{"id":1800,"date":"2023-06-23T18:38:26","date_gmt":"2023-06-23T18:38:26","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=1800"},"modified":"2023-07-14T13:30:03","modified_gmt":"2023-07-14T13:30:03","slug":"carta-sobre-a-democracialana-bastasic","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/carta-sobre-a-democracialana-bastasic\/","title":{"rendered":"Cartas sobre a democracia<br><span style=\"font-size:16px\">Lana Basta\u0161i\u0107"},"content":{"rendered":"\n\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\">Dubravka Ugre\u0161i\u0107. Foto: Judith Jockel, 2010<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-button is-style-fill has-text-align-right\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/carta-sobre-la-democracia-lana-bastasic\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Leia em espanhol<\/a><\/div>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Caro Arnon,<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Eu ia escrever uma carta completamente diferente, mas ent\u00e3o a vida aconteceu. Ou a morte. \u00c9 a mesma coisa.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Eu estava em uma livraria em Berlim comendo um rolinho de canela (porque voc\u00ea agora pode fazer isso em livrarias) e lendo bell hooks<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_1800\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1800-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1800-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\">Pseud\u00f4nimo, sempre escrito letras min\u00fasculas, de Gloria Jean Watkins, uma autora, professora, te\u00f3rica feminista, artista e ativista antirracista estadunidense. Consta entre sua obra publicada no Brasil o livro <em>Tudo sobre o amor<\/em>, ao qual Basta\u0161i\u0107 faz refer\u00eancia.(Nota do tradutor)<\/span> quando ouvi que Dubravka Ugre\u0161i\u0107 havia morrido. Eu descobri da pior maneira poss\u00edvel&nbsp;&#8212;&nbsp;atrav\u00e9s das redes sociais&nbsp;&#8212;&nbsp; apesar de eu n\u00e3o ter certeza de que se h\u00e1 uma maneira correta de descobrir que sua amiga morreu. Eu me mudo demais para ter algu\u00e9m pr\u00f3ximo a mim que possa aparecer, olhar solenemente para mim, pegar em minha m\u00e3o e dizer &#8220;eu tenho m\u00e1s not\u00edcias&#8221;. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m nessa cidade h\u00e1 bastante tempo para deixar que pegue em minha m\u00e3o. Ent\u00e3o eu apenas permaneci sentada ali com meu est\u00fapido rolinho de canela, segurando em minha m\u00e3o um livro sobre o amor e sentindo a mais pura raiva.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\"> Eu me lembro que minha irm\u00e3, que \u00e9 psic\u00f3loga, recentemente me fez baixar um aplicativo que te ajuda a encontrar a boa express\u00e3o para cada emo\u00e7\u00e3o que voc\u00ea est\u00e1 sentindo. Ela me disse que eu poderia achar o aplicativo \u00fatil para cravar meus sentimentos com a palavra precisa. E ent\u00e3o eu abri o aplicativo e naveguei pela categoria &#8216;muita energia desagrad\u00e1vel&#8217;. Palavras boiavam na minha tela em bolhas vermelhas e laranjas. <em>Chocada<\/em>. <em>Aterrorizada<\/em>. <em>Sobrecarregada<\/em>. <em>Ansiosa<\/em>. <em>Assustada<\/em>. <em>Furiosa<\/em>. Nenhuma delas funcionava. Eu precisava de uma palavra para <em>meu autor iugoslavo favorito morreu e acontece dela ser tamb\u00e9m minha amiga pr\u00f3xima e a \u00fanica mulher que jamais tive como modelo nessa profiss\u00e3o e eu estou irada com ela porque tinhamos um encontro em dois meses<\/em>. Mas a linguagem falhou comigo. De novo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n<p>\n<figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/247196150-2e2dd621-9690-4d0c-9ed2-841f17efe54f.JPG\" alt=\"O c\u00e9u\"><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> O c\u00e9u. Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Ent\u00e3o eu olhei para o livro de bell hooks que eu ainda tinha em m\u00e3os. A palavra <em>amor<\/em> em min\u00fasculo. Dubravka escreveu sobre o amor, sobre escrever para <em>ser<\/em> amada. Quando eu tinha dor de est\u00f4mago, ela me dava ch\u00e1 de menta. Quando a Europa tinha, ela escrevia. E como ela era muitas coisas de uma vez ao mesmo tempo, e era nenhuma delas (iugosl\u00e1va, croata, holandesa, p\u00f3s-isso e p\u00f3s-aquilo, <em>bruxa<\/em>, mulher, escritora), eu achei que ela era o mais pr\u00f3ximo que jamais estive em definir o que <em>europeu<\/em> realmente significava.<\/p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Eu sempre tive uma rela\u00e7\u00e3o dif\u00edcil com etiquetas identit\u00e1rias baseadas na geografia. Meu primeiro passaporte era iugoslavo e minha m\u00e3e ainda o guarda em uma velha caixa de sapatos junto com um tipografado guia de instru\u00e7\u00f5es do p\u00f3s-Chernobyl para pais. Na Cro\u00e1cia \u00e9ramos s\u00e9rvios e ent\u00e3o tivemos de partir por causa daquilo que a pr\u00f3pria Dubravka descrevia nos ensaios dela como <em>puro ar croata<\/em>. Logo ali pelo tempo em que ela estava sendo excomungada por seus companheiros professores de universidade e por jornalistas por ter se pronunciado contra o nacionalismo, e n\u00f3s estavamos nos instalando na B\u00f3snia basicamente pelos mesmos motivos. Eu era <em>a garota croata<\/em> em Banja Luka por causa de meu sotaque de Zagrebe.<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/247196154-896a4c8e-af86-4c82-8e9f-7f8cafe6be20.JPG\" alt=\"Um painel em Bruxelas\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\">Europa, terra de ex\u00edlios. Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Meu pai corrigia meu vocabul\u00e1rio na mesa como se nosso sagrado &#8220;ser s\u00e9rvio&#8221; dependesse de eu utilizar a palavra certa para colher. Anos depois, quando eu me mudei para Belgrado, de repente eu era <em>a garota b\u00f3snia<\/em>, meu antigo sotaque de Zagrebe j\u00e1 desaparecido e substitu\u00eddo pelas vogais cortadas de Krajina, o que muitos de meus professores e colegas no mestrado desprezavam. Onde quer que eu fosse, eu era outra pessoa e a l\u00edngua que eu falava me tra\u00eda e demonstrava minha estrangeiridade. Finalmente, quando eu me mudei para Barcelona nos meus vinte e poucos, eu simplesmente ia de <em>iugoslava<\/em> quando algu\u00e9m me perguntava de onde eu era. N\u00e3o era uma quest\u00e3o de nostalgia, eu apenas n\u00e3o estava interessada em dar para ningu\u00e9m uma aula de 30 minutos sobre a hist\u00f3ria dos Balc\u00e3s. Mas nenhuma vez disse <em>europeia<\/em>.<\/p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Enquanto eu estava na Espanha eu rapidamente cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que eu era qualquer coisa, menos europeia. Meus amigos eram cheios de fascinantes hist\u00f3rias do Erasmus<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"2\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_1800\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1800-2\">2<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1800-2\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"2\">Acr\u00f4nimo de European Region Action Scheme for the Mobility of University Students (Plano de A\u00e7\u00e3o da Comunidade Europeia para a Mobilidade de Estudantes Universit\u00e1rios), o programa Erasmus consiste em facilitar e incentivar a integra\u00e7\u00e3o e mobilidade acad\u00eamica de estudantes e professores universit\u00e1rios.(Nota do tradutor)<\/span> e rapidamente mudavam de assunto quando eu admitia que o programa jamais existiu para estudantes b\u00f3snios. Esse &#8220;ser europeu&#8221; deles estava cheio de palavras com as quais eu n\u00e3o conseguia me relacionar, ent\u00e3o achei minhas pr\u00f3prias defini\u00e7\u00f5es enquanto as desembrulhava. <em>Mochilar<\/em> significava ter um passaporte funcional. <em>Millennial<\/em> significava ue havia eletricidade em sua casa. <em>Interrail<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"3\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_1800\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1800-3\">3<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1800-3\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"3\">O Interrail \u00e9 um bilhete ferrovi\u00e1rio dispon\u00edvel para residentes europeus.(Nota do tradutor)<\/span> significava o Expresso de Hogwarts. Em algum momento eu dispensei o convite para uma festa chamada <em>Sinto falta dos anos noventa!<\/em> e decidi culpar uma dor de cabe\u00e7a no lugar de dar uma aula para um punhado de <em>millennials mochileiros<\/em> sobre o derramamento de sangue que ocorreu no meu pa\u00eds naquela d\u00e9cada. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Nos meus vintes e muitos, a Europa era apenas uma s\u00e9rie de <em>poderia ter<\/em> que fazia eu me sentir amarga e c\u00ednica. Eu poderia ter tido um melhor diploma colegial. Eu poderia ter visto o mundo. Eu poderia ter crescido sentindo falta dos anos noventa. E mesmo se eu me preocupasse com ela de um modo indiz\u00edvel como se fosse uma uva azeda, parecia-me que essa Europa&nbsp;&#8212;&nbsp;branca, crist\u00e3, rica&nbsp;&#8212;&nbsp;n\u00e3o se preocupava muito comigo. Ela n\u00e3o sabia nada de minha av\u00f3 que sobreviveu a um rel\u00e2mpago aos quatro anos, adorava Marias Callas e novelas mexicanas e que tinha de carregar uma permiss\u00e3o escrita para poder ir ao mercado porque seu nome era mul\u00e7umano. Alguns dos homens que pediam seus documentos tinham sido seus alunos na escola prim\u00e1ria local.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Essa Europa era a mesma que em breve come\u00e7aria a me pagar para falar sobre a guerra. Parecia ser tudo o que queriam ouvir: hist\u00f3rias chocantes. Eu era a <em>garota b\u00f3snia<\/em> em um chique teatro belga falando sobre <em>as repercuss\u00f5es da guerra<\/em> para pessoas que precisaram de 150 anos para remover as est\u00e1tuas do rei Leopoldo II. Eu era <em>a garota b\u00f3snia<\/em> em uma livraria espanhola falando sobre <em>as repercuss\u00f5es da guerra<\/em> para pessoas cujo ditador morreu pacificamente em sua cama ap\u00f3s ter restaurado a monarquia e que at\u00e9 hoje contava com belas flores em seu t\u00famulo. Eu era <em>a garota b\u00f3snia<\/em> sentada em um sal\u00e3o bo\u00eamio de uma baronesa toscana falando sobre <em>as repercuss\u00f5es da guerra<\/em> para pessoas que pouco depois deixariam Giorgia Meloni tomar o pa\u00eds delas. Eu nunca era europeia, porque n\u00e3o era a Europa que eles queriam. Eles queriam <em>a garota b\u00f3snia<\/em>.<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/247196160-82ffdb12-0eca-458b-9e93-3a5c7af2f200.JPG\" alt=\"Congresso Eurozine sobre o multilinguismo\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> Congresso Eurozine sobre o multilinguismo. Foto: Sens public, 2008<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\"> Outra coisa que logo entendi era que hist\u00f3rias b\u00f3snias eram melhor contadas em alem\u00e3o ou em ingl\u00eas. Autores b\u00f3snios escrevendo hist\u00f3rias tristes da guerra eram amados desde que escrevessem em uma &#8216;grande l\u00edngua&#8217;. Idealmente, eles cresceram no exterior. Idealmente, eles n\u00e3o tinham nenhum sotaque. Eu assisti a esses autores ganharem pr\u00eamios, terem bolsas, viajarem o mundo. E apesar de alguns deles serem escritores verdadeiramente excepcionais e, em minha opini\u00e3o, merecerem toda sua fama e gl\u00f3ria, minha Europa <em>poderia ter<\/em> logo volta para me assombrar. E se tiv\u00e9ssemos deixado a Cro\u00e1cia e ido para o Reino Unido? Para Alemanha? Para Fran\u00e7a? E se eu fosse uma millennial mochileira escrevendo hist\u00f3rias de guerra tristes em um interrail entre Berlim e Praga? Amargor \u00e9 um muro dif\u00edcil de derrubar quando ele nasce da falta de privil\u00e9gio.<\/p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Ainda assim Dubravka me ensinou que o amargor, mesmo que ele sempre esteja presente em alguma medida entre n\u00f3s p\u00f3s-iugoslavos na Europa, pode eventualmente ganhar a batalha, mas jamais a guerra. Escrever \u00e9 comunicar-se. Comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 Amor, L mai\u00fasculo. N\u00e3o h\u00e1 lugar para amargor aqui. N\u00e3o h\u00e1 lugar para o cinismo. Ela me ensinou que a <em>Europa<\/em> pode significar aquilo que desejo que signifique e que, atrav\u00e9s de meu pr\u00f3prio processo pessoal de defini-la, pode at\u00e9 mesmo esticar e receber seus <em>outros<\/em>. A linguagem, em outras palavras, pode torn\u00e1-lo um <em>n\u00e3o-outro<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Eu constru\u00ed meu pr\u00f3prio senso de &#8220;ser europeu&#8221; muito tarde. Eu o constru\u00ed com uma ideia europeia do Amor como a arma derradeira contra o cinismo e como um abra\u00e7o radical da diferen\u00e7a, como Alain Badiou coloca. \u00c9 um desejo de comunicar, de conectar, at\u00e9 mesmo se voc\u00ea n\u00e3o teve o privil\u00e9gio de ter um bilhete interrail quando tinha vinte anos. Escrever, Dubravka me disse, no lugar de reclamar sobre seus <em>poderia ter<\/em>. Sentar e escrever.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Contra todo esse mercado autocelebrat\u00f3rio dirigido pela obsess\u00e3o no <em>eu<\/em>, <em>meu<\/em> e <em>comigo<\/em> e abastecido por poderosos algoritmos que apenas servem para nos guiar a produtos feitos \u00e0 medida, eu acredito que ainda h\u00e1 espa\u00e7o para que a Europa saia de sua pr\u00f3pria bolha. Ainda h\u00e1 espa\u00e7o para sentar na cal\u00e7ada no come\u00e7o da noite e conversar em um alem\u00e3o ruim com a senhora turca que est\u00e1 fechando sua loja e deseja ir para casa assistir um reality show. E eu penso que o nome dela soa como o da minha av\u00f3. E tamb\u00e9m penso que Dubravka a teria amado.<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/247196156-afc91091-342f-4d13-abc7-d34c47c6595f.png\" alt=\"capa do livro Museu da Rendi\u00e7\u00e3o Incondicional\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"><em>Museu da Rendi\u00e7\u00e3o Incondicional<\/em>, livro de Dubravka Ugre\u0161i\u0107. Foto: Editor<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure>\n<\/p>\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Lana Basta\u0161i\u0107<\/p><\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:right;font-size:16px\">Traduzido do ingl\u00eas por Luiz Capelo<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\"><b>Lana Basta\u0161i\u0107<\/b> (Zagrebe, 1986) \u00e9 uma escritora, romancista e tradutora b\u00f3snia e s\u00e9rvia. Ela venceu o Pr\u00eamio de Literatura da Uni\u00e3o Europeia com seu primeiro romance <em> Catch the rabbit<\/em>, que explora como lidar com viver em um pa\u00eds dividido pela Guerra da Iugosl\u00e1via. Ela tamb\u00e9m escreve poesias e hist\u00f3rias curtas.<\/p>\n\n\n\n\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div>Pseud\u00f4nimo, sempre escrito letras min\u00fasculas, de Gloria Jean Watkins, uma autora, professora, te\u00f3rica feminista, artista e ativista antirracista estadunidense. Consta entre sua obra publicada no Brasil o livro <em>Tudo sobre o amor<\/em>, ao qual Basta\u0161i\u0107 faz refer\u00eancia.(Nota do tradutor)<\/div><\/li><li><span>2<\/span><div>Acr\u00f4nimo de European Region Action Scheme for the Mobility of University Students (Plano de A\u00e7\u00e3o da Comunidade Europeia para a Mobilidade de Estudantes Universit\u00e1rios), o programa Erasmus consiste em facilitar e incentivar a integra\u00e7\u00e3o e mobilidade acad\u00eamica de estudantes e professores universit\u00e1rios.(Nota do tradutor)<\/div><\/li><li><span>3<\/span><div>O Interrail \u00e9 um bilhete ferrovi\u00e1rio dispon\u00edvel para residentes europeus.(Nota do tradutor)<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta carta faz parte das <a href=\"https:\/\/cultureforum.eu\/programme\/letters-on-democracry\/\">Cartas sobre a democracia<\/a>, um projeto do <a href=\"https:\/\/cultureforum.eu\/\"> 4o F\u00f3rum sobre a cultura na Europa<\/a>, em junho de 2023, em Amsterdam. Organizado pela De Balie, o F\u00f3rum se concentra no significado e no futuro da democracia na Europa. Ele re\u00fane artistas, ativistas e intelectuais para explorar a democracia, sobretudo enquanto express\u00e3o cultural e n\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Para as Cartas sobre a democracia, cinco escritores examinam o futuro da Europa, em uma s\u00e9rie de cinco cartas, iniciada por Arnon Grunberg. Os escritores \u2013 Arnon Grunberg, Drago Jan\u010dar, Lana Basta\u0161i\u0107, Oksana Zabuzhko e Kamel Daoud \u2013 encontram-se durante o F\u00f3rum, no contexto de uma conversa sobre a Europa que nos espera e o papel do escritor nela.<span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":2096,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,52,2],"tags":[57,58,115,63,65],"class_list":["post-1800","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-cartas-abertas","category-traducoes","tag-cartas","tag-europa","tag-lana-bastasic","tag-politica","tag-sociedade"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1800","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1800"}],"version-history":[{"count":35,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1800\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2462,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1800\/revisions\/2462"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2096"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1800"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1800"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1800"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}