritores S\u00e9rvios e Croatas, quando d\u00e1vamos\nnossas opini\u00f5es sobre a guerra&#8230; Meu lindo livro passou despercebido\nsobre a mesa e quase ningu\u00e9m olhou para ele. \u00c0 noite, quando as editoras\nj\u00e1 arrumavam seus stands e as luzes estavam sendo desligadas, uma\nrep\u00f3rter de uma esta\u00e7\u00e3o de radio alem\u00e3 veio falar comigo. &#8220;Senhora,&#8221; eu\ndisse, &#8220;voc\u00ea me faria a gentileza de perguntar alguma coisa sobre esse\nromance que acaba de ser publicado?&#8221; Ela sorriu amistosamente. &#8220;Claro,&#8221;\nela disse, &#8220;pode falar.&#8221; E eu de fato falei por alguns minutos. &#8220;Muito\nobrigada,&#8221; ela disse, &#8220;mas eu gostaria de saber: a Eslov\u00eania, ao se\nseparar, causou a guerra na Iugosl\u00e1via?&#8221;<\/p><\/p>\n\n<h2>O futuro como uma lista de desejos<\/h2>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Em que ponto n\u00f3s deixamos de ser artistas e nos tornamos meros\nexplanadores de situa\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas? Acho que nossos livros\npodem, com frequ\u00eancia, fornecer uma percep\u00e7\u00e3o mais profunda das\ncircunst\u00e2ncias sociais e das fal\u00e1cias humanas que causaram grandes\ncrises &#8212; desde que tenham sido lidos, \u00e9 claro.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">O futuro? Pode ser apenas uma lista de desejos. Por enquanto, \u00e9 bom\nsaber por que e como chegamos na Europa que temos hoje. Por enquanto, \u00e9\nbom saber que chegamos a esse estado, por meio dos grandes picos de\nciviliza\u00e7\u00e3o e dos profundos abismos de barb\u00e1rie. \u00c9 bom saber que, ao\nmenos em minha opini\u00e3o, o Iluminismo foi o ponto de virada que\ninfundiu, nas sociedades europeias, os mais importantes postulados\nsociais e culturais, para que possamos falar sobre democracia,\nabertura, solidariedade e toler\u00e2ncia.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Certamente, a Europa de amanh\u00e3 n\u00e3o ser\u00e1 a Europa de hoje. Novas gera\u00e7\u00f5es\nest\u00e3o amadurecendo e ampliando os horizontes para a compreens\u00e3o do\n&#8220;outro&#8221; e a &#8220;inclus\u00e3o&#8221;, seja l\u00e1 o que isso signifique. E quem mais \u00e9\ncapaz de entender tudo isso, se n\u00e3o os escritores? No entanto, foi o Iluminismo,\nacompanhado dos direitos humanos, que estabeleceu a estrutura e as\nrestri\u00e7\u00f5es para a democracia atual, ou seja, a democracia liberal. N\u00e3o\nse trata de um espa\u00e7o ilimitado para experimentos sociais arbitr\u00e1rios,\nmas do estado de direito, do secularismo, da liberdade de express\u00e3o,\nassim como de um conjunto de regras que tornam a conviv\u00eancia suport\u00e1vel.\nTodos esses fatores tamb\u00e9m ter\u00e3o que ser respeitados no futuro, se n\u00e3o\nquisermos ser apanhados novamente, como j\u00e1 aconteceu tantas vezes na\nhist\u00f3ria da Europa, em experimentos sociais violentos, nos quais\nagarramos a garganta uns dos outros.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Quando somos tentados a falar sobre a velha e cansada Europa, sobre os\nfrequentes e in\u00fateis labirintos burocr\u00e1ticos europeus, sobre o ego\u00edsmo e\na intoler\u00e2ncia e, enquanto pensadores raivosos preveem o decl\u00ednio da\nEuropa, rememoremos o porqu\u00ea de tantas pessoas, para al\u00e9m de suas\nfronteiras, quererem viver nela, afinal. Perguntemos ao povo Ucraniano\npor que eles est\u00e3o dispostos a lutar por essa vida. Ser\u00e1 que a ideia que\nfazemos dos valores europeus \u00e9 mais vis\u00edvel e melhor compreendida nas\nsociedades fora de suas fronteiras, do que na pr\u00f3pria Europa?<\/p>\n\n<h2>A alma da Europa<\/h2>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Um dos arquitetos da Europa pragm\u00e1tica que conhecemos hoje, onde nos sentimos\nrelativamente confort\u00e1veis e muitas pessoas de fora de suas fronteiras\nacham t\u00e3o atrativa, foi Jacques Delors, o arquiteto da integra\u00e7\u00e3o\neuropeia. Delors compreendeu, no in\u00edcio dos anos 90, que a unifica\u00e7\u00e3o\npol\u00edtica e econ\u00f4mica por si s\u00f3 n\u00e3o seria capaz de sustent\u00e1-la, a longo\nprazo. Como se assutado com seu pr\u00f3prio pragmatismo, ele alertou que a\nEuropa precisava de uma &#8220;alma&#8221;.<\/p>\n\n<p><figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/245644046-58fc0d5b-fc56-4919-89be-51d08b5e03c4.jpg\" alt=\"Jacques Delors, presidente da Comiss\u00e3o Europeia, em 1987\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> Presidente da Comiss\u00e3o Europeia, Jacques Delors queria aumentar a Uni\u00e3o Europeia respeitando o princ\u00edpio da &#8220;subsidiariedade&#8221; contra uma centraliza\u00e7\u00e3o abusiva. Foto: Dominique Gutekuns\/AFP, 1987<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure><\/p>\n\n<p><p style=\"text-align: justify\">At\u00e9 para um escritor, a no\u00e7\u00e3o de uma &#8220;alma europeia&#8221; parece um pouco\nficcional. N\u00e3o seria a arte, especialmente a arte liter\u00e1ria, muitas\nvezes cr\u00edtica, amb\u00edgua, incerta e desconfort\u00e1vel, a pr\u00f3pria alma\neuropeia? Aquela que reflete o que acontece em todas as almas: momentos\nde alegria e de tristeza, de euforia e de desespero, momentos de\namor-pr\u00f3prio, assim como de consci\u00eancia pesada, que nos acomete nas\nhoras de vig\u00edlia noturna, por causa de nossas a\u00e7\u00f5es?<\/p><\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que n\u00e3o estou oferecendo nossos livros como textos\ndid\u00e1ticos sobre o entendimento m\u00fatuo e a toler\u00e2ncia. &#8220;A arte \u00e9\ncompletamente in\u00fatil,&#8221; afirmou Oscar Wilde, em seu estilo sarc\u00e1stico. No\nentanto, imagino humildemente que nossos livros podem, \u00e0 sua maneira,\nresponder \u00e0 pergunta sobre quem somos, de onde viemos e para onde\nestamos indo, para aqueles que quiserem l\u00ea-los. Enquanto indiv\u00edduos e\nenquanto comunidade, em toda a sua diversidade.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Meus melhores sentimentos, Arnon. Nos vemos em breve, em Amsterdam.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Drago Jan\u010dar<\/p>\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">Traduzido do ingl\u00eas por Clara Cerqueira<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Drago Jan\u010dar<\/b> (Maribor, 1948) \u00e9 autor de romances e contos e \u00e9 ensa\u00edsta e\ndramaturgo. Seu trabalho foi traduzido para muitas l\u00ednguas europeias e\nsuas pe\u00e7as foram produzidas no exterior. Em 1974, foi colocado sob\ncust\u00f3dia por suposta propaganda e participou ativamente da\ndemocratiza\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds nativo, como Presidente do partido Esloveno\nPEN Centre, entre 1987 e 1991. Em 1993, recebeu o maior pr\u00eamio liter\u00e1rio\nEsloveno por suas conquistas e, em 1994, ganhou o European Short Story\nAward. Ele vive em Ljubljana.<\/p>\n\n\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div>Tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta carta faz parte das <a href=\"https:\/\/cultureforum.eu\/programme\/letters-on-democracry\/\">Cartas sobre a democracia<\/a>, um projeto do <a href=\"https:\/\/cultureforum.eu\/\"> 4o F\u00f3rum sobre a cultura na Europa<\/a>, em junho de 2023, em Amsterdam. Organizado pela De Balie, o F\u00f3rum se concentra no significado e no futuro da democracia na Europa. Ele re\u00fane artistas, ativistas e intelectuais para explorar a democracia, sobretudo enquanto express\u00e3o cultural e n\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Para as Cartas sobre a democracia, cinco escritores examinam o futuro da Europa, em uma s\u00e9rie de cinco cartas, iniciada por Arnon Grunberg. Os escritores \u2013 Arnon Grunberg, Drago Jan\u010dar, Lana Basta\u0161i\u0107, Oksana Zabuzhko e Kamel Daoud \u2013 encontram-se durante o F\u00f3rum, no contexto de uma conversa sobre a Europa que nos espera e o papel do escritor nela.<span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":1985,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,52,2],"tags":[57,117,58,63,65],"class_list":["post-1945","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-cartas-abertas","category-traducoes","tag-cartas","tag-drago-jancar","tag-europa","tag-politica","tag-sociedade"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1945","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1945"}],"version-history":[{"count":62,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1945\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2425,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1945\/revisions\/2425"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1985"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1945"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1945"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1945"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}