{"id":1687,"date":"2023-06-08T00:55:31","date_gmt":"2023-06-08T00:55:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=1687"},"modified":"2023-07-14T13:31:45","modified_gmt":"2023-07-14T13:31:45","slug":"carta-sobre-a-democracia-kamel-daoud","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/carta-sobre-a-democracia-kamel-daoud\/","title":{"rendered":"Cartas sobre a democracia<br><span style=\"font-size:16px\">Kamel Daoud<\/span>"},"content":{"rendered":"\n\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\">O Mucem<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_1687\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1687-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1687-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\"><em>Mus\u00e9e des Civilisations de l&#8217;Europe et de la M\u00e9diterran\u00e9e<\/em>, Museu das Civiliza\u00e7\u00f5es da Europa e do Mediterr\u00e2neo \u00e9 um museu nacional franc\u00eas (Nota do tradutor).<\/span>, em Marselha, cidade s\u00edmbolo do cosmopolistimo mediterr\u00e2neo, acolheu h\u00e1 pouco tempo uma exposi\u00e7\u00e3o de cartazes do cinema argelino que jogam com os olhares equivocados evocados pelo autor. Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n\n\n\n\n\n<div class=\"wp-block-button is-style-fill has-text-align-right\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/carta-a-unos-posibles-amigos-sobre-europa-y-el-futuro-kamel-daoud\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Leia em espanhol<\/a><\/div>\n\n\n\n\n\n<p><p>Caro Arnon,<\/p><\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Sob o risco de for\u00e7ar uma familiaridade ou de pretender uma comunh\u00e3o de id\u00e9ias com desconhecidos sobre um sujeito muito amplo, eu adorei a met\u00e1fora da Europa como uma \u201ccasa de <em>swing<\/em>\u201d. E por diversos motivos.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Primeiro: quando se vive no mundo que voc\u00eas chamam de \u201c\u00e1rabe\u201d, experimenta-se, \u00edntima e violentamente, essa confus\u00e3o, que n\u00f3s atribu\u00edmos \u00e0 Europa, entre liberdade sexual e liberdade como um todo. No mundo chamado \u00e1rabe, \u00e0s vezes liberar-se tem menos o sentido de votar livremente do que de beijar publicamente a boca do ser amado.<\/p>\n\n\n\n<p>\n<figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/244956945-d2431777-ff60-429c-897c-6d5b518ee786.jpg\" alt=\"capa do livro De la R\u00e9volution en la R\u00e9publique, de Mona Ozouf\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> As democracias europeias apenas se sustentam por uma sociabilidade que tece seus padr\u00f5es dia ap\u00f3s dia.<br> Grandes figuras intelectuais e atores culturais manifestam seu engajamento contribuindo com o debate de ideias.<br> Foto: Editor<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure>\n<\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Al\u00e9m disso, em nossas paragens, os islamitas usaram rapidamente o mal entendido cultural para ganhar a simpatia dos conservadores, dos machos e do patriarcado. A licen\u00e7a er\u00f3tica, a fornica\u00e7\u00e3o, o pecado, o mal e a dissolu\u00e7\u00e3o moral aparecem como frutos da democracia liberal, se n\u00e3o como a pr\u00f3pria democracia liberal. Consequentemente, a salva\u00e7\u00e3o vir\u00e1 evitar a democracia liberal, ela vir\u00e1 de Deus e da Ditadura.<\/p><\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">A segunda raz\u00e3o que me faz amar a met\u00e1fora \u00e9 que, em uma casa de <em>swing<\/em>, pode-se \u00e0s vezes encontrar <em>voyeurs<\/em>, esp\u00e9cie solit\u00e1ria que avan\u00e7a o olhar, sem dizer nada, uma testemunha sem corpo do corpo de outr\u00e9m. \u00c9 assim que sempre me considero quando viajo para o Ocidente, um <em>voyeur<\/em> da democracia europeia. Proibido de toc\u00e1-la&nbsp;, sou um esteta, um admirador, um recluso.<\/p>\n\n\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Costuras rudimentares<\/h2>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Ent\u00e3o sim: \u00e9 preciso viver fora da Europa para se tornar europeu, para sonhar com ela e defini-la. E esse fora pode ser a Am\u00e9rica, mas o melhor para delimitar a Europa \u00e9 viver em uma ditadura. \u00c9 ali, desse ponto cego, que se pode identificar a democracia europeia, um pouco pelo padr\u00e3o, um pouco pelo contraste. Para isso \u00e9 preciso consentir a ingenuidade, os atalhos e a an\u00e1lise f\u00e1cil. \u00c9 a condi\u00e7\u00e3o para acreditar na democracia. Vista de muito perto, \u00e9 poss\u00edvel reparar no tecido, em suas imperfei\u00e7\u00f5es e nas costuras rudimentares.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Mas ser\u00e1 que isso importa, essas ressalvas sobre a democracia europeia, quando se vive em uma ditadura? N\u00e3o. Assim, no chamado \u201cmundo \u00e1rabe\u201d, a Europa existe e sua democracia tamb\u00e9m: ela \u00e9, de uma vez por todas, tudo aquilo que n\u00e3o possu\u00edmos. O que pedimos ou o que imitamos. \u00c9 igualmente tudo aquilo que rejeitamos em nome de nossas identidades de reclus\u00e3o e do direito \u00e0 diferen\u00e7a, ap\u00f3s as descoloniza\u00e7\u00f5es. Um descolonizado \u00e9 sempre suscet\u00edvel e sua desconfian\u00e7a \u00e9 a de um sobrevivente.<\/p>\n\n\n\n<p>\n<figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/244956943-4ad80ef5-c1e3-4e4a-93b4-cf8288eed09f.jpg\" alt=\"capa do livro La relation \u00e0 l'autre, de Dominique Schnapper\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> Dominique Schnapper, filha do fil\u00f3sofo anti-nazista e pensador liberal Raymond Aron, publicou v\u00e1rias obras<br>expondo os desafios da cidadania contempor\u00e2nea. Foto: Editor<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure>\n<\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Eis ent\u00e3o uma teoria rudimentar, ing\u00eanua e um pouco enganadora, pois ela fecha o debate previsto entre n\u00f3s. Mas ela tamb\u00e9m \u00e9 essencial para se guardar uma medida. Eu me contento com esse sonho de Europa. Quanto ao resto de minhas ressalvas, isso vir\u00e1 mais tarde, se eu tiver um futuro. E sobre as minhas d\u00favidas, prefiro utiliz\u00e1-las na literatura do que em defini\u00e7\u00f5es definitivas.<\/p><\/p>\n\n\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><em>Voyeur<\/em> na casa de <em>swing<\/em> europeia<\/h2>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">O que \u00e9 importante nessa democracia que vejo enquanto <em>voyeur<\/em> nessa casa de swing? Ela \u00e9 importante por conta da lei das consequ\u00eancias: quando a democracia se enfraquece na Europa, \u00e9 questionada pelos excessos, \u00e9 diminu\u00edda pelo efeito das invas\u00f5es b\u00e1rbaras internas aos populistas, isso refor\u00e7a a ditadura e o autoritarismo aqui em casa e deprecia o ideal da democracia. Nossos ditadores alimentaram bastante esse discurso sobre o espet\u00e1culo da Europa: \u201c<em>a democracia? Ela \u00e9 o caos. Prestem aten\u00e7\u00e3o em seus desejos imprudentes!<\/em>\u201d repetem eles.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">\u00c9 um pouco injusto e um pouco do espet\u00e1culo da prega\u00e7\u00e3o. Eu reitero frequentemente nas confer\u00eancias com europeus que \u201c<em>seus compromissos s\u00e3o nossas cat\u00e1strofes<\/em>\u201d. Eu alertei sobre o sentido da democracia europeia e aquilo que ultrapassa sua geografia, seus limites. Eu falava de um islamismo encorajado pelo sentimento de culpabilidade colonial, do populismo dopado pela nostalgia de uma identidade exclusiva. \u00c9 exagerado como ret\u00f3rica, mas tem o benef\u00edcio da brutalidade e da responsabiliza\u00e7\u00e3o. A democracia europeia \u00e9 uma necessidade que ultrapassa a si mesma.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Claro, h\u00e1 todo o resto que discutimos: a democracia permanece uma exclusividade europeia ocidental? Ela pode ser exportada por interm\u00e9dio de desembarques ou de ONGs? Ela \u00e9 uma hist\u00f3ria local ou uma universalidade enganadora? Ela \u00e9 uma especificidade cultural ou humana? No chamado \u201cmundo \u00e1rabe\u201d, n\u00e3o paramos de buscar defini\u00e7\u00f5es e de nos fecharmos em castas. No fim, opta-se frequentemente pelo ex\u00edlio. Afinal, vale mais viver em uma democracia mal definida do que em uma ditadura onde a gente se esgota para tentar definir a democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>\n<figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/244956950-c10d21a2-8699-409c-b401-17613fd77c92.jpg\" alt=\"um barco nas Ilhas Can\u00e1rias\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> Em junho de 2023, ocorreu nas Can\u00e1rias o resgate de um barco de pesca vindo da Guin\u00e9 com 150 refugiados a bordo. O desejo de entrar na Europa se alimenta da frustra\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas frente \u00e0 mis\u00e9ria mantida por regimes predadores. Foto: St\u00e9phane Van Deinse<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure>\n<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Excesso de democracia?<\/h2>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">A democracia n\u00e3o sabe se defender, me repetia uma amiga tunisiana. V\u00ea-se isso na Europa. O que vejo: um estranho paradoxo em que o objetivo de uma terra de confortos continua sendo atingir o equil\u00edbrio das for\u00e7as por interm\u00e9dio do enfraquecimento generalizado.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Segunda evid\u00eancia: o excesso de democracia mata a democracia? Eu n\u00e3o diria isso em voz alta, mas moro no \u201csul\u201d e isso autoriza o amargor. Quando leio um pouco as not\u00edcias de \u201cmilitantes-selfies\u201d que defendem o direito dos mosquitos de nos picar, que maculam com tomates as telas de Van Gogh ou que colam a palma de suas m\u00e3o no cap\u00f4 de carros para salvar o mundo, eu me pergunto se o excesso de democracia n\u00e3o assassina a democracia.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Terceira evid\u00eancia? Eu tenho o direito a ao menos uma cita\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 de Jorge Lu\u00eds Borges. Em um de seus poemas, ele diz: \u201c<em>aquele que contempla o mar v\u00ea a Inglaterra<\/em>\u201d<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"2\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_1687\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1687-2\">2<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1687-2\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"2\"> Trata-se de <em>La Dicha<\/em>, de Jorge Lu\u00eds Borges:<br>El que abraza a una mujer es Ad\u00e1n. La mujer es Eva.<br>Todo sucede por primera vez.<br>He visto una cosa blanca en el cielo. Me dicen que es la luna, pero<br>qu\u00e9 puedo hacer con una palabra y con una mitolog\u00eda.<br>Los \u00e1rboles me dan un poco de miedo. Son tan hermosos.<br>Los tranquilos animales se acercan para que yo les diga su nombre.<br>Los libros de la biblioteca no tienen letras. Cuando los abro surgen.<br>Al hojear el atlas proyecto la forma de Sumatra.<br>El que prende un f\u00f3sforo en el oscuro est\u00e1 inventando el fuego.<br>En el espejo hay otro que acecha.<br>El que mira el mar ve a Inglaterra.<br>El que profiere un verso de Liliencron ha entrado en la batalla.<br>He so\u00f1ado a Cartago y a las legiones que desolaron a Cartago.<br>He so\u00f1ado la espada y la balanza.<br>Loado sea el amor en el que no hay poseedor ni pose\u00edda, pero los dos se entregan.<br>Loada sea la pesadilla, que nos revela que podemos crear el infierno.<br>El que desciende a un r\u00edo desciende al Ganges.<br>El que mira un reloj de arena ve la disoluci\u00f3n de un imperio.<br>El que juega con un pu\u00f1al presagia la muerte de C\u00e9sar.<br>El que duerme es todos los hombres.<br>En el desierto vi la joven Esfinge, que acaban de labrar.<br>Nada hay tan antiguo bajo el sol.<br>Todo sucede por primera vez, pero de un modo eterno. (<em>La Dicha<\/em>, Jorge Lu\u00eds Borges)<br>(Nota do tradutor)<\/span>. O efeito de condensa\u00e7\u00e3o aparece de forma genial e provoca um devaneio imediato: o imp\u00e9rio, a vastid\u00e3o, a Inglaterra, a aventura, todos os navios j\u00e1 constru\u00eddos, os n\u00f3s marinhos e o fim do mundo conhecido. Um pa\u00eds inteiro que se define pela anula\u00e7\u00e3o de suas fronteiras. Tudo est\u00e1 encaixado no mar e se dissolve nele. Ao menos uma vez, duas coisas diferentes, o mar e a Inglaterra, configuram a mesma coisa, mas permanecem coisas distintas.<\/p>\n\n\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Democracia inconsciente<\/h2>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Assim ocorre com a democracia na Europa. Aquele que, daqui de onde estamos, o \u201csul\u201d do mundo, contempla o mar v\u00ea a Europa. Para um escritor, \u00e9 um poema de Borges ou uma met\u00e1fora revigorante. Para um imigrante clandestino que aguarda o tempo bom para remar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Espanha, tudo est\u00e1 nessas poucas palavras e, de uma vez por todas, o mar \u00e9 a Europa, quer dizer, \u00e9 a liberdade, a vida ap\u00f3s a morte sem o cad\u00e1ver, um outro lugar, a fuga, o infinito, o sexo sem pecado, o <em>swing<\/em> e o <em>voyeurismo<\/em>, a fortuna.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">A Europa permanece uma democracia, mas ela n\u00e3o o sabe. \u00c9 o \u00faltimo capricho de sua beleza. Essa esp\u00e9cie de inoc\u00eancia que provoca e torna-se crueldade. Mas n\u00f3s, no \u201csul\u201d, n\u00f3s sabemos: a democracia, n\u00f3s podemos defini-la. Al\u00e9m disso, quando eu sou convidado \u00e0 Europa, \u00e9 para melhor exprimir a ess\u00eancia da democracia. Isso porque eu venho da barb\u00e1rie c\u00f3smica do resto do mundo&nbsp;; porque eu sei o quanto a democracia custa&nbsp;; porque eu sei onde ela come\u00e7a e onde ela termina&nbsp;; porque, no <em>swing<\/em>, um <em>voyeur<\/em> atento e discreto tem mais a contar do que algu\u00e9m dedicado a acariciar ou morder outra pessoa. E, nesse caso, a met\u00e1fora vai mais longe: o que amea\u00e7a a Europa \u00e9 sobretudo que esse grande lugar n\u00e3o se deseja mais.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Ent\u00e3o sim, defendamos a democracia liberal europeia. Para n\u00f3s, gente do \u201csul\u201d e das ditaduras, ela \u00e9 o \u00fanico lugar para onde nadar quando nossos pa\u00edses afundam. E \u00e9 o \u00fanico lugar em que se pode gritar que a democracia n\u00e3o existe sem ser preso pela ditadura que adora se fantasiar de democracia. Ent\u00e3o, pela democracia, vamos dividir as tarefas: voc\u00eas precisam question\u00e1-la para melhor\u00e1-la e eu preciso acreditar que ela existe entre voc\u00eas para esperar que um dia exista aqui comigo. Pois, no momento, no chamado mundo \u201c\u00e1rabe\u201d, a \u00fanica casa de <em>swing<\/em> poss\u00edvel \u00e9 o para\u00edso celeste. E \u00e9 para ap\u00f3s a morte ou o assassinato. O de voc\u00eas ou o meu.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Durante s\u00e9culos a Europa conheceu a extens\u00e3o. Pela coloniza\u00e7\u00e3o e a inven\u00e7\u00e3o da universalidade. Em nossos dias, ela se retrai na culpabiliza\u00e7\u00e3o e na desculpa. S\u00e3o os \u201cb\u00e1rbaros\u201d que se imp\u00f5em sobre ela para convert\u00ea-la \u00e0s suas cren\u00e7as outrora superiores. Ser\u00e1 que a Europa tem uma alma ou uma animalidade? Ser\u00e1 que sua nudez \u00e9 primitividade indecente? Ser\u00e1 preciso vel\u00e1-la ou desvel\u00e1-la? Ser\u00e1 que \u00e9 preciso convert\u00ea-la ou reeduc\u00e1-la?<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Todos sabemos como esse tipo de hist\u00f3ria de encontro incomum termina, por enquanto: muito mal para uma das partes. A Europa aparece sobretudo como uma geografia insular. Pouco importa que ela tenha fronteiras. Contempl\u00e1-la \u00e9 ver o mar inteiro. O que sonhamos, diante da boa ou da m\u00e1 f\u00e9 do militante democr\u00e1tico do \u201csul\u201d, da ingenuidade e do esfor\u00e7o em realizar, \u00e9 que ela esteja em todos os lugares. Que ela permane\u00e7a sendo a prova de que a outra margem existe. Os imigrantes clandestinos no Maghreb olham o mar como os crentes olham o c\u00e9u. E com as mesmas esperan\u00e7as falsificadas.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Caros Lana Basta\u0161i\u0107, Drago Jan\u010dar e Oksana Zabuzhko, isso claramente n\u00e3o \u00e9 uma resposta. A primeira regra do <em>voyeur<\/em> \u00e9 manter o sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>\n<figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/244956946-0107bc6f-8959-4852-8f6d-686acc39fb74.JPG\" alt=\"o mar\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\"> Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure>\n<\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Kamel Daoud, Oran (Arg\u00e9lia), 15 de maio 2023<\/p><\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">Traduzido do franc\u00eas por Luiz Capelo<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Kamel Daoud<\/strong> (1970) \u00e9 um escritor e jornalista franco-argelino. Vencedor do pr\u00eamio Goncourt de 2015, na categoria de primeiro romance, ele foi redator chefe do <em>Quotidien d\u2019Oran<\/em> e \u00e9 tamb\u00e9m cronista e editor para diferentes jornais, dos quais <em>Le Point<\/em>, <em>Le Monde des religions<\/em>, <em>New York Times<\/em> e <em>Libert\u00e9<\/em>.<\/p>\n\n\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div><em>Mus\u00e9e des Civilisations de l&#8217;Europe et de la M\u00e9diterran\u00e9e<\/em>, Museu das Civiliza\u00e7\u00f5es da Europa e do Mediterr\u00e2neo \u00e9 um museu nacional franc\u00eas (Nota do tradutor).<\/div><\/li><li><span>2<\/span><div> Trata-se de <em>La Dicha<\/em>, de Jorge Lu\u00eds Borges:<br>El que abraza a una mujer es Ad\u00e1n. La mujer es Eva.<br>Todo sucede por primera vez.<br>He visto una cosa blanca en el cielo. Me dicen que es la luna, pero<br>qu\u00e9 puedo hacer con una palabra y con una mitolog\u00eda.<br>Los \u00e1rboles me dan un poco de miedo. Son tan hermosos.<br>Los tranquilos animales se acercan para que yo les diga su nombre.<br>Los libros de la biblioteca no tienen letras. Cuando los abro surgen.<br>Al hojear el atlas proyecto la forma de Sumatra.<br>El que prende un f\u00f3sforo en el oscuro est\u00e1 inventando el fuego.<br>En el espejo hay otro que acecha.<br>El que mira el mar ve a Inglaterra.<br>El que profiere un verso de Liliencron ha entrado en la batalla.<br>He so\u00f1ado a Cartago y a las legiones que desolaron a Cartago.<br>He so\u00f1ado la espada y la balanza.<br>Loado sea el amor en el que no hay poseedor ni pose\u00edda, pero los dos se entregan.<br>Loada sea la pesadilla, que nos revela que podemos crear el infierno.<br>El que desciende a un r\u00edo desciende al Ganges.<br>El que mira un reloj de arena ve la disoluci\u00f3n de un imperio.<br>El que juega con un pu\u00f1al presagia la muerte de C\u00e9sar.<br>El que duerme es todos los hombres.<br>En el desierto vi la joven Esfinge, que acaban de labrar.<br>Nada hay tan antiguo bajo el sol.<br>Todo sucede por primera vez, pero de un modo eterno. (<em>La Dicha<\/em>, Jorge Lu\u00eds Borges)<br>(Nota do tradutor)<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta carta faz parte das <a href=\"https:\/\/cultureforum.eu\/programme\/letters-on-democracry\/\">Cartas sobre a democracia<\/a>, um projeto do <a href=\"https:\/\/cultureforum.eu\/\"> 4o F\u00f3rum sobre a cultura na Europa<\/a>, em junho de 2023, em Amsterdam. Organizado pela De Balie, o F\u00f3rum se concentra no significado e no futuro da democracia na Europa. Ele re\u00fane artistas, ativistas e intelectuais para explorar a democracia, sobretudo enquanto express\u00e3o cultural e n\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Para as Cartas sobre a democracia, cinco escritores examinam o futuro da Europa, em uma s\u00e9rie de cinco cartas, iniciada por Arnon Grunberg. Os escritores \u2013 Arnon Grunberg, Drago Jan\u010dar, Lana Basta\u0161i\u0107, Oksana Zabuzhko e Kamel Daoud \u2013 encontram-se durante o F\u00f3rum, no contexto de uma conversa sobre a Europa que nos espera e o papel do escritor nela.<span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":1900,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"Teste teste  a met\u00e1fora da Europa como uma \u201ccasa de <em>swing<\/em>\u201d. E por diversos motivos","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"1","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,52,2],"tags":[57,58,118,63,65],"class_list":["post-1687","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-cartas-abertas","category-traducoes","tag-cartas","tag-europa","tag-kamel-daoud","tag-politica","tag-sociedade"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1687","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1687"}],"version-history":[{"count":46,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1687\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2427,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1687\/revisions\/2427"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1900"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1687"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1687"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1687"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}