{"id":101,"date":"2018-07-17T18:54:28","date_gmt":"2018-07-17T18:54:28","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/?p=101"},"modified":"2023-07-14T13:37:08","modified_gmt":"2023-07-14T13:37:08","slug":"luto-para-nos-e-verbo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/luto-para-nos-e-verbo\/","title":{"rendered":"Luto para n\u00f3s \u00e9 verbo!<br><span style=\"font-size:16px\">Joseanes Santos<\/span>"},"content":{"rendered":"\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Essa foi a frase que ecoou no Brasil no dia 14 de mar\u00e7o de 2018. Mulheres negras choravam a dor do assassinato da Marielle Franco.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n<p><div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><a href=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/WhatsApp-Image-2021-05-18-at-18.09.13.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/WhatsApp-Image-2021-05-18-at-18.09.13-768x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-813\" width=\"287\" height=\"382\" srcset=\"http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/WhatsApp-Image-2021-05-18-at-18.09.13-768x1024.jpeg 768w, http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/WhatsApp-Image-2021-05-18-at-18.09.13-225x300.jpeg 225w, http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/WhatsApp-Image-2021-05-18-at-18.09.13-1152x1536.jpeg 1152w, http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/WhatsApp-Image-2021-05-18-at-18.09.13-518x690.jpeg 518w, http:\/\/blog.sens-public.org\/coletivobrasil\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/05\/WhatsApp-Image-2021-05-18-at-18.09.13.jpeg 1200w\" sizes=\"(max-width: 287px) 100vw, 287px\" \/><\/a><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p><\/p><\/p>\n\n<figcaption class=\"wp-element-caption\">Manifesta\u00e7\u00e3o contra Jair Bolsonaro na Place de la R\u00e9publique em Paris, 2018 <br>Imagem: Junia Barreto<\/figcaption>\n\n<p><\/figure>\n<\/div><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"font-size: inherit;\">Quando recebi a not\u00edcia da morte da Marielle Franco fiquei abatida pela tristeza. Durante todo dia me lembrava das semelhan\u00e7as entre n\u00f3s: mulher negra, militante, m\u00e3e, de origem perif\u00e9rica, do ax\u00e9, vozes de den\u00fancia da viol\u00eancia estatal e pol\u00edcial. O tempo todo eu pensava: ela era uma de n\u00f3s. A m\u00eddia falava que a execu\u00e7\u00e3o da vereadora Marielle foi como um ataque a democracia. Para mim n\u00e3o foi s\u00f3 isto. Foram quatro tiros para nos intimidar, para nos silenciar.<\/span><\/p>\n\n<div align=\"justify\">\n<p><span style=\"font-size: inherit;\">Marielle, l\u00e9sbica, intelectualizada, rompeu barreiras sem negar suas origens, inverteu a ordem da pir\u00e2mide social, onde \u00e9 comum a mulher negra estar na base carregando todo o peso do trabalho precarizado e desvalorizado. Mestra em administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, trouxe a p\u00fablico quest\u00f5es vivenciadas por grupos historicamente discriminados e resinificou o lugar da mulher negra em todas as faces do preconceito de g\u00eanero e ra\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: inherit;\">Durante a sua vida interrompida barbaramente, Marielle em sua trajet\u00f3ria comprovou o que disse Ang\u00eala Davis: \u201cquando uma mulher negra se movimenta, toda a sociedade se movimenta com ela\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: inherit;\">A como\u00e7\u00e3o nacional que se deu pela morte da Marielle e do motorista Anderson dialoga com as condi\u00e7\u00f5es de vida de milhares de afro-brasileiros. As categorias de g\u00eanero e ra\u00e7a s\u00e3o geradoras de desigualdades que n\u00f3s mulheres negras suportamos sozinhas. Somos 23% da popula\u00e7\u00e3o feminina, totalmente invisibilizadas como sujeitas de direito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: inherit;\">Segundo o Mapa da Viol\u00eancia do ano de 2015, em dez anos o homic\u00eddio de mulheres negras aumentou 54%, enquanto o das mulheres brancas caiu 9,8%. Para n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que n\u00e3o haja nenhuma pol\u00edtica p\u00fablica voltada para minimizar o racismo que nos atinge de forma atroz. Trata-se da mais pura express\u00e3o do racismo institucional.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: inherit;\">Os tiros que mataram a Marielle queriam calar a voz de uma subalterna ao olhar do opressor. Foram os mesmos assassinos de Dandara, l\u00edder quilombola (1695); Cl\u00e1udia Silva Ferreira (2014), m\u00e3e, mulher negra, favelada, arrastada por 350 metros em vias p\u00fablicas por uma viatura ap\u00f3s ter levado um tiro no peito disparado pela pol\u00edcia quando saiu para comprar comida para seus filhos. Tamb\u00e9m foram os assassinos de Luana Barbosa dos Reis (2016), espancada publicamente at\u00e9 a morte por policiais; e de Maria Eduarda (2017), menina de 13 anos morta a tiros dentro da escola. Todos estes casos est\u00e3o sem solu\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: inherit;\">No Brasil a impunidade tem cor, sexo e territ\u00f3rio. N\u00f3s mulheres negras estamos sendo mortas, assim como nossos filhos. S\u00e3o 23 mil jovens negros assassinados por ano, segundo o Mapa da viol\u00eancia de 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: inherit;\">Luto para n\u00f3s \u00e9 verbo! Por que o grito das mulheres negras que denunciam o sistema de opress\u00f5es, a desigualdade e o racismo n\u00e3o est\u00e1 sendo ouvido? Trago aqui a fala de Elza Soares sobre a morte da Marielle:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: inherit;\">\u201cDas poucas vezes que me falta a voz. Chocada. Horrorizada. Toda morte me mata um pouco. Desta forma, me mata mais, negra, l\u00e9sbica, ativista, defensora dos direitos humanos. Marielle Franco sua voz ecoar\u00e1 em n\u00f3s. Gritemos!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: inherit;\">Hoje, todos sabem que Marielle Franco \u00e9 um corpo coletivo. Os quatro tiros atingiram todas n\u00f3s; todas aquelas que denunciam o racismo estrurtural e a viol\u00eancia policial, a homofobia e a transfobia. Somos todas Dandara, Cl\u00e1udia Ferreira, Maria Eduarda, Marielle. Hoje, ela est\u00e1 na consci\u00eancia coletiva da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Marielle presente!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: inherit;\">Queremos m\u00e1tria, n\u00e3o queremos p\u00e1tria, como cantou Caetano Veloso. At\u00e9 que se realize esta utopia, continuaremos em Marcha contra o Racismo, a Viol\u00eancia e pelo Bem Viver!<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-dark-blue-color has-text-color\">Por Joseanes Santos<\/p>\n\n\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity\"\/>\n\n\n\n\n\n<p><em>Publicado originalmente na revista eletr\u00f4nica Ser Mulher da Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos da Mulher da C\u00e2mara dos Deputados<\/em><\/p>\n\n\n\n\n\n<p><strong>Joseanes Lima dos Santos<\/strong> \u00e9 mestranda em Sustentabilidade junto a Povos e Comunidades Tradicionais\/MESTP\/UNB e p\u00f3s graduanda em Psicoterapia Jungiana \/ Instituto Jungiano de Estudos e Pesquisas. Integra a Frente de Mulheres Negras do DF e Entorno<br><\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa foi a frase que ecoou no Brasil no dia 14 de mar\u00e7o de 2018. 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