{"id":1645,"date":"2023-06-07T15:44:22","date_gmt":"2023-06-07T15:44:22","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=1645"},"modified":"2023-07-14T13:32:02","modified_gmt":"2023-07-14T13:32:02","slug":"carta-a-possiveis-amigos-sobre-a-europa-e-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/carta-a-possiveis-amigos-sobre-a-europa-e-o-futuro\/","title":{"rendered":"Carta a poss\u00edveis amigos sobre a Europa e o futuro<br><span style=\"font-size:16px\">Anon Grunberg<\/span>"},"content":{"rendered":"\n\n<p style=\"text-align:right;font-size:12px\"> A Europa \u00e9 uma conversa. As ideologias mort\u00edferas s\u00e3o sempre caracterizadas pela rejei\u00e7\u00e3o da pluralidade nas trocas.<br>Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n\n\n\n\n\n<div class=\"wp-block-button is-style-fill has-text-align-right\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/carta-a-unos-posibles-amigos-sobre-europa-y-el-futuro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Leia em espanhol<\/a><\/div>\n\n\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Queridos Lana Basta\u0161i\u0107, Kamel Daoud, Drago Jan\u010dar e Oksana Zabuzhko,<\/p><\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Como \u00e9 surreal e emocionante escrever uma carta para quatro pessoas, que nunca encontrei antes, sobre a Europa. H\u00e1 poucos assuntos que causam tantos mal-entendidos quanto a Europa. Parece um pouco a experi\u00eancia de entrar em uma casa de&nbsp;<em>swing,<\/em>&nbsp; pela primeira vez. Visto que muitas met\u00e1foras j\u00e1 foram feitas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa, por que n\u00e3o essa? Uma casa de&nbsp;<em>swing<\/em>.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">De qualquer forma, a Europa deve estar sempre em nossos cora\u00e7\u00f5es, ou bastante cerca, uma vez que todos concordamos em participar de um f\u00f3rum sobre a Europa e o Futuro da Democracia. N\u00e3o \u00e9 preciso ser um c\u00ednico para suspirar discretamente e se perguntar: de novo? Mais um Dia da Marmota? E embora nossas idades e contextos sejam diferentes, suponho que todos j\u00e1 fizemos parte de muitos encontros em que os participantes precisaram falar, em maior ou menor grau, sobre esse t\u00f3pico.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">O estado fr\u00e1gil em que a democracia liberal se encontra \u00e9 um fato. \u00c9 poss\u00edvel que a democracia liberal esteja mais fr\u00e1gil agora do que em 1990, digamos, mas a verdade \u00e9 que ela sempre foi fr\u00e1gil. A resposta para a pergunta sobre qu\u00e3o amea\u00e7ada e fr\u00e1gil se encontra a democracia liberal sempre depende do tempo e do lugar. Digo isso como um universalista relutante. Afinal, o in\u00edcio dos anos 90 tamb\u00e9m foi o per\u00edodo da guerra da Iugosl\u00e1via, que desapareceu do inconsciente coletivo, ao menos fora de seu antigo territ\u00f3rio. Em Sarajevo, em 1993, a fragilidade da democracia deve ter sido sentida de maneira diferente, se comparada a Paris, Londres ou Mil\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Como todos sabemos, em 1993, Susan Sontag foi a Sarajevo, uma cidade sitiada naquele momento, para dirigir&nbsp;<em>Esperando Godot<\/em>. Ela escreveu que j\u00e1 havia estado em Sarajevo antes e as pessoas lhe diziam: \u2018N\u00f3s somos parte da Europa. N\u00f3s somos aqueles cidad\u00e3os da antiga Iugosl\u00e1via que defendem os valores europeus: o secularismo, a toler\u00e2ncia religiosa e a multietnicidade. Como o resto da Europa pode deixar que isso aconte\u00e7a conosco?\u2019<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Sontag replicou \u2018que a Europa \u00e9 e sempre foi um lugar tanto de barb\u00e1rie quanto de civiliza\u00e7\u00e3o, mas eles n\u00e3o quiseram ouvir. Agora, alguns meses depois, ningu\u00e9m discutiria diante dessa afirmativa.\u2019<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Adorno, fil\u00f3sofo alem\u00e3o, afirmou que a barb\u00e1rie est\u00e1 inserida no pr\u00f3prio princ\u00edpio de civiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel discutir o que Adorno quis dizer exatamente, mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel concluir simplesmente que todas as civiliza\u00e7\u00f5es precisam de b\u00e1rbaros, fora de seus port\u00f5es ou dentro da comunidade, para que possam distinguir-se daqueles ainda incivilizados.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">N\u00e3o sou, de forma alguma, um conservador convicto, mas tenho minhas d\u00favidas sobre a capacidade dos seres humanos de viver sem um inimigo e sobre a possibilidade de moldar uma identidade coletiva sem inimigos reais ou sem fantasias sobre inimigos aparentes.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n<p>\n<figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/244766206-eb3e1fcc-9e00-46ad-9b3c-71f28c8d9eab.JPG\" alt=\"Azulejos da Igreja Nossa Senhora do Carmo, em Porto.\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\">Os muros decorados de azulejos da igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Porto, evocam a guerra santa contra os inimigos de Cristo. Os europeus sempre pretenderam justificar suas conquistas. Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure>\n<\/p>\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Tamb\u00e9m me pergunto se, ap\u00f3s trinta anos da visita de Sontag a Sarajevo, ainda \u00e9 poss\u00edvel reivindicar o secularismo, a toler\u00e2ncia religiosa e a multietnicidade como valores europeus.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Se n\u00e3o for esse o caso, sugiro que n\u00e3o nos lamentemos por muito tempo. A realidade n\u00e3o correspondeu \u00e0s nossas expectativas e a Europa nos desapontou. Mas sigamos em frente. A decep\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao presente \u00e9 t\u00e3o comum quanto a glorifica\u00e7\u00e3o de um passado quase sempre m\u00edtico. A outra face dessa moeda \u00e9 a tend\u00eancia de ver o passado, de prefer\u00eancia o nosso pr\u00f3prio passado, como uma s\u00e9rie de crimes e de contraven\u00e7\u00f5es que devem ser julgadas. Sou realmente a favor, e quem n\u00e3o \u00e9, de an\u00e1lises hist\u00f3ricas t\u00e3o meticulosas e imparciais quanto poss\u00edvel&nbsp;\u2013&nbsp;claro que uma an\u00e1lise hist\u00f3rica neutra n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, mas ainda assim. A tend\u00eancia de ver a hist\u00f3ria como um exerc\u00edcio de acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 inimiga do entendimento e da an\u00e1lise. H\u00e1 momentos em que n\u00e3o podemos evitar a condena\u00e7\u00e3o do passado, com o objetivo de corrigir uma situa\u00e7\u00e3o do presente. Mas nossos atos est\u00e3o claramente inseridos em uma zona nebulosa, embora existam inegavelmente v\u00edtimas e algozes, em que a moralidade e as escolhas feitas pelas pessoas nem sempre s\u00e3o claras. N\u00e3o estou certo de como eu me comportaria em condi\u00e7\u00f5es extremas de guerra ou de persegui\u00e7\u00e3o. Desde que cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que sou um pecador comum&nbsp;\u2013&nbsp;n\u00e3o sou nada religioso, mas as palavras \u2018pecador comum\u2019 resumem de forma clara essa zona nebulosa&nbsp;\u2013&nbsp;minhas expectativas sobre mim mesmo, diante de tais circunst\u00e2ncias, n\u00e3o s\u00e3o muito altas.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Todas as vezes que jantamos juntos, um amigo me diz que um pecador necessita de um futuro, enquanto um santo necessita de um passado. Espero que possamos concordar com o fato de que todos necessitamos de um futuro. A quest\u00e3o \u00e9: de que tipo de futuro necessitamos? E para quem? Dever\u00edamos incluir outros animais em nossos pensamentos e planos? Os burros da Europa tamb\u00e9m s\u00e3o europeus?<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\"> O poeta e dramaturgo alem\u00e3o Friedrich Schiller escreveu: \u2018<em>Deutschland?&nbsp;Aber wo liegt es?&nbsp;Ich wei\u00df das Land nicht zu finden; \/&nbsp;Wo das gelehrte beginnt,&nbsp;h\u00f6rt das politische auf<\/em>&#8216;<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000005de0000000000000000_1645\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1645-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000005de0000000000000000_1645-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\">Em tradu\u00e7\u00e3o livre, \u201cAlemanha? Mas onde fica? N\u00e3o sei como encontrar o pa\u00eds. Onde come\u00e7a a erudi\u00e7\u00e3o, termina o pol\u00edtico\u201d.<\/span>.Prometo, daqui em diante, n\u00e3o citar mais nomes. Mas ser\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel praticar a arte da conversa sem citar nome algum? Por uma raz\u00e3o ou por outra, sempre tive uma queda pela Alemanha. Embora tenha me mudado de Amsterdam para Nova Iorque, em 1995, eu adoraria me tornar alem\u00e3o no futuro, o que quer que ser alem\u00e3o signifique ou implique. No m\u00ednimo, \u00e9 preciso ter um passaporte alem\u00e3o. \u00c9 basicamente isso, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">De qualquer forma, a quest\u00e3o proposta por Schiller tamb\u00e9m pode ser facilmente aplicada \u00e0 Europa. A Alemanha encontrou suas fronteiras, ao menos no presente, mas a Europa ainda est\u00e1 tentando encontrar seus limites. Os brit\u00e2nicos queriam ser europeus&nbsp;<em>hors concours<\/em>&nbsp;e agora muitos deles est\u00e3o desapontados com esse status. Os brit\u00e2nicos foram ridicularizados o suficiente e eles s\u00e3o mestres em se auto ridicularizar, \u00e9 preciso dar-lhes o devido cr\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n<p>\n<figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/244766199-b4ed910b-7d64-43f8-95f5-6e2a70b74a60.jpg\" alt=\"capa do livro Die Welt von Gestern de Stefan Zweig\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\">Stefan Zweig se suicidou no Brasil, em 1944, ap\u00f3s ter se desesperado<br> com essa democracia liberal da qual fala o autor: as duas guerras mundiais<br> fizeram desaparecer a sociabilidade europeia e impuseram um nacionalismo matador,<br> cujas manifesta\u00e7\u00f5es persistem um s\u00e9culo mais tarde. Foto: Editor<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure>\n<\/p>\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\"> A Europa \u00e9 a hist\u00f3ria da Europa? Existe uma hist\u00f3ria comum? De quanta hist\u00f3ria precisamos para moldar nosso futuro? Precisamos de outra utopia? Ou dever\u00edamos, tendo nos tornado mais tristes e s\u00e1bios depois de tantas utopias fracassadas, tentar encontrar alguma felicidade na imperfei\u00e7\u00e3o?<\/p><\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">N\u00e3o devemos nos tornar prisioneiros da hist\u00f3ria ou prisioneiros dos mitos e das lendas frequentemente ligados ao relato hist\u00f3rico. Quando o conservadorismo e o tradicionalismo se deixam aprisionar, suas piores e mais intolerantes consequ\u00eancias come\u00e7am a tomar forma.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">A possibilidade de fuga para mim \u00e9 a ess\u00eancia do significado de ser um mortal, um ser humano ou como quisermos chamar. A fuga \u00e9 por vezes poss\u00edvel, outras inevit\u00e1vel;&nbsp; por vezes a fuga ser\u00e1 aplaudida, outras o artista em fuga ser\u00e1 chamado de covarde, mas isso n\u00e3o me interessa muito.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n<p>\n<figure> \n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/244766195-8f6a3477-a676-475d-8518-e5ae66b96302.jpg\" alt=\"capa do livro Danubio, de Claudio Magris\"><\/p>\n\n<figcaption>\n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\">Claudio Magris, que escreve desde Trieste, ilustra a pluralidade cultural e lingu\u00edstica europeia:<br>percorrer o Dan\u00fabio, da Su\u00ed\u00e7a \u00e0 Rom\u00eania, \u00e9 empreender uma forma de arqueologia cultural. Foto: Editor<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure>\n<\/p>\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Se quisesse defender a democracia liberal, e acredito estar disposto a faz\u00ea-lo (se morreria por ela j\u00e1 \u00e9 uma quest\u00e3o bem diferente), isso significaria para mim ser capaz de viver com pessoas que n\u00e3o t\u00eam qualquer admira\u00e7\u00e3o por esse sistema pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">N\u00e3o acredito que a dec\u00eancia esteja ligada ao fato de algu\u00e9m querer defender a democracia liberal. Isso seria uma grande falta de imagina\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de ir contra o esp\u00edrito de liberdade. \u00c9 dif\u00edcil saber se estamos falando de fato sobre a mesma coisa, quando nos referimos \u00e0s palavras \u2018democracia liberal.\u2019<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Eu diria at\u00e9 que \u00e9 arrogante assumir que, pelo fato de sermos autores, um dos nossos poucos atributos em comum, dever\u00edamos concordar com as mesmas opini\u00f5es e ter um conjunto de cren\u00e7as que nos une.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Para mim, a democracia liberal requer que eu seja capaz de viver ao lado de pessoas apaixonadas por coisas que desprezo e at\u00e9 de partilhar um jantar com elas. De forma um pouco exagerada, isso significa que devo ser capaz de viver com pessoas que desejam me matar. Desde de que elas se abstenham de coloc\u00e1-los em pr\u00e1tica, n\u00e3o tenho nenhum problema particular com seus desejos. Todos t\u00eam o direito a suas fantasias e passatempos, desde que respeitem a lei. Essa \u00e9 para mim outra caracter\u00edstica da democracia liberal, eu posso me sentir protegido pela lei e n\u00e3o tenho necessidade de fazer justi\u00e7a com minhas pr\u00f3prias m\u00e3os ou de subornar policiais, ju\u00edzes e promotores.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Tamb\u00e9m posso viver com pessoas de ideais pol\u00edticos que considero perigosos, repugnantes e provavelmente imorais. Nenhuma autoridade central nos indica o que pensar ou n\u00e3o pensar, quem admirar ou n\u00e3o admirar, em quem acreditar ou n\u00e3o acreditar. Esse \u00e9 o sistema a que estou me referindo.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Ao me mudar para Nova Iorque, me tornei europeu. Provavelmente, \u00e9 mais f\u00e1cil ser europeu quando n\u00e3o se vive na Europa.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">A Europa tamb\u00e9m \u00e9 um anseio, uma terra prometida e distante. Por\u00e9m, no momento em que colocamos os p\u00e9s na terra prometida, nos esquecemos da promessa.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que s\u00e3o muitas as tenta\u00e7\u00f5es. Ainda h\u00e1 trevas. Um certo fil\u00f3sofo&nbsp;\u2013&nbsp;sei que prometi n\u00e3o citar mais nomes&nbsp;\u2013&nbsp;afirmou que a liberdade \u00e9 estranha.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Mas uma tenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o corresponde a uma autoridade, com direito a servi\u00e7o secreto e a for\u00e7as armadas, mecanismos usados para impor um conjunto de cren\u00e7as a seus cidad\u00e3os. Talvez estejamos vivendo de fato sob o jugo do comercialismo&nbsp;\u2013&nbsp;sim, ser\u00e1 que o romance tem um futuro econ\u00f4mico ou dever\u00edamos excluir o dinheiro da equa\u00e7\u00e3o, de uma vez por todas, para que o artista necessite apenas de um patrono rico?&nbsp;\u2013&nbsp;mas isso n\u00e3o \u00e9 o mesmo que um regime brutal. Pensem no Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Se eu acreditar que sou um mission\u00e1rio, cuja tarefa \u00e9 converter outras pessoas, para que me sigam em minhas cren\u00e7as, minha vis\u00e3o de mundo, minhas lutas e minhas ideias sobre justi\u00e7a, eu n\u00e3o estarei levando a liberdade a s\u00e9rio. Um romancista pode ter sua pr\u00f3pria vis\u00e3o de mundo (ele provavelmente tem) e us\u00e1-la muitas vezes para seduzir os leitores, levando-os a ver o mundo atrav\u00e9s de seus olhos, mas isso n\u00e3o \u00e9 o mesmo que o ato de converter algu\u00e9m ativamente. Meu descontentamento com muitas discuss\u00f5es, com alguns de meus contempor\u00e2neos e alguns de meus melhores amigos, \u00e9 que eles n\u00e3o conseguem parar de converter as pessoas. Fa\u00e7a a coisa certa. Acredite na coisa certa. Diga a coisa certa. Eu n\u00e3o me tornei escritor para viver a vida ou a vida intelectual de um escoteiro.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n<p>\n<figure>\n<center>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/user-images.githubusercontent.com\/77118585\/244766203-aa99361b-b841-4414-90f2-393f8e47ea6c.JPG\" alt=\"azulejos da igreja Nossa Senhora do Carmo, em Porto.\"><\/p>\n\n<figcaption> \n<p style=\"text-align:center;font-size:12px\">A vontade de converter \u00e9 ant\u00edpoda a conversar. Ela excomunga, expulsa, censura, expurga e queima&nbsp;&#8212;&nbsp;livros e pessoas.<br> Essa afirma\u00e7\u00e3o de si \u00e9 contudo central para compreender a globaliza\u00e7\u00e3o europeia. <br>Aqui, uma fachada na igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Porto. Foto: G\u00e9rard Wormser<\/p>\n<\/figcaption>\n\n<p><\/center>\n<\/figure>\n<\/p>\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">A Europa \u00e9 mais que mera geografia? Se ela \u00e9 mais que mera geografia, como definir esse excedente? \u00c9 poss\u00edvel concordar com determinados valores sem torn\u00e1-los t\u00e3o gen\u00e9ricos, a ponto de que fique evidente o fato de terem sido formulados com o intuito de n\u00e3o ofender ningu\u00e9m?<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">O romancista sempre esteve presente para ofender as pessoas, mas n\u00e3o apenas em nome da ofensa.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Eu espero que o romancista trabalhe duro para ser o mais honesto poss\u00edvel, mas ser honesto e agrad\u00e1vel nem sempre \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Por outro lado, eu adoraria agradar e tamb\u00e9m adoraria ser lembrado como um sedutor de meio per\u00edodo, mas por outro, n\u00e3o desejo trair nossa profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Aqueles que nos convidam, aqueles que nos pagam ou nossos leitores podem n\u00e3o gostar daquilo que temos a dizer. Mas se o pior acontecer, sempre podemos pedir desculpas.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Espero encontr\u00e1-los em Amsterdam.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Fiquem bem,<\/p>\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Arnon Grunberg<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">Traduzido do ingl\u00eas por Clara Cerqueira<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<h3 class=\"modern-footnotes-list-heading modern-footnotes-list-heading--hide-for-print\">Notas<\/h3><ul class=\"modern-footnotes-list modern-footnotes-list--hide-for-print\"><li><span>1<\/span><div>Em tradu\u00e7\u00e3o livre, \u201cAlemanha? Mas onde fica? N\u00e3o sei como encontrar o pa\u00eds. Onde come\u00e7a a erudi\u00e7\u00e3o, termina o pol\u00edtico\u201d.<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta carta faz parte das <a href=\"https:\/\/cultureforum.eu\/programme\/letters-on-democracry\/\">Cartas sobre a democracia<\/a>, um projeto do <a href=\"https:\/\/cultureforum.eu\/\"> 4o F\u00f3rum sobre a cultura na Europa<\/a>, em junho de 2023, em Amsterdam. Organizado pela De Balie, o F\u00f3rum se concentra no significado e no futuro da democracia na Europa. Ele re\u00fane artistas, ativistas e intelectuais para explorar a democracia, sobretudo enquanto express\u00e3o cultural e n\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Para as Cartas sobre a democracia, cinco escritores examinam o futuro da Europa, em uma s\u00e9rie de cinco cartas, iniciada por Arnon Grunberg. Os escritores \u2013 Arnon Grunberg, Drago Jan\u010dar, Lana Basta\u0161i\u0107, Oksana Zabuzhko e Kamel Daoud \u2013 encontram-se durante o F\u00f3rum, no contexto de uma conversa sobre a Europa que nos espera e o papel do escritor nela.<span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":1816,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[4,52,2],"tags":[119,57,58,63,65],"class_list":["post-1645","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-cartas-abertas","category-traducoes","tag-anon-grunberg","tag-cartas","tag-europa","tag-politica","tag-sociedade"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1645","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1645"}],"version-history":[{"count":65,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1645\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2459,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1645\/revisions\/2459"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1816"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1645"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1645"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1645"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}