{"id":1139,"date":"2022-06-02T17:15:37","date_gmt":"2022-06-02T17:15:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=1139"},"modified":"2023-07-14T13:32:15","modified_gmt":"2023-07-14T13:32:15","slug":"o-futuro-de-uma-ilusao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/o-futuro-de-uma-ilusao\/","title":{"rendered":"O FUTURO DE UMA ILUS\u00c3O ou como o campismo obliterou o internacionalismo prolet\u00e1rio no conflito russo ucraniano<br><span style=\"font-size:16px\">Roberto Ponciano<\/span>"},"content":{"rendered":"\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa obra pouco lida e discutida no Brasil (infelizmente), denominada <em>Quest\u00e3o de m\u00e9todo<\/em> (Sartre <a href=\"https:\/\/stylo.ecrituresnumeriques.ca\/api\/v1\/htmlArticle\/627d290445a9e50013c4ac4c?preview=true#ref-sartre_questao_1972\">1972<\/a>), o fil\u00f3sofo Jean-Paul Sartre falava de um certo historicismo marxista nada racional, que ele acusava de ser antidial\u00e9tico, j\u00e1 que prejulgava em lugar de analisar. N\u00e3o por outra raz\u00e3o, Sartre escusava o termo materialismo dial\u00e9tico (que ele via como uma absolutiza\u00e7\u00e3o reificada da dial\u00e9tica), mas defendia o materialismo hist\u00f3rico. Este pequeno texto n\u00e3o \u00e9 sobre Sartre, ent\u00e3o n\u00e3o vou discutir os embates entre a ala fenomenologista existencialista de esquerda versus o materialismo dial\u00e9tico, mas come\u00e7o o texto, que em termos de metodologia geral, e continuo a me colocar ao lado dos materialistas dial\u00e9ticos, no entanto, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 reifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 dogmatiza\u00e7\u00e3o de uma teoria, Sartre tinha sobradas raz\u00f5es.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">E o que \u00e9 a reifica\u00e7\u00e3o de uma teoria? \u00c9 quando esta teoria se torna uma realidade \u00e0 parte. Assim como os moinhos diante de Quixote se tornam verdadeiros gigantes, o que vale s\u00e3o os pr\u00e9-ju\u00edzos da teoria que apenas classificam uma realidade sem fazer a s\u00edncrese, a s\u00edntese e a an\u00e1lise. H\u00e1 um prejulgamento te\u00f3rico para o qual a realidade tem que se encaixar, em geral, de forma moralista e manique\u00edsta, e todo aquele que discordar desta forma de se analisar a hist\u00f3ria tem que ser denunciado como um \u00edmpio e traidor.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta forma de prejulgamento, apenas pretensamente cient\u00edfica, tem dois inconvenientes. O primeiro \u00e9 que suprime fatos. Trabalha sempre por aproxima\u00e7\u00e3o. Todos aqueles fatos que forem contra a minha conclus\u00e3o, eu os ignoro, para que meu pr\u00e9-ju\u00edzo fa\u00e7a sentido, e real\u00e7o aqueles que s\u00e3o a meu favor. A todos os que s\u00e3o contra, basta eu apresentar a fal\u00e1cia: <em>ad hominem<\/em>, e acus\u00e1-los de serem inimigos da minha causa, para dar ao meu ju\u00edzo apod\u00edtico, a forma perfeita de um julgamento moral, ao qual n\u00e3o cabe d\u00favida. O segundo inconveniente \u00e9 que, quando este tipo de pr\u00e9-ju\u00edzo moral se torna pr\u00e1tica cotidiana, a pregui\u00e7a de pensar cria imensos guetos de pensamento \u00fanico que transformam partidos em seitas \u2013 n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para d\u00favidas, em casos muito complexos.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal racioc\u00ednio se aplica ao conflito entre a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia, por exemplo, onde ocorre um debate encarni\u00e7ado sobre desdobramentos de um fato, cujo desenrolar, nenhum ser sobre o planeta pode ter, uma previs\u00e3o segura. N\u00e3o obstante, nos confrontamos com argumenta\u00e7\u00f5es que expressam uma certeza real: nas seitas dos ju\u00edzos apod\u00edticos, qualquer d\u00favida sobre este sofisma tem que ser combatida como uma conspira\u00e7\u00e3o de quintas colunas egressos da CIA. Sartre exemplificava essa situa\u00e7\u00e3o ao analisar posi\u00e7\u00f5es da esquerda europeia, na d\u00e9cada de sessenta: as invas\u00f5es da URSS na Hungria, em 1956, e na Tchecoslov\u00e1quia, em 1968. Dias ap\u00f3s a incurs\u00e3o terrestre dos tanques do Pacto de Vars\u00f3via, ambos os lados da contenda te\u00f3rica da esquerda &#8211; os stalinistas e os trotskystas &#8211; j\u00e1 tinham a convic\u00e7\u00e3o sobre os fatos. Para os stalinistas, a URSS estava salvando o mundo da OTAN, da contrarrevolu\u00e7\u00e3o e do capitalismo; do outro lado, os trotskystas, objetivamente, sustentavam que a burocracia stalinista de um pa\u00eds de capitalismo de Estado afogava em sangue a experi\u00eancia revolucion\u00e1ria de dois povos. Sartre apenas perguntava: como poderiam ter tanta certeza, em poucos dias, de fatos, cuja compreens\u00e3o e an\u00e1lise nos escapam at\u00e9 hoje?<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Os movimentos em 56 e 68, disseminados nos ex-Estados de socialismo real, que n\u00e3o passaram por uma revolu\u00e7\u00e3o e tiveram regimes pr\u00f3-URSS institu\u00eddos a partir da guerra de liberta\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Vermelho, continham fatores t\u00e3o complexos que iam desde a tentativa de restaura\u00e7\u00e3o de um modelo de mercado (movimentos dissidentes da esquerda pr\u00f3 autonomia e participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica) a movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional, os quais nutriam um \u00f3dio secular \u00e0 domina\u00e7\u00e3o anterior do Imp\u00e9rio Russo. Nada disto entrava na balan\u00e7a ou era simplesmente considerado, j\u00e1 que os ju\u00edzos apod\u00edticos n\u00e3o ligam para os fatos. Se os fatos n\u00e3o se encaixam em meus argumentos, danem-se os fatos!<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa coisa Sartre estava muito correto: isso n\u00e3o \u00e9 dial\u00e9tica! Nunca foi. Marx e L\u00eanin nunca analisaram hist\u00f3ria assim e nunca elidiram os povos e as classes sociais em suas an\u00e1lises. O internacionalismo prolet\u00e1rio e o princ\u00edpio da guerra justa e injusta n\u00e3o s\u00e3o um princ\u00edpio abstrato, amorfo, \u201cdado para sempre\u201d, em absoluto. Est\u00e3o ligados \u00e0 an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o concreta. N\u00e3o por outra raz\u00e3o, L\u00eanin, tornando-se pequena minoria no movimento social-democrata em 1914, junto com Rosa Luxemburgo, Liebknetch e outros poucos, denunciou, desde o primeiro segundo, as guerras injustas nacionais e nacionalistas.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00eanin nunca teve d\u00favida sobre que \u201cp\u00e1tria\u201d defender na batalha entre um imperialismo dominante (o ingl\u00eas) e outro que tentava ascender (o alem\u00e3o). A consigna baseada na an\u00e1lise da realidade e do car\u00e1ter de classes era, \u00e9 e ser\u00e1: o proletariado n\u00e3o pode apoiar nenhuma guerra em que os trabalhadores se matem em nome dos seus patr\u00f5es. Paz entre n\u00f3s, guerra aos senhores! Que as nossas balas sejam destinadas aos nossos generais! L\u00eanin foi ca\u00e7ado como um c\u00e3o, tachado de espi\u00e3o alem\u00e3o, sua cabe\u00e7a estava a pr\u00eamio e, se fosse preso durante a guerra, seria executado. Rosa Luxemburgo, sua parceira de primeira hora na luta contra todas as guerras imperialistas, foi executada com um tiro na cabe\u00e7a. Estas posi\u00e7\u00f5es t\u00eam pouco, na verdade nada que ver, com os ju\u00edzos apod\u00edticos sobre a invas\u00e3o (sim, o nome \u00e9 invas\u00e3o) da R\u00fassia contra a Ucr\u00e2nia. O que a esquerda brasileira passou a utilizar para analisar a realidade, na verdade, s\u00e3o muitas coisas, menos o marxismo e muito menos dial\u00e9tico.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">O campismo no Brasil assemelha-se, assim, muito mais \u00e0 escola reacion\u00e1ria \u201chist\u00f3rica\u201d alem\u00e3 positivista, que v\u00ea o mundo \u201ca partir da geopol\u00edtica\u201d e dos aparatos estatais e militares. Essa escola, \u00e0 primeira vista, parece realista, mas, no fundo, \u00e9 positivista e reacion\u00e1ria. Primeiro, porque a hist\u00f3ria \u00e9 feita pelas grandes lideran\u00e7as, pelos grandes \u201cestadistas\u201d e os \u201cgrandes generais\u201d que comandam seus ex\u00e9rcitos. Buchas de canh\u00e3o, os povos s\u00e3o um mero detalhe. Essa paix\u00e3o demonstrada por parte da esquerda brasileira pelo ex-agente da KGB e que hoje faz parte de uma elite que assaltou o Estado russo, Vladimir Putin, manifesta a mesma raiz positivista. A hist\u00f3ria \u00e9 feita pelos grandes l\u00edderes. Nem Marx, nem L\u00eanin, muito menos Sartre acreditavam nisso. Nessas circunst\u00e2ncias, o povo, as classes sociais e os coletivos de pessoas desaparecem: simplesmente n\u00e3o s\u00e3o importantes. N\u00e3o por acaso, nas \u00faltimas semanas escutei as maiores banalidades serem tratadas com ares cient\u00edficos: \u201cna an\u00e1lise da hist\u00f3ria temos que ser pragm\u00e1ticos\u201d \u2013 como se o pragmatismo n\u00e3o fosse tamb\u00e9m uma ideologia e uma superestrutura capaz de justificar tudo, at\u00e9 Hitler. \u201cN\u00e3o h\u00e1 moralismo na an\u00e1lise hist\u00f3rica\u201d. \u00c9 \u00f3bvio que n\u00e3o h\u00e1, mas s\u00e3o voc\u00eas, senhores, que escolheram um lado como portador de uma moral supra hist\u00f3rica, e assim querem nos convencer que uma guerra de invas\u00e3o \u00e9 boa, desde que seja empreendida por um inimigo do meu inimigo.<cite><\/cite><\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Poderia encher p\u00e1ginas com a cole\u00e7\u00e3o de frivolidades apod\u00edticas que d\u00e3o uma apar\u00eancia moral progressista ao pr\u00e9-ju\u00edzo que existe por tr\u00e1s do apoio a esta guerra, mas fugiria largamente do escopo deste artigo. A an\u00e1lise \u201cgeopol\u00edtica\u201d \u00e9 apenas pretensamente cient\u00edfica, porque \u00e9, acima de tudo, reacion\u00e1ria. Atrav\u00e9s dela, somem os verdadeiros atores coletivos e tudo fica subsumido a uma disputa entre pot\u00eancias, nas quais devemos tomar um lado como numa decis\u00e3o de Copa do Mundo. A <em>Real Politik<\/em>, sem dial\u00e9tica, transforma-se no fim da hist\u00f3ria, onde n\u00e3o h\u00e1 op\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. No caso concreto da invas\u00e3o russa, a primeira coisa a se sacrificar, na an\u00e1lise, \u00e9 a historicidade real e dial\u00e9tica (n\u00e3o esta reacion\u00e1ria, tomada de empr\u00e9stimo \u00e0 escola alem\u00e3 e dissimulada como \u201cgeopol\u00edtica\u201d marxista). E n\u00e3o! A Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 nem uma inven\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, nem um acampamento de nazistas. Essa an\u00e1lise manique\u00edsta quer tornar o inimigo do meu inimigo em um grande Sat\u00e3 a ser aniquilado para que, ao ju\u00edzo apod\u00edtico daqueles, n\u00e3o caiba nenhuma d\u00favida sobre em que lado devem estar.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhum marxista vai negar o papel agressor da OTAN, muito menos a utiliza\u00e7\u00e3o de grupos pr\u00f3-nazistas ucranianos para desestabiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 da R\u00fassia, mas de outros pa\u00edses. Ningu\u00e9m vai negar a ilegitimidade da repress\u00e3o em Donbass, ou a eclos\u00e3o do sentimento anti-russo por parte do governo ucraniano. Mas, a na\u00e7\u00e3o ucraniana n\u00e3o \u00e9 uma base nazista, o governo eleito, depois de um golpe, o qual podemos questionar a legitimidade, n\u00e3o \u00e9 composto, em sua maioria, por elementos do partido nazista, partido que sequer conseguiu eleger um deputado para o novo parlamento. As hostilidades russo-ucranianas remontam ao grande Imp\u00e9rio Russo, \u00e0s na\u00e7\u00f5es que este Imp\u00e9rio subjugou, e \u00e0 sua pol\u00edtica de gr\u00e3o-chauvinismo russo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s nacionalidades. Esses problemas n\u00e3o foram resolvidos com a revolu\u00e7\u00e3o de 1917, muito menos com a guerra civil posterior. Durante a Segunda Guerra Mundial, parte da Ucr\u00e2nia, que tinha um governo colaboracionista pr\u00f3-Hitler e contava com um gigantesco ex\u00e9rcito, lutou junto com os nazistas, fornecendo oficiais ucranianos a fazerem parte do corpo de estrangeiros da SS. A conclus\u00e3o antidial\u00e9tica a que chegam os que analisam a Ucr\u00e2nia \u00e9 que ela j\u00e1 era pr\u00f3-nazista antes de Hitler chegar l\u00e1, e n\u00e3o que o sentimento pr\u00f3-nazista estava calcado num sentimento de bases hist\u00f3ricas primeiro anti-russo e, depois, anti-sovi\u00e9tico. Os fatos hist\u00f3ricos s\u00e3o substitu\u00eddos por confusos genes ou DNAs fascistas <em>ad eternum<\/em>, que n\u00e3o s\u00e3o explicados por fatos hist\u00f3ricos, mas por sentimentos que devem estar, <em>a priori<\/em>, na \u201calma dos ucranianos\u201d.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:quote -->\n\n<blockquote>\n<h4>&#8220;Invas\u00e3o \u00e9 invas\u00e3o, e nenhuma guerra de invas\u00e3o jamais foi vencida na humanidade. Nenhuma, a n\u00e3o ser que se extermine o povo que antes morava naquele territ\u00f3rio&#8221;.<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><cite>Roberto Ponciano<\/cite><\/h4>\n<\/blockquote>\n\n<!-- \/wp:quote -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a dissolu\u00e7\u00e3o da URSS, boa parte do revisionismo hist\u00f3rico nazifascista na Ucr\u00e2nia alimenta-se exatamente dessa rivalidade com o vizinho poderoso e permanentemente amea\u00e7ador. Os nazistas n\u00e3o t\u00eam nenhuma raz\u00e3o, mas se nutrem da amea\u00e7a real. Ali\u00e1s, o nazismo e o fascismo sempre se utilizaram do medo que assola o imagin\u00e1rio para avan\u00e7ar. Ainda assim, a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o votou, nem elegeu um governo pr\u00f3-fascista. H\u00e1 alas deste governo que s\u00e3o de extrema direita, mas o que verdadeiramente pode causar dano ao mundo \u00e9 a aventura belicista da Ucr\u00e2nia tentando abrir suas fronteiras para a OTAN. Vejam, n\u00e3o escrevi nada que seja novidade ou de desconhecimento p\u00fablico, mas ao contr\u00e1rio do julgamento da \u201cgente da geopol\u00edtica\u201d n\u00e3o utilizo a dial\u00e9tica para apoiar uma invas\u00e3o, muito menos para justificar a ocupa\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia. O princ\u00edpio das guerras justas e injustas de L\u00eanin n\u00e3o \u00e9 um princ\u00edpio vazio. Tal princ\u00edpio atrela ao car\u00e1ter de classe a defini\u00e7\u00e3o de uma guerra ser progressista ou reacion\u00e1ria. Uma guerra de liberta\u00e7\u00e3o popular, de revolu\u00e7\u00e3o socialista ou de revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica contra uma tirania s\u00e3o exemplos de uma guerra justa.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata meramente de um princ\u00edpio pacifista burgu\u00eas, at\u00e9 porque parte do que conhecemos historicamente sobre o capitalismo tamb\u00e9m significa guerra e que s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel pensar em um mundo sem guerras quando pensarmos em um mundo sem capitalismo. Vi muita gente da geopol\u00edtica xingando quem est\u00e1 contra a invas\u00e3o do pacifista liberal russo. A contradi\u00e7\u00e3o desse discurso \u00e9 que citam L\u00eanin s\u00f3 at\u00e9 a p\u00e1gina 3. L\u00eanin nunca disse que n\u00e3o era um pacifista. Ele foi um pacifista revolucion\u00e1rio comunista para quem o fim de todas as guerras \u00e9 o fim do capitalismo, ou seja, ao fim e ao cabo, L\u00eanin \u00e9, sim, o maior dos pacifistas.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Para um socialista, um comunista, um revolucion\u00e1rio e um internacionalista prolet\u00e1rio, uma guerra s\u00f3 pode se justificar se for UMA GUERRA DE LIBERTA\u00c7\u00c3O. Que a R\u00fassia (que n\u00e3o \u00e9 um Estado socialista) houvesse apoiado a guerra de independ\u00eancia dos povos separatistas da Ucr\u00e2nia seria um fato completamente incensur\u00e1vel para qualquer leninista, pois cabe dentro das obriga\u00e7\u00f5es da luta pelo socialismo. Que o pa\u00eds capitalista R\u00fassia invada a Ucr\u00e2nia, destrua seu ex\u00e9rcito, derrube seu governo e mantenha indefinidamente um governo pr\u00f3-Moscou l\u00e1 n\u00e3o tem nenhum suporte nos princ\u00edpios tanto das guerras justas, quanto do internacionalismo prolet\u00e1rio. Sim, esses princ\u00edpios e essa an\u00e1lise foram substitu\u00eddos por outra teoria, N\u00c3O MARXISTA, chamada, desde h\u00e1 muito, de \u201cgeopol\u00edtica\u201d (pseudocienticifista), passando por cima de toda a hist\u00f3ria e a tradi\u00e7\u00e3o do marxismo-leninismo.<\/p>\n\n<!-- \/wp:quote -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os argumentos pr\u00f3-invas\u00e3o s\u00e3o mais emocionais que \u201ccient\u00edficos\u201d. Demos nome aos bois. Invas\u00e3o \u00e9 invas\u00e3o, e nenhuma guerra de invas\u00e3o jamais foi vencida na humanidade. Nenhuma, a n\u00e3o ser que se extermine o povo que antes morava naquele territ\u00f3rio. At\u00e9 hoje Israel n\u00e3o conseguiu subjugar a Palestina, e nunca conseguir\u00e1. Ser\u00e1 um encrave e um territ\u00f3rio ocupado permanentemente, isto \u00e9, uma ocupa\u00e7\u00e3o militar mantida a ferro e fogo. Nada diferente ocorreu no Vietn\u00e3, no Iraque e no Afeganist\u00e3o, este ocupado, em diferentes momentos, por cada uma das duas pot\u00eancias, a URSS e os EUA, e que acabaram sendo expulsas de l\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda para uma \u201cguerra limitada\u201d na Ucr\u00e2nia. Trata-se apenas de uma grande mentira que queremos contar para n\u00f3s mesmos. A \u00fanica maneira de a R\u00fassia manter o controle da regi\u00e3o \u00e9 cravar permanentemente um ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o (como os EUA no Kosovo). Teremos, ent\u00e3o, um governo tutelado pelos militares (como na Bielorr\u00fassia). E isso tem pouco que ver com socialismo, autodetermina\u00e7\u00e3o ou emancipa\u00e7\u00e3o dos povos.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image {\"id\":902,\"sizeSlug\":\"large\",\"linkDestination\":\"media\"} -->\n\n<div style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/05\/22_04_17_2d1b494_ppp-ukraine-crisis-mariupol-0417-11_Alexander_Ermochenko.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/05\/22_04_17_2d1b494_ppp-ukraine-crisis-mariupol-0417-11_Alexander_Ermochenko-1024x682.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"682\"><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Um homem anda perto de um edif\u00edcio residencial destru\u00eddo durante o conflito Ucr\u00e2nia-R\u00fassia na cidade portu\u00e1ria de Mariupol, sul da Ucr\u00e2nia, 17 de abril, 2002. REUTERS\/Alexander Ermochenko<\/p><\/div>\n\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: inherit;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Poderemos dourar a p\u00edlula se queiram, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma vit\u00f3ria parcial, assim como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma vit\u00f3ria sem ocupa\u00e7\u00e3o permanente e sem tutela permanente da Ucr\u00e2nia. Tal fa\u00e7anha n\u00e3o far\u00e1 avan\u00e7ar em nada o multilateralismo. T\u00e3o somente refor\u00e7ar\u00e1 as solu\u00e7\u00f5es de for\u00e7a nos conflitos, a ideia da legitimidade da ocupa\u00e7\u00e3o do mais forte e, num momento em que se criava um consenso entre os povos da Europa e se abria um debate sobre sua desnecessidade, a OTAN reativar\u00e1 o seu papel como uma \u201calian\u00e7a defensiva\u201d. Se a ideia era fazer a OTAN recuar, o contingente e o investimento militar nas ex-rep\u00fablicas do socialismo real, como Hungria e Pol\u00f4nia, aumentar\u00e3o exponencialmente nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece um jogo de cartas marcadas. Todos aqueles que antev\u00eaem uma \u201cvit\u00f3ria espetacular\u201d da R\u00fassia omitem o fato de os EUA jubilosamente reconhecerem que n\u00e3o podem ajudar um pa\u00eds \u201cn\u00e3o membro da OTAN\u201d, enquanto dobram ou triplicam sua presen\u00e7a nos outros pa\u00edses circunvizinhos. Se antes da guerra os EUA eram o \u00fanico vil\u00e3o, depois da guerra eles passam a serem vistos com simpatia por h\u00fangaros, poloneses, tchecos, etc. Se isto n\u00e3o \u00e9 um gol contra, as an\u00e1lises devem estar sendo feitas evitando todas as contradi\u00e7\u00f5es. No calor da luta, no qual 99% da esquerda brasileira decidiram vestir uma camisa de urso e fingir que Putin \u00e9 St\u00e1lin combatendo o avan\u00e7o de Hitler pelo mundo, \u00e9 quase imposs\u00edvel que se analisem as contradi\u00e7\u00f5es. Guerra de invas\u00e3o \u00e9 guerra de invas\u00e3o, e n\u00e3o se justifica nos princ\u00edpios socialistas e comunistas. Cabe alertar para o futuro de uma ilus\u00e3o.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A guerra come\u00e7ou h\u00e1 alguns dias, mas n\u00e3o ser\u00e1 breve. Seus resultados futuros est\u00e3o condicionados \u00e0 derrubada de um governo cuja legitimidade cabe apenas ao pr\u00f3prio povo ucraniano definir (e n\u00e3o ao governo do pa\u00eds vizinho). Tendo gerado um sentimento anti-russo na Ucr\u00e2nia, que foi durante mais de um s\u00e9culo uma na\u00e7\u00e3o sem Estado (assim como s\u00e3o os curdos, os bascos, os irlandeses, os palestinos, entre outros), a guerra tende a perdurar por d\u00e9cadas.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph {\"align\":\"left\"} -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda guerra de invas\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil de se vencer na sua primeira fase (invas\u00e3o) e absolutamente imposs\u00edvel de se vencer numa segunda fase (ocupa\u00e7\u00e3o). Uma ocupa\u00e7\u00e3o permanente russa ser\u00e1 o corol\u00e1rio permanente uma leg\u00edtima guerra de autodetermina\u00e7\u00e3o ucraniana, que, por sua vez, sempre ser\u00e1 gestada exatamente contra os russos. A invas\u00e3o n\u00e3o trar\u00e1 a paz, mas apenas a retroalimenta\u00e7\u00e3o de uma guerra de ocupa\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph {\"align\":\"right\"} -->\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Roberto Ponciano<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:heading -->\n\n<h2>Bibliografia<\/h2>\n\n<!-- \/wp:heading -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p>Sartre, Jean-Paul. 1972. <em>Quest\u00e3o de M\u00e9todo<\/em>. 3 edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo, SP: Difel-Difus\u00e3o Europeia Do Livro<\/p>\n\n<!-- wp:heading -->\n\n<h2>Nota da reda\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n<!-- \/wp:heading -->\n\n<!-- wp:html -->\n\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNossa opera\u00e7\u00e3o militar especial na Ucr\u00e2nia tamb\u00e9m contribui para o processo de liberta\u00e7\u00e3o do mundo da opress\u00e3o neocolonial do Ocidente, fortemente misturada ao racismo e a um complexo de exclusividade. Quanto mais cedo o Ocidente se conformar com as novas realidades geopol\u00edticas, melhor ser\u00e1 para si mesmo e para toda a comunidade internacional.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n<!-- \/wp:html -->\n\n<!-- wp:html -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Na v\u00e9spera de 1 de maio de 2022, estas palavras de Sergei Lavrov, Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da R\u00fassia, elogiam uma frente anti-imperialista contra o Ocidente. Esta ret\u00f3rica de uma \u201cnova ordem geopol\u00edtica\u201d constitu\u00edda com a China passa em sil\u00eancio a agress\u00e3o caracterizada da Ucr\u00e2nia, um pa\u00eds associado ao projeto socialista dos russos entre 1921 e 1991 e que se une ao Ocidente apenas por causa dos repetidos e assassinos ataques russos, que reconstituem a l\u00f3gica dos blocos de outra \u00e9poca. Roberto Ponciano, desde o in\u00edcio da guerra, alertou os militantes brasileiros contra qualquer confus\u00e3o. O <em>Coletivo Brasil<\/em> considera sua contribui\u00e7\u00e3o essencial em um momento em que o correspondente do <em>Le Monde<\/em> no Brasil aponta que as ambiguidades dos pol\u00edticos brasileiros est\u00e3o se tornando cr\u00edticas:<\/p>\n\n<!-- \/wp:html -->\n\n<!-- wp:html -->\n\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201co PT e seu l\u00edder voltaram a declara\u00e7\u00f5es mais radicais, apoiando os regimes cubano, venezuelano e nicaraguense de bra\u00e7o dado, e assim assumindo um lugar secund\u00e1rio no conflito ucraniano. O gigante latino-americano precisa mais do que nunca de um estadista pronto para assumir posi\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis e corajosas na cena internacional\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n<!-- \/wp:html -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A reflex\u00e3o de Ponciano demonstra sua contemporaneidade, mesmo a guerra j\u00e1 tendo entrado em seu terceiro m\u00eas, j\u00e1 que parte das lideran\u00e7as de esquerda ainda se associa \u00e0s posi\u00e7\u00f5es russas como se assim defendessem o ide\u00e1rio socialista. Os pr\u00f3ximos meses dir\u00e3o se ainda h\u00e1 alguma esquerda coerente.<\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph {\"dropCap\":true} -->\n\n<p class=\"has-drop-cap\"><\/p>\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n\n<!-- \/wp:paragraph -->\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roberto Ponciano considera que a an\u00e1lise p\u00fablica, disseminada pelas redes sociais sobre a Invas\u00e3o da R\u00fassia na Ucr\u00e2nia e constru\u00edda a partir dos ju\u00edzos apod\u00edticos, refor\u00e7a a ilus\u00e3o de uma moral progressista que camufla um apoio reacion\u00e1rio recortado de um contexto hist\u00f3rico. A invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, al\u00e9m de ser utilizada como conte\u00fado midi\u00e1tico pelo universo dos algoritmos extremistas, dissipa as verdadeiras quest\u00f5es humanit\u00e1rias e tudo fica subsumido a uma disputa entre pot\u00eancias b\u00e9licas, nas quais, os partidos pol\u00edticos tomam um lado como numa decis\u00e3o de Copa do Mundo.<span>&#91;&#8230;&#93;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":904,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"_FSMCFIC_featured_image_caption":"","_FSMCFIC_featured_image_nocaption":"","_FSMCFIC_featured_image_hide":"","footnotes":""},"categories":[47,76],"tags":[31,120,30,29],"class_list":["post-1139","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-coletivos-institucionais","category-politica","tag-esquerda-brasileira","tag-roberto-ponciano","tag-russia","tag-ucrania"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1139","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1139"}],"version-history":[{"count":44,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1139\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2478,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1139\/revisions\/2478"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/904"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1139"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1139"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1139"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}